.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 25/10/2005 17:04:08

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O Trabalho de Idosos: uma saída para a complementação da renda familiar
Por
Rosa Maria da Exaltação Coutrim

 

Nos últimos quatro anos estive envolvida com uma pesquisa[1] que teve como objetivo conhecer como é o cotidiano dos idosos que trabalham e acho importante compartilhar com os leitores da Revista Partes alguns resultados.

Para esta investigação foram entrevistados homens e mulheres de baixa renda que trabalham nas ruas de Belo Horizonte como catadores de material reciclável, engraxates, camelôs, entre outros. Todos os informantes tinham 60 anos ou mais e revelaram que o seu papel dentro de casa é fundamental para o sustento de sua família constituída, na grande maioria dos casos, por filhas e filhos solteiros, casados, separados, viúvos e com filhos.

Estes avós trabalhadores correspondiam, em 2003, a 14% dos trabalhadores informais cadastrados na prefeitura de Belo Horizonte. Este percentual é significativo, se observamos o desgaste que este tipo de trabalho causa nos idosos que apresentaram principalmente doenças cardíacas, hipertensão, problemas circulatórios e nas articulações e diabetes.

Sua jornada de trabalho é longa, variando entre 8 e 14 horas diárias, e muitos chegam ainda de madrugada no local de trabalho. No caso dos catadores de material reciclável a atividade vai até às 23:00 horas, pois é à noite que o trabalho apresenta maior rendimento.

Certamente todo este esforço tem suas compensações e a sociabilidade é uma das mais significativas juntamente com o aumento do poder doméstico. Os idosos trabalhadores gostam do que fazem e não trocam suas atividades por nenhuma outra, pois, é na rua que constróem suas amizades, ao lado de outros trabalhadores na mesma situação que eles. No ambiente de trabalho, em meio à poluição, cenas de violência, chuva e sol, estes idosos se relacionam com seus fregueses, seus vizinhos de banca, os policiais e até os bandidos que passam por ali a todo momento. É neste ambiente que eles contam piadas, riem e choram de seus dramas pessoais e de outros mais jovens, que recebem com o trabalho informal assim como os mais velhos, de um a dois salários mínimos em média. A sociabilidade é construída na rua, um ambiente improvável, no qual impera o individualismo, a pressa, o medo e a impessoalidade e longe dos redutos atuais dos idosos contemporâneos que são os bailes de terceira idade, os grupos de melhor idade e a casa.

A família, embora tenha deixado de ser o centro das atenções destas pessoas, ainda requer cuidados e, os netos, são considerados os mais frágeis dentro do domicílio. É para eles que se dirigem as atenções e os presentes, que podem vir em forma de dinheiro, do pagamento de um curso complementar, de uma carteira de motorista, ou de um doce predileto. Os pais destas crianças e jovens, desempregados ou com baixos salários e com dificuldades para obter sua própria moradia, dividem o espaço da casa ou do lote dos idosos. Por isso, em quase a totalidade dos casos, foram encontrados casos de coabitação de duas, três e até quatro gerações cujos chefes do domicílio são os idosos.

Isto significa que, na medida que o idoso se considera e é considerado o chefe do domicílio, seu poder doméstico aumenta, conferindo-lhe autoridade sobre as decisões e, portanto, maior segurança e auto estima. Sentem-se importantes, e mais, sentem-se necessários para que a família continue não somente unida, mas vivendo com melhores condições do que se o idoso não estivesse presente.

Concluí com esta pesquisa, entre outras coisas, que o idoso trabalhador pobre mantém e constrói novos laços de sociabilidade e melhores condições de vida, não apenas para si mesmo, mas também para as gerações mais jovens alijadas do mercado de trabalho, independentemente das formas de socialização presentes na mídia e divulgadas pelos especialistas como os bailes e centros de terceira idade.


[1] Tese de Doutorado intitulada “A Velhice Invisível: o cotidiano de idosos trabalhadores nas ruas de Belo Horizonte” defendida na FAFICH - UFMG

 

 

 

 

Rosa Maria da Exaltação Coutrim é Doutora em Sociologia.
rosaexcout@intercampo.com.br.



 

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