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Introdução
O presente artigo busca construir uma reflexão acerca dos patrimônios
histórico-culturais e a atividade turística, abarcando questões sobre
esta ligação, fortemente visualizada através do turismo cultural. A fim
de exemplificar esta ligação, será apresentado como estudo de caso o
exemplo da Rua Direita em Mariana-MG, que se constitui ao mesmo momento
enquanto patrimônio histórico-cultural e também importante atrativo
turístico, uma vez que é um exemplar vivo e conservado do período
barroco que encanta a tantos visitantes.
Através do conjunto arquitetônico no qual a Rua está inserida,
conservando características artístico-arquitetônicas representativas do
gosto construtivo predominante em Minas Gerais em fins do século XVIII,
é construída uma forte ligação entre o passado e o presente na cultura e
história do município. Ao mesmo tempo, a atividade turística local tem
no conjunto um atrativo de destaque para o desenvolvimento do turismo
cultural, segmentação da atividade que atualmente é destaque nas
chamadas cidades históricas mineiras.
Destarte, a discussão é baseada na necessidade de se compreender a
utilização turística de um patrimônio que pertence à determinada
comunidade, e que, através da prática turística, passa a pertencer não
apenas àquelas pessoas, mas também, mesmo que momentaneamente, aos seus
visitantes.
Um pouco da história da Rua Direita: elemento da construção da memória
coletiva marianense
O núcleo histórico de Mariana, cidade mineira do século XVIII, distante
102 km de Belo Horizonte, demonstra que a história da primeira cidade de
Minas Gerais continua viva e dinâmica. A Rua Direita, parte integrante
do núcleo histórico, é um dos mais belos exemplos do período colonial,
através da construção de magníficos sobrados, marcos de uma época de
ostentação e luxo. Pavimentada
com pedras do “tipo pé-de-moleque”, polidas pelo uso, envolve o
visitante, a partir de um ponto de vista pitoresco, valorizando os
monumentos que nela se encontram.
O início das construções das casas se deu a partir de 1753. No livro de
Atas da Câmara (de 1751 a 1753), segundo Salomão de Vasconcelos, há um
acordo determinando que todos os pretendentes à edificação do lado
esquerdo da rua construíssem as casas “de maior nobreza, dando fundos
para o Palácio”. Essa é a razão de se ver até hoje todas as casas desse
lado da rua de dois andares e de sacadas, enquanto as do lado oposto,
dando fundos para a antiga praia, são, na maioria, baixas, de um só
pavimento. O referido “palácio”, mencionado no acordo, era,
evidentemente, o do bispo, antiga sede do governo da Capitania de Minas
do Ouro/São Paulo, à época do Conde de Assumar.
Atualmente, podem ser vistos exemplares de construção coloniais, quase
todos ainda bem conservados. O sobrado de maior proeminência é a antiga
residência do “Barão de Pontal”, por suas belíssimas sacadas em
pedra-sabão, obra de fina arte, atraindo a curiosidade do mais exigente
artista, construído em 1752 por José Pereira Arouca. Atualmente, o
sobrado pertence à Arquidiocese de Mariana. Além de outros belos
casarões, merece destaque a casa onde morou Alphonsus de Guimarães,
funcionando no local o museu com os pertences do poeta-simbolista que
nasceu no município.
Considerada como um importante elemento da memória local, é expressão
viva e repleta de fatos históricos, acontecimentos, procissões
religiosas, ainda hoje utilizado por vivências culturais da população.
Contribuindo, assim, para a construção da memória e identidade da
cidade, o que dá aos moradores sentido, sentimento de pertencimento e
auto-estima.
A memória de determinada população atua como uma operação ideológica,
acarretando o desenvolvimento de um processo psíquico-social de
representação de si próprio que reorganiza simbolicamente o universo das
pessoas, das coisas. Segundo Pollak (1992, p. 204, apud BATISTA,
2006, p. 29), a memória se caracteriza como sendo “um elemento
constituinte do sentimento de identidade, tanto individual quanto
coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante
do sentimento de continuidade de coerência de uma pessoa de um grupo em
sua reconstrução de si”. Elemento essencial para a construção da
identidade de um povo, serve como elo entre a população em determinado
tempo e seus antepassados. Compreender determinado patrimônio
histórico-cultural como sendo uma maneira de representação do passado é
uma tentativa de manutenção e compreensão da própria identidade de um
povo.
A atividade turística em cidades históricas e a importância da Rua
Direita para o desenvolvimento do Turismo Cultural em Mariana
Segundo Silva (2004, p. 64), o universo das localidades brasileiras
constrói um quadro no qual se identificam sete tipos distintos de
destinações: cidades históricas, cidades com temáticas européias, praias
urbanizadas, praias rústicas, cidades do interior, complexos turísticos
e centros metropolitanos.
As cidades históricas são caracterizadas por apresentarem “centros
históricos”, núcleos que por diversas razões são preservados da
destruição e permanecem íntegros, ou parcialmente íntegros, com o seu
traçado urbano e suas edificações originais (Camargo, 2006). O município
de Mariana apresenta tais traçados, pertencendo ao grupo de cidades
brasileiras, localidades geralmente pequenas e pitorescas, remanescentes
do período colonial e imperial brasileiro (SILVA, 2004).
No que se refere à preservação e utilização dos seus bens
histórico-culturais, nota-se que há na história local elementos que
contribuíram para a manutenção dos seus prédios e ruas, tais como o
deslocamento dos maiores fluxos demográficos para Belo Horizonte nos
séculos passados, e certo desprezo por parte dos cidadãos daquela época
pelos casarões e edifícios que remetiam a um período que já tinha gerado
muito lucro, mas que passou a gerar dívidas e sofrimentos no período
posterior ao declínio do ciclo do ouro.
Dentre os atrativos mais famosos destas cidades, destacam-se as
reduzidas áreas urbanas e as composições de espaços livres e construídos
diferenciados, como ladeiras com casarões, praças, largos, igrejas, ruas
centenárias, construindo cenários extremamente atrativos para o turista
cultural, principalmente aqueles moradores de cidades grandes, que
buscam estes destinos para um contato com o ar melancólico que as ruas e
construções podem oferecer, além do clima histórico e nostálgico que
estes lugares oferecem.
Tais atrativos são considerados como bens patrimoniais que são
construídos através da cultura local, ou seja, conferem identidade e
orientação para aquela população, e servem como pressupostos básicos
para que esta se reconheça como uma comunidade única, inspirando valores
ligados à pátria, à ética e à solidariedade, e estimulando o exercício
da cidadania, através de um profundo sentimento de pertencer a um lugar
e também de continuidade histórica.
A Rua Direita, além de ser um patrimônio cultural, pode também ser
considerada como sendo patrimônio arquitetônico, uma vez que estes estão
relacionados com as características do meio natural onde se localiza,
mas fundamentalmente com a história e com a cultura (Norrild, 2000).
Pode-se afirmar que o patrimônio cultural é considerado como uma
tentativa de se restabelecer vínculos com a tradição perdida, com a era
passada, com os costumes que hoje não existem mais, e que encantam
àqueles que buscam este tipo de experiência através da prática do
turismo cultural.
Assim sendo, quando um visitante passa a se interessar em conhecer a Rua
Direita, este não se interessa apenas pelos pés-de-moleque que enfeitam
o seu caminhar, pelas calçadas em pedras lisas, ou pelos seus casarões
que abrigam desde museus a comércios e residências. O visitante se
interessa pela história que é contada através do silêncio de cada
edificação, através de cada experiência que pode ser imaginada através
de pinturas, ou mesmo por “casos” contados pelos moradores, que através
de suas próprias histórias a vivenciam de uma forma mais viva e repleta
de significados.
Através da própria história e cultura, os sentimentos que o patrimônio
evoca são transcendentes, ao mesmo tempo em que sua materialidade povoa
o cotidiano e referencia fortemente a vida das pessoas. Patrimônio
histórico-cultural é, portanto, a soma dos bens culturais de um povo. O
patrimônio cultural dos mineiros, por exemplo, é o conjunto dos bens
culturais de Minas Gerais, portadores de valores que podem ser legados
às gerações futuras. É preciso destacar que a autenticidade e a
originalidade mesclam-se com a sensação de ‘volta ao passado’, aspecto
explorado nas decorações dos hotéis, bares, restaurantes, folhetos
turísticos e cartazes.
De um modo geral, o apelo turístico recai sobre as feições mais
pitorescas dessas cidades, cultivadas pela manutenção da cultura
tradicional, vivenciadas de maneira mais clara no Turismo Cultural, que
possui densa simbologia, sendo um importante instrumento utilizado pela
memória coletiva, uma vez que une os habitantes, e posteriormente os
visitantes, em torno do mesmo objetivo: a possibilidade de, no presente,
vivenciar o passado, e assim entrar em contato com uma época que não
existe mais.
Na cidade de Mariana, destacam-se praças, largos, chafarizes, museus e
igrejas dos séculos passados que através de práticas de preservação unem
o bem estar dos turistas ao sentimento de pertença a valorização da
própria comunidade. Dentre todos estes elementos, a Rua Direita se
destaca tanto por sua conservação, pelo grande número de prédios
históricos, museus, além de ser o caminho percorrido pelos visitantes
para conhecerem outros atrativos do município.
Neste cenário, é necessário destacar que as relações entre a atividade
turística e o meio ambiente, seus impactos nos patrimônios determinam a
prosperidade da atividade nesta sociedade. A configuração do patrimônio
engloba toda a configuração cultural e urbana local, incluindo elementos
como locomoção, lazer, recreação, compras, moradia, trabalho, identidade
e religiosidade dos moradores locais.
Um problema fundamental que precisa ser solucionado para que o turismo
possa gerar importantes benefícios ao município onde ocorre é sobre a
tensão entre a necessidade de se conservar a malha física da cidade, ou
seja, o centro e a sua paisagem, e a demanda das atividades que ocorrem
nesses espaços ou que para eles são atraídas. É necessário criar
condições para que os visitantes e os residentes se beneficiem desta
importante manifestação histórica que continua ainda hoje viva aos olhos
de quem a vê.
Simultaneamente, é cogente observar a relação dos impactos gerados pelo
turismo e determinado patrimônio cultural, já que muitos conflitos podem
surgir como resultado de uma convivência espacial inconveniente do
turismo com o meio ambiente histórico. O dano físico possível,
intencional ou não, deve ser considerado para que a atividade não gere
um número de danos maior do que os benefícios oferecidos aos moradores
pela atividade.
Atuando de forma conjunta com o interesse e investimento público, a
atividade turística local é também um elemento que fortalece os
interesses na manutenção e conservação do patrimônio, uma vez que, para
“vender” o espaço da Rua Direita como um exemplo vivo do período
colonial, para que os guias possam, ao caminhar com os turistas pela sua
calçada, descrever os acontecimentos históricos e assim construir uma
inter-relação entre o passado e o presente, este patrimônio precisa
estar preservado, cuidado, valorizado, ser respeitado pela população, e,
principalmente, precisa ser considerado como um elemento de forte
expressão na cultura desta população.
A educação patrimonial e ações políticas para a valorização da própria
cultura são iniciativas que devem ser oferecidas à população local, já
que “a busca de preservação se manifesta por processos educativos e de
valorização patrimonial que permitem pensar o turismo como um
instrumento de sua execução e não o contrário” (Meneses, 2004, p. 100).
É preciso interagir e integrar a este patrimônio toda a sociedade local,
para que este bem não tenha significado e valor somente para os
visitantes, e sim, e principalmente, para os moradores que convivem com
o local por toda a vida, evitando-se assim que a Rua Direita se torne
apenas em um corredor comercial de vendas de artesanatos e visitas a
museus, ações que servem para satisfazer as necessidades dos visitantes,
mas que não se preocupam integralmente com a dinâmica do local. Deve-se
agir buscando acentuar os benefícios do turismo, uma vez que este não
ocorra de forma desordenada, o que termina por prejudicar a comunidade
local.
Para que assim o conjunto arquitetônico da Rua Direita possa se
beneficiar através de leis de incentivo que otimizem a utilização tanto
turística quando pública destes patrimônios, a cidade de Mariana possa
obter destes bens um instrumento para manter viva a sua história,
construindo a constante relação entre o seu passado e o seu presente,
uma vez que através de cada detalhe desta rua e dos outros patrimônios
se montam em um quebra-cabeças a história do município.
Considerações finais
Por tudo o que foi exposto no presente estudo, pode-se concluir que o
turismo cultural possui um papel importante na preservação e utilização
dos patrimônios culturais tanto materiais quanto imateriais,
contribuindo para a manutenção dos lugares históricos como exemplos
vivos de uma história importante não apenas para os moradores locais,
mas também para um âmbito maior, através de pessoas de outros lugares
que se deslocam para conhecer aquela cultura. Pelo contato com este
conjunto arquitetônico, bem como através de inúmeros outros monumentos e
bens culturais locais, se vive e se compreende um pouco da história do
próprio Brasil.
A atividade pode converter a utilização deste patrimônio em oportunidade
para o crescimento de demandas turísticas atraídas por motivações
predominantemente culturais, ajudando a fortalecer a própria cultura
local, uma vez que este tipo de turismo obtém na memória e na identidade
de cada localidade elementos essenciais para o seu desenvolvimento.
Entretanto, é preciso levar em consideração a necessidade da implantação
de ações de planejamento que englobem toda a atividade turística local,
buscando diminuir os aspectos negativos gerados, e aumentar os aspectos
positivos em relação às mudanças geradas pela atividade. Cooper et. al.
(2001) afirmam que os impactos socioculturais do turismo podem se
dar de inúmeras formas, envolvendo aspectos que vão desde o artesanato e
outras manifestações culturais até o comportamento dos indivíduos.
Enfim, a Rua Direita deve ser considerada como elemento vivo na cultura
marianense, e que pode e deve ser trabalhada pela atividade turística
desde que respeitada a sua identidade enquanto patrimônio
histórico-cultural pertencente àquela população. Elemento vivo da
história local, o local apresenta aos visitantes uma forte ligação do
presente com o passado, e, através da prática do turismo cultural,
transpassa as barreiras daqueles que já a conhecem, e se torna elemento
vivo de identidade mineira, que vai além das suas montanhas, através da
sua interessante cultura.
A importância da utilização correta e responsável do patrimônio pela
atividade turística reside em sua capacidade de estimular a memória das
pessoas historicamente vinculadas à comunidade, contribuindo para
garantir sua identidade cultural e melhorar sua qualidade de vida.
Assim, neste processo é preciso dar o devido valor à comunidade local,
que é a verdadeira responsável e guardiã de seus valores culturais, uma
vez que esta produziu e mantém os bens culturais que o compõem.
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Caderno Virtual de Turismo, 2006.
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Trad. Roberto
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Autenticidade,
memória e identidades nacionais:
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Newton Coelho. História & Turismo cultural. Belo Horizonte:
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Patrimonio: Características y uso. In: NORRILD, Juana; SCLÜLETR,
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