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RESUMO
Este
estudo pretende observar como os shoppings da cidade de Teresina
influenciam as vidas das pessoas que residem na capital. A análise é
feita a partir do contexto do espaço e das relações que lá ocorrem, e
tem o objetivo de discutir como estes centros comerciais reproduzem as
mesmas trocas que acontecem nas cidades, formando a partir daí uma mini
cidade mais incrementada.
Palavras Chave: Shoppings; Espaço; Etnografia
ABSTRACT
This study aims observing how the malls in the city of
Teresina influence the lives of people living in the capital. The
analysis is done from the context of space and relationships that occur
there and aims discussing how these malls reproduce the same changes
that occur in cities, building thereafter a mini city further enhanced.
Keywords: Shoppings; Space; Ethnography
INTRODUÇÃO
Os dois shoppings de Teresina foram
inaugurados na década de 90 e representaram um marco para a cidade. A
capital que sempre teve fama de provinciana recebeu dois grandes centros
de compras que não acrescentariam somente mais opções de compras, mas
também seriam pontos de encontro de grupos sociais, os mais diversos
possíveis, a mistura inusitada de diferentes “tribos”. O Riverside Walk
Shopping e o Teresina Shopping, inaugurados respectivamente em 1996 e em
1997, são locais propícios para uma observação introdutória a respeito
dos comportamentos de um grupo social em relação a este novo espaço.
Esta análise requer um pouco do histórico destes centros comerciais e a
sua contribuição ao longo dos últimos séculos.

Teresina Shopping (Teresina – Piauí)
Fonte: www.teresina.pi.gov.br
O precursor dos modernos Shoppings Centers data de
1461 e ainda está em plena operação, com excelentes resultados de venda.
É o Grand Bazaar, localizado em Istambul, na Turquia. Em
1828,
foi criado o primeiro shopping center nos
Estados Unidos da América,
no estado de
Rhode Island.
A
corrida pela construção destes empreendimentos tem acontecido em tempos
recentes. No Brasil eles começaram a surgir na década de 60 e tem se
espalhado até o presente.

Grand Bazaar (Istambul –
Turquia)
Fonte:
http://shoppingcentercia.blogspot.com
OS
SHOPPINGS E AS RELAÇÕES SOCIO-ESPACIAIS
Os shoppings centers, são um fenômeno dos centros
urbanos. Com o aumento da população urbana no Brasil, a especulação
imobiliária e a intensificação do trânsito, a expansão dos shoppings
teve um expressivo crescimento. Estes centros passaram a provocar uma
intensa mudança na socialização das pessoas.
Segundo Wirth (1979) apud Velho, o grau em que
o mundo contemporâneo poderá ser chamado de “urbano” não é medido
inteira ou precisamente pela proporção da população total que habita as
cidades. As influências que as cidades exercem sobre a vida social dos
homens são maiores do que poderia indicar a proporção da população
urbana. O autor quer dizer que a cidade não é somente a moradia e o
local de trabalho do homem, ela é um centro que inicia e controla a vida
econômica, política e cultural, e que atrai as mais diversas localidades
para a sua esfera e as interliga, com os seus povos e o seu universo.
As relações nos shoppings não diferem muito das
relações em uma cidade. Eles disponibilizam um ambiente acolhedor e
atraente, com sofisticação, qualidade e exclusividade. Reproduzem uma
cidade no seu interior, com serviços de saúde, bancos, corredores e
ruas, além de praças e parques. Os shoppings assim como as cidades,
acabam se tornando palco de ações sociais. Com base em Simmel (1903),
podemos observar que as relações sociais que ocorrem neste ambiente
comercial estão enquadradas nas relações de entendimento:
Todas as relações de
ânimo entre as pessoas fundamentam-se nas suas individualidades,
enquanto que as relações de entendimento contam os homens como números,
como elementos em si indiferentes, que só possuem um interesse de acordo
com suas capacidades consideráveis objetivamente.
Os serviços oferecidos para aqueles que freqüentam os
shoppings se restringem as relações puramente numerais, onde não há um
aprofundamento nas relações entre as pessoas, onde tratam os componentes
como números que não diferem um do outro. Os princípios essenciais são o
da razão, do bom senso, da igualdade e da eficiência.
A seguir, traremos as opiniões de freqüentadores dos
shoppings de Teresina, abordando especialmente as suas experiências
nestes espaços.
ETNOGRAFIA EM CAMPO: OLHARES E EXPERIÊNCIAS DOS FREQUEN-TADORES DOS
SHOPPINGS LOCAIS
A etnografia consiste em analisar
diretamente fatos ou eventos sociais, um estudo de observações e
comportamentos humanos. Com base nessa definição, mostraremos agora as
opiniões de três pessoas que residem na cidade de Teresina e que
frequentam o Teresina Shopping e o Riverside Walk Shopping.
ELMIRA ANA PACHECO SILVA - 50 anos, contadora.
“Eu
adoro ir ao shopping. Para mim ele funciona como uma válvula de escape
para o stress do dia a dia. Trabalho próximo ao Riverside e aos sábados
sempre saio do escritório e vou direto pra lá; além de, de vez em
quando, almoçar lá também. Para mim não precisa de dinheiro para estar
lá. Às vezes não tenho um “tostão”, mas passo lá pelo menos para dar uma
olhadinha nas vitrines. Eu não me canso de olhar todas, entrar nas
lojas, olhar, olhar... (risos). Eu gosto mesmo de ir sozinha porque as
pessoas não costumam aguentar o meu pique. Quando vou acompanhada das
minhas colegas do trabalho elas reclamam do cansaço, que não aguentam
mais andar em tantas lojas e, logo pedem para pararmos. Por isso, gosto
mais ainda de ir só, a não ser que seja somente para um encontro entre
amigas, aí sim é muito bom a companhia.
Normalmente não penso no shopping como um lugar para comprar, nem tenho
dinheiro sobrando para esbanjar em um lugar como o shopping, onde sei
que as coisas são mais caras. Quando preciso mesmo, corro para as lojas
populares do centro, como a Riachuelo e a C&A. Mas quando tem alguma
ocasião especial recorro aos shoppings mesmo. Lá, por outro lado tem
mais qualidade. As roupas, por exemplo, são de melhor qualidade, mais
requintadas. Eu até digo que comprar uma roupa de grife de vez em quando
faz bem para o ego de qualquer mulher.
Antes
de ter os shoppings em Teresina a gente só recorria ao centro mesmo.
Quem compra no shopping hoje comprou nas butiques do centro ontem. O
Shopping para mim é isso, significa mais do que um lugar pra comprar, eu
me sinto bem indo lá, é como um passeio pra mim é diversão mesmo. Se eu
passo mais de uma semana sem ir lá eu estranho.”
WILSON CARLOS DE ALENCAR COSTA – 24 anos,
professor.
“Acho
o shopping um lugar legal pra passear. Pra mim é mais isso mesmo. Não
sou muito fã de compras, mas quando penso em comprar alguma coisa,
principalmente para presentear alguém, vou direto ao shopping.
Pra
mim o shopping é um lugar bacana pra tomar um chopp com os meus amigos,
bater papo. Assim que o Riverside foi inaugurado, eu era pequeno, mas
lembro que tinha um apelo forte com essa questão do lazer; lembro que
tinha uma pista de patinação no gelo. Meu sonho era brincar lá. O parque
também era bem atrativo pras crianças. Lembro que minha mãe e meu pai
sempre me levavam lá com os meus dois irmãos nos fins de semana. Ainda
não sei se funciona, mas também tinha uma boate que era famosa entre os
adolescentes. Ela ficava no primeiro andar do Riverside, namorei muito
por lá (risos). Lá tinha muito lugar para brincar, além do parque no
meio tinham salas só de jogos de todos os tipos. Hoje as lojas estão
tomando de conta.
A
única coisa que eu não gosto é ver muita gente esnobe por lá. Isso eu
não tolero e é o motivo que me faz pensar um pouco antes de decidir se
realmente devo marcar com a turma por lá.”
PATRÍCIA NARA SANTOS BARBOSA - 33 anos, funcionária
pública.
“Com
certeza acho que os shoppings mudaram não só a minha vida como a de todo
mundo. Como moramos somente eu e minha mãe, sempre fui muito ligada em
amizades, gosto de ter o meu lazer e o shopping é o lugar onde posso
usufruir disso. Adoro um cinema, comer uma pizza com as amigas, olhar
vitrines. Isso tudo pra mim faz parte do meu lazer. Sem contar que lá
tem tudo o que eu preciso.
Eu
vejo as outras pessoas que passam por mim... (pausa). Na verdade nunca
parei pra pensar nisso (risos). Não sei, é estranho, não as conheço, não
sei da vida de nenhuma, é como se fosse apenas mais uma pessoa igual a
todo mundo passando por mim. Mas acho que elas me olham da mesma forma,
se é que me enxergam né? (risos)
Acho
que antes, vendo por esse lado, as pessoas realmente tinham mais
contato, eram mais próximas. Antes a gente encontrava a turma num
barzinho, e tava ótimo pra todo mundo. Hoje tem gente que prefere ir
para um lugar melhor, como o shopping, e isso divide opiniões. Mas acho
que ele é mais que um simples lugar que é referência em compras, e sim,
um local perfeito para o lazer. Essa opção a mais mudou a vida da gente,
de nós teresinenses.”
CONCLUSÃO
Os corredores largos, a boa iluminação, as atraentes
vitrines das lojas, a grande oferta de espaços para alimentação, as
regras e normas fazem do shopping um lugar. Esta pesquisa consiste em um
estudo introdutório sobre o tema, estudo que deve abrir espaço para
outros pesquisadores continuarem explorando o tema. Segundo Dencker
(2007) a vantagem de trabalhar com entrevista é que ela permite obter
mais sinceridade de expressão dos indivíduos, além da flexibilidade na
formulação de questões.
É interessante notar que as pessoas não buscam
somente viver experiências baseadas nas relações de entendimento, mas
procuram também vivenciarem as relações de animo. Seja no namoro, em
fazer amizades ou em simplesmente serem vistas, serem enxergadas como
pessoas, pelas suas particularidades e características pessoais. Podemos
observar que as semelhanças entre os shoppings, que no caso podem ser
considerados pequenas cidades, e as cidades não são muito diferentes.
Segundo Park (1967):
A cidade é um estado de espírito,
um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes
organizados, inerentes a esse costume e transmitidos por essa tradição.
Em outras palavras, a cidade não é meramente um mecanismo físico e uma
construção artificial. Está envolvida nos processos vitais das pessoas
que a compõem; é um produto da natureza, e particularmente da natureza
humana.
Podemos concluir que a cidade não é apenas o espaço
em si, a cidade é um emaranhado de relações entre as pessoas e a relação
das mesmas com o próprio espaço. Os shoppings são pequenos complexos que
representam as cidades. A diferença é que além da grande variedade de
serviços, eles oferecem serviços considerados mais perfeitos, com um
grande apelo visual para os seus freqüentadores. Pode-se concluir também
que por Teresina ser uma cidade provinciana e de relações mais
estreitas, onde popularmente se fala que todos se conhecem, as pessoas
acabam gerando expectativas de relações mais afetivas nestes lugares.
Pelos depoimentos, os entrevistados não querem se
sentir apenas “mais um na multidão”, eles querem estabelecer relações,
querem ser vistos, não querem um ambiente onde corram o risco de
encontrar pessoas hostis e esnobes. Eles tentam amizades, namoros e se
familiarizar com o local. É interessante destacar que além de ser um
lugar de compras e diversão, os shoppings de Teresina estão se
transformando em espaços de intensa troca social.
REFERÊNCIAS:
DENCKER, Ada de Freitas Maneti. Pesquisa em Turismo: planejamento,
métodos e técnicas / Ada de Freitas Maneti Dencker. – São Paulo:
Futura, 1998.
PARK,
Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento
humano no meio urbano. IN: VELHO, Otávio Guilherme (org) O Fenômeno
Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1967.
Texto
original: "Die Großstädte und das Geistesleben".
In: SIMMEL, Georg. Gesamtausgabe. Frankfurt: M.
Suhrkamp.
1995.
vol. 7. pp. 116-131. Tradução de Leopoldo Waizbort.
WIRTH,
Louis "O Urbanismo como Modo de Vida". In: VELHO, Otávio
G. (org.) O Fenômeno Urbano. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1970.
www.shoppingcentercia.blogspot.com – acessado em 29/06/2010
www.teresina.pi.gov.br
– acessado em 29/06/2010
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