
A avó materna saia da cama todos os dias às 6 horas da manhã para caminhar e
fazer ginástica visando manter a silhueta, embora adorasse dormir até tarde.
Tomava banho frio inclusive no inverno para não ressecar a pele,
embora adorasse banho quente.
Gastava um dinheirão em cremes de prevenção às rugas. A noite dormia
besuntada e durante o dia estava sempre maquiada.
Não comia muito, e comia menos ainda o que gostava, para manter o
peso controlado e as curvas no lugar. Passava longe dos doces, chocolates,
sorvetes, frituras, salgadinhos, bebidas alcóolicas. Quem via seu prato
ficava espantado, era composto por legumes cozidos com pouco sal para evitar
a retenção de líquidos, verduras e grãos diversos. Só tomava água, chazinhos
com adoçante e raramente uma taça de vinho branco.
Todo este sacrifício era em prol da aparência que ela lutava para
manter sempre jovem.
Até que um dia a netinha de dois anos e meio perguntou a mãe:
-: mamãe, o que é “velhinha”?
A mãe respondeu:
-: velhinha é uma pessoa igual a sua vovó, mamãe do papai, pequeninha,
corcundinha, cabelinho branco, banguelinha, etc.
A netinha ouviu quieta. O assunto se encerrou e a mãe achou que a
filha ficou satisfeita com a explicação.
Alguns dias depois a netinha foi visitar a avó materna, aquela que vivia se
cuidando para não envelhecer.
Quando a netinha desceu do carro saiu correndo e se jogou no colo da avó que
já a esperava de braços abertos. Beijos, abraços, carinhos trocados,
cosquinhas aqui e ali... A netinha gargalhou, abraçou de novo a avó e de
repente olhou séria para ela, tomou seu o rosto nas suas mãozinhas fez
carinho no rosto da avó e com olhar consolador, disse:
-: vovó, você ainda não é velhinha, mas vai ficar logo, logo tá bom!?!
Acariciou o rosto da avó de novo, beijou-a, sorriu e pediu para descer do
colo.
No outro dia todo mundo estranhou, a avó acordou às 10 horas da manhã, tomou
banho quente, jogou todos os cremes fora, não se maquiou e se afundou num
manjar de coco que ela adorava, mas não comia há anos.
Sorrindo, por ser questionada da mudança brusca, lembrou-se da netinha e
disse para si mesma:
-: já que logo, logo vou ficar velhinha, vou começar a aproveitar desde
já... Daqui para frente vou deitar e rolar!
*
Advogada,
Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º
Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM
Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br