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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 27 de novembro de 2007 09:03:20                                               

 
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TURISMO

Metodologia de Estudo da Oferta Turística

   

Poliana Fabíula Cardozo

publicado em 27/11/2007

 

            O planejamento turístico é uma atividade que tem por objetivo maior alterar a situação atual para uma situação futura desejada. Este câmbio da realidade turística de uma destinação, inexoravelmente atinge ao mercado turístico, isto em razão de o mercado turístico ser uma das razões da existência do planejamento do setor. Para aclarar esta afirmação é necessário explicar o que se entende por mercado turístico. De uma maneira geral, mercado pode ser definido como o ambiente onde oferta e demanda se encontram havendo comércio ou troca de produtos, bens ou serviços. Lemos (2001, p.128) explica que o mercado turístico é “o conjunto de relações de troca e de contatos entre aqueles que querem vender e os que querem comprar bens e serviços turísticos”.

         Acerca disto, Beni (1998, p.145) coloca o mercado turístico na categoria de “concorrência imperfeita”, e o justifica pelo fato de os produtos turísticos não serem homogêneos e intercambiáveis, porém diferenciados. Quer dizer, que cada produto turístico é único dentro do mercado, pois não existem duas destinações que oferecem atrativos e/ou produtos idênticos entre si, ou serviços idem. E para cada produto, existe uma demanda específica. O autor ainda afirma que a melhor maneira de estudar o mercado turístico é através de sua segmentação, decompondo a população em grupos homogêneos, e também a política de marketing em partes homogêneas, com seus próprios canais de distribuição, motivações e outros.

Dando seqüência à reflexão e conceituação do mercado turístico, cabe aqui aclarar aspectos pertinentes à oferta, pois é esta quem irá atender à demanda com produtos e serviços turísticos. Compreende-la e estuda-la em sua amplitude é fator significativo para o planejamento turístico de sucesso.

Tratando especificamente de oferta turística, Beni (1998) define como sendo:

O conjunto de equipamentos, bens e serviços de alojamento, de alimentação, de recreação e lazer, de caráter artístico, cultural, social ou de outros tipos, capaz de atrair e assentar numa determinada região, durante um período determinado de tempo, um público visitante. (...) Em suma, a oferta em turismo pode ser concebida como o conjunto dos recursos naturais e culturais que, em sua essência, constituem a matéria-prima da atividade turística porque, na realidade, são esses recursos que provocam a afluência de turistas. A esse conjunto agregam-se os serviços produzidos para dar consistência ao seu consumo, os quais compõem os elementos que integram a oferta no seu sentido amplo, numa estrutura de mercado. (BENI, 1998 p. 153)

         Lage e Milone (1991) classificam a oferta turística em três categorias: atrativos turísticos; equipamentos e serviços turísticos e infra-estrutura de apoio turístico. Beni (1998) divide a oferta turística entre: oferta original, relacionada com a matéria-prima turística, e oferta derivada, que está relacionada com as prestações de serviços das empresas de turismo. A oferta turística derivada é composta pelos transportes, hospedagem, lazer e recreação, pelos organizadores de viagens, e pelas agências de viagens. Para que a oferta turística derivada atenda plenamente à demanda, é necessário que haja uma combinação entre a oferta turística original e a derivada, ou seja, a oferta tangível e a intangível, que segundo Beni (1998), o consumo desses elementos se dão em momentos diferentes, mas interligados uns aos outros. Pode-se citar, de acordo com o mesmo autor, como sendo parte da oferta turística derivada os seguintes equipamentos e serviços turísticos: meios de hospedagem; serviços de alimentação; equipamentos de recreação e entretenimento; agências de viagens e turismo; transportadoras turísticas; centros de informações turísticas e de atendimento ao turista; locadoras de veículos, comércio turístico; centros de convenções e eventos; e outros.

A oferta original pode ser divida em quatro grandes grupos, de acordo com Defert, (apud BENI 1998 pp.155, 156), a saber: Hidromo é constituído por todos os elementos hídricos; Fitomo compreende tudo de que o Turismo se serve na flora; Litomo engloba todos os valores criados pela atividade do homem; e Antropomo Refere-se às atividades tanto antigas como modernas do homem. Beni (1998) coloca que esses elementos, trabalhados como forma de matéria prima turística, é que irão conferir característica própria à uma localidade, e também, permitirão que um país se diferencie dos demais, auxiliando inclusive na criação de uma identidade turística própria a cada um, porque esta matéria prima provém da história, do cotidiano e da natureza de cada país, e se são colocados como oferta turística, é porque os turistas estão dispostos a chegar a eles.

         É importante colocar que as atrações turísticas podem ter uma maior aproximação com a demanda intensificando seu uso, dentro das suas limitações físicas, proporcionando maior fruição do atrativo pelo visitante. Ou seja, um museu por exemplo, além de suas salas de exibições, podem contar com cafeterias ou lojas de souvenires ou área de gastronomia, por exemplo, a fim de proporcionar ao visitante uma experiência mais vívida da atração, não apenas contemplativa.

Cooper et al colocam que:

a oferta turística apresenta um padrão complexo no mundo, porque se localiza em ambientes diversos e em contextos econômicos e sociais diferentes. Está, também continuamente em expansão, à medida que os limites do prazer alcançam lugares cada vez mais distantes e remotos (COOPER, 2002, p. 136)

         Com o crescimento da demanda, e também o desenvolvimento das suas peculiaridades, o planejamento e o gerenciamento adequado da oferta têm se apresentado como a saída mais racional para o atendimento de sucesso nas localidades. Cooper et al (2002) apresentam algumas características comuns das destinações turísticas, a partir das quais podem ser observadas particularidades, a fim de definir a identidade da oferta: são amálgamas (um núcleo de atrações, amenidades, acesso e serviços); são experiências culturais; são inseparáveis em relação à produção e consumo e são utilizadas não apenas por turistas, mas também por outros grupos.

         As destinações turísticas, bem como sua oferta, evoluem no tempo, seja em termos de suas instalações e serviços, como em matéria-prima turística, trabalhando para que um recurso turístico passe a ser um atrativo turístico. É bem verdade, que este não é um processo simples, e diversos fatores podem concorrer para que isso aconteça. Para Beni (1998), um plano de crescimento da oferta tem que contemplar o volume e a distribuição dos investimentos necessários para conseguir os níveis de expansão desejados. É dizer, que o planejamento para a expansão da oferta turística, deve levar em conta seu objeto, objetivos claros, prazos e também um processo de avaliação periódica. Como em todo o planejamento turístico, as redes de informações têm destaque, e nesse caso, no sentido de manter os profissionais envolvidos com as atualizações de mercado, inclusive e especialmente de tendências, para que se possa atingir de forma mais clara a demanda desejada. O produto turístico por sua vez, estaria, dentro desta ótica, inserido no mercado, e seria inclusive uma das suas razões de existir: compondo a oferta e atendendo a demanda. Pode-se então definir o produto turístico como sendo os bens e serviços prestados e passíveis de comercialização e fruição, englobando as atrações turísticas, os serviços de hospedagem, alimentação, transporte, guias e outras amenidades e serviços encontrados nas localidades turísticas.

         Boullón (1990, p.164) comenta que o produto turístico: “é um termo que se usa para qualificar a classe de serviços que formam a oferta turística”. O autor compõe o produto turístico em duas partes: “o componente primário: é aquele que está integrado pelos atrativos turísticos (os quais vêm a ser algo como a matéria prima do turismo) e pelas atividades turísticas [...]” (p. 164) “o componente derivado: refere-se aos serviços de alojamento, alimentação e transporte, mais outros complementares, como: informação câmbio de moedas, etc.” (p. 164). Miguel Bahl explica que o produto turístico pode ser: “um destino turístico específico, ou um agregado de destinos turísticos, apresentados sob forma de roteiros ou pacotes turísticos” (1994, p.40), e ainda continua o mesmo autor complementando que da mesma forma que a “oferta turística não pode ser apresentada de forma isolada ou dissociada dos seus componentes, o produto turístico também se apresenta como um agregado de bens, serviços e atrativos” (p.40).

Tratando de consumo da oferta turística, Molina (2003) explica que o turismo seria caracterizado atualmente pela conduta de consumo dos turistas, porque este consumo tenderia a fragmentar-se cada vez mais, tornando-se menos homogêneo para atender a demandas cada vez menos homogêneas.

Após estas explanações sobre os conceitos de mercado, oferta e produto turístico, para acercar-se mais do aspecto do planejamento turístico, queda ainda tratar das metodologias de estudo da oferta para checar como este pode beneficiar ao planejamento turístico. Beni (2003) aponta como metodologia possível para estudar a oferta através do inventário turístico completo, cujas informações sejam descritivas e detalhadas, sendo este alimentado por dados pertinentes á:

- Atrativos turísticos divididos em: naturais; histórico-culturais; manifestações e usos tradicionais e populares; realizações técnicas e científicas contemporâneas; e acontecimentos programados; e

- Equipamentos e serviços turísticos divididos em: meios de hospedagens; serviços de alimentação; recreação e entretenimento; e outros serviços turísticos (agência de viagens e turismo; transportadoras turísticas; informações turísticas; locadoras de imóveis; locadoras de veículos; atendimento a veículos; comércio turístico; oportunidades especiais de compras; casas de câmbio; instituições bancárias; locais de convenções e exposições; cerimônias e ritos de religião, cultos e seitas; e representações diplomáticas); e complexos turísticos.

As informações devem ser coletadas em formulários padronizados que abordem tanto aspectos quantitativos como qualitativos. É dizer: deve conter espaço para as características do equipamento, capacidade de atendimento, horário de funcionamento, formas de acesso, facilidades, e outros.

O órgão que estiver coletando os dados do inventário pode inclusive hierarquizar tanto a qualificação de atrativos como de equipamentos. Um exemplo disto pode ser consultado em Boullón (2001), onde o autor ranqueia os atrativos de acordo com sua atratividade. Outro exemplo pode ser citado é a classificação de atrativos e equipamentos que o Guia 4 Rodas fornece. São formas de balizar ao visitante quais as principais atrações e os melhores serviços sem ignorar aos outros que constam na oferta turística, e para o qual também têm publico e também constam na oferta turística.

O inventário, cujos dados são colhidos através de fontes primárias no trade, com esta figuração permitirá um retrato preciso da oferta turística local. Este retrato será usado posteriormente para segmentar o mercado, formatar produtos turísticos, orientar demanda, e todas as outras atividades inerentes ao planejamento turístico.

Cabe salientar que o inventário turístico deve ser atualizado periodicamente, pois assim como a demanda, a oferta é flexível, e bastante sujeita aos câmbios do mercado e da sociedade: estabelecimentos abrem e fecham e entidades se fixam ou se deslocam, por exemplo. Manter estes dados atualizados é também manter uma das principais fontes de informações do planejamento turístico confiável.

Recomenda-se a ampla divulgação do inventário da oferta turística, a fim de que todo trade tome conhecimento, e também possa dela utilizar-se para seu planejamento estratégico. Algumas formas de divulgação do inventário é sua publicação em sites da internet institucionais do órgão que estudou o inventário (oot, secretaria de turismo estadual ou municipal, CVB) e em brochuras. É importante acrescentar nestas publicações a metodologia utilizada para chegar ao resultado, conferindo lisura ao inventário.

Referências:

BENI, M. Análise estrutural do turismo. São Paulo: Senac, 1998.

BOULLÓN, R. Las actividades turísticas y recreacionales: el hombre como protagonista. México: Trillas Turismo, 1990

BAHL, M. Legados étnicos na cidade de Curitiba: opção para diversificação da oferta turística local. 1994. Dissertação (mestrado) Universidade de São Paulo, São Paulo: 1994.

COOPER, C. Turismo princípios e práticas. Porto Alegre: Bookman, 2002.

LAGE, B.; MILONE, C.  Economia do turismo. Campinas: Papirus, 1991

LEMOS, L. Turismo: que negócio é este? Campinas: Papirus, 2001

MOLINA, S. O pós turismo. São Paulo: Aleph, 2003

 
  

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::sobre o autor::

Poliana Fabiula Cardozo é mestre bacharel em Turismo (UNIOESTE/UCS), professora assistente e pesquisadora da UNICENTRO.  

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