As férias escolares da garotinha chegaram e com ela os problemas para a mãe
executiva.
Deixá-la em casa com a empregada era difícil para a mãe, pois as atividades
se resumiam em TV + TV + TV... Ela sabia disto, mas não queria incomodar a
família. Todavia no segundo dia a garotinha já estava amuada, manhosa e com
olhar tristonho, por ser uma menina muito comunicativa e inteligente
precisava de “ação”.
Quando a avó soube, de pronto, dispôs-se a buscar a netinha e ficar com ela
durante a semana.
Na manha seguinte a avó tomou banho, vestiu-se com uma roupa leve devido ao
calor, e, arrumada foi buscar a neta.
Instaladas no carro, a garotinha sentada na cadeirinha apropriada no banco
de trás e a avó no volante, as duas começaram conversar. Combinaram de fazer
panquecas, ir ao supermercado, brincar de médica e paciente e montar a
piscina infantil no quintal da casa se fizesse sol.
Quando a avó falou sobre o sol a garotinha calou-se, pensou um pouco e
depois perguntou:
-: vovó, quando vai ter neve aqui?
A avó respondeu:
-: aqui não temos neve, meu amor. A gente está no Brasil. Nesta época faz
muito calor e chove...
Um minuto depois a garotinha estava aos berros, chorando tão alto que a avó
se assustou. Aflita a avó deu seta e encostou o carro imediatamente. Ligou o
pisca alerta, tirou o cinto e se jogou para o banco de trás querendo saber o
que tinha acontecido, se algo estava machucando-a... E preocupada perguntou:
-: o que foi meu amor? Você se machucou?
A garotinha em lágrimas questionou:
-: vovó aqui não tem neve?
A avó respondeu:
-: não meu amor, aqui não tem neve, mas porque você está chorando?
E a menina, ainda soluçando perguntou:
-: então a gente não vai ter natal?!?
A avó se deu conta que a mensagem do natal estava chegando de forma
equivocada para a netinha. Acariciou seus cabelos, beijou sua face e lhe
disse que ela iria lhe mostrar a história do natal com e também sem neve.
Mais tarde, com um livro apropriado para uma criança da idade dela, contou a
história do nascimento do Menino Jesus à garotinha, mostrou a figura da
manjedoura, da Estrela de Belém, de Maria, José, dos três Reis Magos. Ela
encantada ouviu a história e viu as imagens do livro, fez algumas perguntas
e depois, satisfeita foi brincar.
Na véspera de natal a família se reuniu. Doze adultos e duas crianças.
Jantaram, oraram e começaram a distribuir os presentes que já estavam
embaixo da árvore de natal, devidamente etiquetados com os dizeres: “do
papai Noel para...”, “da mamãe para...”, “do vovô para...”, “do titio
para...” e dai por diante.
Logicamente as crianças ganharam muito mais presentes que os adultos, os
pacotes grandes, médios e pequenos se avolumavam ao lado das pequenas...
A netinha então começou a olhar para os pacotes e foi abrindo um atrás do
outro, mas sempre atenta à distribuição, a ponto de parar de desembrulhar
seus pacotes para ver quem era o felizardo que iria receber o próximo
presente. É claro que aquela curiosidade chamou a atenção, mas ninguém
perguntou nada. Ao final ela deixou um dos pacotes grandes que havia ganhado
fechado. Quando questionada se não iria abrir o último pacote, ela respondeu
que não.
Quando todos os presentes já tinham sido entregues e a sobremesa servida, a
mãe da menina sugeriu que as crianças deveriam ir dormir, pois já era tarde
e no dia seguinte se quisessem elas poderiam levantar cedo e brincar a
vontade.
A garotinha então disse que queria agradecer ao Papai do Céu, pelo dia feliz
que tiveram. A família surpresa silenciou e esperou que ela falasse.
Eis a prece que ela fez:
-: “querido Papai do Céu, obrigada pelo dia de hoje. Abençoa a mocinha,
o papai, a mamãe e todo mundo. Aproveita e dá um
recadinho para o Menino Jesus: como ninguém se lembrou de dar um presente
para Ele eu dividi o que ganhei. Vou deixar este pacote embaixo da árvore.
Ele pode abrir a hora que quiser. Amém”.
A oração da garotinha de quatro anos
deixou todos de queixo caído. A
avó abraçou-a com lágrimas nos olhos e cada familiar que ali se encontrava
baixou a cabeça em sinal de profunda reflexão...
*
Advogada,
Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º
Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto
do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br
Mocinha neste caso é ela
própria.