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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 08 de setembro de 2010 22:17:07                                               

 
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TURISMO

Pesquisa etnográfica: os shoppings de Teresina no contexto espacial local

Francysco Renato Antunes Lopes[1];  Samilla Kelly Melo[2]

Filipe Ribeiro Cardoso Porto[3]
 

publicado em 08/09/2010

 

RESUMO

Este estudo pretende observar como os shoppings da cidade de Teresina influenciam as vidas das pessoas que residem na capital. A análise é feita a partir do contexto do espaço e das relações que lá ocorrem, e tem o objetivo de discutir como estes centros comerciais reproduzem as mesmas trocas que acontecem nas cidades, formando a partir daí uma mini cidade mais incrementada.

Palavras Chave: Shoppings; Espaço; Etnografia

 

 

ABSTRACT

This study aims observing how the malls in the city of Teresina influence the lives of people living in the capital. The analysis is done from the context of space and relationships that occur there and aims discussing how these malls reproduce the same changes that occur in cities, building thereafter a mini city further enhanced.

Keywords: Shoppings; Space; Ethnography

 

 

INTRODUÇÃO

 

                   Os dois shoppings de Teresina foram inaugurados na década de 90 e representaram um marco para a cidade. A capital que sempre teve fama de provinciana recebeu dois grandes centros de compras que não acrescentariam somente mais opções de compras, mas também seriam pontos de encontro de grupos sociais, os mais diversos possíveis, a mistura inusitada de diferentes “tribos”. O Riverside Walk Shopping e o Teresina Shopping, inaugurados respectivamente em 1996 e em 1997, são locais propícios para uma observação introdutória a respeito dos comportamentos de um grupo social em relação a este novo espaço. Esta análise requer um pouco do histórico destes centros comerciais e a sua contribuição ao longo dos últimos séculos.

 

                   D:\Renato\Ciências Sociais UFPI\not_20100420163038-gr.jpg

                                  Teresina Shopping (Teresina – Piauí)
                                        Fonte: www.
teresina.pi.gov.br

 

                   O precursor dos modernos Shoppings Centers data de 1461 e ainda está em plena operação, com excelentes resultados de venda. É o Grand Bazaar, localizado em Istambul, na Turquia. Em 1828, foi criado o primeiro shopping center nos Estados Unidos da América, no estado de Rhode Island. A corrida pela construção destes empreendimentos tem acontecido em tempos recentes. No Brasil eles começaram a surgir na década de 60 e tem se espalhado até o presente.

                            D:\Renato\Ciências Sociais UFPI\GranBazar_Istanbul.jpg

                                        Grand Bazaar (Istambul – Turquia)

                                Fonte: http://shoppingcentercia.blogspot.com

 

 

OS SHOPPINGS E AS RELAÇÕES SOCIO-ESPACIAIS


                   Os shoppings centers, são um fenômeno dos centros urbanos. Com o aumento da população urbana no Brasil, a especulação imobiliária e a intensificação do trânsito, a expansão dos shoppings teve um expressivo crescimento. Estes centros passaram a provocar uma intensa mudança na socialização das pessoas.

                   Segundo Wirth (1979) apud Velho, o grau em que o mundo contemporâneo poderá ser chamado de “urbano” não é medido inteira ou precisamente pela proporção da população total que habita as cidades. As influências que as cidades exercem sobre a vida social dos homens são maiores do que poderia indicar a proporção da população urbana. O autor quer dizer que a cidade não é somente a moradia e o local de trabalho do homem, ela é um centro que inicia e controla a vida econômica, política e cultural, e que atrai as mais diversas localidades para a sua esfera e as interliga, com os seus povos e o seu universo.

                   As relações nos shoppings não diferem muito das relações em uma cidade. Eles disponibilizam um ambiente acolhedor e atraente, com sofisticação, qualidade e exclusividade. Reproduzem uma cidade no seu interior, com serviços de saúde, bancos, corredores e ruas, além de praças e parques. Os shoppings assim como as cidades, acabam se tornando palco de ações sociais. Com base em Simmel (1903), podemos observar que as relações sociais que ocorrem neste ambiente comercial estão enquadradas nas relações de entendimento:

                                      Todas as relações de ânimo entre as pessoas fundamentam-se nas suas individualidades, enquanto que as relações de entendimento contam os homens como números, como elementos em si indiferentes, que só possuem um interesse de acordo com suas capacidades consideráveis objetivamente.

                   Os serviços oferecidos para aqueles que freqüentam os shoppings se restringem as relações puramente numerais, onde não há um aprofundamento nas relações entre as pessoas, onde tratam os componentes como números que não diferem um do outro. Os princípios essenciais são o da razão, do bom senso, da igualdade e da eficiência.

                   A seguir, traremos as opiniões de freqüentadores dos shoppings de Teresina, abordando especialmente as suas experiências nestes espaços.

 

ETNOGRAFIA EM CAMPO: OLHARES E EXPERIÊNCIAS DOS FREQUEN-TADORES DOS SHOPPINGS LOCAIS


                   A etnografia consiste em analisar diretamente fatos ou eventos sociais, um estudo de observações e comportamentos humanos. Com base nessa definição, mostraremos agora as opiniões de três pessoas que residem na cidade de Teresina e que frequentam o Teresina Shopping e o Riverside Walk Shopping.


ELMIRA ANA PACHECO SILVA - 50 anos, contadora.

“Eu adoro ir ao shopping. Para mim ele funciona como uma válvula de escape para o stress do dia a dia. Trabalho próximo ao Riverside e aos sábados sempre saio do escritório e vou direto pra lá; além de, de vez em quando, almoçar lá também. Para mim não precisa de dinheiro para estar lá. Às vezes não tenho um “tostão”, mas passo lá pelo menos para dar uma olhadinha nas vitrines. Eu não me canso de olhar todas, entrar nas lojas, olhar, olhar... (risos). Eu gosto mesmo de ir sozinha porque as pessoas não costumam aguentar o meu pique. Quando vou acompanhada das minhas colegas do trabalho elas reclamam do cansaço, que não aguentam mais andar em tantas lojas e, logo pedem para pararmos. Por isso, gosto mais ainda de ir só, a não ser que seja somente para um encontro entre amigas, aí sim é muito bom a companhia.

Normalmente não penso no shopping como um lugar para comprar, nem tenho dinheiro sobrando para esbanjar em um lugar como o shopping, onde sei que as coisas são mais caras. Quando preciso mesmo, corro para as lojas populares do centro, como a Riachuelo e a C&A. Mas quando tem alguma ocasião especial recorro aos shoppings mesmo. Lá, por outro lado tem mais qualidade. As roupas, por exemplo, são de melhor qualidade, mais requintadas. Eu até digo que comprar uma roupa de grife de vez em quando faz bem para o ego de qualquer mulher.

Antes de ter os shoppings em Teresina a gente só recorria ao centro mesmo. Quem compra no shopping hoje comprou nas butiques do centro ontem. O Shopping para mim é isso, significa mais do que um lugar pra comprar, eu me sinto bem indo lá, é como um passeio pra mim é diversão mesmo. Se eu passo mais de uma semana sem ir lá eu estranho.”


WILSON CARLOS DE ALENCAR COSTA – 24 anos, professor.

“Acho o shopping um lugar legal pra passear. Pra mim é mais isso mesmo. Não sou muito fã de compras, mas quando penso em comprar alguma coisa, principalmente para presentear alguém, vou direto ao shopping.

Pra mim o shopping é um lugar bacana pra tomar um chopp com os meus amigos, bater papo. Assim que o Riverside foi inaugurado, eu era pequeno, mas lembro que tinha um apelo forte com essa questão do lazer; lembro que tinha uma pista de patinação no gelo. Meu sonho era brincar lá. O parque também era bem atrativo pras crianças. Lembro que minha mãe e meu pai sempre me levavam lá com os meus dois irmãos nos fins de semana. Ainda não sei se funciona, mas também tinha uma boate que era famosa entre os adolescentes. Ela ficava no primeiro andar do Riverside, namorei muito por lá (risos). Lá tinha muito lugar para brincar, além do parque no meio tinham salas só de jogos de todos os tipos. Hoje as lojas estão tomando de conta.

A única coisa que eu não gosto é ver muita gente esnobe por lá. Isso eu não tolero e é o motivo que me faz pensar um pouco antes de decidir se realmente devo marcar com a turma por lá.”


PATRÍCIA NARA SANTOS BARBOSA - 33 anos, funcionária pública.

“Com certeza acho que os shoppings mudaram não só a minha vida como a de todo mundo. Como moramos somente eu e minha mãe, sempre fui muito ligada em amizades, gosto de ter o meu lazer e o shopping é o lugar onde posso usufruir disso. Adoro um cinema, comer uma pizza com as amigas, olhar vitrines. Isso tudo pra mim faz parte do meu lazer. Sem contar que lá tem tudo o que eu preciso.

Eu vejo as outras pessoas que passam por mim... (pausa). Na verdade nunca parei pra pensar nisso (risos). Não sei, é estranho, não as conheço, não sei da vida de nenhuma, é como se fosse apenas mais uma pessoa igual a todo mundo passando por mim. Mas acho que elas me olham da mesma forma, se é que me enxergam né? (risos)

Acho que antes, vendo por esse lado, as pessoas realmente tinham mais contato, eram mais próximas. Antes a gente encontrava a turma num barzinho, e tava ótimo pra todo mundo. Hoje tem gente que prefere ir para um lugar melhor, como o shopping, e isso divide opiniões. Mas acho que ele é mais que um simples lugar que é referência em compras, e sim, um local perfeito para o lazer. Essa opção a mais mudou a vida da gente, de nós teresinenses.”

 

CONCLUSÃO

                   Os corredores largos, a boa iluminação, as atraentes vitrines das lojas, a grande oferta de espaços para alimentação, as regras e normas fazem do shopping um lugar. Esta pesquisa consiste em um estudo introdutório sobre o tema, estudo que deve abrir espaço para outros pesquisadores continuarem explorando o tema. Segundo Dencker (2007) a vantagem de trabalhar com entrevista é que ela permite obter mais sinceridade de expressão dos indivíduos, além da flexibilidade na formulação de questões.

                   É interessante notar que as pessoas não buscam somente viver experiências baseadas nas relações de entendimento, mas procuram também vivenciarem as relações de animo. Seja no namoro, em fazer amizades ou em simplesmente serem vistas, serem enxergadas como pessoas, pelas suas particularidades e características pessoais. Podemos observar que as semelhanças entre os shoppings, que no caso podem ser considerados pequenas cidades, e as cidades não são muito diferentes. Segundo Park (1967):

                                      A cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esse costume e transmitidos por essa tradição. Em outras palavras, a cidade não é meramente um mecanismo físico e uma construção artificial. Está envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõem; é um produto da natureza, e particularmente da natureza humana.

                   Podemos concluir que a cidade não é apenas o espaço em si, a cidade é um emaranhado de relações entre as pessoas e a relação das mesmas com o próprio espaço. Os shoppings são pequenos complexos que representam as cidades. A diferença é que além da grande variedade de serviços, eles oferecem serviços considerados mais perfeitos, com um grande apelo visual para os seus freqüentadores. Pode-se concluir também que por Teresina ser uma cidade provinciana e de relações mais estreitas, onde popularmente se fala que todos se conhecem, as pessoas acabam gerando expectativas de relações mais afetivas nestes lugares.

                   Pelos depoimentos, os entrevistados não querem se sentir apenas “mais um na multidão”, eles querem estabelecer relações, querem ser vistos, não querem um ambiente onde corram o risco de encontrar pessoas hostis e esnobes. Eles tentam amizades, namoros e se familiarizar com o local. É interessante destacar que além de ser um lugar de compras e diversão, os shoppings de Teresina estão se transformando em espaços de intensa troca social.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

DENCKER, Ada de Freitas Maneti. Pesquisa em Turismo: planejamento, métodos e técnicas / Ada de Freitas Maneti Dencker. – São Paulo: Futura, 1998.

PARK, Robert Ezra. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano. IN: VELHO, Otávio Guilherme (org) O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1967.

Texto original: "Die Großstädte und das Geistesleben". In: SIMMEL, Georg. Gesamtausgabe. Frankfurt: M. Suhrkamp. 1995. vol. 7. pp. 116-131. Tradução de Leopoldo Waizbort.

WIRTH, Louis "O Urbanismo como Modo de Vida". In: VELHO, Otávio G. (org.) O Fenômeno Urbano. Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1970.

www.shoppingcentercia.blogspot.com – acessado em 29/06/2010

www.teresina.pi.gov.br – acessado em 29/06/2010

 


 

[1] Estudante do Curso de Bacharelado em Turismo, pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI e do Curso de Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

[2] Graduada no Curso de Comunicação Social: Hab. Jornalismo e Relações Públicas, pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, e estudante do Curso de Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

[3]Estudante do Curso de Licenciatura em Geografia, pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, e do Curso de Bacharelado em Arqueologia e Conservação de Arte Rupestre, pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

 
  

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::sobre o autor::

Francysco Renato Antunes Lopes - Estudante do 7º período do Curso de Bacharelado em Turismo, pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI, e 2º período do Curso de Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

Filipe Ribeiro Cardoso Porto - Estudante do 7º período do Curso de Licenciatura em Geografia, pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, e 5º período do Curso de Bacharelado em Arqueologia e Conservação de Arte Rupestre, pela Universidade Federal do Piauí – UFPI.

 

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