Quando ela surgiu na escada do
avião, muitos pensaram que era uma artista desconhecida filmando para
algum programa de humor. Mas era apenas uma mulher realizando um sonho.
Andar de avião!
Ela nasceu no interior de São
Paulo. A mãe era cega e o pai morreu quando tinha cinco anos. Dos sete
irmãos que teve só um sobreviveu, o mais novo. Com a morte do pai, os
três: ela, a mãe e o irmão caçula - ficaram a deriva na vida, dormiram
na rua, viveram de favor, passaram fome e frio.
Casou-se aos 16 anos,
engravidou, pariu o primeiro filho sem saber exatamente como. Quando a
parteira lhe estendeu o recém nascido, tomou um susto, antes de pegá-lo
no colo, imaginou-se toda arrebentada por baixo e levou a mão para
conferir.
Semi-analfabeta, operária,
teve mais duas filhas. O marido alcoólatra, quando estava sóbrio,
trabalhava, recebia e gastava com a bebida. Chegava gritando, batendo,
quebrando, até que um dia teve um AVC,
ficou na cama por um tempo e acabou morrendo em conseqüência de uma
cirrose hepática, ela enviuvou.
Com o salário que recebia na
fábrica e a pequena pensão do ex-marido, criou os filhos, comprou um
terreno, construiu um barraco de madeira para abrigar a família e
durante os finais de semana, ergueu a casa de tijolo. Para economizar
durante a semana comia os restos da marmita dos colegas já satisfeitos.
Como o sonho da casa própria
faz parte do desejo de milhões de brasileiros da classe popular, muitos
fazem o que se pode denominar abrigo, construídos em blocos e cimento,
sem revestimento, chão batido, telhado plano e tem entre 30 a 40 m2.
Segundo SACHS é a chamada autoconstrução que representa um custo maior
ainda para estas famílias, uma vez que reduzem o consumo familiar já
considerado básico, visando economizar para poder construir com as
próprias mãos o ‘precioso teto’, ficando sem comer se necessário.
(SACHS, 1999).
Alguns anos depois o filho foi
assassinado num acerto de contas no mundo das drogas, sofreu muito, mas
superou.
Apesar do sofrimento não era
mulher de ficar sozinha, conheceu o segundo companheiro, depois de seis
meses de namoro descobriu que ele também era alcoólatra e apavorada pela
experiência anterior mandou-o andar.
Teve outros namorados, até
conhecer o “menino”, 20 anos mais novo. Alguns familiares contestaram,
fizeram cara feia, criticaram, mas foi com ele que viveu até seus
últimos dias.
O “menino” era natural do
Sertão de Sergipe. Quando saiu de lá, ainda garoto, veio para São Paulo
num pau de arara. Também era operário, dormiu na rua, viveu de favor,
passou fome e frio, morou em pensão até conhecê-la.
Juntos, melhoraram a casa
construída por ela, compraram um fusca, fizeram planos e realizaram
muitos sonhos.
Ele queria rever a família,
mas uma viagem de ônibus de São Paulo até a cidade de Brejo Grande
distante mais ou menos 140 km de Aracaju seria muito cansativa. Viajar
até Aracaju de avião era uma solução tentadora, emendando com o ônibus
até Brejo Grande e o pau de arara para o povoado
Brejão dos Negros, comunidade onde vivia sua família descendente de
quilombolas.
Começaram a sonhar com o
avião. Naquela época não havia as facilidades e ou promoções que
desfrutamos atualmente, diante disto, abriram uma caderneta de poupança
conjunta e todos os meses depositavam um determinado valor para garantir
a compra das passagens desejadas.
Foram anos de economia. Quando
já tinham o dinheiro suficiente para ida e volta, começaram e economizar
para o ônibus, o pau de arara e demais custos do passeio.
Quando ela fez 65 anos e ele
45, aprontaram as malas e embarcaram. Um mês e meio depois voltaram
felizes com muitas histórias para contar.
Entre elas, o sucesso que ela
fez no aeroporto com sua roupa copiada da televisão! Televisão?!? Alguns
provavelmente perguntarão. Sim, copiada da televisão!
Afinal para
viajar de avião há de se usar uma roupa especial. Assim pensava ela.
Portanto comprou um tecido brocado
na cor Pink e mandou fazer um vestido “tomara que caia” todo
bordado em cascalho e vidrilhos com echarpe no mesmo tecido. Embora ela
fosse roliça, o modelito marcava a cintura. Comprou um chapéu, um cinto,
um par de sapatos de salto alto, bolsa e luvas, tudo prateado. Um
conjunto de colar e brinco de pedras multicoloridas, o esmalte das unhas
e o batom combinavam entre si e completavam o “look”.
O embarque estava marcado para
o meio dia. E, ela só teve certeza que estava linda, quando entrou no
aeroporto e percebeu que todo mundo olhava para ela e alguns chegavam a
comentar:
-: só pode ser artista de
televisão!
Ela aproveitou e encenou a
despedida clássica, na hora do embarque subiu a escada, olhou para trás,
parou e acenou diversas vezes para amigos inexistentes que olhavam das
enormes janelas de vidro.
Contou que dentro do avião
também fez o maior sucesso. Aeromoças e passageiros olhavam “encantados”
para ela e quando seus olhares se cruzavam, ficavam tímidos, sorriam e
baixavam a cabeça. A descida no aeroporto de Sergipe também foi
sensacional - acenos para todos os lados.
No pau de arara, pagou um
troco a mais e teve direito a um lugar especial na cabine do caminhão,
quando chegou ao vilarejo onde ele nasceu, ao descer do caminhão, ela
foi recebida com aplausos, o povo ao ficar sabendo “da mulher que
brilhava”, correu para vê-la, tocá-la e as crianças beijavam sua mão.
Ela encerrou a história com um
ar de felicidade olhando para o “menino”, e ele sorrindo diz:
-: a minha Maria sempre foi
uma estrela, mas para brilhar precisou viajar de avião!
Bibliografia
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br