O passagem do ano novo seria
comemorado na casa dos avós. O imóvel dispunha de um belo salão de
festas e excelente varanda para se apreciar a queima de fogos. Logo cedo
o casal de idosos foi buscar a netinha de dois aninhos para que ela
desfrutasse dos preparativos.
Enquanto preparavam a ceia,
ela ia brincando com uma pequena porção de massa dos bolinhos que seriam
assados, algumas uvinhas que seriam mergulhadas no chocolate e flores
que enfeitariam a mesa do jantar..
A garotinha almoçou. Dormiu. A
tarde assistiu mais uma vez o DVD dos saltimbancos, peça que já havia
visto no teatro e continuou a brincar.
A noitinha tomou banho e a
vovó começou a vesti-la. Disse-lhe que todos estariam de branco,
inclusive elas naquela noite. Ela quis saber por quê? A vovó então lhe
contou que o branco representava a paz, o amor, sucesso e saúde para
todos.
Os convidados começaram a
chegar, era sempre uma troca de abraços, beijos e pratos variados que
chegavam para rechear a mesa.
Logicamente a netinha era a
sensação maior da festa. Menina meiga, gentil, sorridente e como falava
sem parar a todos conquistava.
Só faltavam os pais dela
chegarem para que começassem a servir o jantar.
Por volta de 22 horas o carro
encostou. Ela distraída não percebeu e continuou a brincar.
A mãe havia comprado um
vestido caríssimo numa loja de marca. O preço foi pago, certamente, pela
etiqueta renomada e não pelo próprio vestido, mas ela sentiu-se
maravilhosa dentro da roupa. Qualquer outro vestido não teria lhe dado o
prazer de vestir-se para festa como aquele pedaço de pano caríssimo.
O modelito era branco, tipo
balonê curto, lembrava um abajur, estreito em cima e largo e armado em
baixo. Tinha alguns detalhes na parte de baixo que lembrava pequenas
plumas.
Quando o casal entrou na sala,
a garotinha ergueu a cabeça e ao ver a mãe correu para abraçá-la e
gritou na frente de todos:
-: mamãe você agora é a
galinha dos saltimbancos!?!
A cena lembrou a história do
garotinho que gritou que o rei estava nu. Foi uma gargalhada geral. A
mãe constrangida abraçou a garotinha e não falou nada.
Dias depois o vestido
caríssimo foi parar num bazar beneficente por menos de um décimo de seu
valor real. Porém, ninguém sabe até hoje se alguém teve coragem de
comprar a fantasia da galinha!
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
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cidamell@uol.com.br