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Resumo
Este
texto tem por objetivo apresentar um relato de experiência relacionado ao
Projeto “Oficinas de Teatro da UNATI - UNESP de Marília”. Este projeto tem por
objetivo levar a pessoa idosa a vivenciar todo o processo de criação teatral,
desde a elaboração de textos para peças coletivas, até a montagem e apresentação
para públicos distintos. A partir da criação de um espetáculo coletivo do grupo
que tratava do sentimento amoroso, os (as) alunos (as) das oficinas foram
convidados (as) a participar de um desfile de escola de samba formando a ala “O
jogo do amor”, no carnaval de 2009. Esta foi uma rica experiência que, creio,
merece, pelo seu teor progressista e inovador, ser compartilhada com os leitores
a fim de que esperanças e sonhos possam ser renovados por todos. Também pretendo
mostrar que, por meio de Projetos que aliam ensino, pesquisa e extensão, a
Universidade e a comunidade podem trabalhar em prol da melhoria da qualidade de
vida da pessoa idosa.
Palavras chave: arte, teatro, educação, terceira idade, carnaval.
Abstract
This text has like objective introduce a relate about experience in “theater
workshops project by UNATI – UNESP by Marília city”. This project has like
objective take aged person to vivify all process to theater creation, since a
text elaboratation to collective pieces until setting up and show to differents
publics. From creation by collective spectacle group that treated about feeling
in love. The pupils by workshops were invited to participate of the Samba’s
school parade in row “love games”, in carnival by 2009. It was a rich
experience for its progressive and innovate purport and I believe that it
deserve to be sharing with the readers to the purpose that hopes and dreams can
be renews to everybody. I also claim to aim, through the projects that’s
associated with the teaching , research and extension course, the University and
community can work together to further the improvement a life quality of aged
person.
Key-words:
art , theater, education, age third, carnival.
Creio
que boa parte dos leitores deva conhecer a música do compositor brasileiro
Benito Di Paula, intitulada “Retalhos de Cetim”. Diz a letra:
Ensaiei
meu samba o ano inteiro
Comprei
surdo e tamborim
Gastei
tudo em fantasia,
Era só
o que eu queria
E ela
jurou desfilar pra mim.
Minha
escola estava tão bonita,
Era
tudo o que eu queria ver
Em
retalhos de cetim eu dormi o ano inteiro
E ela
jurou desfilar pra mim.
Mas
chegou o carnaval e ela não desfilou.
Eu
chorei,
Na
avenida eu chorei,
Não
pensei que mentia a cabrocha
Que eu
tanto amei.
Esta
música tem grande significado para os alunos e alunas do Grupo de Teatro da
UNATI - UNESP, originado a partir do Projeto “Oficinas de Teatro” que o Programa
UNATI (Universidade Aberta à Terceira Idade) oferece na FFC - Faculdade de
Filosofia e Ciências – UNESP- Campus de Marília.
O
dramaturgo e escritor Augusto Boal (1991) afirma,
em seu
Teatro
do Oprimido que, no princípio, o teatro era o canto. O povo livre, cantando ao
ar livre, o carnaval, a festa. Depois as pessoas foram construindo muros
divisórios, separando ator de platéia. O Projeto “Oficinas de Teatro da UNATI -
UNESP” de Marília visa a justamente desconstruir a idéia de que apenas alguns
podem atuar. Partimos da premissa de Boal (1991) de que todos os participantes
podem ser atores e mais, podem tornar-se criadores pessoais de cultura,
escrevendo e montando os próprios trabalhos.
A
história do Projeto “Oficinas de Teatro” e do grupo de teatro da UNATI que se
formou a partir das atividades realizadas nas Oficinas começou em 1999. De lá
para cá, muitas peças teatrais foram criadas pelo próprio grupo, que escreve
textos, escolhe temas, monta e apresenta as peças, baseadas em suas histórias de
vida e cotidianidade. Este Projeto visa a aliar ensino, pesquisa e extensão
universitária, tripé de uma Universidade Pública de qualidade. O Projeto
“Oficinas de Teatro da UNATI - UNESP” está ligado à Pró Reitoria de Extensão
Universitária – PROEX – UNESP e conta hoje com 22 participantes: dois homens e
vinte mulheres.
Mas a
história que vou aqui contar é específica e começa no ano de 2006, quando o
grupo de alunas (os) apresentou, pela primeira vez para um público estimado em
250 pessoas o espetáculo “Contando coisas de amor”. Este espetáculo começou a
ser preparado dois anos antes e a idéia básica para o trabalho era a de unir
poemas, histórias e “causos” de amor sofrido, coreografias, ambientações
baseadas em velhos programas de rádio, entre outros quadros. E é aí que entra a
música “Retalhos de Cetim”.
No
início do espetáculo, pessoas vestidas elegantemente de preto entram cobrindo o
rosto com belíssimas máscaras coloridas ao som de “Noite dos Mascarados”, de
Chico Buarque. Há a apresentação de uma bela coreografia do grupo e, quando a
música acaba, todos ficam imobilizados diante de um Pierrot que entra e declama
“Retalhos de Cetim” para o público.
Todos
saem, o baile de carnaval acaba e o Pierrot fica só, com seus pensamentos. A
partir daí o espetáculo apresenta o sentimento amoroso de forma muito sensível e
artística, por meio de quadros que se entrelaçam para formar o espetáculo, que
tem a duração de uma hora.
“Contando coisas de amor” foi apresentado inúmeras vezes ao público mariliense,
inclusive em 2007, por ocasião do aniversário da cidade, em evento ocorrido no
Teatro Municipal. Pelo trabalho realizado, o grupo foi homenageado na Câmara
Municipal da cidade e cada participante ganhou de presente um DVD que continha o
espetáculo gravado.
Os
convites sempre surgiram e nenhum foi recusado. No ano de 2009, “Contando coisas
de amor” fez parte das comemorações do Jubileu de Ouro da FFC- Faculdade de
Filosofia e Ciências da UNESP de Marília. E eis que, também em 2009, uma idéia
aparentemente difícil de ser colocada em prática tomou forma e um sonho foi
realizado: a participação do grupo no Carnaval de Rua da cidade de Marília.
Ainda
em 2008, uma de nossas alunas teve uma conversa com um carnavalesco da cidade,
que lhe disse que o tema do samba - enredo de sua Escola seria “O jogo em jogo”.
Nossa aluna falou com ele a respeito do nosso espetáculo, que fazia uma
homenagem ao amor e aos jogos amorosos. E assim surgiu o convite: o grupo foi
convidado a formar uma ala chamada de “O jogo do amor”, dentro da proposta do
samba - enredo da escola.
A idéia
foi apresentada ao grupo de teatro que, de pronto, aceitou o convite. O próprio
figurino do nosso espetáculo serviria de base para as fantasias a serem
utilizadas na Avenida. Mas nem tudo era tão simples: algumas alunas não teriam,
por causa da idade e de problemas de saúde, condições para caminhar por vários
quarteirões pela Av. Sampaio Vidal, que no carnaval se transforma na passarela
do Samba de Marília.
Uma de
nossas alunas, de quase noventa anos, era cadeirante. Ela, inclusive, era a mais
animada de todas com a idéia. O fato de precisar de uma cadeira de rodas não a
impediria de desfilar, caso tivesse a colaboração dos amigos do grupo e de sua
família. E sua família a apoiou incondicionalmente e não mediu esforços para que
ela pudesse desfilar.
A esta
altura dos acontecimentos, eu estava felicíssima com a iniciativa do grupo e
pensava no quanto esta atitude era inovadora e no quanto ela subvertia a idéia
dos mais jovens (idéia muito conservadora, por sinal), de que idoso tem que
ficar em casa, cuidando dos netos e jogando baralho ou fazendo crochê. Eu já me
preparava para assistir ao desfile de camarote, quando ouvi a “intimação” do
grupo: _se nós vamos, você também vai, Ana Paula!
Eu,
então, percebi o tamanho do meu próprio preconceito: ficaria bem a coordenadora
do grupo, docente da Universidade, sair sambando pela Avenida, para ser vista
por milhares de pessoas, no carnaval de rua, na avenida do samba? Não
interpretariam como falta de recato? Pensei por um instante, mas aceitei o
convite. Afinal, me dei conta de que estava eu fazendo o jogo da sociedade,
pensando no que “fica bem” ou “não fica bem” para esta ou aquela pessoa, de
acordo com a profissão, idade e outras variáveis. Ora, se meu grupo de alunos
(as) estava sendo tão corajoso e estava disposto a enfrentar quarteirões
inteiros para desfilar sua alegria na Avenida, por que não eu? Sambar eu não
sabia e não sei, mas pensei: “_sei distribuir sorrisos!” E lá fui eu adentrar
nesta deliciosa empreitada.
Os dias
que antecederam o desfile foram de grande animação. Ficou combinado que todas
(os) sairiam com fantasias coloridas e as mulheres com tiaras na cabeça, na qual
haveria um coração brilhante. Abrindo a ala viriam as duas alunas mais idosas do
grupo, em cadeiras de rodas, vestidas de rosa. Atrás delas viriam os “cupidos”,
atirando flechas de amor para todos os lados. Em seguida viria todo o grupo.
Acontece que a idéia se espalhou, cresceu e não ficou apenas no âmbito do grupo.
Amigos, filhos, netos, sobrinhos, todos queriam participar da nossa ala. Então a
ala se encheu de gente de todas as idades com uma coisa muito importante em
comum: a alegria de compartilhar daquele momento único. Todos se reuniram para
aprender a cantar o samba enredo e a defender a escola, com fôlego e animação.
E no
carnaval de 2009 aconteceu! Um grupo muito grande se reuniu para formar a ala “o
jogo do amor” na avenida. Todas (os) estavam lindas (os), animadíssimas (os) e
filhos, genros, noras, netos e amigos ali juntos, prestigiavam e participavam
daquele momento. Ninguém se atrasou e tudo foi muito organizado. Foi explicado
que deveríamos ser ágeis para transitar pela Avenida e acompanhar o movimento da
escola. Isso não foi problema para o grupo.
Eu fui
fantasiada de cupido, atrás de minhas alunas, Elza e Ione, que abriram a ala.
Quando passamos, o público ovacionou emocionado e, não raro, víamos lágrimas nos
olhos de alguns. Alguns parentes da turma levaram máquinas fotográficas e
câmeras para registrar aquele momento tão intenso e feliz. Foram dois dias de
desfiles, no sábado e na segunda feira. Algumas alunas diziam que o ritmo da
bateria parecia estourar o coração e entrar por todo o corpo.
Esta
experiência foi marcante para o grupo. Passado o carnaval e os desfiles,
conversamos muito a respeito de nossa participação. Os (as) alunos (as) estavam
exultantes, principalmente porque deram de costas para o preconceito alheio e
para seus próprios preconceitos e fizeram algo que tinham vontade de fazer. A
grande maioria não tinha desfilado antes, pelo menos não em uma escola de samba,
numa avenida, com tanta gente vendo. Muitos se lembraram de antigos carnavais,
dos blocos e de lindas marchinhas, de flertes e de alegrias juvenis. Uma das
alunas falou da alegria de ver a família reunida na empreitada e na felicidade
que o apoio dos familiares lhe proporcionou.
Uma de
nossas alunas, Ione, estava radiante. Abriu nossa ala, junto com Elza, em sua
cadeira de rodas. Desfilou com toda a família e distribuiu muitos sorrisos e
animação. Não havia “samba no pé”, pois, andar, não podia. Mas o samba estava em
seu coração. Disse-nos que em sua vida esta era mais uma barreira vencida, mais
uma grande conquista. Também nos disse que estava muito feliz por participar do
grupo e que jamais se esqueceria da alegria que aquela ação despretensiosa e
divertida lhe havia proporcionado. Já estava muito animada para nosso próximo
trabalho, uma peça coletiva que o grupo estava concluindo e que se chamaria
“Joana Fulô, a dona do bar”.
Hoje a
peça está pronta e já começamos a escolher as personagens. Ione, no entanto, não
alcançou este momento. No ano passado, meses após o grande feito, ficou muito
doente. A morte venceu a vida. Uma grande tristeza se abateu sobre nós. Foi
inevitável. Mas sua alegria e disposição nos embalarão muitas e muitas vezes.
Seu sorriso na passarela do samba não será por nós esquecido.
Com
este relato de experiência, viso a apresentar um pouco das ações do Projeto
“Oficinas de Teatro da UNATI – UNESP” de Marília e refletir sobre a importância
do papel que tem a Universidade Pública no sentido de apresentar novas propostas
de ação educacional à população e de incluir, de forma crítica e não alienada,
as chamadas “minorias sociais”.
É
possível realizar pesquisas, ensino e extensão de maneira a trazer benefícios a
curto, médio e longo prazo às vidas das pessoas. E não nos esqueçamos da arte!
Elemento aglutinador, clarificador das relações sociais complexas existentes no
mundo capitalista (FISCHER, 1971), a arte nos proporciona oportunidades de
vivenciar experiências nas quais trabalhamos com a beleza, com a sensibilidade e
com o gosto.
O
carnaval de 2009 foi um marco para os alunos e alunas da UNATI! Não sabíamos se
conseguiríamos desfilar novamente. Em 2010 não foi possível, mas há outros
carnavais nos acenando e a roda da vida não para. Mas podemos exclamar,
parafraseando a música que tanto nos inspirou em momentos artísticos do grupo,
que “chegou o carnaval e ela desfilou”, ou melhor, “chegou o carnaval e todos
(as) nós desfilamos”.
Encerro
fazendo meus votos para que as pessoas idosas e também eu, ainda não considerada
idosa pelas convenções sociais continuemos em nossa busca por satisfação e
felicidade, quebrando barreiras de forma despretensiosa e “rindo na cara dos
caretas” que cerceiam sonhos e que matam esperanças, afirmando que elas são
apenas esperanças tolas ou vãs. E se forem? São legítimas e... nossas!
Referências:
BOAL, A. Teatro do
Oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1991.
CORDEIRO, Ana Paula.
Oficinas de Teatro da UNATI (Universidade Aberta à 3ª Idade) – UNESP de Marília:
a arte e o lúdico como elementos libertadores dos processos de criação teatral
da pessoa idosa. 2003, 247 p. Tese (Doutorado em Educação) FFC.
UNESP. Marília.
FISCHER, E. A necessidade da Arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
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* Sou
formada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista e Mestre e Doutora em
Educação pela Universidade Estadual Paulista. Atualmente sou docente lotada no
Departamento de Didática da Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP- Campus de
Marília – SP. Coordeno, desde 1999, o Projeto “Oficinas de Teatro da UNATI
(Universidade Aberta à 3ª Idade) – UNESP de Marília” e desde 2005 o “Projeto
LUDIBUS da FFC - UNESP”. No ano de 2009 desfilei, com muita alegria e orgulho,
juntamente com o grupo de Teatro da UNATI - UNESP, na ala “o jogo do amor”, em
uma escola de samba no carnaval de rua de Marília. Contato:
napcordeiro@marilia.unesp.br .
Como referenciar este texto:
CORDEIRO, Ana Paula.
Chegou o carnaval e ela desfilou! A pessoa idosa quebrando barreiras e
preconceitos por meio do teatro.
Partes. Outubro de 2010. Disponível em:
<http://www.partes.com.br/terceiraidade/teatro.asp>
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