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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 09 de maio de 2011 16:10:01                                               
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TERCEIRA IDADE
Merecimento    

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 02/05/2011

     A família era conservadora, seguiam os preceitos da religião à risca. As meninas só usavam saia, cabelo comprido, blusa fechada, nada de maquiagem. Os garotos sempre de calça social, sapato engraxado, gravatinha, cabelo bem cortado.

Pai e mãe vangloriavam-se de conseguir levar a molecada com as rédeas curtas. Todo domingo tinha culto e lá iam eles, arrumadinhos com a bíblia embaixo do braço.

O tempo passou e o pai embora conservador, achava que os filhos deviam ser respeitados nas suas escolhas. Quando o primeiro filho completou 18 anos, chamou-o e lhe deu a liberdade de escolher, caso quisesse abandonar a religião tinha seu consentimento. Mas o filho acostumado seguiu os passos do pai. Assim foi com cada um deles, todos agradeciam ao pai a possibilidade de escolha e diziam que estavam contentes por servir a Deus. A única exceção foi ela.

Ela que era a caçula. Todos já desconfiavam que “naquele mato tinha coelho” porque ela aguardava ansiosamente os 18 anos. No dia da alforria comemorou. Depois da conversa com o pai, agradeceu a liberdade, colocou a bíblia nas mãos dele, beijou-o e saiu.

Quando voltou a mãe quase teve um infarto. A menina tinha cortado o cabelo que passava da cintura, na altura do ombro, no estilo Chanel. A cor preta ficou acobreada. As sobrancelhas estavam depiladas, os olhos contornados com rímel e os lábios coloridos de carmim. As unhas das mãos e dos pés foram esmaltadas de vermelho rubro. E para completar havia comprado calças jeans e camiseta baby look.

Aquilo era demais para aquela mãe que via em tudo o pecado!

Com o passar de tempo, a mãe, percebeu que seu discurso puritano não adiantava com aquela jovem e foi se acostumando, embora sempre criticando a nova aparência da filha que a envergonhava diante dos “irmãos” da igreja.

Sua esperança era que um dia se apaixonasse por algum “irmão” e retornasse à vida dedicada a Deus abandonando a vaidade.

Para isto promovia reuniões em sua casa constantemente e sempre convidava os jovens, fazia bolos, salgadinhos e marcava os encontros quando a filha estava em casa. A jovem gostava da turminha, eles conversavam, ouviam músicas, falavam de temas atuais, mas não passava disto, nunca “rolava” nada.

Um dia a mãe notou que a filha estava diferente, ou melhor, mais diferente do que já era. Vinha se esquivando das reuniões caseiras sempre alegando compromisso. Resolveu puxar conversa, sondou daqui, sondou dali e soube que a jovem estava apaixonada. De pronto quis saber quem era. Mas a menina disse o rapaz não era do “pedaço”.

A mãe ficou apavorada. Pela aparência da filha imaginava o tipo de rapaz que ela poderia estar envolvida. Querendo preservar a pureza da filha e ter certeza que o pretendente era uma boa pessoa insistiu para que ela o trouxesse a sua casa, garantiu que aceitaria quem quer que fosse. Se namorado da filha seria bem vindo.

A filha relutou, a mãe insistiu, a filha dizia que ainda era cedo, a mãe dizia que não, a filha dizia que não tinha certeza se era realmente amor ou paixão, a mãe dizia que não se importava. A discussão nunca tinha fim. A mãe queria, porque queira conhecer o felizardo ou infeliz!

Cada vez que o carro parava no portão para deixar a jovem em casa o coração da mãe disparava, ela então corria no quintal para tentar ver o rapaz, mas tudo em vão, porque ele rapidamente dava no “pinote”.

A estas alturas da vida a mãe que já estava viúva choramingava dizendo que se o finado estivesse ali tudo seria diferente, a filha não seria tão abusada.

Até que um dia, logo depois do carnaval, quando o carro encostou para deixá-la em casa, a prima que também era do tipo “porra loca” estava chegando e intimou:

-: ah, ah hoje teu namorado vai descer! Todo mundo quer conhecê-lo. A jovem acuada com a surpresa gritou:

-: não, hoje não!

Mas a prima já tinha se pendurado na porta do carro e logo foi batendo papo e intimando o rapaz a descer. Ele olha para a namorada, que de olhos arregalados não sabia o que dizer, então, sorrindo disse:

-: seja o que Deus quiser! Vamos lá, uma hora tinha que acontecer...

Quando a porta do carro abriu, desceu um negro de 1,90 de altura, puxador de escola de samba, corpo escultural, sorriso largo, dentes perfeitos – aquele tipo de “fechar o comércio” – todo de branco, com um crucifixo de madeira de mais ou menos 15 centímetros no peito.

Ele fez questão de entrar abraçado com a jovem. Ela encolhida e assustada quase se arrastava para dentro de casa. Quando a mãe dela viu o sujeito, caiu sentada no sofá!

Olhou para rapaz e gritou:

-: valha-me Deus!

Depois olhou para a filha e disse:

-: oh filha eu não acredito no que estou vendo! Será que eu mereço um negão deste?!?

A filha naquele momento recobrou seu “juízo” e não teve dúvidas, respirou fundo e respondeu:

-: claro que você não merece mãe! QUEM MERECE SOU EU!


 

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 


 

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Aparecida Luzia de Mello é  Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.  cidamell@uol.com.br
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