Resumo
O
objetivo deste estudo, do tipo quantitativo descritivo diagnóstico, foi analisar
a aptidão física dos pacientes idosos com insuficiência renal crônica (IRC) que
faziam Hemodiálise (HD) na clínica renal do hospital Santa Lúcia de Cruz Alta –
RS. Participaram do mesmo 12 pacientes com IRC, com idades entre 55 e 73 anos,
com 32,9 meses de média de tempo de HD, sendo 10 pacientes do gênero masculino e
2 do feminino. Os instrumentos utilizados nesta pesquisa foram: os testes de
sentar e levantar em 1 minuto e em 30 segundos, para determinar a resistência
muscular de membros inferiores; teste de abdominal Eurofit, para a determinação
da resistência muscular localizada de abdômen; teste de sentar e alcançar, para
determinar a flexibilidade; e teste de caminhada de seis minutos (T6), para
determinação da resistência aeróbia. Os dados foram tratados através da
estatística descritiva (média, desvio padrão, valor máximo e valor mínimo). Os
pacientes idosos com IRC apresentaram uma baixa aptidão física quando comparados
a zona ideal para boa saúde. Desta forma foi possível concluir que é necessária
a prescrição de exercícios que incluam força/RML, flexibilidade e resistência
aeróbia para que os mesmos aumentem estas variáveis.
Palavras chaves:
Insuficiência renal crônica, hemodiálise, Aptidão Física, Idosos.
Introdução
A
velhice traz consigo a redução da aptidão física, da capacidade funcional, da
massa óssea e muscular, da elasticidade, o aumento de peso, a maior lentidão nos
movimentos e doenças crônicas (SALVADOR, KALININE, 2007). Dentre essas doenças
está a Insuficiência Renal Crônica (IRC).
A IRC
resulta da perda progressiva e irreversível, da função renal perdendo um número
cada vez maior de néfrons. Em indivíduos normais o número total de néfrons é de
aproximadamente 2.000.000, já em portadores de IRC esse valor pode se reduzir em
até 75%, tendo como conseqüência uma diminuição gradual da função renal global (GUYTON;
HALL, 2002).
A IRC
trás como principal característica, de acordo com Moreira et al (1997), a
atrofia do músculo, com conseqüente redução na força muscular e fraqueza
generalizada o que leva a uma diminuição da tolerância a exercícios físicos.
Painter e Hanson (1987) citam que a diminuição da tolerância aos exercícios
físicos, dos pacientes em hemodiálise (HD), pode ser, também, em decorrência de
uma interação alterada nos mecanismos de transporte e de extração de oxigênio (O2),
já que o transporte de O2 para o músculo, em exercício, é determinado
pela freqüência cardíaca, pelo volume sistólico e conteúdo arterial de oxigênio.
Na IRC ocorre uma redução no débito cardíaco, um bloqueio da freqüência cardíaca
máxima e uma diminuição do conteúdo arterial de O2. Além destas
complicações, Painter (1994), acrescenta a insuficiência cardíaca congestiva e
as pneumonias urêmicas. Estas complicações fisiológicas são os principais
fatores determinantes da inatividade física que, segundo o mesmo autor citado
anteriormente, é unanimidade entre estes pacientes, o que gera um
descondicionamento limitando-o cada vez mais, e dificultando ainda mais a sua
recuperação.
Devido a todas estas conseqüências o paciente com IRC terá uma diminuição da
aptidão física, além da que teria somente por ser sedentário, comprometendo mais
ainda a saúde do mesmo (MEDEIROS et al, 2002), acrescentando-se a isso o fato de
este sujeito também ser idoso o que acarreta ainda mais a diminuição da aptidão
física da população deste estudo.
A
aptidão física é parte integrante da aptidão total, estando estreitamente
relacionada com a capacidade do paciente com IRC realizar suas atividades de
vida diária, resultando assim em uma melhora da qualidade de vida do mesmo (LIANZA,
1995).
Casaburi (2004) ressalta que mesmo realizando a HD o paciente com IRC
freqüentemente apresenta um baixo nível de aptidão física. Desta forma
justifica-se este estudo que teve como objetivo analisar a aptidão física dos
pacientes idosos com IRC da clinica renal do hospital Santa Lúcia de Cruz Alta –
RS. Estes dados servirão de subsídios para implementação de um programa de
atividades físicas voltadas a reabilitação da referida população
Metodologia
Participaram deste estudo de caráter descritivo diagnóstico 12
portadores de IRC, que realizavam HD na Clínica Renal do Hospital Santa Lúcia da
cidade de Cruz Alta – RS, sendo 10 do gênero masculino e 2 do feminino, com
idades entre 55 e 73 anos, com média de 32,9 meses de tratamento hemodialítico.
Após o
convite do médico responsável pela Clinica Renal do Hospital Santa Lúcia para
participar do projeto transdisciplinar de reabilitação dos pacientes com IRC da
referida clínica, entrou-se em contato com os mesmos para explicar-lhes os
procedimentos para realização dos testes. Todos os voluntários em participar do
estudo assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.
Esta
pesquisa foi conduzida segundo a resolução
específica do Conselho Nacional de Saúde (196/96), sendo aprovado no Comitê de
Ética da UNICRUZ com o registro CEP/UNICRUZ 001/07.
Os
testes foram realizados na clinica citada anteriormente, com a utilização dos
seguintes instrumentos e procedimentos:
Para determinação da resistência muscular de membros inferiores
utilizou-se, o teste de sentar e levantar em 1 minuto e em 30 segundos, que foi
realizado com auxilio de uma cadeira, onde os sujeitos com os braços esticados à
frente, realizaram o movimento de senta e levanta, interrompendo quando houve
fadiga.
Utilizou-se o teste de força abdominal do Eurofit para adultos (1995)
para a determinação da resistência muscular de abdômen, neste teste a pessoa
avaliada deitou-se de costas com as pernas flexionadas a 90º e os pés apoiados
pelo examinador, no primeiro nível, os braços da pessoa encontram-se estendidos
e as palmas das mãos estão sobre os músculos das coxas, então se executa cinco
repetições, no segundo nível os braços são cruzados junto ao peito de forma que
as mãos toquem os ombros contrários, e também se realiza 5 repetições, no ultimo
nível coloca-se as pontas dos dedos das mãos atrás das orelhas, e realiza-se 5
repetições.
O teste
de sentar e alcançar proposto Wells e Dillon (1952) apud Carnaval (2002),
com a utilização do Banco de Wells e Dillon da marca cardiomed com precisão de 1
cm foi utilizado para determinação da flexibilidade.
O teste
de caminhada de seis minutos (T6), utilizado para determinação da resistência
aeróbica (SULLIVAN; HAWTHORNE, 1995; OPASICH; PINNA; MAZZA, 2001), foi realizado
no corredor do Hospital Santa Lucia, que foi demarcado metro a metro. À
distância percorrida foi calculada a partir do número de voltas realizadas no
tempo estipulado, no corredor demarcado para tal (ida e volta no corredor que
media 64 metros). O paciente percorreu está distância, impondo o seu próprio
ritmo de passada.
Os
dados quantitativos foram analisados com a utilização da estatística descritiva
através do uso do programa Microsoft Excel, sendo descritas em função de sua
média, desvio padrão, valor máximo e mínimo.
Resultados e discussões
Na Tab1 encontram-se os resultados nas variáveis flexibilidade,
resistência muscular localizada de abdômen e de membros inferiores, e
resistência aeróbia dos pacientes idosos com IRC da Clinica Renal do Hospital
Santa Lúcia de Cruz Alta/RS.
TABELA
1- Média(x), Desvio Padrão(s), valor máximo e valor mínimo.
|
Variáveis |
X
±
s |
Valor mínimo |
Valor máximo |
|
Flexibilidade |
10,05
±
8,76 |
0 |
30 |
|
RML Abdominal |
3,50
±
3,95 |
0 |
10 |
|
RML MM II |
13,70
±
7,70 |
4 |
31 |
|
Resistência Aeróbia |
326,90
±
181,89 |
48 |
581 |
Analisando os valores apresentados na
tabela 1 e comparando com valores de referência, para idosos, notaram-se, em
todas as variáveis, valores bem abaixo do indicado para zona de boa saúde.
A flexibilidade é a característica física que determina a amplitude dos
movimentos das articulações do corpo. Segundo Nahas (2003), pessoas com boa
flexibilidade movem-se com maior facilidade e tendem a sofrer menos problemas de
dores e lesões musculares e articulares, particularmente na região lombar,
inversamente do que ocorre aos indivíduos com pouca flexibilidade. Desta forma
torna-se de fundamental importância que os pacientes idosos com IRC realizem
exercícios de flexibilidade, pois os menos apresentaram uma classificação muito
pequena, de acordo com a tabela proposta por Pollock, Wilmore e Fox (1978), fato
este explicado por Achour Jr. (2004) que afirma que isto se deve a alterações
fisiológicas decorrentes do envelhecimento, como a diminuição de elasticidade
das estruturas do tecido conjuntivo, ou seja, pessoas com mais idade tem sua
flexibilidade diminuida
Segundo Nahas, (2003), uma boa condição muscular proporciona a
realização das atividades de vida diária com mais eficiência, menos fadiga e
diminuí o risco de lesões, ajuda na manutenção da postura, proteção das
articulações, evitando as dores nas costas (lombalgias) e ajuda a prevenir
quedas a partir da meia idade. Considerando que os pacientes idosos com IRC
apresentaram uma classificação baixa na RML de abdomem (EUROFIT, 1995) e regular
na RML de membros inferiores (POLLOCK; WILMORE; FOX 1978) sugere-se a realização
de atividades que favoreçam o desenvolvimento destas variáveis.
Em qualquer trabalho físico ou em qualquer tipo de atividade, é extremamente
importante o desenvolvimento da RML, já que os músculos têm papel fundamental na
sustentação do nosso corpo e manutenção deste em atividades diárias, como
colocado por Matos e Neira (2000).
Pickles et al. (2002) ressalta que é fundamental que se desenvolva a RML,
especialmente em pessoas de idade mais avançada, que é o caso dos participantes
deste estudo que apresentaram uma classificação muito ruim da RML, o que vem a
concordar com a literatura, pois estas pessoas tendem a diminuir
substancialmente a massa muscular e, conseqüentemente, a RML em decorrência da
idade.
A
resistência aeróbia dos sujeitos estudados foi determinada através do teste de
caminhada de 6 minutos. Este teste vem sendo utilizado como uma alternativa para
avaliar a capacidade física em pacientes com IRC. O mesmo mede a distância
máxima que um indivíduo pode andar por conta própria durante 6min. É o avaliado
que escolhe a velocidade em que anda.
Analisando a média dos valores obtidos, no presente estudo, e comparando com os
níveis proposto por Oliveira Jr; Guimarães e Barretto (1996) notou-se que os
mesmo encontram-se no nível 2. Este resultado foi considerado ruim, vindo de
encontro com a literatura pois além deles serem idosos segundo Medeiros e Meyer,
(2001) estes pacientes apresentam um baixo desempenho em exercícios físicos de
resistência devido à capacidade reduzida de transporte do oxigênio, a anemia e a
capacidade prejudicada de consumir oxigênio devido a fraqueza e as mudanças
estruturais e funcionais, características desta doença.
Conclusão
Após a analise dos dados foi possível concluir que os pacientes idosos
com IRC, que faziam HD na Clinica Renal do Hospital Santa Lúcia tem uma baixa
aptidão física.
Desta
forma este estudo, de diagnostico da aptidão física desta população, é um ponto
de partida para a construção de novas ações. Estes resultados podem direcionar a
prescrição e orientação de exercícios para a melhora destas variáveis, que com
certeza contribuirão para a reabilitação destes sujeitos.
Referências
ACHOUR JR., Abdallah. Flexibilidade e Alongamento: saúde e bem estar. Barueri:
Manole, 2004.
CARNAVAL, P. E. Medidas e Avaliação: em Ciências do Esporte. Rio de
Janeiro. Sprint. 2002.
CASABURI, R. Treinamento de Exercício Reabilitativo em Pacientes submetidos a
diálise. In: KOPPLE; MASSRY. Cuidados Nutricionais Das Doenças Renais. 2.
ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. Capítulo 34, p. 547-562
GUYTON,
A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 10. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara, 2002.
LIANZA,
S. Medicina de reabilitação. 2. ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
1995.
MEDEIROS, R. H. et al. Aptidão física de indivíduo com doença renal crônica.
Jornal Brasileiro de Nefrologia. v. 24, n. 2, p. 81-7, 2002.
MINISTÉRIO DE EDUCACIÓN Y CULTURA. Eurofit para adultos- evaluación de la
aptitud física en relación con la salud.
Tampere,
Finlandia. 1995.
MOREIRA, P. R.; et al.Avaliação da Capacidade Aeróbica de Pacientes
em
Hemodiálise. Revista Brasileira
de Medicina do Esporte.
v. 3, p. 1-5, 1997.
NAHAS,
M. V. Atividade física, saúde e qualidade de vida. Londrina: Midiograf.
2003.
OLIVEIRA JR, M. T.; GUIMARÃES, G. V. BARRETTO, A.C.M. Teste de 6 Minutos
em
Insuficiência Cardíaca.
São
Paulo: Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 1996.
PAINTER, P.L.; HANSON, P.A. Model for clinical exercise prescription:
application to hemodialysis patients. Journal of Cardiopulmonary
Rehabilitation, [S.I.], n.7, p.177-182, dez. 1987.
PAINTER, P. L. The importance of Exercise Training in Rahabilitation of
Patientes witc End-Stage Rena Disease. Journal Kidney Dis. v. 24, n. 1,
p. 2-9, 1994.
POLLOCK, M.L; WILMORE, J.M.; FOX, S.M. Health and fitness through physical
activity. John Wiley e Sons. New York: 1978.
WELLS, K. F.; DILLON, E. K. The sit and reach a test os back leg flexibility.
Research quarterly. V 23 n. 1, 1952.
|