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Desde
meados do século XX vem ocorrendo um envelhecimento conjunto da população
mundial. Esse fenômeno é reconhecidamente fruto dos avanços da medicina, que
aumentaram substancialmente a expectativa de vida dos indivíduos, sobretudo em
países mais desenvolvidos, onde se constituíram redes de proteção social ligadas
aos sistemas de saúde e previdência. Em decorrência disso, passou a existir uma
demanda entre as ciências sociais pela conceitualização desses novos
atores do processo de envelhecimento, o que deu origem, entre outros, ao termo
Terceira Idade, como categoria analítica a partir da qual se procura entender
este universo de pessoas de um modo distante dos estereótipos e preconceitos que
geralmente lhes são atribuídos. No entanto, a percepção que ainda parece
persistir é a de que velhice está associada a fatores negativos, como doenças,
improdutividade, tristeza, solidão e morte.
O lugar
conferido ao idoso no espaço social decorre do aparecimento de novas
identidades, entre as quais a da juventude como condição ideal de vida e ação
sobre o mundo em que vivemos. Na segunda metade do século XX, o jovem e o
adolescente conquistaram espaços na sociedade de consumo, através da emergência
de ritmos próprios e do aparecimento de artistas que expressavam um
comportamento peculiar a esta faixa-etária, dando visibilidade aos segmentos
sociais que dela participavam. A década de oitenta do século passado iniciou um
frenético culto ao corpo, dando origem ao que Jean-Jacques Courtine
(1995)
chamou de cultura do “músculo-espetáculo”, que originou uma verdadeira indústria
de aparelhos de musculação, suplementos nutricionais e revistas especializadas.
O corpo humano tornou-se objeto plástico, cuja forma pode ser moldada ao
bel-prazer do “portador”. Nessa nova era do extreme make-over, vale
recorrer a quaisquer meios para enquadrar-se em padrões estéticos estabelecidos,
de modo a escamotear os efeitos da idade. Com isso, muitos parecem sofrer de uma
síndrome de Dorian Gray, personagem-título da obra de Oscar Wilde
(1998),
vivenciando um regime de negação do processo natural de amadurecimento.
A
redefinição de identidades ligadas à idade cronológica concorreu para
transformar as relações familiares e de poder entre as gerações, o que remodelou
a posição dos mais idosos, que antes detinham um monopólio das decisões. A
família patriarcal cedeu espaços para novos arranjos familiares, que
enfraqueceram cada vez mais a figura do patriarca. Em um ensaio sobre a família
nos tempos da globalização, Giddens
(2003, p.
61)
notou que “entre todas as mudanças que estão se dando no mundo, nenhuma é mais
importante do que aquelas que acontecem em nossas vidas pessoais – na
sexualidade, no casamento e na família”. Essas mudanças estão acontecendo,
segundo o autor, no sentido da democratização das relações familiares, pondo fim
a desigualdades entre homens, mulheres e crianças, entre pais e filhos, que eram
o fundamento da família tradicional.
Esses e
outros fenômenos contribuíram para alterar a concepção de velhice, enxergando-a
não apenas como um período da vida associado a doenças, depressão, rabugice e
solidão. De acordo com alguns estudiosos, como Zimerman
(2000),
estas não seriam peculiaridades de uma faixa-etária em especial. A condição de
idoso, tal como vem acontecendo em relação à família, também tem deixado de ser
concebida apenas como um estado de natureza. A conclusão a que tem chegado os
especialistas é a de que a personalidade, ou o estado de saúde de uma pessoa não
muda radicalmente apenas porque ela passou de uma faixa de idade para outra.
Para Zimerman
(2000, p.
19),
“velho é aquele que tem diversas idades: a idade do seu corpo, da sua história
genética, da sua parte psicológica e da sua ligação com a sociedade”. Esta
definição evidencia a complexidade do fenômeno do envelhecimento, bem como emite
um alerta para os riscos das generalizações a que estudiosos estão sujeitos,
ainda que bem-intencionados.
O
envelhecimento da população mundial é um fenômeno constatado nas estatísticas,
seja em números relativos ou absolutos. Segundo informações do IBGE (2002), a
população de idosos no mundo em 1950 era de cerca de 204 milhões, passando para
579 milhões em 1998. Um crescimento relativo de pouco mais de 180% em quase
cinco décadas. Ainda conforme essa instituição, o número de habitantes com 60
anos ou mais no Brasil, em 1991, era de 10,7 milhões, correspondendo a uma
população de idosos maior que a de vários países da Europa, como Inglaterra (9,8
milhões) e Portugal (9,7 milhões). O fenômeno da transição demográfica, que muda
a estrutura etária da população, evidenciando o envelhecimento da mesma, é,
portanto, uma realidade no Brasil há mais de uma década. As conseqüências dessas
mudanças se fazem sentir, a princípio, na economia e, em seguida, nas esferas
social, política e cultural. Na verdade, com Veras
(2004, p.
5),
constata-se que “ocorre não somente um aumento da população idosa, mas também um
envelhecimento desta população, com um número maior de idosos nas faixas etárias
mais elevadas”. Isto implica que, um trabalho de pesquisa que visa prover
soluções para a Terceira Idade, necessita distribuir os elementos pesquisados em
faixas-etárias.
Em
países como o Brasil, tidos como economias em desenvolvimento, são considerados
idosos os indivíduos que têm 60 anos ou mais (vide a
Lei nº 8842/94, ou Estatuto do Idoso).
Entretanto, como afirma Veras
(2004, p.
4),
“é difícil caracterizar uma pessoa como idosa utilizando como único critério, a
idade”. Segundo o autor, o segmento da Terceira Idade abarca um público bastante
heterogêneo, seja pelo prisma social, político ou econômico, entre outros
indicadores. Esta população apresenta relevantes diferenciais no que tange a
fatores como sexo, educação e renda.
Outro
fenômeno que acompanha o envelhecimento é a feminização da velhice, ou seja, de
acordo com o IBGE (2002), a maioria dos idosos no Brasil é do sexo feminino,
população que era de 5,7 milhões em 1991 e passou para 8,5 milhões em 2002, o
que representa um aumento relativo de cerca de 50% em onze anos. O público idoso
masculino, no mesmo período, passou de 4,9 milhões para 6,5 milhões. Além da
evidente inferioridade em valores absolutos, o crescimento relativo ficou por
volta de 40%. Parece claro que essa constatação deverá receber criteriosa
atenção em qualquer programa de atendimento que se pretenda desenvolver para o
público da Terceira Idade. Nesse contexto, Veras (2004, p. 7) destaca os
contrastes existentes nessa camada populacional, onde, muito embora o aumento do
tempo de vida represente melhoria dos parâmetros de saúde, tais conquistas se
fazem de forma desigual, dependendo de cada país e contexto. Sem falar que a
ampliação da perspectiva de vida traz como natural conseqüência a ampliação da
população idosa. Esse panorama traz implícito em suas nuances o desafio de, nas
palavras do autor, “manter as pessoas de mais idade socialmente atuantes e
participativas” (Id.,p. 9). Afirma também que este cenário parece implicar que
“o novo objetivo da Gerontologia deverá ser o aumento da expectativa de vida
saudável, com manutenção da capacidade funcional até o período mais próximo
possível da morte” (Ibid.). Entretanto, o autor adverte que essa concepção, ao
contrário do constatado empiricamente nas pesquisas epidemiológicas, pelo seu
caráter idealista pode gerar equívocos.
Diante
da verificação objetiva do gradativo envelhecimento da população brasileira,
faz-se necessária uma análise dos aspectos evidenciados por esse processo numa
esfera que tem grande influência para a Educação: a dimensão social. Muito
embora todas as áreas conservem seu impacto em maior ou menor grau, é no âmbito
social que as conseqüências do envelhecer se farão sentir com mais intensidade
em programas educacionais.
Uma
evidência clara da extensão desses efeitos sociais é a constatação da
heterogeneidade do fenômeno do envelhecimento. Assis (2004, p. 11) destaca que
“o envelhecimento humano é um fato reconhecidamente heterogêneo, influenciado
por aspectos socioculturais, políticos e econômicos, em interação dinâmica e
permanente com a dimensão biológica e subjetiva dos indivíduos”. Logo, nenhum
pesquisador deve orientar sua investigação tendo como ponto de partida a busca
de generalizações. Enquadrar a realidade do idoso em classificações
generalizantes pode fadar ao fracasso qualquer trabalho desse tipo. Num contexto
onde não se pode falar de “idoso”, mas de “idosos”, é preciso estar atento às
situações diferenciadas experimentadas pelos sujeitos da Terceira Idade. É
imperativo questionar quais suportes sociais podem contribuir para a melhoria da
qualidade de vida dessa população. Deve-se conhecê-los, de preferência, por meio
de um criterioso levantamento que ajude a identificar e respeitar a diversidade
existente entre os referidos “idosos”.
Um
fator com amplas conseqüências na vida do idoso é, sem dúvida, a aposentadoria.
Além de representar, em muitos casos, a perda de poder econômico, ela traz,
conforme Assis (2004, p. 12), “o sentimento de baixa auto-estima e
desqualificação decorrente da anulação da identidade profissional”. Ao encerrar
uma era na vida do indivíduo, a do trabalho, da produtividade, a aposentadoria
retira da pessoa sua profissão, que foi seu determinante por tantos anos.
Outra
conseqüência, oriunda da aposentadoria, dessa vez apontada por Zimerman (2000,
p. 24), encontra-se no relacionamento do idoso com outras pessoas, em função de
que, ao aposentar-se, nos dias atuais, as pessoas da Terceira Idade passam a ter
pela frente muitos anos de vida, portanto, há sempre o risco de terminarem
isoladas, deprimidas ou sem propósito. O autor adverte que os contatos sociais
podem se tornar “reduzidos em função de suas possibilidades, distâncias, vida
agitada, falta de tempo, circunstâncias financeiras e a realidade da violência
nas ruas”. A própria atribuição do termo “inativo” à pessoa aposentada, se
constitui numa denominação pejorativa, que subestima em muito a capacidade
produtiva dessa classe. Retornando a Assis (2004, p. 13), pode-se ver que “a
existência de preconceito em relação ao idoso também tem origem na
supervalorização do trabalho e da produção na sociedade capitalista”. A saída
para estas questões parece ser a conscientização quanto à necessária redefinição
dos papéis sociais quando da aposentadoria. O aposentado, caso impossibilitado
de continuar sua atividade laborativa anterior, deve encontrar novo propósito,
novas formas de interagir, em suma, um novo “encaixe” social, que lhe
proporcione rumo, novos desafios e oportunidades de continuar crescendo como
pessoa e cidadão.
Conforme Mota (1990), no que diz respeito à questão da família e das relações
afetivas, o envelhecimento ocasiona outros fenômenos, como a solidão e o
sentimento de perda, em função da independência dos filhos, viuvez e
esvaziamento da casa. A diminuição da célula familiar e a inserção da mulher no
mercado de trabalho, são fatores que dificultam o atendimento às necessidades do
idoso, sobretudo em casos de doença, ou até mesmo incapacidade motora. Segundo
Assis (2004, p. 15), “nos grandes centros urbanos são agravantes a distância
entre as moradias, as dificuldades do trânsito e o pouco tempo e/ou interesse de
adultos e jovens para o contato mais estreito com seus familiares idosos”.
Não se
pode esquecer também que, nas últimas décadas, o acesso à informação tem sofrido
uma revolução, já que um montante substancial de informações produzidas pela
sociedade passou a estar disponível na rede mundial, a Internet. Este acesso
ilimitado a informações retira do idoso seu status de fonte de
experiência e sabedoria. O próprio valor da experiência dos mais velhos diminui,
uma vez que a dinâmica interativa das interfaces digitais são mais atraentes
para os jovens do que a mera transmissão oral de conhecimento. Assis (2004,
p. 15)
confirma que a “questão
do afastamento de gerações tem se intensificado nas últimas décadas em função da
rápida mudança de valores sociais e transformações tecnológicas que dificultam a
comunicação e a identidade entre jovens e velhos”. Esse
quadro parece apontar para uma efetiva exclusão digital da pessoa idosa.
Outra
questão relevante a considerar é o confronto com a morte. Embora essa condição
não seja exclusiva da velhice, é nessa fase da vida que a perspectiva do fim se
torna mais presente. A perda do cônjuge e amigos contemporâneos potencializa os
efeitos da proximidade da morte. Além disso, as perdas biológicas de força
física, reflexos e mudanças na auto-imagem, associam-se à aproximação do
horizonte limítrofe da vida para produzir um sem-número de impactos no aspecto
psicológico. Zimerman (2000, p. 25) atenta que os efeitos psicológicos do
envelhecimento precisam ser mais bem trabalhados, de acordo com a história e o
perfil de cada indivíduo. Em reforço a este ponto, Assis (2004, p. 17) declara
que as “oportunidades
sociais de inserção dos idosos são recursos valiosos para que projetos de vida
possam ser construídos ou retomados, possibilitando ao indivíduo ter um
horizonte de futuro e com isso revitalizar seu presente”. Segundo o autor,é
imperativo investir na divulgação de conhecimentos científicos que contribuam
para o desenvolvimento gradual de uma nova cultura sobre a velhice.
Como se
pode observar, é preciso primeiro conhecer, para em seguida agir proativamente,
em benefício de uma população que a sociedade parece insistir em manter alijada
do processo de desenvolvimento. Entretanto, elaborar projetos de inclusão para a
Terceira Idade requer um entendimento mais profundo do processo de
envelhecimento humano, bem como das suas conseqüências. O envelhecer gera
diferenças, isto é, submete o indivíduo a um novo universo de necessidades
especiais. O avanço da idade biológica se faz presente nos sentidos e na
capacidade motora, sem falar na dimensão cognitiva que, se não for
constantemente estimulada por situações desafiadoras, tende à estagnação ou ao
declínio.
O
primeiro passo ao se colocar o envelhecimento no centro das observações, é
alcançar a percepção de que este conceito não é sinônimo de velhice. A bem da
verdade, o envelhecimento é um processo universal, isto é, afeta todos os
indivíduos de uma espécie e ocorre ao longo do curso da vida. Portanto, o
fenômeno do envelhecimento humano abarca um conjunto de modificações
morfológicas e funcionais que afetam a todos, do nascimento até a morte.
Entretanto, como se verá mais adiante, os efeitos do envelhecer atingem os
indivíduos de forma desigual, influenciados por uma certa gama de variáveis
orgânicas e ambientais.
A
despeito do envelhecimento acompanhar o indivíduo durante a vida, é com a
chegada da velhice que seus efeitos se tornam relevantes. Por volta dos 30 anos,
o organismo do homem alcança o ápice de seu desenvolvimento biológico, começando
a sofrer, a partir daí, uma perda gradativa de funções. Segundo Santos (2003, p.
81), “o processo de envelhecimento provoca no organismo modificações biológicas,
psicológicas e sociais; porém é na velhice que esse processo aparece de forma
mais evidente”. As mudanças biológicas se fazem presentes em duas dimensões: a
morfológica e a fisiológica. Na primeira, encontram-se as modificações
relacionadas à aparência, como rugas e cabelos grisalhos. Na segunda, estão as
associadas às alterações das funções orgânicas. Da ordem fisiológica, há ainda
transformações nas reações bioquímicas do organismo. Já as mudanças psicológicas
ocorrem pela necessidade de adaptação do indivíduo às modificações do seu
cotidiano. Conseqüentemente, todo esse processo tem repercussões no âmbito
social. Portanto, quando do alcance da velhice, o indivíduo depara-se com um
conjunto de mudanças biológicas (morfológicas, fisiológicas e bioquímicas),
psicológicas e sociais. Daí a fundamental importância do estudo do
envelhecimento nos seus aspectos biopsicossociais.
Uma
grande contribuição para a compreensão do envelhecer na sua heterogeneidade é a
distinção entre idade cronológica e idade biológica. A idade cronológica é
definida por Motta (2004, p. 117) como “o tempo transcorrido a partir de um
ponto: a data de nascimento”. Entretanto, segundo a autora, “esta medida [...]
tem um sentido apenas legal ou social”. Isto porque, apesar dos efeitos do
envelhecimento ocorrerem no tempo, eles não ocorrem exclusivamente por sua
causa. O envelhecer, em geral, é influenciado também pelo surgimento de
enfermidades e pela influência de fatores socioeconômicos e/ou ambientais.
Assim,
a idade não é um determinante do processo, mas antes o modo de vida do
indivíduo. Portanto, se por um lado, a idade cronológica é de fácil mensuração,
a idade biológica se mostra de aferição mais complexa, mormente pelo conjunto de
variáveis que impactam as mudanças ocorridas no organismo. Entretanto, a
despeito das diferenças de cada idade, o simples fato de conhecê-las e entender
suas particularidades já auxilia no diagnóstico do estado de cada sujeito. É
claro que o conjunto desses efeitos se faz sentir na esfera social, embora em
diferentes níveis. Desse ponto de vista, o envelhecimento espelha uma série de
fatores individuais, procedentes do âmbito educacional, das atividades
laborativas, bem como das experiências vividas. Nos dias atuais, existe um
esforço por focar de maneira positiva o envelhecimento, buscando a minimização
das perdas e a potencialização das vivências.
O idoso
saudável e equilibrado, portanto, será aquele que, no decorrer do seu processo
de envelhecimento, mantiver certo nível de estabilidade nas suas funções
biopsicossociais. No entanto, embora seja importante reconhecer padrões de
desenvolvimento equilibrados, não se pode atentar somente para as faixas
consideradas normais. É nos extravios e nas perdas oriundas das transformações
causadas pelo envelhecimento que se encontra a perspectiva da busca pela
inclusão. Afinal, é pelo atendimento às especificidades geradas pela velhice que
se espera ampliar o surgimento de oportunidades inclusivas para essa população.
E a via da Educação é, sem dúvida, uma delas. Na verdade, em qualquer programa
educacional, são as alterações nos sentidos e nas funções cognitivas que
demandarão maior atenção.
No que
se refere aos órgãos dos sentidos, nos idosos são observadas muitas alterações
nas funções perceptivas em função da idade. As modificações relacionadas à
acuidade visual são freqüentemente encontradas nas pessoas idosas. Estas
alterações podem ter reflexos diretos no ato da leitura e na interatividade com
telas de computador. A presbiopia, conhecida como “vista cansada”, incide com
freqüência em idosos, quando o cristalino fica mais espesso e mais pesado com a
idade, reduzindo a capacidade de foco em objetos próximos. O sintoma mais
evidente desse tipo de alteração é a dificuldade de ler, principalmente, letras
miúdas. Na audição, mudanças de ordem estrutural levam à diminuição da acuidade
auditiva de freqüências mais altas, bem como à redução da capacidade de
identificar sons.
No que
tange ao declínio das funções cognitivas, é preciso relativizar o processo,
associando-o ao estilo de vida do idoso. Geralmente, as mudanças cognitivas
podem ser acentuadas quando o idoso está exposto a ambientes estressantes, má
alimentação, falta de condicionamento físico, quando está sujeito a trabalho
excessivo, depressão ou outros problemas de ordem emocional. Isto sem levar em
conta possíveis problemas relacionados a enfermidades. Hayflick (1996) afirma
que há grandes evidências de declínios relacionados ao processo cognitivo
envolvendo a capacidade de manter atenção, a memória, a velocidade de processar
informações, a emissão de conclusões e a interpretação e compreensão do
discurso.
Entretanto, já se sabe que, se o idoso mantiver a mente em atividade constante,
submetida a estímulos desafiadores, a tendência é não só a manutenção, mas até o
incremento das funções mentais. Como se pode ver com Mattos (1999), é importante
ressaltar que idosos que não apresentem problemas que comprometam suas
atividades, permanecem com as funções intactas e sofrem o mínimo de
comprometimento das mesmas. Destarte, mudanças cognitivas que não comprometem o
dia-a-dia do indivíduo costumam surgir a partir da quarta ou quinta década da
vida. Estas transformações evoluem de forma bastante variável entre os
indivíduos, conforme uma variedade de fatores já citados. Fica cada vez mais
evidente que a idade cronológica não é o indicador mais confiável para prever as
modificações oriundas do processo de envelhecimento.
Assim,
através de um desenvolvimento equilibrado, no que diz respeito aos aspectos
biopsicossociais da velhice, é possível criar condições para um envelhecimento
sem traumas, capaz de proporcionar crescimento até mesmo para um indivíduo em
idade mais avançada. É vital, no afã de se desenvolver projetos que atendam às
necessidades da Terceira Idade, perceber e respeitar as diferenças, fugir das
generalizações e compreender que cada indivíduo é único, trazendo em sua bagagem
a herança genética, seu perfil psicológico e sua experiência de vida.
Na
verdade, é preciso que ocorra um engajamento macro, envolvendo uma parcela maior
da sociedade, nesta causa tão presente, cujos impactos se fazem sentir nas
esferas econômica, política e social. É necessário adquirir consciência do
status atual, que é conseqüência das transformações na pirâmide etária
populacional do país. A percepção da realidade, bem como a constatação da sua
problemática, deve levar a decisões estratégicas que se transformem em soluções
positivas a serem implementadas em médio e longo prazos. Programas específicos,
tanto na área educacional, como na área de saúde, devem ser elaborados, a fim de
ampliar a qualidade de vida desse contingente considerável da população que
ultrapassou a barreira dos sessenta anos. A despeito da idade considerada
avançada, esse segmento ainda tem muito que contribuir para o crescimento e
avanço da sociedade. Caso contrário, corre-se o risco de terminar como Dorian
Gray, esfaqueando o próprio retrato distorcido, numa vã tentativa de fugir da
ação do tempo, apenas para se deparar com o próprio fim.
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