A vida era muito apertada. Um
casal, três filhos e uma idosa cega. Moradia, comida, roupa, escola,
remédios, era coisa demais para o dinheiro que entrava no final do mês.
O pai trabalhava de sol a sol
e quando chegava, cansado, ainda cuidava da plantação que cultivava no
quintal imenso, da casa alugada, para complementar as refeições.
Abençoado quintal que garantia a subsistência da família e ainda ajudava
alguns vizinhos na mesma situação.
A mãe por sua vez cuidava da
casa, dos filhos, da sogra e ainda lavava e passava roupa para fora,
cerzia e ocasionalmente fazia faxina para algumas famílias.
Tudo isto não era suficiente.
De manhã, só dava para
comprar, na caderneta,
meio litro de leite, que era fervido com café para render mais, embora
as crianças preferissem o achocolatado, e meio filão de pão dividido
milimetricamente entre os filhos e a avó. O pai saia de madrugada apenas
com café preto bebido. A mãe tomava um pouco do leite com café sem pão.
O almoço era sempre a sobra da
janta, entenda-se: arroz, feijão e “mato” do quintal, porque a mistura
especial era somente no jantar. Comida fresquinha só à noite. O arroz e
feijão estavam garantidos, mas a chamada mistura era de lascar. Como era
a atração principal da mesa, exigia manobras daquela mulher..
“a
mulher, em seu desempenho como boa dona de casa, faz com que apesar de
pouco, o dinheiro dê. Isso implica controlar o pouco dinheiro recebido
pelos que trabalham na família, priorizando os gastos (com alimentação
em primeiro lugar) e driblando as despesas. Na prioridade da alimentação
entre outros gastos, os que trabalham devem comer mais do que os outros
adultos, e os homens, trabalhadores/provedores, comem mais que as
mulheres. (SARTI, 2005, p. 61).
Às vezes era meia salsicha
para cada um, exceção ao chefe de família que comia uma inteira; ou um
quarto de ovo para os filhos e a sogra e um ovo inteiro para o pai, a
mãe para justificar o arroz a feijão puro em seu prato, dizia que ovo
lhe fazia mal. Outras vezes servia batata frita, para o pai, sempre uma
porção maior, ou milho refogado extraído das espigas colhidas no
quintal, mantendo sempre a proporção maior para o chefe da família.
A salada do quintal quase
sempre estava presente, carne só nos dias de festas como natal e páscoa,
quando havia dinheiro para comprar.
Mas um dia, no jantar, não
tinha nada para servir de mistura, nem mato do quintal. Quando o pai
chegou, a mãe olhou com desconforto e ele logo percebeu que algo não
estava bem.
Ao questioná-la, a reposta foi
que aquele jantar seria somente arroz e feijão. As crianças já com olhos
compridos para o jantar esperavam ansiosas pela refeição. Ele condoído,
pensou, pensou, olhando para a dispensa quase vazia e enxergou uma nova
receita que se tornaria segredo de família. Chamou os filhos e disse:
-: hoje teremos uma mistura
especial, molho holandês!
Os olhos das crianças
brilharam. As bocas já salivavam. Ele então falou:
-: prestem atenção à receita,
porque é um segredo de família.
Pegou uma cebola descascou e
picou bem picadinho; descascou alguns dentes de alho e fatiou fininho;
espremeu alguns limões; misturou tudo e colocou numa tigela, temperou
com sal; pimenta do reino e completou com água.
Com uma concha, colocou um
pouco em cada xícara e sugeriu que a cada garfada de arroz e feijão
bebessem um pouco de molho holandês.
Foi um sucesso. A mãe aliviada
agradecia a Deus a criatividade do pai e a partir daí incluiu mais uma
mistura ao magro cardápio da família.
No outro dia, na escola, os
filhos orgulhosos falavam aos coleguinhas que o pai, no dia anterior,
havia feito, no jantar, uma receita que era “segredo de família”, que
era uma delícia, mas por ser segredo, não podiam contar!
Hoje, com o pai já falecido,
quando se reúnem, às vezes, fazem o molho holandês só para matar a
saudade de um tempo tão difícil, que se Deus quiser jamais voltará!
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br