Grossas lágrimas desciam
daquele rosto magro e envelhecido...
Com a mão direita, rapidamente, ele puxava a gola da camiseta e secava
as lágrimas.
O baile mal começara e os
músicos ainda afinavam os equipamentos tocando uma música de Benito de
Paula – Retalhos de Cetim – enquanto isto os convidados vinham chegando,
sempre em pequenos grupos. O salão estava decorado com grandes máscaras,
muita serpentina e um pouco de confete.
Quando a
cuíca gemeu, o baile começou! O surdo já se fazia ouvir e Allah-La ÔÔÔÔÔ,
foi a marchinha que saudou o público em geral. Dai em diante era uma
atrás da outra - A jardineira, ali-babá, chiquita bacana, gelinho, as
pastorinhas, máscara negra, mamãe eu quero, bandeira branca,
sassaricando, ta-hí, pó de mico, cachaça, entre outras..
Curiosamente a cada início de uma nova marchinha, ele chorava com mais
intensidade e repetia o ato de secar as lágrimas na gola da camiseta. De
longe, quem o observasse via que, ora um, ora outro - pessoas que ali
trabalhavam, aproximavam-se dele e lhes diziam alguma coisa, mas ele
apenas acenava com a cabeça negativamente.
Durante
a festa, cordões circulavam no salão, alguns dançavam em rodas, outros
em duplas, outros ainda dançavam sozinhos e alguns poucos apenas
apreciavam. Fantasiados, mascarados, com colares, perucas, chapéus ou
cartolas, os foliões se divertiam. Sorriso para todo lado e muita
cantoria acompanhando as melodias. Só ele era exceção!
Houve
uma parada para o lanche, devido a festa o cardápio era especial -
pastel, refrigerante e sorvete para todos - um abuso tolerado naquele
dia.
Os
músicos descansaram, comeram, beberam, tomaram fôlego e minutos depois
com a cuíca gemendo novamente, voltaram a cantar e a turma a dançar..
Quando
finalmente a banda começou a tocar “está chegando a hora”, acenos de
despedida eram vistos em todo o salão e aquele que fosse observador,
poderia ver no rosto de muitos a saudade antecipada que esta festa
deixaria.
A dança
é uma atividade física de corpo e alma. Somos um corpo inteligente, um
corpo que sonha, reage, se emociona, sofre e que têm afetos. Cada um tem
uma história corporal. Nosso corpo cresce com a experiência da atividade
que praticamos com ele. (SÉ, 2008).
Acenos,
abraços, beijos, agradecimentos e a promessa de voltar, encerraram o
evento.
Isto
aconteceu numa ILPI
com muitos cadeirantes, na tarde de domingo de carnaval deste ano.
Dentre
os projetos educacionais realizados com esse segmento, destacam-se
aqueles que incluem atividades musicais, pelo seu significado
relacionado à satisfação e ao prazer. (LUZ e SILVEIRA, 2005, p. 253).
Depois
dos equipamentos de som desmontados, espaço varrido e móveis no lugar, a
equipe de voluntários foi despedir-se de todos idosos, um a um.
Quando
chegou a vez da despedida do idoso choroso, que vitimado por vários AVCs,
mexia somente o braço direito e a cabeça, e vivia amarrado na cadeira de
rodas por cintas especiais para ser deslocado de um ambiente para outro
e poder participar de algumas atividades, alguém curioso, abraçando-o
carinhosamente, lançou a pergunta:
-: por
que tantas lágrimas derramadas num baile de carnaval? O Senhor não
gostou? Estava com dor? Porque não aceitou a proposta dos cuidadores
para ir para seus aposentos descansar?
Afinal,
todos ali presentes sabiam que ninguém era obrigado a participar das
festas promovidas naquele abrigo de idosos, e carnaval, principalmente,
costuma ser assim – a pessoa ama, ou odeia – não há meio termo.
Com toda
dificuldade que lhe é peculiar para falar, ele repondeu:
-: é que
a cada marchinha, meus dedos do pé esquerdo começavam a sambar!
Obs.:
Até aquele domingo ele mexia só o braço direito e a cabeça, a partir
daquele dia passou a mexer os dedos do pé esquerdo também!
Nossos
agradecimentos a banda MVSOM que, carinhosamente, há 6 anos nos
acompanha neste evento solidário voltado para idosos nesta ILPI.
Bibliografia:
LUZ, C.
M., SILVEIRA, N.D.R. Música na terceira idade: uma concepção
metodológica de sensibilização e iniciação à linguagem musical.
Revista Kairós, São Paulo, 8(1), jun. 2005, p 253.
Sé, E.
V. G.
Dança
ajuda a exercitar mente, concentração e memória.
<Disponível em:
http://www2.uol.com.br/vyaestelar/mentenaterceiraidade_danca.htm>.
Acesso em: 22/06/2008.
* Advogada, Mestre em
Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor,
Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e
Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br