A família era conservadora, seguiam os
preceitos da religião à risca. As meninas só usavam saia, cabelo
comprido, blusa fechada, nada de maquiagem. Os garotos sempre de calça
social, sapato engraxado, gravatinha, cabelo bem cortado.
Pai e mãe vangloriavam-se de conseguir
levar a molecada com as rédeas curtas. Todo domingo tinha culto e lá iam
eles, arrumadinhos com a bíblia embaixo do braço.
O tempo passou e o pai embora conservador,
achava que os filhos deviam ser respeitados nas suas escolhas. Quando o
primeiro filho completou 18 anos, chamou-o e lhe deu a liberdade de
escolher, caso quisesse abandonar a religião tinha seu consentimento.
Mas o filho acostumado seguiu os passos do pai. Assim foi com cada um
deles, todos agradeciam ao pai a possibilidade de escolha e diziam que
estavam contentes por servir a Deus. A única exceção foi ela.
Ela que era a caçula. Todos já
desconfiavam que “naquele mato tinha coelho” porque ela aguardava
ansiosamente os 18 anos. No dia da alforria comemorou. Depois da
conversa com o pai, agradeceu a liberdade, colocou a bíblia nas mãos
dele, beijou-o e saiu.
Quando voltou a mãe quase teve um infarto.
A menina tinha cortado o cabelo que passava da cintura, na altura do
ombro, no estilo Chanel. A cor preta ficou acobreada. As sobrancelhas
estavam depiladas, os olhos contornados com rímel e os lábios coloridos
de carmim. As unhas das mãos e dos pés foram esmaltadas de vermelho
rubro. E para completar havia comprado calças jeans e camiseta baby look.
Aquilo era demais para aquela mãe que via
em tudo o pecado!
Com o passar de tempo, a mãe, percebeu que
seu discurso puritano não adiantava com aquela jovem e foi se
acostumando, embora sempre criticando a nova aparência da filha que a
envergonhava diante dos “irmãos” da igreja.
Sua esperança era que um dia se
apaixonasse por algum “irmão” e retornasse à vida dedicada a Deus
abandonando a vaidade.
Para isto promovia reuniões em sua casa
constantemente e sempre convidava os jovens, fazia bolos, salgadinhos e
marcava os encontros quando a filha estava em casa. A jovem gostava da
turminha, eles conversavam, ouviam músicas, falavam de temas atuais, mas
não passava disto, nunca “rolava” nada.
Um dia a mãe notou que a filha estava
diferente, ou melhor, mais diferente do que já era. Vinha se esquivando
das reuniões caseiras sempre alegando compromisso. Resolveu puxar
conversa, sondou daqui, sondou dali e soube que a jovem estava
apaixonada. De pronto quis saber quem era. Mas a menina disse o rapaz
não era do “pedaço”.
A mãe ficou apavorada. Pela aparência da
filha imaginava o tipo de rapaz que ela poderia estar envolvida.
Querendo preservar a pureza da filha e ter certeza que o pretendente era
uma boa pessoa insistiu para que ela o trouxesse a sua casa, garantiu
que aceitaria quem quer que fosse. Se namorado da filha seria bem vindo.
A filha relutou, a mãe insistiu, a filha
dizia que ainda era cedo, a mãe dizia que não, a filha dizia que não
tinha certeza se era realmente amor ou paixão, a mãe dizia que não se
importava. A discussão nunca tinha fim. A mãe queria, porque queira
conhecer o felizardo ou infeliz!
Cada vez que o carro parava no portão para
deixar a jovem em casa o coração da mãe disparava, ela então corria no
quintal para tentar ver o rapaz, mas tudo em vão, porque ele rapidamente
dava no “pinote”.
A estas alturas da vida a mãe que já
estava viúva choramingava dizendo que se o finado estivesse ali tudo
seria diferente, a filha não seria tão abusada.
Até que um dia, logo depois do carnaval,
quando o carro encostou para deixá-la em casa, a prima que também era do
tipo “porra loca” estava chegando e intimou:
-: ah, ah hoje teu namorado vai descer!
Todo mundo quer conhecê-lo. A jovem acuada com a surpresa gritou:
-: não, hoje não!
Mas a prima já tinha se pendurado na porta
do carro e logo foi batendo papo e intimando o rapaz a descer. Ele olha
para a namorada, que de olhos arregalados não sabia o que dizer, então,
sorrindo disse:
-: seja o que Deus quiser! Vamos lá, uma
hora tinha que acontecer...
Quando a porta do carro abriu, desceu um
negro de 1,90 de altura, puxador de escola de samba, corpo escultural,
sorriso largo, dentes perfeitos – aquele tipo de “fechar o comércio” –
todo de branco, com um crucifixo de madeira de mais ou menos 15
centímetros no peito.
Ele fez questão de entrar abraçado com a
jovem. Ela encolhida e assustada quase se arrastava para dentro de casa.
Quando a mãe dela viu o sujeito, caiu sentada no sofá!
Olhou para rapaz e gritou:
-: valha-me Deus!
Depois olhou para a filha e disse:
-: oh filha eu não acredito no que estou
vendo! Será que eu mereço um negão deste?!?
A filha naquele momento recobrou seu
“juízo” e não teve dúvidas, respirou fundo e respondeu:
-: claro que você não merece mãe!
QUEM
MERECE SOU EU!
*
Advogada, Mestre em Políticas
Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br