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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 21 de maio de 2008 23:46:29                                               

 
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TERCEIRA IDADE

Mãe, você está ficando VELHA!

   

Aparecida Luzia de Mello e Dr. Miguél León Gonzalez

publicado em 21/05/2008

 

  

“É normal, uma vez que em nós é o outro que é o velho, que a revelação de nossa idade venha dos outros. Não consentimos nisso de boa vontade. Uma pessoa sempre fica sobressaltada quando a chamam de velha pela primeira vez”. (Beauvoir, 1990, p.353)

Foi numa noite de natal. A frase soou como uma bomba. A rispidez como um punhal. Talvez se tivesse partido de um estranho, inimigo, de um conhecido, ou talvez um amigo que quisesse magoá-la, mas...

Quando uma pessoa se torna velha? Aos 55, 60, 70 ou 75 anos? Nada flutua mais do que os limites da velhice em termos de complexidade fisiológica, psicológica e social. Uma pessoa é tão velha quanto as suas artérias, quanto seu cérebro, quanto seu coração, quanto seu moral ou quanto sua situação civil? Ou é a maneira pela qual outras pessoas passam a encarar as características que classificam as pessoas como velhas?” (Veras, 2003, p.10)

Ela ficou muda, seu olhar silencioso procurou o olhar daquela boca. Encontrou um olhar frio talvez de desprezo. Talvez Indiferença. Como se quisesse dizer, seu tempo passou, as coisas não são mais assim. O pouco caso estava feito. O desdém não seria esquecido.

Qual é a expectativa dos idosos em relação a sua participação na vida de filhos e netos;.... onde se localizam as relações de amizade e qual a verdadeira dimensão dos laços afetivos familiares; como valorizar o papel do idoso na família e na sociedade e como manter vínculos afetivos apesar das diferenças intergeracionais.” (Goldfarb e  Lopes, 2006, p.1374)

Quase ninguém percebeu na hora. A festa aconteceu, todos se abraçaram a meia noite. Mas ela nunca mais foi a mesma pessoa.

Ora, a vivência primeira da velhice se dá no corpo. O corpo por si não revela como atributo a velhice, mas uma vez que ela como estigma se instala no corpo, ela passa a inquietar o idoso.” (Mercadante, 2005, p.32)

Desde aquele dia quando seus olhares se encontram ela sente o gelo daquela noite. Era uma noite de natal, mas se transformou numa noite de agonia.

“Na violência contra idosos ainda estamos na fase de chamar a atenção da sociedade sobre os abusos, negligências e maus-tratos que são praticados contra este grupo etário. Apesar de ser real ela ainda é invisível na vida social, porque é, sobretudo, doméstica e por isso muito difícil de romper o silêncio das famílias e dos próprios idosos que, em defesa do agressor (geralmente um membro da própria família) se calam, omitem e até mesmo justificam a agressão sofrida, ao dizerem ‘ estou velho mesmo’.” (Côrte, Mercadante, Arcuri, 2005, p.22)

Aquele fato continuou produzindo efeitos. A partir daquele dia cada decisão, cada compromisso assumido, cada sonho sonhado, passou a ser analisado com mais cuidado.

Através do tempo, mudam os costumes, as formas de produção e os valores que determinam o nível de satisfação do ser humano. A família se constrói, cresce, se desenvolve, se modifica e pode se destruir através do tempo.” (Goldfarb e  Lopes, 2006, p.1376)

Seu pensamento está sempre a perguntar, quantos mais estarão pensando que seu tempo passou. Quantos estarão lendo em seu rosto que seu tempo acabou e ela não quer perceber ou aceitar. Quantos sonhos, ainda, terá direito de sonhar...

“...bem gostaria, ao menos, de arranjar-me para não ir mais longe, para não avançar nesse caminho das deficiências, das dores, das perdas de memória, das desfigurações que estão prestes a ultrajar-me e ouço uma voz que diz: ‘é preciso caminhar contra a própria vontade, ou então, se não quiserdes, é preciso morrer’.” (Beauvoir, 1990, p.353).  

Começou a refletir no dia a dia das pessoas e percebeu que todos estão em permanente envelhecimento, desde o dia em que nasceram. Viver é um eterno envelhecer.

“Estamos desde a concepção, envelhecendo e vivendo, vivendo e envelhecendo, nunca sendo os mesmos, porque envelhecer é um processo contínuo de transformação do ser humano como único em seu tempo vivido.” (Monteiro, 2005, p.15) 

“O ‘life style’ é peça fundamental nesta teoria. A opção passa a ser do cidadão, desde que ele leve em consideração a epidemiologia baseada na evidência, que lista os fatores de riscos que podem ampliar ou diminuir o tempo de vida. Quem opta por beber menos, não fumar, praticar exercícios físicos, controlar o estresse e adotar uma dieta adequada e balanceada, sem excesso de sal, açúcar e gordura, tem todas as condições necessárias para viver até o limite biológico da vida.” (Veras, 2003, p.9)

A primeira parte do envelhecimento contribui para desabrochar a juventude, mas como tudo, a juventude não é eterna e ao chegar a 3ª década da vida começa a decadência do ser humano.

“’O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras; e finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro.’” (Freud, 1929, p.85, apud, Goldfarb e  Lopes, 2006, p.1375)

É chegada a hora da maturidade. Muitos filhos nesta fase da vida já estão estabilizados. Tem um cargo de comando, sua casa própria, seu carro, sua família constituída.

“Geralmente, algum desencadeante põe em jogo o sofrimento vincular, retira o sentido da existência e coloca a vida em perigo. Uma mudança na realidade externa, o casamento dos filhos, situações de doença, viuvez e diversas possibilidades de luto exigem uma reavaliação dos vínculos: ‘antigamente não era assim’, ‘antes jamais teria dito tal coisa’ ‘quando começou a mudar nossa relação? ’, são algumas das perguntas que o idoso se faz quando seu lugar na estrutura se altera.” (Goldfarb e Lopes, 2006, p.1377)

Outros ainda dependem direta ou indiretamente dos VELHOS! Seja morando com eles, ou numa casa deles, dependendo da aposentaria ou da economia deles.

“A situação social e econômica atual complica ainda mais este panorama, pois ou são os pais que devem ser sustentados pelos filhos ou os filhos desempregados e suas famílias sobrevivem com os parcos ganhos de seus aposentados.” (Goldfarb e Lopes, 2006, p.1377)

“Agora, estou aqui, sendo covarde mais uma vez. Você não vê que fui reduzida a expressão mais simples. Esta casa, por exemplo, era minha e agora eu só tenho este quarto...” (Monteiro, 2005, p.157)

Mesmo quando o padrão da família não requer a ajuda financeira constante, normalmente, é com os seus VELHOS, quando estes têm condições, que buscam o empréstimo de última hora, o fiador exigido, o carro emprestado, a ajuda na educação dos filhos...

“e de outras restrições econômicas, assim como nos casos freqüentes de retorno de filhos separados ou divorciados à casa dos pais, solicitando ajuda para educar os filhos.” (Peixoto, 2004) (Debert e Simões, 2006, p.1370-1)

“mesmo em São Paulo, é mais freqüente os idosos prestarem ajuda financeira a seus filhos do que o inverso.” (Saad, 2004) (Debert e Simões, 2006, p.1371)

E às vezes, é nos VELHOS, que descarregam suas frustrações, decepções e angústias. Sabem que lá encontrarão ajuda necessária para atender seus compromissos, e, também o silêncio e o olhar baixo como resposta as suas agressões.

“Neste sentido, podemos observar, muitas vezes, o velho que se encontra solitário e isolado dentro de seu pequeno quarto dos fundos, vivendo junto com a família, mas em seu mundo separado. Essa fronteira bem demarcada não é somente construída por paredes de concreto, mas também por paredes simbólicas da rejeição, que sinalizam a exclusão fria e velada..” (Monteiro, 2005, p.56)

No passado talvez, como castigo, ficassem sem sobremesa ou o passeio no final de semana, no presente apenas deixam um rastro de mágoa. Talvez por isto:

“Via com muita inquietação a possibilidade de depender do suporte financeiro dos filhos ou ter que morar na casa deles, quando ficassem inválidos ou perdessem a capacidade de cuidar de si próprios. Manter a independência financeira e a autonomia frente à casa dos filhos era para eles, inclusive, uma das condições necessárias para alimentar boas relações afetivas e sustentar outros tipos almejados de trocas entre as gerações.” (Debert e Simões, 2006, p.1371)

Pena que eles, os filhos, esquecem que também vão envelhecer e que talvez não cheguem com a mesma energia, capacidade e sabedoria.

“...publicação organizada pela pesquisadora do Ipea Ana Amélia Camarano, com a participação de especialistas de outras instituições, está no fato de conduzir a discussão no contexto de um Brasil que hoje conta com expressiva população jovem, mas que se acha em processo de envelhecimento bastante rápido, tanto em função da redução da natalidade como do aumento na expectativa de vida. E, nesse novo cenário, as quase certezas de outrora, até então vistas como paradigmas, se  transformam em inúmeras possibilidades de trajetórias para os principais eventos que marcam o ciclo de uma vida”.(Camarano,2006, p.7)

A despeito do ocorrido a VELHA continua trabalhando, estudando, ensinando, mas sempre se perguntando onde será que errou ao querer continuar a viver, já que viver é envelhecer..

“Acho que deveria haver nos centros de saúde onde funcionam grupos de terceira idade, profissionais que desenvolvessem um trabalho com as pessoas de 40 a 50 anos, para orientar sobre como elas vão envelhecer, de que maneira têm que proceder para aceitar, se olhar mais no espelho, se conhecer mesmo. Tem que ser feito esse trabalho para que as pessoas não sofram tanto assim.” (Goldfarb, 1998, p.36)

 

         E foi pensando nisto que ela passou a freqüentar um núcleo voltado à maturidade. Ali aprendeu a observar o mundo a sua volta, observar a conduta das pessoas e descobriu que não deveria ter se chocado tanto, afinal como diz SIMONE BEAUVOIR “Morrer prematuramente ou envelhecer: não há outra alternativa.” (Beauvoir, 1990, p.347).  

Diante do ocorrido decidiu que neste natal ela não dará presente para ninguém, não cozinhará, não haverá ceia, festa ou comemoração na sua casa..

Pobre coitada, até parece que enlouqueceu! Não se preocupa mais com as pessoas que pensam que seu tempo já passou! Nem se ainda tem direito de sonhar...

Não pára mais de rir! Gastou todas as economias! Ninguém sabe... Comprou em prestações um Cruzeiro Marítimo. Embarcará sozinha, vai conhecer o mundo inteiro antes de morrer!

‘”[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.

Um rosário de piscadas.

Cada pisco é um dia.

Pisca e mama;

pisca e anda;

pisca e brinca;

pisca e estuda;

pisca e ama;

pisca e cria os filhos;

pisca e geme os reumatismos;

por fim pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre, vira hipótese [...]’

Monteiro Lobato

em Memórias da Emília (1936)”

(Camarano, 2006, p.5)

 

E quanto à filha?!?

Bem, ela já sabe: neste natal, a filha ficará a beira do fogão atendendo aos anseios dos filhos que hoje a admiram, mas no amanhã certamente lhe dirão: Mãe, você está ficando velha! 

 

REFERÊNCIAS:

BEAUVOIR, S. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

CAMARANO, A. A. Apresentação. In: CAMARANO, A. A. (org). Transição para a vida adulta ou vida adulta em transição? Rio de Janeiro: Ipea, 2006.

CÔRTE, B. MERCADANTE, E.  ARCURI, I.  Velhice, envelhecimento, complex(idade). São Paulo: Vetor, 2005.

DEBERT, G G. SIMÕES, J A. Envelhecimento e velhice na família contemporânea. In: FREITAS, E V...[et al], Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2006.

GOLBFARB, D C. Lopes, R G C. Avosidade: a família e a transmissão psíquica entre gerações. In: FREITAS, E V...[et al], Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2006. 

GOLBFARB, D C. Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Psicólogo, 1998. 

MONTEIRO, P. P. Envelhecer: histórias, encontros, transformações. 3.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 

MERCADANTE, E. Velhice: uma questão complexa. In: Velhice, envelhecimento, complex(idade) Org: CÔRTE, B. Mercadante, E.  Arcuri, I.  São Paulo: Vetor, 2005.

VERAS, R. P. A longevidade da população: desafios e conquistas. Revista Quadrimestral de Serviço Social. Ano, XXIV, n° 75, julho 2003.  

 
  

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::sobre o autor::

Aparecida Luzia de Mello é advogada, pós-graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, mestranda em Políticas Sociais na Universidade Cruzeiro do Sul e cursando Psicogerontologia na PUC SP. Email: cidamell@uol.com.br

Dr. Miguél León Gonzalez é engenheiro, Doutor em Ciências Técnica, orientador do curso de Mestrado em Políticas Sociais da Universidade Cruzeiro do Sul. Email: miguel.leon@uol.com.br

 

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