Embora ela já tivesse
pouco mais de 60 anos, ninguém acreditava. Por ser muito ativa,
trabalhava o dia todo como representante comercial de cosméticos. Ia
para lá e para cá sempre vendendo ilusão e esperança em potinhos de
creme, pós-de-arroz, batons, rímel e sombras às mulheres sonhadoras.
Certo dia recebeu um
convite personalizado para participar do evento Master da área em que
atuava. Haveria palestras, premiações, almoço, coffee break e um
espaço onde as novidades ficariam expostas permitindo um contato mais
próximo entre o produtor, fornecedor e seus representantes - a chamada
praça de relacionamento.
Enfim era um evento
social de grande porte.
Ela era uma mulher
elegante, alta, magra e momentaneamente tinha cabelos louros e cortados
na altura dos ombros. Na verdade ninguém sabia ao certo qual era a cor
original de seus cabelos, pois a cada encontro eles estavam com uma cor
diferente.
Usava salto alto e em
ocasiões como aquela caprichava na maquiagem e vestia-se de preto. Fazia
o tipo fatal, sempre chamava atenção para si! E, quando estava sozinha
não abria mão dos óculos escuros.
Como todos sabem os
óculos escuros usados em ambientes fechados podem gerar varias
interpretações – disfarçar a timidez; manter distância; querer
demonstrar superioridade; arrogância; proteção à fotofobia que nada mais
é do que sensibilidade à claridade e doenças diversas como conjuntivite,
tersol, resguardo de cirurgia oftalmológica...
Foi exatamente assim
que ela compareceu ao evento. Loura, de salto alto, vestido preto e
óculos escuro para encobrir – talvez – a timidez, a fotofobia ou manter
a distância... Não saberia dizer, para si mesma, exatamente o porquê
daqueles óculos escuros, embora ele melhorasse sua visão já que as
lentes tinham grau.
Ao ser cumprimentada,
sempre ouvia elogios à sua performance. Onde passava percebia os
comentários positivos sobre sua beleza madura e a segurança que
transparecia.
Aquele dia não seria
diferente, mas ficaria marcado para sempre em sua memória.
As palestras propostas
eram técnicas, e para não cansar eram entremeadas por palestras
motivacionais. A cada três palestras uma parada. As três primeiras foram
seguidas por um laudo almoço. Mais três e veio o coffee break.
Faltavam as três últimas para o encerramento e a premiação.
Ela serviu-se de café,
deu uma volta, viu os quitutes e entre eles empadinha. Ah, empadinhas
eram exatamente sua paixão gastronômica. Comeu uma e adorou. Comeu a
segunda, a terceira, a quarta, quanto pegou a quinta empadinha viu o
molho de pimenta, sua boca salivou. Melhor que empadinha, só mesmo
empadinha com pimenta.
Imaginou que fosse um
molho suave e colocou algumas gotas do molho vermelho e denso na
empadinha. Mas quando mordeu percebeu que havia se enganado e, portanto
exagerado na pimenta. Ao sentir os olhos lacrimejarem e o ardor
sufocante na garganta, catou o primeiro copo cheio que viu a sua frente
e jogou na boca. Mas não era água, nem suco, era um drink com alto teor
alcoólico. E acabou por se engasgar.
Aflita começou a se
debater, por não conseguir falar, agitava os braços dando sinais de seu
sufocamento. As pessoas a sua volta não entendiam o que estava
acontecendo. No seu desespero esbarrou e derrubou uma mulher que cruzava
seu caminho. O rebu fez com todos olhassem para o local onde ela estava.
Até que um rapaz
corpulento que já havia participado de um treinamento de primeiros
socorros, deu alerta:
-: ela está engasgada!
E de pronto se
posicionou. Colocou-se nas costas dela e cruzando as mãos em frente ao
seu estômago começou a pressionar e soltar de forma que se houvesse
qualquer coisa entalada em sua garganta seria expelido.
Em poucos segundos o
alvoroço estava formado e um grande aglomerado de pessoas a volta
assistia a tudo de olhos arregalados por verem a expressão de sofrimento
dela e a habilidade do candidato a herói.
Foi no último
solavanco que se ouviu PLEC! PLEC! PLEC! E junto com isto ela, já quase
desfalecida, finalmente voltou a respirar.
Alguém já havia
providenciado uma cadeira onde a acomodaram e ao sentir o ar fluir
livremente em seus pulmões, pálida e trêmula ela aspirava e inspirava
profundamente de olhos fechados tentando recompor-se. Enquanto isto o
público aplaudia, cumprimentava e abraçava o mais novo herói!
A seguir uma gentil
senhorita do comitê organizador trouxe os óculos escuros que havia caído
e oferecendo-lhe o braço, convidou-a para ir até a toalete retocar a
maquiagem borrada, pois sabia que assim em pouco tempo o episódio seria
esquecido e tudo voltaria ao normal.
Todavia ao entrar no
banheiro e olhar-se no espelho ela tomou um choque, levantou as mãos
cobrindo o rosto e quase engasgou de novo! Ou melhor, quase desmaiou!
Abriu um olho só entre os dedos e olhou novamente, olhou para se
certificar se era verdade o que tinha visto, e não acreditou, sentiu um
arrepio que percorreu sua espinha dorsal...
Perdeu a compostura,
saiu correndo pelo salão, tropeçando nas pessoas, de cabeça baixa,
olhando somente para o chão! Num cantinho lá estava o motivo de todo seu
horror, da sua vergonha...
Lá estava ela...
Parecia lhe sorrir, mas era um sorriso de vingança devido ao tombo... A
bandida estava banguela, pois um dente da frente havia quebrado e
continuava caída no chão!
Abaixou-se, catou a
danada da dentadura, enfiou-a na boca e foi embora envergonhada jurando
mudar de profissão.
Se antes vendia ilusão
e esperança em potinhos de creme, pós, batons, rímel e sombra às
mulheres sonhadoras, a partir daí passou a vender planos de saúde
odontológicos com direito a implantes. Diz a todos, com um largo
sorriso, que está vendendo segurança e autoestima, em forma de dentes!
Está se dando tão bem
que não quis mais arriscar. Para se garantir, ela nunca mais comeu
empadinha e pimenta então, nem pensar!
Quanto aos implantes,
bem, por enquanto está usando COREGA!
*
Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br