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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 02 de agosto de 2010 21:36:45                                               

 
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TERCEIRA IDADE
Maria: a Estrela    

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 02/08/2010

 

Quando ela surgiu na escada do avião, muitos pensaram que era uma artista desconhecida filmando para algum programa de humor. Mas era apenas uma mulher realizando um sonho. Andar de avião!

Ela nasceu no interior de São Paulo. A mãe era cega e o pai morreu quando tinha cinco anos. Dos sete irmãos que teve só um sobreviveu, o mais novo. Com a morte do pai, os três: ela, a mãe e o irmão caçula - ficaram a deriva na vida, dormiram na rua, viveram de favor, passaram fome e frio.

Casou-se aos 16 anos, engravidou, pariu o primeiro filho sem saber exatamente como. Quando a parteira lhe estendeu o recém nascido, tomou um susto, antes de pegá-lo no colo, imaginou-se toda arrebentada por baixo e levou a mão para conferir.

Semi-analfabeta, operária, teve mais duas filhas. O marido alcoólatra, quando estava sóbrio, trabalhava, recebia e gastava com a bebida. Chegava gritando, batendo, quebrando, até que um dia teve um AVC1, ficou na cama por um tempo e acabou morrendo em conseqüência de uma cirrose hepática, ela enviuvou.

Com o salário que recebia na fábrica e a pequena pensão do ex-marido, criou os filhos, comprou um terreno, construiu um barraco de madeira para abrigar a família e durante os finais de semana, ergueu a casa de tijolo. Para economizar durante a semana comia os restos da marmita dos colegas já satisfeitos.

Como o sonho da casa própria faz parte do desejo de milhões de brasileiros da classe popular, muitos fazem o que se pode denominar abrigo, construídos em blocos e cimento, sem revestimento, chão batido, telhado plano e tem entre 30 a 40 m2. Segundo SACHS é a chamada autoconstrução que representa um custo maior ainda para estas famílias, uma vez que reduzem o consumo familiar já considerado básico, visando economizar para poder construir com as próprias mãos o ‘precioso teto’, ficando sem comer se necessário. (SACHS, 1999).

Alguns anos depois o filho foi assassinado num acerto de contas no mundo das drogas, sofreu muito, mas superou.

Apesar do sofrimento não era mulher de ficar sozinha, conheceu o segundo companheiro, depois de seis meses de namoro descobriu que ele também era alcoólatra e apavorada pela experiência anterior mandou-o andar.

Teve outros namorados, até conhecer o “menino”, 20 anos mais novo. Alguns familiares contestaram, fizeram cara feia, criticaram, mas foi com ele que viveu até seus últimos dias.

O “menino” era natural do Sertão de Sergipe. Quando saiu de lá, ainda garoto, veio para São Paulo num pau de arara. Também era operário, dormiu na rua, viveu de favor, passou fome e frio, morou em pensão até conhecê-la.

Juntos, melhoraram a casa construída por ela, compraram um fusca, fizeram planos e realizaram muitos sonhos.

Ele queria rever a família, mas uma viagem de ônibus de São Paulo até a cidade de Brejo Grande distante mais ou menos 140 km de Aracaju seria muito cansativa. Viajar até Aracaju de avião era uma solução tentadora, emendando com o ônibus até Brejo Grande e o pau de arara para o povoado Brejão dos Negros, comunidade onde vivia sua família descendente de quilombolas.

Começaram a sonhar com o avião. Naquela época não havia as facilidades e ou promoções que desfrutamos atualmente, diante disto, abriram uma caderneta de poupança conjunta e todos os meses depositavam um determinado valor para garantir a compra das passagens desejadas.

Foram anos de economia. Quando já tinham o dinheiro suficiente para ida e volta, começaram e economizar para o ônibus, o pau de arara e demais custos do passeio.

Quando ela fez 65 anos e ele 45, aprontaram as malas e embarcaram. Um mês e meio depois voltaram felizes com muitas histórias para contar.

Entre elas, o sucesso que ela fez no aeroporto com sua roupa copiada da televisão! Televisão?!? Alguns provavelmente perguntarão. Sim, copiada da televisão!

Afinal para viajar de avião há de se usar uma roupa especial. Assim pensava ela. Portanto comprou um tecido brocado2 na cor Pink e mandou fazer um vestido “tomara que caia” todo bordado em cascalho e vidrilhos com echarpe no mesmo tecido. Embora ela fosse roliça, o modelito marcava a cintura. Comprou um chapéu, um cinto, um par de sapatos de salto alto, bolsa e luvas, tudo prateado. Um conjunto de colar e brinco de pedras multicoloridas, o esmalte das unhas e o batom combinavam entre si e completavam o “look”.

O embarque estava marcado para o meio dia. E, ela só teve certeza que estava linda, quando entrou no aeroporto e percebeu que todo mundo olhava para ela e alguns chegavam a comentar:

-: só pode ser artista de televisão!

Ela aproveitou e encenou a despedida clássica, na hora do embarque subiu a escada, olhou para trás, parou e acenou diversas vezes para amigos inexistentes que olhavam das enormes janelas de vidro.

Contou que dentro do avião também fez o maior sucesso. Aeromoças e passageiros olhavam “encantados” para ela e quando seus olhares se cruzavam, ficavam tímidos, sorriam e baixavam a cabeça. A descida no aeroporto de Sergipe também foi sensacional - acenos para todos os lados.

No pau de arara, pagou um troco a mais e teve direito a um lugar especial na cabine do caminhão, quando chegou ao vilarejo onde ele nasceu, ao descer do caminhão, ela foi recebida com aplausos, o povo ao ficar sabendo “da mulher que brilhava”, correu para vê-la, tocá-la e as crianças beijavam sua mão.

Ela encerrou a história com um ar de felicidade olhando para o “menino”, e ele sorrindo diz:

-: a minha Maria sempre foi uma estrela, mas para brilhar precisou viajar de avião!

 

Bibliografia

SACHS, Céline. São Paulo: políticas públicas e habitação popular. São Paulo: Edusp, 1999. Pag. 70/71

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 


 

1 AVC – acidente vascular cerebral

2 Tecido de seda com relevos bordados a ouro ou prata.

 

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Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.   
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