|
Em comparada com as ciências exatas, onde os conceitos são
definidos claramente e estanques, as ciências sociais são diferentes
neste aspecto conceitual: os conceitos são dinâmicos, porque as
sociedades assim o são. Dentro deste entendimento, não pode diferir o
conceito de planejamento.
São muitas as definições de planejamento, assim como são muitas
as ênfases do mesmo. Mas de maneira geral, Ruschmann e Widmer (2000, p.
66) o explicam: “consiste em um conjunto de atividades que envolvem a
intenção de estabelecer condições favoráveis para alcançar objetivos
propostos”. Outras definições de planejamento fazem alusão à idéia de:
sistema; processo de determinação de objetivos; mecanismo orientado para
o futuro; e processo contínuo (BARRETTO, 1991).
Desta forma, e lançando um olhar sobre o turismo, o
planejamento aponta como uma ferramenta indispensável para o manejo
sustentável da atividade. Pois é com medidas racionais e previstas que
se trabalha em harmonia – relativa – com o meio, de modo a preservar o
turismo do próprio turismo e para o turismo. Pois sem o planejamento,
corre-se o risco de o crescimento desordenado da atividade turística
atentar contra a atratividade dos recursos e das localidades.
Isso posto, o planejamento turístico é compreendido, por
Ruschmann e Widmer (2000, p. 67) como sendo
o processo que tem
como finalidade ordenar as ações humanas sobre uma localidade turística,
bem como direcionar a construção de equipamentos e facilidades, de forma
adequada, evitando efeitos negativos nos recursos que possam destruir ou
afetar sua atratividade.
É dizer que para as autoras, o planejamento turístico pretende
dispor positivamente as ações dos sujeitos sobre uma localidade ou mesmo
um recurso turístico com objetivos calculados, a fim de proteger o
recurso propriamente dito, ou mesmo de aperfeiçoar (tanto no sentido de
ampliar, como de refrear, ou ainda em sentido estrito) seu uso
turístico.
Dito isso, faz-se necessário explanar que o planejamento tem em
si objetivos que visam alterar a realidade atual frente ao futuro,
alcançando uma situação desejada. Ruschmann e Widmer (2000) ensinam que
o planejamento, de modo genérico, aponta para o crescimento econômico
acelerado, todavia, para o planejamento turístico, os objetivos podem
estar ligados ao desenvolvimento localidades e/ou regiões turísticas, no
que concerne tanto à iniciativa pública como a privada, no que tangem à
atividade turística. Dentro deste entendimento, as autoras elencam os
principais objetivos do planejamento turístico (RUSCHMANN E WIDMER, p.
69): definir políticas e processos de implementação de equipamentos e
atividades e seus respectivos prazos; prover incentivos necessários para
estimular a implantação de equipamentos e serviços turísticos [...];
maximizar os benefícios socioeconômicos e minimizar os custos [...]
visando o bem-estar da comunidade receptora e a rentabilidade dos
empreendimentos do setor; [...] capacitar os vários serviços públicos
para a atividade turística [...]; garantir a introdução e o cumprimento
dos padrões reguladores exigidos da iniciativa privada; e garantir que a
imagem da destinação se relacione com a proteção ambiental e a qualidade
dos serviços prestados.
A partir dessas explanações, pode-se aprender que o
planejamento em si não pode ser baseado em empirismos. Particularmente
no que toca ao planejamento turístico, que sendo parte das ciências
sociais aplicadas estuda e trata de sociedades/pessoas. É dizer que em
se lidando com comunidades não se pode experimentar, pois não existem
laboratórios para tal objeto de pesquisa. Dentro deste entendimento,
cabe aqui falar que o planejamento tem seus princípios, dimensões e
classificações próprias.
Os principais princípios que orientam o planejamento, segundo
Barretto (1991, p. 15) são: o da inerência – o planejamento é
indispensável; da universalidade – o planejamento tenta prever todas as
variáveis e todas as conseqüências, [...] levando em conta todas as
opiniões [...]; da unidade – o planejamento abrange múltiplas facetas
que devem ser integradas num conjunto coerente; da previsão – [...]; e
da participação – o planejamento requer participação de todos os níveis
e setores da administração [...].
No que tange às dimensões do planejamento, Barretto (1991 p.
16) ensina que são quatro, a saber: racional; política (ou
institucional) que se refere ao poder decisório; técnico-administrativa
se evidencia no estabelecimento de um sistema de trabalho, com definição
de função e delegação de autoridade; e valorativa sendo a dimensão que
pesa os benefícios e os prejuízos que o planejamento pode ter.
Com relação à classificação do planejamento, sabe-se que pode
ser classificado em vários tipos, dependendo da abordagem. Para tal,
Barretto (1991, pp. 17-21) lista:
- aspecto temporal, obedece às classificações a seguir: curto, médio e
longo prazo;
- aspecto geográfico, corresponde às seguintes classificações: mundial;
continental; nacional; estadual; regional; multi-regional;
micro-regional; municipal (ou local), e ainda duas subclassificações:
rural e urbano;
- aspecto econômico, refere-se às seguintes classificações:
macro-econômico e micro-econômico;
- aspecto administrativo, induz às classificações: público e privado e
as subclassificações central e descentralizado;
- aspecto intencional ou teleológico, leva às seguintes
classificações:estratégico (referente aos objetivos finais) e tático
(condizente aos meios utilizados para alcançar aos objetivos); e
- aspecto agregativo indica às classificações a seguir: global;
setorial; e local, que por sua vez estão ligados à esfera geográfica, e
são inversamente proporcionais ao detalhamento.
Barretto (1991, p. 21) ainda ensina que o planejamento
turístico está elencado em três níveis: 1º. nível: Federal – que diz
respeito à orientação de planos e políticas aos Estados; 2º. nível:
Estadual – concerne a elaboração de planos e a diretrizes de planos e
políticas aos municípios; e 3º. nível: Municipal – que tem o objetivo de
executar as diretrizes dos Estados bem como as suas próprias diretrizes
de acordo com seus objetivos específicos.
Ao se estudar os conceitos e definições de planejamento, como
já dito, eles levam à idéia de sistema e de ordenação, e assim sendo, o
planejamento tem como predicado fundamental decisões sucessivas, ou
seja: etapas a serem cumpridas, a fim de alcançar os objetivos a que se
propõe. Petrocchi (2002, p. 51) lista as etapas a serem observadas:
|
Etapas
do Planejamento |
|
Item |
Etapa |
Ações |
|
1 |
Análise
macro ambiental |
conhecer o
entorno à organização, o mercado e a situação interna |
|
2 |
Elaboração
do diagnóstico |
sumário que
reflete os levantamentos da análise macroambiental |
|
3 |
Definir
objetivos |
O que se
quer atingir |
|
4 |
Determinar
prioridades |
- o que é
mais importante;
- em que
ordem |
|
5 |
Identificar
os obstáculos, as dificuldades |
- listar
quais são;
- sua
intensidade;
-
influência sobre o resultado. |
|
6 |
Criar os
meios, os mecanismos |
- visam
minimizar obstáculos;
- analisar
e escolher alternativas |
|
7 |
Dimensionar
recursos necessários |
-
quantificar os recursos;
- em que
ordem de necessidade |
|
8 |
Estabelecer
responsabilidade |
especificar
volumes padrões, fluxos, áreas críticas etc. |
|
9 |
Projetar
cronograma |
definir
prazos de execução, volumes de produção, custos, parâmetros etc. |
|
10 |
Estabelecer
pontos de controle |
- escolher
áreas-chave;
-
estabelecer critérios |
A partir da tabela de Petrocchi, pode-se analisar cada item
listado:
- análise macro ambiental: é dizer da necessidade de conhecer a
realidade na sua totalidade, todos os aspectos e todos os sujeitos
envolvidos. Neste item informações são a chave do sucesso, mas atentando
sempre para informações de referência. Particularmente no turismo, uma
das ferramentas utilizadas com sucesso para conhecer a realidade são
pesquisas estatísticas: com o turista, receptores e trade. Mas
visitas orientadas também são necessárias. Dentro da análise macro
ambiental, encontra-se o inventário turístico: o levantamento de todos
os equipamentos e recursos turísticos que uma localidade dispõe.
- A partir da tomada de conhecimento da realidade e com base na mesma,
parte-se para a diagnosticação, ou seja, levantar os pontos fortes, e os
frágeis.
- já com o diagnóstico levantado e finalizado, inicia-se a definição dos
objetivos. Essa etapa requer do planejador muita cautela, no sentido de
definir objetivos condizentes com a localidade, e que de forma real
possam ser concretizados;
- nesta ordem, deve-se colocar sobre uma planilha o ranqueamento dos
objetivos: qual deles é mais importante? Essa pergunta deve ser feita, e
respondida com base no diagnóstico e suas análises;
- ainda com base no diagnóstico e nas apreciações das informações
coletadas sobre o entorno, devem-se racionalizar os obstáculos a serem
vencidos: quais são; e que intensidade e influência têm sobre os
objetivos;
- a partir desta racionalização sobre os obstáculos, devem-se criar as
estratégias de ação;
- na seqüência desta etapa vem a quantificação e qualificação dos
recursos necessários para a execução das estratégias;
- para tal, delegar funções é importante, ou seja, determinar a equipe e
quem faz o que;
- isso posto, colocar as estratégias e seus custos em um cronograma,
apontando os prazos de execução faz-se necessário;
- mas o planejamento deve ser constantemente avaliado, não apenas para
verificar o auferimento dos objetivos, mas, sobretudo para no processo
detectar possíveis falhas. As respostas advindas da avaliação devem
alimentar o sistema do planejamento, e se necessário, as etapas revistas
a partir destas respostas.
Às etapas listadas por Petrocchi, Barretto (1991) complementa
que o planejamento tenha duas divisões: diagnóstico e prognóstico. Sendo
o diagnóstico por ela definido como “escolha delimitação do tema, na
qual o planejador deve decidir exatamente o que planejar, qual será seu
objeto de trabalho” (BARRETTO, 1991, p. 31) segundo a autora, o
diagnóstico deve ser dividido em duas fases: a preparação e a análise. E
o prognóstico deve “começar com a formulação de alternativas de
intervenção na qual o planejador deve criar caminhos para atingir seus
objetivos [...] é a etapa de decidir como fazer” (BARRETTO, 1991, p.
31).
Para ambos os autores, para as etapas do planejamento, é
necessário perceber que as informações são muito importantes, e que
estão presentes em muitas fases do mesmo. Mas cabe salientar que as
informações são relevantes justamente por induzirem as mudanças no
processo, que por sua vez leva à decisão, que deve ser implantada e
considerada. Com isso, é dizer que o planejamento deve ser escrito a
lápis, para permitir as alterações necessárias que garantam o andamento
de sucesso da atividade.
Referências:
BARRETTO, M.
Planejamento e organização do turismo. Campinas: Papirus, 1991.
PETROCCHI, M.
Planejamento e gestão do turismo. São Paulo: Futura, 2002.
RUSCHMANN, D.;
WIDMER, G. Planejamento turístico. In: ANSARAH, M. Turismo:
como aprender como ensinar. Vol 2. São Paulo: Senac, 2000. |