Oriental, miúdo, magrinho e
baixinho. Casou-se beirando os cinquenta anos. Quando a filha nasceu sua
felicidade era incontida. Homem totalmente dedicado a família, sofreu um
baque muito forte quando a esposa morreu. A garota contava com 12 anos
na época. A partir daí sua atenção voltou-se completamente para a filha.
Ele a amava-a demais.
Tinham um excelente padrão de
vida, assim além de todo amor e carinho que dava à filha oferecia-lhe
sempre tudo do bom e do melhor. Bastava ela insinuar que queria algo e
lá estava ele para atender seus desejos.
A garota estudou nos melhores
colégios, cursou faculdade de primeira linha e viajou para fazer
intercâmbio. Certo dia conheceu um bom rapaz e quanto disse que iria se
casar ele exultou.
Comprou um belo apartamento e
deu de presente ao casal. Mobiliou-o com requinte. Organizou uma festa
maravilhosa. O espaço lembrava um castelo, contratou um excelente
Buffet, orquestra, filmagem, etc. tudo detalhadamente planejado conforme
os desejos da filha e finalizou surpreendendo-os com uma viagem para à
Tailândia, antigo sonho que ela acalentava.
Alguns anos se passaram e um
dia ela o abraça e diz que tem uma novidade, mas não sabia se ele ia
gostar. Assustado, pensou que a filha iria lhe dizer que estava
planejando sair do país.
Já sentia a dor da separação,
afinal não poderia acompanhá-la por ter negócios no Brasil. Seus olhos
encheram-se de lágrimas, mas ficou em silêncio, aliás, esta era sua
conduta permanente. Era um homem de pouco falar.
Nunca reclamava, nunca se
exaltava, ria discretamente e falava pouco.
Mas naquele dia foi diferente.
Quando ela lhe disse que ele iria ser avô, ele se transformou!
Surpreendentemente, naquelas alturas da vida ele que já tinha a
aparência de um velhinho, os cabelos embranquecidos, a pele enrugada e
andava com uma pequena curvatura nas costas, começou a pular a cantar. A
filha nunca tinha visto-o tão feliz. Ele chorou, mas era um choro de
alegria.
Acompanhou atentamente a
gestação, não via a hora de conhecer a futura netinha. Preparou-se para
morar no mesmo prédio, bem pertinho da família, pois agora queria curtir
a netinha até o fim da vida.
Diminuiu suas atividades
profissionais e quando a netinha nasceu lá estava ele atento. A partir
daí passava meio dia com ela e o outro meio dia trabalhava. A noite
ainda fazia-lhe mais uma visita e ia dormir feliz.
Se ele fora um homem de
atender todos os desejos da filha, imagine da netinha então. Passou a
pesquisar muito tipos de passeios que poderiam fazer juntos, ela e a
netinha; ele, a netinha e o casal. Logo que possível começou a colocar
em prática seus sonhos.
A cada semana havia uma
novidade.
Quando a garotinha estava com
três anos, programaram uma viagem para um
complexo turístico localizado
num lindo vale naturalmente protegido e enfeitado pelo verde exuberante
do local.
O magnífico parque aquático,
de fonte mineral, naturalmente aquecido pelas rochas submersas a mais de
mil metros, encantava pela harmonia e aprimoramento paisagístico. Ali
poderiam desfrutar de
área de convivência, bar
molhado, cascatas, descida de bóia pelo rio de corredeira, escorregador
molhado, guerra d'água com canhão, loja de conveniência, mini zoológico,
parque, pedalinho, piscina de imersão, piscina de ondas, piscina de
sonolência, piscina de surf, piscina semi-olímpica, piscinas de águas
quentes, piscinas de biribol, playground aquático, toboágua, toboágua
espiral,
entre outras atrações.
O hotel acoplado ao parque
oferecia restaurante com um Buffet de alto nível e suítes com
acomodações excelentes incluindo banheira, sauna e outras delicadezas
para agradar a clientela.
A garotinha adorou tudo. Logo
cedinho levantava a acordava o avô que havia alugado um duplex, assim
podia estar junto da netinha. Os dois se arrumavam enquanto o casal
ainda dormia, tomavam café e iam passear até que todos estivessem
prontos para ir ao parque.
Num destes dias quando todos
estavam curtindo as piscinas eis que a netinha vê o toboágua espiral.
Ela se encantou e disse:
-: vamos vovô?
Ele explicou à garotinha que
era perigoso, ela ainda era muito pequena e poderia cair, mas a
garotinha insistiu, insistiu e acabou convencendo o avô.
Vagarosamente ele de mãos
dadas com a netinha subiu a longa escadaria que os levaria ao topo.
Quando chegou a vez dos dois, ele olhou para baixo e ficou assustado.
Olhou para ela e disse:
-: meu amor isto é perigoso
para nós dois, se o vovô cair não vai conseguir te segurar. Vamos
voltar?
Ela prontamente responde:
-: não vovô, se você cair eu
te seguro..
Ele percebeu que não
conseguiria convencê-la a desistir. Por outro lado os pais estavam lá
embaixo observando tudo, portanto se ele não conseguisse segura-la
adequadamente eles rapidamente o fariam.
Ele acomodou-a na sua frente e
quando colocou o pé para sentar-se escorregou e desceu com tudo. Virou
cambalhota por cima da garotinha e foi descendo e girando como estrela.
Não conseguia dominar seu corpo. Ao cair na piscina d’água estava tão
desnorteado que não conseguia levantar e viu-se em apuros.
Logo a filha e o genro
correram e o tiraram da água. A filha o abraçou e então perguntou-:
-: tudo bem com você papai?
Tossindo muito, ele
rapidamente, respondeu:
-: entrou água pela minha
boca, pelo meu nariz, pelo meu ouvido, pelo meu pinto, pelo meu cú, mas
estou bem!
Enquanto isto a netinha fez a
trajetória do brinquedo tranquilamente, ao chegar embaixo mergulhou e
levantou com muita facilidade.
Ainda batendo palmas de
alegria e demonstrando uma felicidade intensa pelo largo sorriso que
trazia em seu lindo rostinho, abraçou o avô por trás e disse-lhe:
-: de novo vovô!!!
*
Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e
Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante,
professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade,
voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email:
cidamell@uol.com.br