.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - 21/04/2006 21:24:28 

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Interfaces entre fenômeno turístico, lazer e inclusão: por uma experiência turística dos residentes em seu espaço urbano
Por: Juliane Lumertz[1];Mariana Selister Gomes[2]; Priscila Gayer[3]; Rita Michelin[4]

Resumo

O tema central do presente artigo refere-se à inclusão no Turismo das camadas populares brasileiras através de propostas de Lazer que mantenham o caráter da experiência turística – atividades que envolvam, portanto, o deslocamento, mesmo dentro da própria cidade, o estranhamento e o encontro com o diferente. Para isso, dar-se-á o exemplo do passeio Linha Turismo de Porto Alegre - RS em meio às discussões teóricas sobre Lazer, Turismo e Turista. Por fim, tratar-se-á do papel desempenhado pelo poder público como fomentador de políticas inseridas nesta proposta de inclusão no Turismo por meio do Lazer dentro dos limites municipais.

 

 

Palavras chaves: Turismo, Lazer, Turista.

 

 

Abstract

The main subject presented in this article is related to the inclusion of Brazilian popular classes in to Tourism through Leisure proposals which keep the Tourism experience’s characteristics – activities supposed to comprehend even shorts dislocations inside the citizen’s city and the exotic looking implicit in the situation that occur the meeting with the different. Thereby, it will be introduced, as an example, the tour Linha Turismo, developed in Porto Alegre-RS, among theoretical discussion about Leisure, Tourism and Tourist. At last, it is given credit that the public administration shall plan public politics considering the possibility of inclusion in to Tourism through Leisure activities inside the own city.

 

 

Keywords: Tourism, Leisure, Tourist.

 

 

Analisando o desenvolvimento do Turismo apresentado por Mirian Rejowski (2002), é possível perceber que este fora realizado pela aristocracia/elite nos períodos de retração do fenômeno, e nos momentos de expansão tornara-se acessível à burguesia/classe média. A II Guerra Mundial (1950) representa o ponto inicial da expansão do Turismo vivenciado atualmente, ou seja, o denominado Turismo de massa. Ainda segundo a autora, este momento é marcado pelo surgimento dos pacotes turísticos, pela padronização da oferta e pela presença das grandes operadoras de Turismo. Para Marc Boyer (2003), o Turismo massivo não teria mudado a concepção de atrativo turístico e os lugares visitados, apenas passou-se de uma minoria às massas, uma vez que estas tendiam a imitar as práticas elitistas. No entanto, o conceito de Turismo de massa parece um tanto eurocêntrico se observado sob o ponto de vista brasileiro, posto que há no país uma má distribuição de renda que restringe o desfrute do Turismo a uma grande parcela da população.

 

Por outro lado, deve-se considerar que o Turismo de massa representa um momento de expansão do fenômeno, ocasionando um aumento do número de pessoas que o vivenciam, passando das elites às classes médias. Essa questão é observada por Ruschmann “[...] o Turismo já não é uma prerrogativa de alguns cidadãos privilegiados; sua existência é aceita e constitui parte integrante do estilo de vida para um numero crescente de pessoas em todo o mundo” (2000, p.13). Porém, a autora não deixa claro quem são essas pessoas.

 

Apesar da diminuição dos custos dos pacotes turísticos oferecidos pelas operadoras brasileiras (CVC e PNX Travel, por exemplo) ou vôos ofertados pelas empresas aéreas de caráter econômico (GOL e BRA), os valores praticados ainda não se encontram numa margem acessível para a maioria dos brasileiros. Esta falta de acesso reflete diretamente na privação do “fazer Turismo” imposta à maioria dos brasileiros devido uma série de questões estruturais, principalmente econômicas e sociais, como o baixo poder aquisitivo decorrente da má distribuição de renda presente no país, as desigualdades sociais, o desemprego, e a falta de tempo livre (de Lazer) daqueles que necessitam trabalhar muitas vezes sem descanso, ou melhor, que muitas vezes não tem férias, pois seus ofícios são informais ou porque suas rendas provêm dos denominados “bicos”. Além disso, outras questões observáveis no cenário brasileiro contribuem para essa limitação na prática do Turismo. Os valores elevados, algumas vezes decorrentes da dimensão do Brasil, um “país continental” (devido sua grande extensão territorial), a má condição das rodovias brasileiras, a alta cobrança de pedágios nessas, a falta de transporte ferroviário são problemas que também impedem maiores deslocamentos turísticos dentro do país para os nossos cidadãos.

 

No entanto, acreditando no Turismo enquanto um fenômeno complexo, não apenas econômico, mas essencialmente social, cultural, político... e diante das questões expostas acima, evidencia-se a necessidade de pensar alternativas capazes de propiciar a  prática do Turismo por todos e de maneira bilateral. Ou seja, planejar não somente a participação da população no sentido receptivo, mas também elaborar políticas públicas que possibilitem o acesso do cidadão brasileiro à experiência turística enquanto Turista.

 

Nessas condições, o presente artigo tem como objetivo reforçar as propostas de inclusão no fenômeno turístico das camadas populares brasileiras através de alternativas de Lazer dentro dos limites municipais, que despertem o estranhamento do sujeito com o seu local de residência, levando-o a um encontro consigo e com sua cidade dentro de uma experiência caracterizada como turística. Tomar-se-á como exemplo no decorrer do trabalho a “Linha Turismo”, desenvolvida pelo escritório municipal de Turismo de Porto Alegre em 2003 e em atuação até os dias atuais. Ainda que não envolvam longos deslocamentos nessas propostas, acredita-se que estas mantenham as características essenciais da experiência turística. Para sustentar a idéia central e objetivando instigar uma discussão sobre tais possibilidades e interfaces, alguns questionamentos teóricos serão realizados a seguir.

 

 

Articulando Lazer e Turismo: a inclusão na experiência turística dentro própria cidade

Com base no senso comum, o Turismo geralmente é compreendido enquanto uma forma de Lazer. Contudo, ao observar o Turismo e o Lazer mais atentamente, é possível perceber que se trata de dois fenômenos diferentes, portanto, passíveis de conceitualizações singulares, apesar de apresentarem instâncias semelhantes. São estas semelhanças que permitem o inter-relacionamento entre ambos de maneira a possibilitar, por vezes, que um esteja contido no outro. Assim, iniciar-se-á o aprofundamento teórico do questionamento do conceito de Lazer:

 

Lazer é um conjunto de ocupações às quais a pessoa se entrega plenamente seja para descansar, seja para se distrair, seja para completar sua informação e formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua capacidade criadora, após ter se liberado das suas obrigações profissionais, familiares e sociais (DUMAZEDIER apud STEFANI, 1982, p.6).

 

São os três elementos clássicos do lazer. Ele é ora descanso, ora distração, ora desenvolvimento da pessoa. É sempre tempo livre disponível para a recuperação do equilíbrio existencial ou para completar-se, isto é, aprimorar a qualidade da vida ou, ainda, pensar na vida futura (STEFANI, 1982, p.11).

 

Considerando os conceitos apresentados, o Turismo pode ser compreendido como uma forma de Lazer quando pressupuser uma experiência caracterizada pela busca do descanso, da distração e do desenvolvimento pessoal realizados no tempo livre do Turista. Tendo em vista que os sujeitos deslocam-se motivados pelos mais variados desejos, a busca de determinada experiência turística não estaria restrita ao Lazer. Fator que acaba tornando a motivação voltada para este uma das categorias mercadológicas do Turismo – Turismo de Lazer, de negócios, histórico-cultural, de aventura, ecológico entre outros. Dessa maneira o Lazer pode fazer parte do fenômeno turístico, todavia não se expressa enquanto um conceito subjacente a este, pois as práticas de Lazer são as mais diversas, podendo compreender, dentro da sua gama de possibilidades variadas, a viagem de Turismo quando o objetivo central envolver, conforme exposto anteriormente, o tempo livre, o descanso, a distração e/ou desenvolvimento pessoal.

 

O fenômeno turístico não se restringe a esta visão unilateral - a busca do sujeito em realizar determinada experiência – uma vez que envolve uma comunidade receptora e uma gama de serviços (transporte, hospedagem, alimentação, etc) que possibilitem a experiência do encontro com o objeto almejado.  Ou seja, a realização do Turismo depende não apenas do Turista, mas de outros sujeitos envolvidos no fenômeno e de toda uma condição estrutural, sociocultural, política, ambiental... Já a leitura de um livro, por exemplo, requer apenas um lugar silencioso e a concentração do leitor. Diante desta observação, fica claro que nem sempre a experiência proporcionada pelo Lazer poderá ser considerada como turística – ler muitas vezes pode ser uma experiência emocionante através do encontro com o desconhecido e com o diferente, porém sem deslocamento físico. Também, nem sempre a experiência turística estará relacionada ao Lazer, por exemplo o Turismo de negócios.

 

Assim, observa-se que a experiência turística só será possível por meio da locomoção do sujeito Turista a seu destino, proporcionando uma experiência física e não apenas virtual e mental, e que esta depende dos diversos atores envolvidos para sua realização. Dentre eles estão o setor público, o privado e as comunidades receptoras além do Turista.

 

Dos atores envolvidos, nem sempre há uma consideração eqüitativa referente às necessidades de todos participantes. Isso porque, sob a ótica do mercado o Turismo geralmente é considerado como uma indústria, a qual tem como referência os desejos da demanda, transformando as comunidades em produtos turísticos a fim de suprir tais necessidades. Assim, desconsidera-se a complexidade do local de destino na simplificação da segmentação mercadológica ao considerar apenas o consumidor. Por conseguinte, esta visão apresenta-se de maneira parcial e causadora de inúmeros impactos sociais negativos ao objetivar apenas benefícios financeiros, reduzindo o fenômeno do Turismo ao seu caráter econômico.

 

Aprofundando a análise das conceitualizações de Turismo, este já é entendido, no campo acadêmico e por alguns profissionais da área, como um fenômeno complexo – social, cultural, político, comunicacional, ambiental entre outros. De acordo com Moesch, entende-se Turismo como

 

uma combinação complexa de inter-relacionamentos entre produção e serviços, em cuja composição integram-se uma prática social com base cultural, com herança histórica, a um meio ambiente diverso, cartografia natural, relações sociais de hospitalidade, troca de informações interculturais. O somatório desta dinâmica sociocultural gera um fenômeno, recheado de objetividade/ subjetividade, consumido por milhões de pessoas, como síntese: o produto turístico (2000, p. 9).

 

Com base nesse conceito exposto, reforça-se a idéia de que o Turismo é composto, não apenas a partir do deslocamento e da infra-estrutura necessária para sua realização, mas envolve as instâncias ambientais, sócio-culturais, políticas, psicológicas e comunicacionais inerentes à experiência do encontro com o diferente, do encontro com o outro.

 

Para Waimberg, “a atração é o cerne da diferença e ela que estimula a visitação” (2001, p.18). Portanto, a diferença seria o elemento primordial para o despertar do desejo pela visitação, levando o sujeito a locomover-se em busca do encontro com esse outro, que devido a sua estranheza, atrai o olhar. Assim, poder-se-ia dizer que o encontro com o diferente seria um ponto central na experiência turística (salvo os casos de Turismo de negócios). Ainda, para o autor o Turismo seria um fenômeno comunicacional, e a cidade um texto passível de diversas interpretações. Neste contexto, oportunizar leituras diferenciadas da cidade ao sujeito local seria uma maneira de proporcionar-lhe uma experiência turística ao envolver o deslocamento em busca do encontro com o diferente. Encontro possível a partir da apresentação de diferentes interpretações da cidade, nas quais os elementos cotidianos seriam revelados nas suas estranhezas, contrapondo-se à leitura trivial, despercebida e apressada do dia-a-dia.

 

Ainda, mantendo as observações de Jacques Waimberg (2001), a experiência turística poderia ser considerada como uma investida antropológica no sentido de que se busca conhecer o outro, o exótico, o diferente. Relacionando a experiência turística com o trabalho de campo do antropólogo, ao estudar sociedades exóticas este deve transformá-las em familiar; ao passo que ao estudar a sua própria sociedade deve transformá-la em exótica (DAMATTA, 1987). Ou seja, vê-la com outros olhos através de um distanciamento daquilo que é aparentemente dado (VELHO, 1978). Questão que evidencia a possibilidade de despertar o sentimento de estranheza no sujeito ao apresentar leituras diferenciadas (distantes da visão trivial) do urbano, pois “o que sempre vemos e encontramos pode ser familiar, mas não é necessariamente conhecido” (VELHO, 1978, p.39).

 

Considerando as reflexões acima, um passeio desenvolvido com a proposta de possibilitar à comunidade local diferentes visões sobre a sua cidade de residência, realizado no tempo livre do sujeito, buscando o descanso, a saída da rotina, a distração – as quais são características do Lazer – levariam a uma prática de Lazer resultante em uma experiência com características turísticas no sentido de envolver um deslocamento em busca do objeto almejado, mesmo dentro dos limites municipais, mas capaz de possibilitar uma experiência física, não apenas mental, que pressuponha o encontro com o diferente.

 

Nesse contexto, envolvendo deslocamentos dentro dos limites municipais da comunidade receptora, o conceito de Turista é transformado, deixando de ser entendido naquele simples enunciado da Organização Mundial do Turismo (OMT) que o defini como aquele “que desfruta de pelo menos um pernoite em alojamento coletivo ou particular no lugar visitado” (OMT, 2003, p.18) e passando a ser entendido num sentido mais complexo como um ator que realiza a experiência turística, envolvendo estranhamento, encontro com o diferente e deslocamento, mesmo em seu próprio espaço geográfico. Isto porque a ênfase está nos fatores subjetivos, e não, simplesmente, nas questões quantitativas que classificam o Turista a partir do número de dias de uma pessoa fora de sua residência ou da quantidade de quilômetros percorridos.

 

A partir da ênfase nos fatores subjetivos, o Turista é aquele que realiza a “arte do viajar” em seus aspectos práticos e simbólicos, é o Turista que agrega impressões, sentidos, emoções, simbolismos, “em seu viajar”. No mesmo sentido, Viagem, que se relaciona diretamente a experiência do Turista, é entendida para além do seu aspecto de deslocamento. Neste sentido a Viagem é entendida mais como uma poética, que pode envolver ou não um grande deslocamento no território – o que sustenta a idéia de ser Turista em seu próprio espaço geográfico e, assim, sem apresentar custos muito elevados, proporciona o acesso de um número maior de pessoas, ou seja, uma inclusão no Turismo. No “ato de viajar” o Turista vive uma gama de experiências novas, carregadas de simbolismos, nas quais este pode conhecer-se (BOTTON, 2003, p. 28) e adquirir conhecimentos para a vida (idem, p. 122, 123, 124). E, assim, realiza, também, uma atividade de Lazer.

 

Esta abordagem de Turista relaciona-se com o desafio proposto por Capra (apud STRIEDER, 2000, p. 263) da “Teia da Vida”, na qual entende-se o planeta de forma profunda, como um ser vivo, articulando o ser humano e a natureza, em todos os seus aspectos, e, não apenas dos entendimentos modernos, mecanicistas, quantitativos e industriais que a ciência tem realizado sobre o planeta, sobre a natureza e sobre o ser humano e, conseqüentemente, sobre o fenômeno turístico e conceitos subjacentes a este, tal como o de Turista. 

 

Uma experiência de Lazer e inclusão no Turismo para os residentes: a “Linha Turismo” de Porto Alegre/RS.

Para melhor discorrer acerca desta idéia de inclusão da população local no fenômeno turístico, apresentar-se-á a “Linha Turismo” como exemplo, pois esta tem como objetivo fazer com que todos (tanto Turistas quanto a população local) conheçam a cidade por um outro ângulo. Este projeto foi criado pelo Porto Alegre Turismo Escritório Municipal em Janeiro de 2003. Trata-se de uma linha especial, com um ônibus panorâmico de dois andares, com ar refrigerado e janelas panorâmicas na parte de baixo e o andar superior aberto, com cinco saídas diárias de terças a domingos.  Esta percorre 11 bairros e 17 dos principais pontos turísticos, com duração de aproximadamente 80 minutos.

 

A Linha Turismo permite ao público conhecer as belezas e atrativos da capital gaúcha ou redescobrir os detalhes e histórias das ruas e recantos por onde os porto-alegrenses transitam todos os dias. Além disso, conta com guia que durante todo o percurso conta as histórias e chama atenção para detalhes que muitas vezes passam despercebidos, fazendo com que a população perceba de maneira diferenciada aqueles locais, monumentos e atrativos que costuma ver todos os dias, porém sem dar importância.

 

Este projeto foi criado visando tanto aos Turistas quanto a população local, sendo, para esses, uma forma acessível de Turismo dentro de sua própria cidade. Dessa forma, conforme enfatiza este trabalho, a experiência turística constitui-se de deslocamento, encontro e estranhamento. Acredita-se que o deslocamento pode ser realizado dentro dos limites da cidade onde o indivíduo vive, ou seja, seu ambiente usual. A partir do momento em que o sujeito desloca-se especialmente para determinados locais (ou, como neste caso a Linha Turismo) de sua cidade buscando, ou não, de alguma forma o encontro consigo mesmo e com o local visitado, assim como o estranhamento ao visualizar este com outro olhar e percebê-lo de uma forma distinta, podemos considerar que sim, trata-se de uma experiência turística dentro de sua própria cidade.

 

O fato do andar superior do ônibus ser aberto proporciona outra visão aos seus passageiros, que podem observar a sua cidade de uma grande altura causando, desse modo, um estranhamento a esses, pois tem uma outra visão de detalhes tão simples, mas que são detentores de grande importância, sejam, culturais, naturais, sociais, dentre outras. A Linha Turismo, para os habitantes de Porto Alegre, é uma maneira especial de descobrir e redescobrir a sua própria cidade. Segundo Wainberg (2001, p. 11)

 

“[...] a cidade deve ser vista como uma escritura, uma fala a ser interpretada pelo transeunte. Trata-se de um enigma a ser desvendado pela exploração. A percepção é estimulada pelo estranhamento causado por sua arquitetura, vias, limites, bairros, pontos nodais, marcos, avenidas, cafés e bares. É uma obra de arte viva, e seus atores móveis são os seus habitantes. [...] No campo estranho, todo detalhe é relevante na composição do todo.”

 

Ou seja, é através da estranheza, da agressão aos sentidos que há uma percepção de certas características que, por vezes, passavam despercebidas. Esse estranhamento é um dos pontos principais para que haja a experiência turística e este que é trabalhado através do projeto Linha Turismo, que busca aguçar os sentimentos dos seus passageiros chamando atenção para pontos e detalhes que venham a causar estranheza aqueles.

 

Além disso devemos perceber que:

 

“Olhar para as cidades é sempre um prazer especial por mais comum que possa ser o panorama urbano. A cidade é uma construção física e imaginária, compreende um lugar e faz parte do todo geográfico. O tecido urbano é dinâmico e está inserido no processo histórico de uma sociedade.[...] A cada instante, há mais do que os olhos podem ver, do que o olfato pode sentir ou do que os ouvidos podem escutar. Cada momento é repleto de sentimentos e associações. A cidade é o que é visto, mas mais ainda, o que pode ser sentido.” (CASTROGIOVANNI, 2001, p. 24)”

 

Sendo assim, percebemos que é possível existir Turismo sem grandes deslocamentos e dentro do próprio espaço urbano, e que esse tipo de Turismo gera a inclusão das camadas populares neste fenômeno, pois para a sua realização não é necessário despender muito tempo e dinheiro.

 

Depois dessa nova proposição para inclusão no fenômeno turístico, a partir do entendimento de que Turismo é, também, aquele praticado dentro dos limites municipais desde que possibilite o estranhamento, o deslocamento e o encontro com o diferente, chega-se a seguinte questão: há quem cabe desenvolver essas novas propostas de Lazer? Sabe-se que há diferentes motivos para desenvolver o Turismo. Na maioria dos casos, o poder privado o faz em busca de lucros, enquanto o poder público procura benefícios para os seus cidadãos e a melhora de qualidade de vida da população local.

 

De acordo com Swarbrooke (2000, p. 05),

 

O setor público influencia o turismo de várias formas, e pode desempenhar uma função no desenvolvimento do turismo sustentável, valendo-se de uma diversidade de meios que incluem os seguintes:

- legislação e regulamentação;

- financiamento e incentivos fiscais; [...]

- o fornecimento da infra-estrutura;

- o exemplo que o setor público pode dar por meio de seu papel como ator atuante na indústria do turismo;

- padrões oficiais; [...]

 

Conforme Bill Bramwell (In THEOBALD, 2002, p. 375): “[...] As intervenções do governo são orientadas pela política e implementadas por instrumentos de política, que são os mecanismos específicos ou ferramentas empregadas para colocar a política em prática”.

 

De acordo com Barretto (2003, p.33), “em termos genéricos, por políticas públicas se entende as ações do Estado orientadas pelo interesse geral da sociedade.” Citando Hofling, a autora ainda coloca que se pode compreender políticas públicas como, “o Estado em ação (...) é o Estado implantando um projeto de governo, através de programas, de ações voltadas para setores específicos da sociedade”.

 

Assim, entende-se que é responsabilidade do poder público em suas diversas esferas (federal, estadual e municipal) a realização de iniciativas para a inclusão de todas as camadas da população no fenômeno turístico por meio de seus instrumentos capazes, as políticas[5]. Apesar desta ênfase no setor público, não se isenta a responsabilidade também do setor privado em transformar o mercado para que este se torne mais abrangente e mais inclusivo, mesmo que menos lucrativo.

 

 

Considerações Finais

Este artigo procurou levantar uma série de questões de importância teórica, como o significado de Turista, e, uma maior percepção acerca do fenômeno turístico. Também discutiu problemas de relevância prática, como a importância do desenvolvimento de propostas de Lazer que mantenham o caráter da experiência turística para as camadas mais populares e o papel do poder público como ator responsável por colocar em prática ações deste tipo.

 

Sabe-se que um dos objetivos do Ministério do Turismo Brasileiro é democratizar o fenômeno turístico e possibilitar a inclusão social através deste. Para isso, algumas ações estão sendo desenvolvidas e serão colocadas em prática através do “Programa Vai Brasil”. De acordo com notícia vinculada no site da Associação Brasileira dos Bacharéis em Turismo (ABBTUR)[6] em 03 de janeiro deste ano, esse programa:

 

[...] visa proporcionar aos brasileiros condições de conhecer o país a preços acessíveis na baixa temporada, aproveitando a ociosidade dos hotéis e das companhias de transporte nesses períodos. A intenção do governo é incentivar pessoas que ganham de R$ 800 a R$ 1.200 a viajar fora da estação de alta temporada para destinos dentro do próprio país.

 

Entende-se que essa iniciativa governamental é válida, pois beneficiará uma parcela da população, entretanto a maior parte dos brasileiros ainda não terá acesso à prática do Turismo. Como o governo federal pretende democratizar o Turismo é necessário possibilitar a todos a inclusão neste. Dessa forma, a alternativa inovadora seria a de possibilitar o acesso à experiência turística através de propostas de Lazer dentro dos limites municipais, que despertem o estranhamento do sujeito com o seu local de residência, levando-o a um encontro consigo e com sua cidade dentro de uma experiência caracterizada como turística, como é o caso do já bem sucedido do projeto Linha Turismo da administração pública porto alegrense.

 

Para isso é necessário um engajamento das diversas esferas do poder público brasileiro. Sabe-se que muitas vezes o relacionamento intergovernamental é difícil, porém nessas horas de trabalhar para o benefício do povo, o qual se está representando, é necessário esquecer desentendimentos, diferenças partidárias e se unir para alcançar e desenvolver ações.

 

Para o governo federal beneficiar diretamente os 5.561 municípios[7] às vezes é complicado, por isso necessita do trabalho integrado com os 26 Estados e o Distrito Federal. Esses por sua vez também encontram complicações e precisam do auxílio das administrações municipais que também carecem de problemas e devem buscar ajuda nas outras esferas governamentais. Logo, o trabalho de desenvolver o Turismo, por vezes, torna-se interdependente, pois cada nível governamental está apto a desenvolver um nível do mesmo problema (nacional, internacional, regional e local), ou seja, todos devem trabalhar juntos para a resolução de um problema em comum, porém cada um em um nível diferenciado, para que assim, ao final, cheguem juntos a solução do mesmo.

 

Este trabalho buscou refletir sobre a inclusão das classes populares no Turismo, através do acesso ao Lazer e do desenvolvimento da experiência turística no próprio espaço urbano destas classes. Isto porque se percebe a desigualdade no acesso a experiência turística. Nota-se, também, que esta desigualdade não é isolada no fenômeno turístico, evidencia-se a complexidade do problema da desigualdade de acessos. Neste sentido, Castelli (1990, apud OLEIAS), foi oportuno em observar uma condição marcante nos tempos atuais:

 

Como engajar a população, sobretudo dos países do terceiro mundo, nessas diferentes atividades? Tarefa nada fácil, pois mexe-se diretamente com as classes dominantes. Para que a massa trabalhadora tenha acesso ao lazer, é preciso dar-lhe condições, não só criando uma infra-estrutura adequada, mas também condições de vida melhores: empregos, salários condizentes, educação, saúde, habitação. Como podem os trabalhadores dos países subdesenvolvidos ter acesso ao lazer se ainda estão lutando pela sua sobrevivência?

 

Após as indagações de Castelli, finaliza-se este artigo alertando para a necessidade de pensar, para além dos domínios do Lazer e do Turismo, na inclusão das camadas populares brasileiras na sociedade como um todo enquanto premissa para realização da inclusão destas no fenômeno turístico através do Lazer.

 

 

Referências Bibliográficas

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BARRETTO, Margarita. Turismo, políticas públicas e relações internacionais. São Paulo: Papirus, 2003.

 

BOTTON, Alain de. A arte de viajar. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

 

BRAMWELL, Bill. Selecionando instrumentos de política para o turismo sustentado. In: THEOBALD, William F. (Org.) Turismo Global. Traduzido por: Anna Maria Capovilla; Maria Cristina Guimarães Cupertino; João Ricardo Barros Penteado. 2. ed. São Paulo: Editora SENAC, 2002. Tradução de: Global Tourism.

 

BOYER, Marc. A História do Turismo de Massa. Bauru: EDUSC, 2003.

 

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DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

 

MOESCH, Marutschka. A Produção do Saber Turístico. São Paulo: Contexto, 2000.

 

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RUSCHMANN, Doris. Turismo e planejamento sustentável: A proteção do meio ambiente. 9.ed. Campinas: Papirus, 2000.

STEFANI, Ernesto Daniel. Ensaio sobre o lazer. Veritas. Porto Alegre, n. 105, mar. 1982.

 

STRIEDER, Roque. Educar para a iniciativa e a solidariedade. Ijuí/RS: UNIJUÍ, 2000.

 

SWARBROOKE, John. Turismo sustentável: meio ambiente e economia. Traduzido por: Esther Eva Horovitz. v. 2. São Paulo: Aleph, 2000. Tradução de: Sustainable Tourism Management.

 

VELHO, Gilberto. Observando o Familiar. In: NUNES, Edson (Org.). A Aventura Antropológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

 

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Referências eletrônicas

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS BACHARÉIS DE TURISMO. Projeto de Turismo de baixo custo pode começar em 60 dias, diz ministro. Disponível em <http://www.abbtur.org.br/index.php?secao=ver_noticias&id_noticia=166> Acessado em: 03 fev. 2006

 

OLEIAS, Valmir José. Conceito de lazer. Disponível em: <http://www.cds.ufsc.br/~valmir/cl.html> Acessado em: 23 fev. 2006.


 

[1] Juliane Lumertz é Bacharel em Turismo/PUCRS. julilumertz@gmail.com

[2]  Mariana Selister Gomes é Bacharel em Turismo/PUCRS e estudante de História/UFRGS. marianaselister@gmail.com

[3] Priscila Gayer é Bacharel em Turismo/PUCRS e mestranda em Turismo/UCS. priquest@yahoo.com

[4] Rita Michelin é Bacharel em Turismo/PUCRS e mestranda em Turismo/UCS. rita.michelin@gmail.com

[5] Entendendo-se então política como a maneira dos governos agirem, ou seja, colocar em prática suas intenções, para que essas na prática virem ações. Enfim, são os instrumentos dos governos.

[6] Disponível em <www.abbtur.org.br/index.php?secao=ver_noticias&id_noticia=166> Acessado em: 03 fev. 2006

 

[7] Dados extraídos do texto de Júlia Azevedo (In IRVING, 2002, p. 193).

 

 

 

Juliane Lumertz é Bacharel em Turismo/PUCRS. julilumertz@gmail.com

Mariana Selister Gomes é Bacharel em Turismo/PUCRS e estudante de História/UFRGS. marianaselister@gmail.com

Priscila Gayer é Bacharel em Turismo/PUCRS e mestranda em Turismo/UCS. priquest@yahoo.com

Rita Michelin é Bacharel em Turismo/PUCRS e mestranda em Turismo/UCS. rita.michelin@gmail.com



 

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