Jovem, descendente de
húngaros, pele igual a da branca de neve, maçã do rosto rosada, cabelos
lisos e pretos e olhos ora verdes da cor do mar, ora azuis da cor do céu
ao entardecer.
Trabalhava como assistente de
modelista numa loja que tinha confecção própria. O profissional que ela
assistia tornou-se seu amigo. Enquanto ele desenhava, ela produzia a
peça piloto. Nas horas vagas, às vezes, ele desenhava como cortesia
alguns modelitos para ela.
Ela, esperta, fez amizade com
os vendedores das Casas Pernambucanas, na Rua Direita, Centro da Cidade
de São Paulo. Assim toda vez que um retalho de tecido fino como crepe,
musselina, seda pura, cetim, sarja, tafetá, renda, brocado, cambraia ou
algodão, ia para a banca de retalhos a preço promocional, eles guardavam
para ela, que selecionava os de seu interesse e no final do mês, quando
recebia o salário fazia a “festa” na loja.
Com estes privilégios, andava
sempre muito bem vestida. Modelagem gratuita, tecidos nobres baratos e
mão de obra própria garantiam a elegância diária. Tinha um guarda roupa
de fazer inveja às colegas de trabalho.
Certa feita o patrão a chamou
e lhe propôs:
-: monte uma oficina em sua
casa, coloco as máquinas, garanto o serviço, você contrata, administra a
equipe e faz toda minha coleção da loja. Era a terceirização surgindo
nos anos 50 quando o termo ainda era desconhecido.
Ela, hoje se diz ingênua para
a época em que isto aconteceu. Não teve visão de futuro e, portanto não
aceitou a proposta. O motivo? Ah.. Ela diz:
-: pura bobagem de jovem
inexperiente. Eu adorava sair todos os dias para trabalhar fora e ir bem
arrumada, se colocasse a oficina em casa eu achava que ia trabalhar
noite e dia, inclusive em fins de semana e nunca mais iria me arrumar,
pois estava em casa mesmo.
Como o plano do patrão não deu
certo, algum tempo depois ela acabou saindo da empresa e foi trabalhar
num escritório de contabilidade. Como estava sempre muito bem arrumada
fugindo do padrão geral ganhou o apelido de GRINGA ELEGANTE.
Já contava com 28 anos e
estava sem namorado. Um dia ao levar um documento de um setor para
outro, cruzou uma sala onde um jovem trabalhava e ao passar por ele,
ouviu:
-: ah se eu tivesse 10 anos a
mais!
Ela escutou o comentário, mas
seguiu o caminho sem olhar para traz.
O que passou a chamar sua
atenção foi que a partir daquele dia todas as vezes que ele a via ou que
ela cruzava seu caminho ele fazia o mesmo comentário.
-: ah se eu tivesse 10 anos a
mais!
Até que um dia ela, ao passar
e ouvir o comentário voltou-se, olhou para ele e disse:
-: ah se eu tivesse 10 anos a
menos.. e seguiu seu caminho.
Naquele dia ao chegar ao ponto
do ônibus, eis que ela se surpreende ao vê-lo na fila. Ela olhou
surpresa para ele e comentou:
-: nossa você pega o mesmo
ônibus que eu e nunca te vi por aqui?
Ele sorrindo disse:
-: eu estava aqui te
aguardando pensando em te convidar para tomar um sorvete. Você aceita?
Ela aceitou! Conversaram,
riram e cada um seguiu seu caminho..
No outro dia lá estava ele a
espera dela novamente. Neste dia convidou-a para ir ao cinema.
Um mês depois estavam
namorando.
Quando ele a pediu em
casamento, o pai dela concordou, mas a família não acreditava que o
casamento daria certo.
Quando eles se casaram, ela
estava com 32 anos e ele com 22 anos.. Alguns anos depois veio o filho
único do casal, que foi muito desejado e é muito amado até hoje.
Depois de 44 anos de casados,
eles ainda comemoram a ousadia para a época dizendo:
-: afinal o que é 10 anos de
diferença para quem quer ser feliz!!!
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br