Dias atrás ela encontrou um
amigo, ou melhor, um ex-patrão com quem trabalhou 18 anos.
Ela não tinha o que reclamar
daquela época, fora executiva da área comercial e muito respeitada,
tivera excelente remuneração e além disto, foi lá que teve o privilégio
de conhecer o futuro marido.
Ele falou da falta que ela fez
quando saiu. Contou as novidades, os novos rumos, as dificuldades, etc.
Foi uma alegria só.
Finalmente, perguntou a ela se
por acaso estava realizando seu antigo sonho, afinal tinha sido este
sonho que a roubara da empresa.
Sua saída foi para realizar
seu sonho maior – dar aulas.
Os filhos cresceram se
formaram e ela pode então dar asas ao sonho. A manutenção do lar coube a
partir daí, somente ao marido.
Ela contou que estava muito
feliz, pois dava aulas para idosos e trabalhava como voluntária em
outros dois lugares, um Centro de Convivência onde fazia palestras
semanalmente e uma ILPI,
onde promovia festas, encontros e atividades lúdicas para os internos.
Lembrando do pai dele, ela fez
a pergunta fatídica,
-: e seu pai, como está?
Ele responde:
-: ah, ele faleceu, mas morreu
feliz!
Curiosa, logo quis saber como?
Onde? Qual o motivo da felicidade? Enfim sua paixão por idosos a
instigava a ouvir mais..
Ele então começa a relatar:
-: meu pai, espanhol, era uma
pessoa muito simples, falava alto, reclamava de tudo, resmungava toda
hora, trabalhou muito para chegar aonde chegou, era um homem embrutecido
pelas dificuldades vividas.
Quando minha mãe faleceu, ele
se tornou uma pessoa mais difícil ainda. Aquele velhinho de tamancos não
gostava de tomar banho, usava roupas surradas, era um muquirana. Ia ao
banco, sacava a aposentadoria e guardava tostão por tostão em casa.
De manhã ia à padaria e pedia
pão amanhecido, por ser mais barato ou de graça. Fazia feira às 14
horas, para recolher os restos. Na geladeira sempre tinha comida velha,
mesmo quando alguém levava comida nova, ele guardava e comia primeiro a
velha, para economizar.
Caminhava por todo o bairro
recolhendo latinha, metal, e tudo que pudesse dar algum dinheirinho.
Conversava com os vizinhos, dando conselhos sobre economia. Achava que
todos gastavam demais, não sabiam valorizar o dinheiro. Brigava com os
jovens que ficavam empinando pipa ao invés de trabalhar...
A casa dele virou um
verdadeiro depósito de lixo. Toda vez que colocávamos alguém para cuidar
dele ou da casa, era uma briga só. Achava que era desperdício, mandava a
pessoa embora dizendo que nunca tinha ficado doente e que sabia se
cuidar sozinho.
..a
própria família tende a ter certas expectativas em relação ao
comportamento adequado e esperado para um velhinho. Dessa forma, os
familiares podem não incentivar e até punir o comportamento social e a
prática de atividades do idoso. (LESBAUPIN e MALERBI, 2006, p. 51).
Aquilo para nossa família era
uma vergonha, então certo dia eu o coloquei no carro e disse-lhe que o
levaria para conhecer um lugar onde ele ficaria apenas um mês, tempo
para que eu desse uma ajeitada no imóvel que carecia de uma reforma
urgente, se gostasse moraria lá, caso contrário voltaria para sua casa.
Era uma casa de repouso. Ele
contestou, mas eu disse que era apenas uma experiência e se quisesse
poderia voltar um mês depois. Muito contra gosto, depois de discutirmos
muito, acabou ficando.
Uma semana depois quem visse
não reconheceria mais meu pai. Lá ele foi obrigado a tomar banho todos
os dias; comer na hora certa o que serviam no cardápio preparado por uma
nutricionista; usar chinelos ao invés de tamancos, para não incomodar os
outros e por questão de segurança não podia sair às ruas.
Enquanto isto eu mandei limpar
a casa. Saíram de lá algumas caçambas de lixo. Logo, uma construtora que
já estava interessada no imóvel fez sua proposta de compra, afinal a
localização era privilegiada, um lugar estratégico para a construção de
mais um prédio. Como tinha procuração dele, negociei o imóvel em troca
de dois apartamentos no prédio a ser construído. Tudo foi muito rápido.
Depois soube que eles já vinham sondando meu pai, que os punha para
correr.
Depois de quinze dias na casa
de repouso, contei a ele a novidade. Não disse nada. Uma semana depois o
convidei para dar uma volta de carro, passei na frente da casa para ver
a reação dele, fingiu que não viu. Quando o mês terminou não pediu para
voltar.
Claro, ele não era bobo, se
apaixonou pela nova moradia! Aprendeu a tomar banho, comia do bom e do
melhor, fez novas amizades, não precisava se preocupar com mais nada!
Nem reclamar mais, ele reclamava.
Surpresa com o relato, ela
lembrou que, em geral, conhecia situações exatamente ao contrário, visto
que o idoso que tem família, no início da internação, costumava
apresentar sinais de depressão devido a morte social a que tinha sido
submetido.
... a
autodesvalorização do idoso decorre de estereótipos negativos
construídos pela sociedade..... que julga a velhice uma sobrevida
inútil, uma morte social prolongada e dolorida para o indivíduo. (LESBAUPIN
e MALERBI, 2006, p. 51).
Esta morte é representada pelo
rompimento dos laços que vinculam o idoso ao local onde mora, seus
vizinhos, atividades desenvolvidas, perda de autonomia e independência
entre outros.
Muitos idosos acabavam
morrendo no primeiro ano da mudança, pois lhes era difícil superar estas
perdas.
E entusiasmada lhe disse:
-: o Senhor é uma pessoa
privilegiada, pois a adaptação de seu pai foi fantástica! Quanto tempo
ele ficou lá?
Com ar sem graça, respondeu:
-: três meses! Mas tenho
certeza que meu pai estava feliz. Pois quando o médico ligou para
informar sobre o óbito, garantiu que na hora do desenlace meu pai trazia
um sorriso de felicidade no rosto.
Naquele momento a conversa
terminou. De pronto ela lembrou que tinha que buscar o neto, ainda
inexistente, na escola e despediu-se apressadamente para, longe, chorar
a dor que aquele idoso escondeu!
Bibliografia
LESBAUPIN, Sandra Forjaz.
MALERBI, Fani. O idoso por ele mesmo. Revista Kairós, São Paulo,
9(2), dez. 2006, pp. 51-67.
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br