|
Resumo
O
tema central do presente artigo refere-se à inclusão no
Turismo das camadas populares brasileiras através de
propostas de Lazer que mantenham o caráter da
experiência turística – atividades que envolvam,
portanto, o deslocamento, mesmo dentro da própria
cidade, o estranhamento e o encontro com o diferente.
Para isso, dar-se-á o exemplo do passeio Linha Turismo
de Porto Alegre - RS em meio às discussões teóricas
sobre Lazer, Turismo e Turista. Por fim, tratar-se-á do
papel desempenhado pelo poder público como fomentador de
políticas inseridas nesta proposta de inclusão no
Turismo por meio do Lazer dentro dos limites municipais.
Palavras chaves: Turismo, Lazer, Turista.
Abstract
The main subject presented in this article is related to
the inclusion of Brazilian popular classes in to Tourism
through Leisure proposals which keep the Tourism
experience’s characteristics – activities supposed to
comprehend even shorts dislocations inside the citizen’s
city and the exotic looking implicit in the situation
that occur the meeting with the different. Thereby, it
will be introduced, as an example, the tour Linha
Turismo, developed in Porto Alegre-RS, among
theoretical discussion about Leisure, Tourism and
Tourist. At last, it is given credit that the public
administration shall plan public politics considering
the possibility of inclusion in to Tourism through
Leisure activities inside the own city.
Keywords: Tourism, Leisure, Tourist.
Analisando o
desenvolvimento do Turismo apresentado por Mirian
Rejowski (2002), é possível perceber que este fora
realizado pela aristocracia/elite nos períodos de
retração do fenômeno, e nos momentos de expansão
tornara-se acessível à burguesia/classe média. A II
Guerra Mundial (1950) representa o ponto inicial da
expansão do Turismo vivenciado atualmente, ou seja, o
denominado Turismo de
massa. Ainda segundo a autora, este momento é marcado
pelo surgimento dos pacotes turísticos, pela
padronização da oferta e pela presença das grandes
operadoras de Turismo. Para Marc Boyer (2003), o Turismo
massivo não teria mudado a concepção de atrativo
turístico e os lugares visitados, apenas passou-se de
uma minoria às massas, uma vez que estas tendiam a
imitar as práticas elitistas. No entanto, o conceito de
Turismo de massa parece um tanto eurocêntrico se
observado sob o ponto de vista brasileiro, posto que há
no país uma má distribuição de renda que restringe o
desfrute do Turismo a uma grande parcela da população.
Por outro lado, deve-se
considerar que o Turismo de massa representa um momento
de expansão do fenômeno, ocasionando um aumento do
número de pessoas que o vivenciam, passando das elites
às classes médias. Essa questão é observada por
Ruschmann “[...] o Turismo já não é uma prerrogativa de
alguns cidadãos privilegiados; sua existência é aceita e
constitui parte integrante do estilo de vida para um
numero crescente de pessoas em todo o mundo” (2000,
p.13). Porém, a autora não deixa claro quem são essas
pessoas.
Apesar da diminuição
dos custos dos pacotes turísticos oferecidos pelas
operadoras brasileiras (CVC e PNX Travel, por exemplo)
ou vôos ofertados pelas empresas aéreas de caráter
econômico (GOL e BRA), os valores praticados ainda não
se encontram numa margem acessível para a maioria dos
brasileiros. Esta falta de acesso reflete diretamente na
privação do “fazer Turismo” imposta à maioria dos
brasileiros devido uma série de questões estruturais,
principalmente econômicas e sociais, como o baixo poder
aquisitivo decorrente da má distribuição de renda
presente no país, as desigualdades sociais, o
desemprego, e a falta de tempo livre (de Lazer) daqueles
que necessitam trabalhar muitas vezes sem descanso, ou
melhor, que muitas vezes não tem férias, pois seus
ofícios são informais ou porque suas rendas provêm dos
denominados “bicos”.
Além disso, outras questões observáveis no cenário
brasileiro contribuem para essa limitação na prática do
Turismo. Os valores elevados, algumas vezes decorrentes
da dimensão do Brasil, um “país continental” (devido sua
grande extensão territorial), a má condição das rodovias
brasileiras, a alta cobrança de pedágios nessas, a falta
de transporte ferroviário são problemas que também
impedem maiores deslocamentos turísticos dentro do país
para os nossos cidadãos.
No entanto, acreditando
no Turismo enquanto um fenômeno complexo, não apenas
econômico, mas essencialmente social, cultural,
político... e diante das questões expostas acima,
evidencia-se a necessidade de pensar alternativas
capazes de propiciar a prática do Turismo por todos e
de maneira bilateral. Ou seja, planejar não somente a
participação da população no sentido receptivo, mas
também elaborar políticas públicas que possibilitem o
acesso do cidadão brasileiro à experiência turística
enquanto Turista.
Nessas condições, o
presente artigo tem como objetivo reforçar as propostas
de inclusão no fenômeno turístico das camadas populares
brasileiras através de alternativas de Lazer dentro dos
limites municipais, que despertem o estranhamento do
sujeito com o seu local de residência, levando-o a um
encontro consigo e com sua cidade dentro de uma
experiência caracterizada como turística. Tomar-se-á
como exemplo no decorrer do trabalho a “Linha Turismo”,
desenvolvida pelo escritório municipal de Turismo de
Porto Alegre em 2003 e em atuação até os dias atuais.
Ainda que não envolvam longos deslocamentos nessas
propostas, acredita-se que estas mantenham as
características essenciais da experiência turística.
Para sustentar a idéia central e objetivando instigar
uma discussão sobre tais possibilidades e interfaces,
alguns questionamentos teóricos serão realizados a
seguir.
Articulando Lazer e
Turismo: a inclusão na experiência turística dentro
própria cidade
Com base no senso
comum, o Turismo geralmente é compreendido enquanto uma
forma de Lazer. Contudo, ao observar o Turismo e o Lazer
mais atentamente, é possível perceber que se trata de
dois fenômenos diferentes, portanto, passíveis de
conceitualizações singulares, apesar de apresentarem
instâncias semelhantes. São estas semelhanças que
permitem o inter-relacionamento entre ambos de maneira a
possibilitar, por vezes, que um esteja contido no outro.
Assim, iniciar-se-á o aprofundamento teórico do
questionamento do
conceito de Lazer:
Lazer é um conjunto de ocupações às quais a pessoa se
entrega plenamente seja para descansar, seja para se
distrair, seja para completar sua informação e formação
desinteressada, sua participação social voluntária ou
sua capacidade criadora, após ter se liberado das suas
obrigações profissionais, familiares e sociais (DUMAZEDIER
apud STEFANI, 1982, p.6).
São
os três elementos clássicos do lazer. Ele é ora
descanso, ora distração, ora desenvolvimento da pessoa.
É sempre tempo livre disponível para a recuperação do
equilíbrio existencial ou para completar-se, isto é,
aprimorar a qualidade da vida ou, ainda, pensar na vida
futura (STEFANI, 1982, p.11).
Considerando os
conceitos apresentados, o Turismo pode ser compreendido
como uma forma de Lazer quando pressupuser uma
experiência caracterizada pela busca do descanso, da
distração e do desenvolvimento pessoal realizados no
tempo livre do Turista. Tendo em vista que os sujeitos
deslocam-se motivados pelos mais variados desejos, a
busca de determinada experiência turística não estaria
restrita ao Lazer. Fator que acaba tornando a motivação
voltada para este uma das categorias mercadológicas do
Turismo – Turismo de Lazer, de negócios,
histórico-cultural, de aventura, ecológico
entre outros. Dessa maneira o Lazer pode fazer
parte do fenômeno turístico, todavia não se expressa
enquanto um conceito subjacente a este, pois as práticas
de Lazer são as mais diversas, podendo compreender,
dentro da sua gama de possibilidades variadas, a viagem
de Turismo quando o objetivo central envolver, conforme
exposto anteriormente, o tempo livre, o descanso, a
distração e/ou desenvolvimento pessoal.
O fenômeno turístico
não se restringe a esta visão unilateral - a busca do
sujeito em realizar determinada experiência – uma vez
que envolve uma comunidade receptora e uma gama de
serviços (transporte, hospedagem, alimentação, etc) que
possibilitem a experiência do encontro com o objeto
almejado. Ou seja, a realização do Turismo depende não
apenas do Turista, mas de outros sujeitos envolvidos no
fenômeno e de toda
uma condição estrutural, sociocultural, política,
ambiental... Já a leitura de um livro, por exemplo,
requer apenas um lugar silencioso e a concentração do
leitor. Diante desta observação, fica claro que nem
sempre a experiência proporcionada pelo Lazer poderá ser
considerada como turística – ler muitas vezes pode ser
uma experiência emocionante através do encontro com o
desconhecido e com o diferente, porém sem deslocamento
físico. Também, nem
sempre a experiência turística estará relacionada ao
Lazer, por exemplo o Turismo de negócios.
Assim, observa-se que a
experiência turística só será possível por meio da
locomoção do sujeito Turista a seu destino,
proporcionando uma experiência física e não apenas
virtual e mental, e que esta depende dos diversos atores
envolvidos para sua realização. Dentre eles estão o
setor público, o privado e as comunidades receptoras
além do Turista.
Dos atores envolvidos,
nem sempre há uma consideração eqüitativa referente às
necessidades de todos participantes. Isso porque, sob a
ótica do mercado o Turismo geralmente é considerado como
uma indústria, a qual tem como referência os desejos da
demanda, transformando as comunidades em produtos
turísticos a fim de suprir tais necessidades. Assim,
desconsidera-se a complexidade do local de destino na
simplificação da segmentação mercadológica ao considerar
apenas o consumidor. Por conseguinte, esta visão
apresenta-se de maneira parcial e causadora de inúmeros
impactos sociais negativos ao objetivar apenas
benefícios financeiros, reduzindo o fenômeno do Turismo
ao seu caráter econômico.
Aprofundando a análise
das conceitualizações de Turismo, este já é entendido,
no campo acadêmico e por alguns profissionais da área,
como um fenômeno complexo – social, cultural, político,
comunicacional, ambiental entre outros.
De acordo com Moesch, entende-se Turismo como
uma
combinação complexa de inter-relacionamentos entre
produção e serviços, em cuja composição integram-se uma
prática social com base cultural, com herança histórica,
a um meio ambiente diverso, cartografia natural,
relações sociais de hospitalidade, troca de informações
interculturais. O somatório desta dinâmica sociocultural
gera um fenômeno, recheado de objetividade/
subjetividade, consumido por milhões de pessoas, como
síntese: o produto turístico (2000, p. 9).
Com base nesse conceito
exposto, reforça-se a idéia de que o Turismo é composto,
não apenas a partir do deslocamento e da infra-estrutura
necessária para sua realização, mas envolve as
instâncias ambientais, sócio-culturais, políticas,
psicológicas e comunicacionais inerentes à experiência
do encontro com o diferente, do encontro com o outro.
Para Waimberg, “a
atração é o cerne da diferença e ela que estimula a
visitação” (2001, p.18). Portanto, a diferença seria o
elemento primordial para o despertar do desejo pela
visitação, levando o sujeito a locomover-se em busca do
encontro com esse outro, que devido a sua estranheza,
atrai o olhar. Assim, poder-se-ia dizer que o encontro
com o diferente seria um ponto central na experiência
turística (salvo os casos de Turismo de negócios).
Ainda, para o autor o Turismo seria um fenômeno
comunicacional, e a cidade um texto passível de diversas
interpretações. Neste contexto, oportunizar leituras
diferenciadas da cidade ao sujeito local seria uma
maneira de proporcionar-lhe uma experiência turística ao
envolver o deslocamento em busca do encontro com o
diferente. Encontro possível a partir da apresentação de
diferentes interpretações da cidade, nas quais os
elementos cotidianos seriam revelados nas suas
estranhezas, contrapondo-se à leitura trivial,
despercebida e apressada do dia-a-dia.
Ainda, mantendo as
observações de Jacques Waimberg (2001), a experiência
turística poderia ser considerada como uma investida
antropológica no sentido de que se busca conhecer o
outro, o exótico, o diferente. Relacionando a
experiência turística com o trabalho de campo do
antropólogo, ao estudar sociedades exóticas este deve
transformá-las em familiar; ao passo que ao estudar a
sua própria sociedade deve transformá-la em exótica (DAMATTA,
1987). Ou seja, vê-la com outros olhos através de um
distanciamento daquilo que é aparentemente dado (VELHO,
1978). Questão que evidencia a possibilidade de
despertar o sentimento de estranheza no sujeito ao
apresentar leituras diferenciadas (distantes da visão
trivial) do urbano, pois “o que sempre vemos e
encontramos pode ser familiar, mas não é
necessariamente conhecido” (VELHO, 1978, p.39).
Considerando as
reflexões acima, um passeio desenvolvido com a proposta
de possibilitar à comunidade local diferentes visões
sobre a sua cidade de residência, realizado no tempo
livre do sujeito, buscando o descanso, a saída da
rotina, a distração – as quais são características do
Lazer – levariam a uma prática de Lazer resultante em
uma experiência com características turísticas no
sentido de envolver um deslocamento em busca do objeto
almejado, mesmo dentro dos limites municipais, mas capaz
de possibilitar uma experiência física, não apenas
mental, que pressuponha o encontro com o diferente.
Nesse contexto,
envolvendo deslocamentos dentro dos limites municipais
da comunidade receptora, o conceito de Turista é
transformado, deixando de ser entendido naquele simples
enunciado da Organização Mundial do Turismo (OMT) que o
defini como aquele “que desfruta de pelo menos um
pernoite em alojamento coletivo ou particular no lugar
visitado” (OMT, 2003, p.18) e passando a ser entendido
num sentido mais complexo como um ator que realiza a
experiência turística, envolvendo estranhamento,
encontro com o diferente e deslocamento, mesmo em seu
próprio espaço geográfico. Isto porque a ênfase está nos
fatores subjetivos, e não, simplesmente, nas questões
quantitativas que classificam o Turista a partir do
número de dias de uma pessoa fora de sua residência ou
da quantidade de quilômetros percorridos.
A partir da ênfase nos
fatores subjetivos, o Turista é aquele que realiza a
“arte do viajar” em seus aspectos práticos e simbólicos,
é o Turista que agrega impressões, sentidos, emoções,
simbolismos, “em seu viajar”. No mesmo sentido, Viagem,
que se relaciona diretamente a experiência do Turista, é
entendida para além do seu aspecto de deslocamento.
Neste sentido a Viagem é entendida mais como uma
poética, que pode envolver ou não um grande deslocamento
no território – o que sustenta a idéia de ser Turista em
seu próprio espaço geográfico e, assim, sem apresentar
custos muito elevados, proporciona o acesso de um número
maior de pessoas, ou seja, uma inclusão no Turismo. No
“ato de viajar” o Turista vive uma gama de experiências
novas, carregadas de simbolismos, nas quais este pode
conhecer-se (BOTTON, 2003, p. 28) e adquirir
conhecimentos para a vida (idem, p. 122, 123,
124). E, assim, realiza, também, uma atividade de Lazer.
Esta abordagem de
Turista relaciona-se com o desafio proposto por Capra (apud
STRIEDER, 2000, p. 263) da “Teia da Vida”, na qual
entende-se o planeta de forma profunda, como um ser
vivo, articulando o ser humano e a natureza, em todos os
seus aspectos, e, não apenas dos entendimentos modernos,
mecanicistas, quantitativos e industriais que a ciência
tem realizado sobre o planeta, sobre a natureza e sobre
o ser humano e, conseqüentemente, sobre o fenômeno
turístico e conceitos subjacentes a este, tal como o de
Turista.
Uma
experiência de Lazer e inclusão no Turismo para os
residentes: a “Linha Turismo” de Porto Alegre/RS.
Para melhor discorrer
acerca desta idéia de inclusão da população local no
fenômeno turístico, apresentar-se-á a “Linha Turismo”
como exemplo, pois esta tem como objetivo fazer com que
todos (tanto Turistas quanto a população local) conheçam
a cidade por um outro ângulo. Este projeto foi criado
pelo Porto Alegre Turismo Escritório Municipal em
Janeiro de 2003. Trata-se de uma linha especial, com um
ônibus panorâmico de dois andares, com ar refrigerado e
janelas panorâmicas na parte de baixo e o andar superior
aberto, com cinco saídas diárias de terças a domingos.
Esta percorre 11 bairros e 17 dos principais pontos
turísticos, com duração de aproximadamente 80 minutos.
A Linha Turismo permite
ao público conhecer as belezas e atrativos da capital
gaúcha ou redescobrir os detalhes e histórias das ruas e
recantos por onde os porto-alegrenses transitam todos os
dias. Além disso, conta com guia que durante todo o
percurso conta as histórias e chama atenção para
detalhes que muitas vezes passam despercebidos, fazendo
com que a população perceba de maneira diferenciada
aqueles locais, monumentos e atrativos que costuma ver
todos os dias, porém sem dar importância.
Este projeto foi criado
visando tanto aos Turistas quanto a população local,
sendo, para esses, uma forma acessível de Turismo dentro
de sua própria cidade. Dessa forma, conforme enfatiza
este trabalho, a experiência turística constitui-se de
deslocamento, encontro e estranhamento. Acredita-se que
o deslocamento pode ser realizado dentro dos limites da
cidade onde o indivíduo vive, ou seja, seu ambiente
usual. A partir do momento em que o sujeito desloca-se
especialmente para determinados locais (ou, como neste
caso a Linha Turismo) de sua cidade buscando, ou não, de
alguma forma o encontro consigo mesmo e com o local
visitado, assim como o estranhamento ao visualizar este
com outro olhar e percebê-lo de uma forma distinta,
podemos considerar que sim, trata-se de uma experiência
turística dentro de sua
própria cidade.
O fato do andar
superior do ônibus ser aberto proporciona outra visão
aos seus passageiros, que podem observar a sua cidade de
uma grande altura
causando, desse modo, um estranhamento a esses, pois tem
uma outra visão de detalhes tão simples, mas que são
detentores de grande importância, sejam, culturais,
naturais, sociais, dentre outras. A Linha Turismo, para
os habitantes de Porto Alegre, é uma maneira especial de
descobrir e redescobrir a sua própria cidade. Segundo
Wainberg (2001, p. 11)
“[...] a cidade deve ser vista como uma escritura, uma
fala a ser interpretada pelo transeunte. Trata-se de um
enigma a ser desvendado pela exploração. A percepção é
estimulada pelo estranhamento causado por sua
arquitetura, vias, limites, bairros, pontos nodais,
marcos, avenidas, cafés e bares. É uma obra de arte
viva, e seus atores móveis são os seus habitantes. [...]
No campo estranho, todo detalhe é relevante na
composição do todo.”
Ou seja, é através da
estranheza, da agressão aos sentidos que há uma
percepção de certas características que, por vezes,
passavam despercebidas. Esse estranhamento é um dos
pontos principais para que haja a experiência turística
e este que é trabalhado através do projeto Linha
Turismo, que busca aguçar os sentimentos dos seus
passageiros chamando
atenção para pontos e detalhes que venham a causar
estranheza aqueles.
Além disso devemos
perceber que:
“Olhar para as cidades é sempre um prazer especial por
mais comum que possa ser o panorama urbano. A cidade é
uma construção física e imaginária, compreende um lugar
e faz parte do todo geográfico. O tecido urbano é
dinâmico e está inserido no processo histórico de uma
sociedade.[...] A cada instante, há mais do que os olhos
podem ver, do que o olfato pode sentir ou do que os
ouvidos podem escutar. Cada momento é repleto de
sentimentos e associações. A cidade é o que é visto, mas
mais ainda, o que pode ser sentido.” (CASTROGIOVANNI,
2001, p. 24)”
Sendo assim, percebemos
que é possível existir Turismo sem grandes deslocamentos
e dentro do próprio espaço urbano, e que esse tipo de
Turismo gera a inclusão das camadas populares neste
fenômeno, pois para a sua realização não é necessário
despender muito tempo e dinheiro.
Depois dessa nova
proposição para inclusão no fenômeno turístico, a partir
do entendimento de que Turismo é, também, aquele
praticado dentro dos limites municipais desde que
possibilite o estranhamento, o deslocamento e o encontro
com o diferente, chega-se a seguinte questão: há quem
cabe desenvolver essas novas propostas de Lazer? Sabe-se
que há diferentes motivos para desenvolver o Turismo. Na
maioria dos casos, o poder privado o faz em busca de
lucros, enquanto o poder público procura benefícios para
os seus cidadãos e a melhora de qualidade de vida da
população local.
De acordo com
Swarbrooke (2000, p. 05),
O
setor público influencia o turismo de várias formas, e
pode desempenhar uma função no desenvolvimento do
turismo sustentável, valendo-se de uma diversidade de
meios que incluem os seguintes:
-
legislação e regulamentação;
-
financiamento e incentivos fiscais; [...]
- o
fornecimento da infra-estrutura;
- o
exemplo que o setor público pode dar por meio de seu
papel como ator atuante na indústria do turismo;
- padrões oficiais; [...]
Conforme
Bill Bramwell (In THEOBALD, 2002, p. 375): “[...]
As intervenções
do governo são orientadas pela política e implementadas
por instrumentos de política, que são os mecanismos
específicos ou ferramentas empregadas para colocar a
política em prática”.
De acordo com Barretto
(2003, p.33), “em termos genéricos, por políticas
públicas se entende as ações do Estado orientadas pelo
interesse geral da sociedade.” Citando Hofling, a autora
ainda coloca que se pode compreender políticas públicas
como, “o Estado em ação (...) é o Estado implantando um
projeto de governo, através de programas, de ações
voltadas para setores específicos da sociedade”.
Assim, entende-se que é
responsabilidade do poder público em suas diversas
esferas (federal, estadual e municipal) a realização de
iniciativas para a inclusão de todas as camadas da
população no fenômeno turístico por meio de seus
instrumentos capazes, as políticas.
Apesar desta ênfase no setor público, não se isenta a
responsabilidade também do setor privado em transformar
o mercado para que este se torne mais abrangente e mais
inclusivo, mesmo que menos lucrativo.
Considerações Finais
Este artigo procurou levantar uma série de questões de
importância teórica, como o significado de Turista, e,
uma maior percepção acerca do fenômeno turístico. Também
discutiu problemas de relevância prática, como a
importância do desenvolvimento de propostas de Lazer que
mantenham o caráter da experiência turística para as
camadas mais populares e o papel do poder público como
ator responsável por colocar em prática ações deste
tipo.
Sabe-se que um dos objetivos do Ministério do Turismo
Brasileiro é democratizar o fenômeno turístico e
possibilitar a inclusão social através deste. Para isso,
algumas ações estão sendo desenvolvidas e serão
colocadas em prática através do “Programa Vai Brasil”.
De acordo com notícia vinculada no site da Associação
Brasileira dos Bacharéis em Turismo (ABBTUR)
em 03 de janeiro deste ano, esse programa:
[...] visa proporcionar aos brasileiros condições de
conhecer o país a preços acessíveis na baixa temporada,
aproveitando a ociosidade dos hotéis e das companhias de
transporte nesses períodos. A intenção do governo é
incentivar pessoas que ganham de R$ 800 a R$ 1.200 a
viajar fora da estação de alta temporada para destinos
dentro do próprio país.
Entende-se que essa iniciativa governamental é válida,
pois beneficiará uma parcela da população, entretanto a
maior parte dos brasileiros ainda não terá acesso à
prática do Turismo. Como o governo federal pretende
democratizar o Turismo é necessário possibilitar a todos
a inclusão neste. Dessa forma, a alternativa inovadora
seria a de possibilitar o acesso à experiência turística
através de propostas de Lazer dentro dos limites
municipais, que despertem o estranhamento do sujeito com
o seu local de residência, levando-o a um encontro
consigo e com sua cidade dentro de uma experiência
caracterizada como turística, como é o caso do já bem
sucedido do projeto Linha Turismo da administração
pública porto alegrense.
Para isso é necessário
um engajamento das diversas esferas do poder público
brasileiro. Sabe-se que muitas vezes o relacionamento
intergovernamental é difícil, porém nessas horas de
trabalhar para o benefício do povo, o qual se está
representando, é necessário esquecer desentendimentos,
diferenças partidárias e se unir para alcançar e
desenvolver ações.
Para o governo federal
beneficiar diretamente os 5.561 municípios
às vezes é complicado, por isso necessita do trabalho
integrado com os 26 Estados e o Distrito Federal. Esses
por sua vez também encontram complicações e precisam do
auxílio das administrações municipais que também carecem
de problemas e devem buscar ajuda nas outras esferas
governamentais. Logo, o trabalho de desenvolver o
Turismo, por vezes, torna-se interdependente, pois cada
nível governamental está apto a desenvolver um nível do
mesmo problema (nacional, internacional, regional e
local), ou seja, todos devem trabalhar juntos para a
resolução de um problema em comum, porém cada um em um
nível diferenciado, para que assim, ao final, cheguem
juntos a solução do mesmo.
Este trabalho buscou
refletir sobre a inclusão das classes populares no
Turismo, através do acesso ao Lazer e do desenvolvimento
da experiência turística no próprio espaço urbano destas
classes. Isto porque se percebe a desigualdade no acesso
a experiência turística. Nota-se, também, que esta
desigualdade não é isolada no fenômeno turístico,
evidencia-se a complexidade do problema da desigualdade
de acessos. Neste sentido, Castelli (1990, apud
OLEIAS), foi oportuno em observar uma condição marcante
nos tempos atuais:
Como
engajar a população, sobretudo dos países do terceiro
mundo, nessas diferentes atividades? Tarefa nada fácil,
pois mexe-se diretamente com as classes dominantes. Para
que a massa trabalhadora tenha acesso ao lazer, é
preciso dar-lhe condições, não só criando uma
infra-estrutura adequada, mas também condições de vida
melhores: empregos, salários condizentes, educação,
saúde, habitação. Como podem os trabalhadores dos países
subdesenvolvidos ter acesso ao lazer se ainda estão
lutando pela sua sobrevivência?
Após as indagações de
Castelli, finaliza-se este artigo alertando para a
necessidade de pensar, para além dos domínios do Lazer e
do Turismo, na inclusão das camadas populares
brasileiras na sociedade como um todo enquanto premissa
para realização da inclusão destas no fenômeno turístico
através do Lazer.
Referências
Bibliográficas
AZEVEDO, Júlia. Políticas públicas, recursos humanos e
educação ambiental. In: IRVING, Marta de Azevedo.
Turismo: o desafio da sustentabilidade. São Paulo:
Futura, 2002.
BARRETTO, Margarita. Turismo, políticas públicas e
relações internacionais. São Paulo: Papirus, 2003.
BOTTON, Alain de. A arte de viajar. Rio de
Janeiro: Rocco, 2003.
BRAMWELL, Bill. Selecionando instrumentos de política
para o turismo sustentado. In: THEOBALD, William F.
(Org.) Turismo Global. Traduzido por: Anna Maria
Capovilla; Maria Cristina Guimarães Cupertino; João
Ricardo Barros Penteado. 2. ed. São Paulo: Editora
SENAC, 2002. Tradução de: Global Tourism.
BOYER, Marc. A História do Turismo de Massa.
Bauru: EDUSC, 2003.
CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos.
Turismo e ordenação no espaço urbano. In:
CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos; GASTAL, Susana (Org.).
Turismo Urbano. São Paulo: Contexto, 2001.
DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à
antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
MOESCH, Marutschka. A Produção do Saber Turístico.
São Paulo: Contexto, 2000.
REJOWSKI, Mirian (org.). Turismo no Percurso do Tempo.
São Paulo: Aleph, 2002.
RUSCHMANN, Doris. Turismo e planejamento sustentável:
A proteção do meio ambiente. 9.ed. Campinas: Papirus,
2000.
STEFANI, Ernesto Daniel. Ensaio sobre o lazer.
Veritas. Porto Alegre, n. 105, mar. 1982.
STRIEDER, Roque. Educar para a iniciativa e a
solidariedade.
Ijuí/RS: UNIJUÍ, 2000.
SWARBROOKE, John.
Turismo sustentável: meio ambiente e economia.
Traduzido por: Esther Eva Horovitz. v. 2. São Paulo:
Aleph, 2000. Tradução de: Sustainable Tourism Management.
VELHO, Gilberto. Observando o Familiar. In: NUNES, Edson
(Org.). A Aventura Antropológica. Rio de Janeiro:
Zahar, 1978.
VELHO, Gilberto; CASTRO, Eduardo Viveiros. O Conceito de
Cultura e o Estudo das Sociedades Complexas. In: Revista
Artefato, Ano 1, nº. 1, 1978, p. 4-9.
WAINBEIRG, Jacques. Cidades como sites de excitação
turística.
In: CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos e GASTAL, Susana
(Org.).
Turismo Urbano.
São Paulo: Contexto, 2001.
Referências
eletrônicas
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS BACHARÉIS DE TURISMO.
Projeto de Turismo de baixo custo pode começar em 60
dias, diz ministro. Disponível em <http://www.abbtur.org.br/index.php?secao=ver_noticias&id_noticia=166>
Acessado em: 03 fev. 2006
OLEIAS, Valmir José. Conceito de lazer.
Disponível em: <http://www.cds.ufsc.br/~valmir/cl.html>
Acessado em: 23 fev. 2006.
Disponível em <www.abbtur.org.br/index.php?secao=ver_noticias&id_noticia=166>
Acessado em: 03 fev. 2006
|