Ao participar de um evento científico sobre velhice, tive
que atravessar a cidade por três dias.
Tinha duas possibilidades – ir de carro e enfrentar duas
horas de trânsito congestionado no período da manhã e mais duas horas à
tardinha ou usar o meio de transporte coletivo disponível na cidade de
São Paulo, que reduziria o tempo de viagem em uma hora a cada período,
vantagem esta garantida pelo metrô. Obviamente teria que abrir mão do
conforto de estar sentada com ar condicionado e suportar o aperto
costumeiro devido ao grande número de pessoas no horário do rush.
Fiquei com a segunda opção, embora soubesse dos
contratempos teria a meu favor, duas horas preciosas para curtir a
família.
Logo no primeiro dia de – ônibus – metrô – ônibus – pude
perceber que no trajeto havia muita coisa a ser vista que ao dirigir um
carro não temos oportunidade de observar. Foram momentos prazerosos
apesar do empurra – empurra dentro do metrô, tanto na hora de embarcar
como na hora de desembarcar e do para-continua do ônibus a cada ponto ou
semáforo, além do trânsito congestionado no trajeto até as estações do
metrô.
No congresso eu estava atenta a tudo que se falava sobre
velhice.. Longevidade, tipos de envelhecimento, preconceitos, saúde,
sexo, morte, qualidade de vida, relacionamentos familiares e sociais,
etc.. Foi uma oportunidade também para rever amigos, professores e
alunos.
No terceiro dia ao pegar a 1ª condução, percebi algo
inusitado, o ônibus estava vazio, ou melhor, eu era a única pessoa que
estava em pé. Logo depois um casal deu o sinal e desceu, vagando um
banco com dois lugares. Era aquele banco instalado sobre as rodas do
veículo, do lado esquerdo, atrás do motorista, permitindo a quem se
sentasse à janela apreciar o outro lado da rua do alto, já que para se
sentar neste banco tem um degrau devido a altura em que está situado.
O trânsito estava mais lento que o normal. Fiquei feliz
pelo lugar vago e sentei. Olhando para fora me distraí observando a
avenida que deu origem ao bairro, de um lado está o cemitério, do outro
os imóveis velhos da região decadente, alguns estão tão surrados que o
reboco já não existe, ou existe parcialmente, o beiral de alguns está
solto colocando em risco a vida de transeuntes, madeiramento apodrecido,
telhados comprometidos.
Muitos imóveis parecem abandonados, imaginei que
envolvessem disputas de herança entre famílias que preferem ver as
coisas se perderem a entrarem em acordo e ou dividirem o bem comum. As
casas não têm garagem e os armazéns não têm estacionamento, diante disto
o valor tende a se depreciar ou dificultar as negociações, além do
inconveniente cemitério que ali está para tudo testemunhar.
Fui despertada destas reflexões por um aroma cada vez
mais forte se aproximando, voltei meu olhar para dentro do ônibus e vi
uma senhorinha que caminhava na minha direção, ou melhor, na direção do
banco que restava vazio. Senhorinha porque era miudinha. Sentou-se ao
meu lado e o perfume quase me sufocou. Lembrava um perfume que conheci
na adolescência que se chamava Hora Íntima da perfumaria francesa
Vigny
e que me enjoava, talvez porque ganhei um vidro de um pretendente que
não me interessava.
Descobri que o perfume antes importado e contrabandeado,
agora é fabricado no Brasil, ou pelo menos uma fragrância semelhante com
o mesmo nome. Pude observar que a senhorinha estava bem arrumada,
maquiada e olhava impacientemente para o relógio.
Depois de alguns pontos rodados vagarosamente pelo
ônibus, ela deu o sinal e desceu, imaginei que achava melhor caminhar
para chegar ao destino mais rápido.
De onde eu estava pude acompanhá-la com os olhos, naquela
minha distração observadora.
Atravessou a rua com cuidado. Seu vestido era branco
estampado com flores lilases, sua bolsa também era branca e o sapato de
salto. Naquele momento senti inveja, pois uso sapato baixo por
recomendação médica. O cabelo grisalho tinha delicadas ondas, uma
tintura lilás que insistia em ornar com o vestido e bastante laquê ou
fixador para os mais modernos. O batom se destacava, era rosa
cintilante.
Ela ultrapassou o ônibus com seus passinhos curtos,
apressados e seguros. De repente vejo que seu rosto ora sisudo começa a
se desanuviar. Pensei:
-: por
quê? E segui seu olhar...
Aproximava-se dela, no sentido contrário, um senhor,
também idoso, simpático, sorridente. Um pouco mais alto que ela, pequena
barriguinha saliente, talvez pela cerveja nossa de cada dia. Os poucos
cabelos davam indícios que era louro, ou também tingido, como os dela. A
pele era muito clara, quase vermelha talvez devido ao sol. Vestia calça
bege e camisa azul mais ou menos escura de manga curta. Imaginei que
seus olhos pudessem ser azuis para combinar com a cor da camisa.
Pareciam ter a mesma idade, ou bem próxima um do outro.
Quando seus olhares se encontraram sorriram demonstrando
alegria, os corpos se aproximaram e se abraçaram. Ele beijou o rosto
dela e ela como uma adolescente encolheu-se toda, ele aproveitou e
beijou também o cangote e enlaçou-a pela cintura puxando-a para
caminhar...
O casal seguiu em frente, o ônibus ia atrás. Alguns
metros à frente eles pararam e olharam para cima como se estivessem
confirmando o endereço. Eu olhei junto e maliciosa quase ri alto. O
letreiro já desgastado pelo tempo identificava - HOTEL.
Ela ajeitou a roupa e arrumou o cabelo, ele enfiou a mão
no bolso conferiu o dinheiro, arrumou a calça e tocou a campainha.
Vi que era um prédio antigo, como os demais, todavia
havia recebido uma embalagem nova, fora revestido de pastilhas cor de
rosa forte. A janela do quarto da frente do prédio de dois andares
estava aberta e do ângulo que o ônibus parou pude ver que era um
ambiente sombrio, escuro, e, imaginei que cheirava a mofo.
Naquele momento, meu pensamento entrou na espelunca antes
deles. Imaginei a escada de madeira revestida de carpete já puído, a
porta comprometida por cupins, o guarda roupa de madeira bem escura, a
cortina de juta gasta e a cama de casal com lençóis baratos,
travesseiros manchados, colcha de chitão vermelho com babados até o chão
e um cobertor cinza com uma listra vermelha na beirada, caso esfriasse..
Minha imaginação não parou. E me perguntei:
-:
porque estarão se encontrando num hotel de baixa categoria? É claro que
tem o fator financeiro, mas será que não têm casa? Será que moram com os
filhos? Será que a família não aprova? Será fetiche?
Quando a porta do hotel abriu, ele ofereceu passagem para
que ela entrasse na sua frente, deu uma olhada geral pela rua com um
sorriso nos lábios como se estivesse a conferir algo, ou a dizer:
-: aqui
vou eu!
Arrumou a calça de novo, entrou e a porta se fechou atrás
dele.
Imaginei que ao subir as escadas puídas, ele talvez
tocasse as nádegas dela, como preliminares, e ela por sua vez
corresponderia dando tapinha leve naquelas mãos buliçosas. Ele abriria a
porta com cupins e ela baixaria os olhos para entrar. Quando ele
começasse a abraçá-la...
Neste momento ouço o cobrador falar:
-: oh
Dona, chegamos aqui é o ponto final! Tem que descer...
Constrangida, sorri, agradeci e desci.
Minha imaginação queria seguir em frente, mas me dei
conta que já estava imaginando demais, o dia seria longo e o relógio
ainda marcava 9 horas da manhã!