“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas, por incrível que pareça, a
quase totalidade não sente esta sede”. A frase de Carlos Drummond de
Andrade abre espaço para questionarmos a possibilidade de diminuirmos a
distância entre livros e leitores, em especial os da terceira idade. De acordo
com o Censo 2010, a população de idosos é a que mais cresce no Brasil, sendo que
o levantamento aponta que há 23.760 pessoas com mais de 100 anos; 11% da
população do país tem mais de 60 anos. Esses dados mostram um mercado com alto
potencial de vendas, já que os idosos representam 20 milhões de consumidores de
produtos e serviços. Em contrapartida, a pesquisa Retratos da Leitura no
Brasil, coordenada pelo Instituto Pró-Livro, aponta que 11% dos brasileiros
com mais de 60 anos são não leitores; em suma, não leram um livro nos três meses
anteriores ao estudo. O mesmo estudo aponta que 54% dos entrevistados afirmam
que a falta de tempo é o principal motivo para não ler. Na soma das demais
respostas, 33% referem-se à falta de acesso real ao livro e 53% ao puro
desinteresse pela leitura. Onde erramos? Qual é o real motivo para o
distanciamento entre idosos e livros?Para enxergar
melhor o impasse, cabem algumas considerações básicas sobre a presença do livro
na vida dos brasileiros com mais de 60 anos. Em tese, a terceira idade teria
mais tempo para se dedicar à leitura; deveria, também, assumir o papel de
incentivar a formação de novos leitores, especialmente os netos. Entre os idosos
mais abastados esse cenário é real, porque a leitura sempre foi sinônimo de
lazer e contínua busca do conhecimento; mais recentemente, na velhice, a prática
se tornou instrumento para exercitar e manter a saúde mental. Além de contar com
recursos financeiros para adquirir livros e de ter mais tempo para a leitura,
esses cidadãos sempre leram, portanto, o livro sempre esteve presente ao longo
da vida. Em uma realidade social menos próspera, os idosos continuam sem tempo e
sem interesse de inserir o livro no cotidiano. Para se ter uma ideia, na
pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 86% dos entrevistados não
leitores nunca foram presenteados com livros na infância; 55% nunca viram os
pais lendo. Ou seja, o comportamento é replicado de geração para geração em um
fluxo incessante de repetições.
Embora essa constatação revele a importância de formar novos
leitores na infância – um público leitor para perpetuar o hábito em todas as
fases da vida – devemos investir para conquistar os “novos leitores” da terceira
idade. Para isso, além de tornar o livro mais acessível (falo de preço mais
baixo e novos espaços/bibliotecas nas periferias de todo o país), devemos estar
mais atentos ao conteúdo. Não raro, as personagens das obras de ficção são
jovens; em outro extremo, são personagens que vivem uma velhice caricata, longe
da realidade. Será que não é o momento de a terceira idade se ver retratada de
forma correta na literatura?
Instigada por esse questionamento e pelo desafio de encontrar
novos autores da terceira idade – escritores que falassem sobre temas de
interesse do leitor maior de 60 anos e com personagens mais próximos desse
universo –, a equipe da Primavera Editorial publicou obras de Gilberto Abrão (Mohamed,
o latoeiro) e do jornalista Luiz Salgado, autor do livro Andanças:
histórias de um jornalista à moda antiga. Em comum, os escritores têm a
idade e o ineditismo. Luiz, um jornalista forjado no calor das redações de
jornais como O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, traça um retrato do
jornalismo e dos profissionais que atuavam nas décadas de 1970, 1980 e 1990.
Gilberto, por sua vez, construiu um belo romance – lançando mão da própria
vivência e de relatos que ouviu do pai e de patrícios – no qual aborda a
trajetória dos imigrantes árabes que ajudaram a construir o Brasil, enriquecendo
nossa cultura, o “caldeirão étnico” brasileiro. Leitores a vida inteira,
Gilberto Abrão e Luiz Salgado se tornaram escritores na maturidade e são
exemplos de que a leitura sempre nos surpreende – seja na infância, na
adolescência, na meia idade, ou na terceira idade.
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