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“É
normal,
uma
vez
que
em
nós
é o
outro
que
é o
velho,
que
a
revelação
de
nossa
idade
venha dos
outros.
Não
consentimos nisso de boa
vontade.
Uma
pessoa
sempre
fica sobressaltada
quando
a chamam de
velha
pela
primeira
vez”.
(Beauvoir, 1990, p.353)
Foi
numa
noite
de
natal.
A
frase
soou
como
uma
bomba.
A
rispidez
como
um
punhal.
Talvez
se tivesse
partido
de
um
estranho,
inimigo,
de
um
conhecido,
ou
talvez
um
amigo
que
quisesse magoá-la,
mas...
“Quando
uma
pessoa
se
torna
velha?
Aos 55, 60, 70
ou
75
anos?
Nada
flutua
mais
do
que
os
limites
da velhice
em
termos
de complexidade fisiológica,
psicológica
e
social.
Uma
pessoa
é
tão
velha
quanto
as
suas
artérias,
quanto
seu
cérebro,
quanto
seu
coração,
quanto
seu
moral
ou
quanto
sua
situação
civil?
Ou
é a
maneira
pela
qual
outras
pessoas
passam a
encarar
as
características
que
classificam as
pessoas
como
velhas?” (Veras, 2003, p.10)
Ela
ficou
muda,
seu
olhar
silencioso
procurou o
olhar
daquela
boca.
Encontrou
um
olhar
frio
talvez
de
desprezo.
Talvez
Indiferença.
Como
se quisesse
dizer,
seu
tempo
já
passou, as
coisas
não
são
mais
assim.
O
pouco
caso
estava
feito.
O
desdém
não
seria esquecido.
“Qual
é a
expectativa
dos
idosos
em
relação
a
sua
participação na
vida
de
filhos
e
netos;....
onde
se localizam as
relações
de
amizade
e
qual
a verdadeira
dimensão
dos
laços
afetivos
familiares;
como
valorizar
o
papel
do
idoso
na
família
e na
sociedade
e
como
manter
vínculos
afetivos
apesar
das
diferenças
intergeracionais.” (Goldfarb e Lopes, 2006, p.1374)
Quase
ninguém
percebeu na
hora.
A
festa
aconteceu,
todos
se abraçaram a
meia
noite.
Mas
ela
nunca
mais
foi a
mesma
pessoa.
“Ora,
a
vivência
primeira
da velhice se dá no
corpo.
O
corpo
por
si
só
não
revela
como
atributo
a velhice,
mas
uma
vez
que
ela
como
estigma
se instala no
corpo,
ela
passa
a
inquietar
o
idoso.”
(Mercadante, 2005, p.32)
Desde
aquele
dia
quando
seus
olhares
se encontram
ela
sente o
gelo
daquela
noite.
Era
uma
noite
de
natal,
mas
se transformou numa
noite
de
agonia.
“Na
violência
contra
idosos
ainda
estamos na
fase
de
chamar
a
atenção
da
sociedade
sobre
os
abusos,
negligências
e
maus-tratos
que
são
praticados
contra
este
grupo
etário.
Apesar
de
ser
real
ela
ainda
é
invisível
na
vida
social,
porque
é,
sobretudo,
doméstica
e
por
isso
muito
difícil
de
romper
o
silêncio
das
famílias
e dos
próprios
idosos
que,
em
defesa
do
agressor
(geralmente
um
membro
da
própria
família)
se calam, omitem e
até
mesmo
justificam a
agressão
sofrida, ao dizerem ‘já
estou
velho
mesmo’.”
(Côrte, Mercadante, Arcuri, 2005, p.22)
Aquele
fato
continuou produzindo
efeitos.
A
partir
daquele
dia
cada
decisão,
cada
compromisso
assumido,
cada
sonho
sonhado, passou a
ser
analisado
com
mais
cuidado.
“Através
do
tempo,
mudam os
costumes,
as
formas
de
produção
e os
valores
que
determinam o
nível
de
satisfação
do
ser
humano.
A
família
se constrói, cresce, se desenvolve, se modifica e pode se
destruir
através
do
tempo.”
(Goldfarb e Lopes, 2006, p.1376)
Seu
pensamento
está
sempre
a
perguntar,
quantos
mais
estarão pensando
que
seu
tempo
já
passou.
Quantos
estarão lendo
em
seu
rosto
que
seu
tempo
acabou e
ela
não
quer
perceber
ou
aceitar.
Quantos
sonhos,
ainda,
terá
direito
de
sonhar...
“...bem gostaria, ao
menos, de arranjar-me para não ir mais longe, para não avançar nesse caminho das
deficiências, das dores, das perdas de memória, das desfigurações que estão
prestes a ultrajar-me e ouço uma voz que diz: ‘é preciso caminhar contra a
própria vontade, ou então, se não quiserdes, é preciso morrer’.” (Beauvoir,
1990, p.353).
Começou
a refletir no dia a dia das pessoas e percebeu que todos estão em permanente
envelhecimento, desde o dia em que nasceram. Viver é um eterno envelhecer.
“Estamos desde a
concepção, envelhecendo e vivendo, vivendo e envelhecendo, nunca sendo os
mesmos, porque envelhecer é um processo contínuo de transformação do ser humano
como único em seu tempo vivido.” (Monteiro, 2005, p.15)
“O ‘life style’ é peça
fundamental nesta teoria. A opção passa a ser do cidadão, desde que ele leve em
consideração a epidemiologia baseada na evidência, que lista os fatores de
riscos que podem ampliar ou diminuir o tempo de vida. Quem opta por beber menos,
não fumar, praticar exercícios físicos, controlar o estresse e adotar uma dieta
adequada e balanceada, sem excesso de sal, açúcar e gordura, tem todas as
condições necessárias para viver até o limite biológico da vida.”
(Veras, 2003, p.9)
A
primeira parte do envelhecimento contribui para desabrochar a juventude, mas
como tudo, a juventude não é eterna e ao chegar a 3ª década da vida começa a
decadência do ser humano.
“’O sofrimento nos
ameaça a partir de três direções: de nosso corpo, condenado à decadência e à
dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como
sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com
forças de destruição esmagadoras; e finalmente, de nossos relacionamentos com os
outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais
penoso do que qualquer outro.’” (Freud, 1929, p.85, apud, Goldfarb e Lopes,
2006, p.1375)
É
chegada a hora da maturidade. Muitos filhos nesta fase da vida já estão
estabilizados. Tem um cargo de comando, sua casa própria, seu carro, sua família
constituída.
“Geralmente, algum
desencadeante põe em jogo o sofrimento vincular, retira o sentido da existência
e coloca a vida em perigo. Uma mudança na realidade externa, o casamento dos
filhos, situações de doença, viuvez e diversas possibilidades de luto exigem uma
reavaliação dos vínculos: ‘antigamente não era assim’, ‘antes jamais teria dito
tal coisa’ ‘quando começou a mudar nossa relação? ’, são algumas das perguntas
que o idoso se faz quando seu lugar na estrutura se altera.” (Goldfarb e Lopes,
2006, p.1377)
Outros
ainda dependem direta ou indiretamente dos VELHOS! Seja morando com eles, ou
numa casa deles, dependendo da aposentaria ou da economia deles.
“A situação social e
econômica atual complica ainda mais este panorama, pois ou são os pais que devem
ser sustentados pelos filhos ou os filhos desempregados e suas famílias
sobrevivem com os parcos ganhos de seus aposentados.” (Goldfarb e Lopes, 2006,
p.1377)
“Agora, estou aqui,
sendo covarde mais uma vez. Você não vê que fui reduzida a expressão mais
simples. Esta casa, por exemplo, era minha e agora eu só tenho este quarto...”
(Monteiro, 2005, p.157)
Mesmo
quando o padrão da família não requer a ajuda financeira constante, normalmente,
é com os seus VELHOS, quando estes têm condições, que buscam o empréstimo de
última hora, o fiador exigido, o carro emprestado, a ajuda na educação dos
filhos...
“e de outras restrições
econômicas, assim como nos casos freqüentes de retorno de filhos separados ou
divorciados à casa dos pais, solicitando ajuda para educar os filhos.” (Peixoto,
2004) (Debert e Simões, 2006, p.1370-1)
“mesmo em São Paulo, é
mais freqüente os idosos prestarem ajuda financeira a seus filhos do que o
inverso.” (Saad, 2004) (Debert e Simões, 2006, p.1371)
E às
vezes, é nos VELHOS, que descarregam suas frustrações, decepções e angústias.
Sabem que lá encontrarão ajuda necessária para atender seus compromissos, e,
também o silêncio e o olhar baixo como resposta as suas agressões.
“Neste sentido, podemos
observar, muitas vezes, o velho que se encontra solitário e isolado dentro de
seu pequeno quarto dos fundos, vivendo junto com a família, mas em seu mundo
separado. Essa fronteira bem demarcada não é somente construída por paredes de
concreto, mas também por paredes simbólicas da rejeição, que sinalizam a
exclusão fria e velada..” (Monteiro, 2005, p.56)
No
passado talvez, como castigo, ficassem sem sobremesa ou o passeio no final de
semana, no presente apenas deixam um rastro de mágoa. Talvez por isto:
“Via com muita
inquietação a possibilidade de depender do suporte financeiro dos filhos ou ter
que morar na casa deles, quando ficassem inválidos ou perdessem a capacidade de
cuidar de si próprios. Manter a independência financeira e a autonomia frente à
casa dos filhos era para eles, inclusive, uma das condições necessárias para
alimentar boas relações afetivas e sustentar outros tipos almejados de trocas
entre as gerações.” (Debert e Simões, 2006, p.1371)
Pena
que eles, os filhos, esquecem que também vão envelhecer e que talvez não cheguem
com a mesma energia, capacidade e sabedoria.
“...publicação
organizada pela pesquisadora do Ipea Ana Amélia Camarano, com a participação de
especialistas de outras instituições, está no fato de conduzir a discussão no
contexto de um Brasil que hoje conta com expressiva população jovem, mas que se
acha em processo de envelhecimento bastante rápido, tanto em função da redução
da natalidade como do aumento na expectativa de vida. E, nesse novo cenário, as
quase certezas de outrora, até então vistas como paradigmas, se transformam em
inúmeras possibilidades de trajetórias para os principais eventos que marcam o
ciclo de uma vida”.(Camarano,2006, p.7)
A
despeito do ocorrido a VELHA continua trabalhando, estudando, ensinando, mas
sempre se perguntando onde será que errou ao querer continuar a viver, já que
viver é envelhecer..
“Acho que
deveria haver nos centros de saúde onde funcionam grupos de terceira idade,
profissionais que desenvolvessem um trabalho com as pessoas de 40 a 50 anos,
para orientar sobre
como elas vão envelhecer, de que maneira têm que proceder para aceitar, se olhar
mais no espelho, se conhecer mesmo. Tem que ser feito esse trabalho para que as
pessoas não sofram tanto assim.” (Goldfarb, 1998, p.36)
E foi pensando nisto que ela passou a freqüentar um núcleo voltado à
maturidade. Ali aprendeu a observar o mundo a sua volta, observar a conduta das
pessoas e descobriu que não deveria ter se chocado tanto, afinal como diz SIMONE
BEAUVOIR “Morrer prematuramente ou envelhecer: não
há outra alternativa.” (Beauvoir, 1990, p.347).
Diante
do ocorrido decidiu que neste natal ela não dará presente para ninguém, não
cozinhará, não haverá ceia, festa ou comemoração na sua casa..
Pobre
coitada, até parece que enlouqueceu! Não se preocupa mais com as pessoas que
pensam que seu tempo já passou! Nem se ainda tem direito de sonhar...
Não
pára mais de rir! Gastou todas as economias! Ninguém sabe... Comprou em
prestações um Cruzeiro Marítimo. Embarcará sozinha, vai conhecer o mundo inteiro
antes de morrer!
‘”[...] A vida das gentes
neste mundo, senhor sabugo, é isso.
Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
Pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria os filhos;
pisca e geme os
reumatismos;
por fim pisca pela última
vez e morre.
– E depois que morre? –
perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira
hipótese [...]’
Monteiro Lobato
em Memórias da Emília
(1936)”
(Camarano, 2006, p.5)
E
quanto à filha?!?
Bem,
ela já sabe: neste natal, a filha ficará a beira do fogão atendendo aos anseios
dos filhos que hoje a admiram, mas no amanhã certamente lhe dirão: Mãe, você
está ficando velha!
REFERÊNCIAS:
BEAUVOIR, S. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
CAMARANO, A.
A. Apresentação. In: CAMARANO, A. A. (org). Transição para a vida adulta ou
vida adulta
em
transição?
Rio de Janeiro: Ipea, 2006.
CÔRTE, B. MERCADANTE, E.
ARCURI, I. Velhice, envelhecimento,
complex(idade). São Paulo: Vetor, 2005.
DEBERT, G G. SIMÕES, J A.
Envelhecimento e velhice na família contemporânea. In:
FREITAS, E
V...[et al], Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro:
Koogan, 2006.
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GOLBFARB, D C.
Lopes, R G C. Avosidade: a família e a transmissão psíquica entre
gerações. In:
FREITAS, E V...[et al], Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2.
ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2006.
GOLBFARB, D C.
Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Psicólogo, 1998. |
MONTEIRO, P.
P. Envelhecer: histórias, encontros, transformações. 3.ed. Belo
Horizonte: Autêntica, 2005.
MERCADANTE, E. Velhice:
uma questão complexa. In: Velhice, envelhecimento, complex(idade) Org: CÔRTE, B.
Mercadante, E. Arcuri, I. São Paulo: Vetor,
2005.
VERAS, R. P.
A longevidade da população: desafios e conquistas. Revista Quadrimestral
de Serviço Social.
Ano, XXIV, n° 75, julho 2003.
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