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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 09 de maio de 2008 16:03:47                                               

 
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TURISMO
O Museu como Espaço Cultural e Educativo na Atividade Turística    

Clézio Santos

publicado em 20/03/2008

Caminhamos neste artigo rumo ao entendimento e a inserção dos Museus como espaços de cultura, propícios a atividade turística e recreacional. Para tal devemos entender algumas relações como espaço e museu, bem como a existência e da necessidade de se trabalhar com a noção de patrimônio de um forma mais abrangente.

Embora em meados de 70 começasse a nascer um interesse pelos efeitos do Turismo sobre o meio ambiente, descobrimos hoje, os efeitos sobre o ambiente e a necessidade do Lazer na sociedade atual, com toda a sua dimensão humana e suas problemáticas socioculturais. Os museus e a procura da edificação do patrimônio integral estão inclusos na dimensão humana e nas problemáticas socioculturais.

 

O Espaço e o Museu 

Quando DUMAZIDIER (1980:55) comenta a questão da cidade com espaços de lazer, o autor esta se referindo a um espaço diferente dos outros – os da família, da escola, do trabalho, da igreja, etc. É um espaço vivêncial, onde o objeto precípuo é o viver, é o Ter oportunidade de ocupar o tempo livre para exprimir as necessidades individuais, físicas, sociais, artísticas, etc.

Esses espaços só existem em núcleos urbanos centrados no lazer. Essa cidade de que DUMAZIDIER (op.cit.) fala, é a cidade do bom-senso, está muito longe de ser uma realidade. Parece que a norma são as cidades sufocantes, abafadas pelos mesmos agravos que caracterizam as cidades cujo apelo é ainda o econômico e produtivista.

 “Na teoria de nossos urbanistas, os espaços de lazer se desenvolvem no todo e nas partes do tecido urbano, é em cada escala da tessitura da cidade – centro, bairros, periferia, cinturão exterior -, que a relação do espaço de lazer se realiza com outros espaços. É a tendência do urbanismo atual: dividir as grandes cidades em pequenas” (DUMAZIDIER,op.cit:55-56).

Essa divisão idealizada pelos urbanistas que Joffre Dumazidier comenta, nos faz pensar em espaços de lazer também divididos, não basta apenas um grande espaço de lazer para uma grande cidade. A grande cidade necessita de inúmeros pequenos e médios espaços de lazer. Haveria a edificação, não de espaços para fins utilitários, mas de espaços de vida, adequados para viver fora do horário de trabalho, para passeios, para o esporte, ou noitadas no fim de semana, ou no período de férias. Os museus seriam um desses espaços alternativos para viver.

Segundo o Conselho Internacional de Museus (ICOM:1987:3) “o museu é uma instituição permanente, sem finalidade lucrativa, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, voltada à pesquisa dos testemunhos materiais do homem e de seu entorno, que os adquire, conserva, comunica e, notoriamente, expõe, visando estudos, educação e lazer”.

Os museus nasceram, em geral, de uma profunda paixão, que alguém materializa ao reunir formas e superfícies ligadas ao mundo natural ou à cultura material criada pelo homem. Constitui-se, assim, a base indispensável, o acervo, para então ser implementado um processo permanente de trabalho museológico, que abarca distintos campos, como o patrimonial, o investigatório, o educacional, o comunicacional, o preservacional e o dos estudos específicos da tipologia do museu (LOURENÇO, 1997:7).

Ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, os museus desenvolveram e vem aperfeiçoando toda uma metodologia de trabalho, definindo os diferentes momentos do trato curatorial dos objetos, coleta, conservação, documentação, exposição e ação educativa. Numa visão interdisciplinar, organizacional e processual. Esse aprimoramento nos leva a uma relação maior com a atividade do Turismo e do Lazer que podem contar cada vez mais com os Museus como atrativos turísticos e locais de recreação. 

Espaço e museus: por um patrimônio integral  

Devemos ressaltar sobretudo que, em uma sociedade de consumo como aquela em que vivemos, os museus constituem-se em um segmento de mercado importante, seja enquanto consumidores de uma imensa série de produtos, equipamentos e serviços, sejam enquanto criadores de estímulos para o turismo cultura. Os museus fixam-se como espaços da cultura e como tal um espaço consumível.

Apesar de todos os problemas e descaminhos, os processos museais brasileiros não podem ser desprezados por aqueles que falam em preservação, desenvolvimento sustentável, globalização cultural e exclusão social. Para cada uma destas esferas, comuns aos dilemas contemporâneos, os museus têm implicações e responsabilidades muito definidas. Equilibrando-se, muitas vezes, entre os compromissos com a salvaguarda e comunicação das referências patrimoniais, as instituições musicológicas podem colaborar com a difícil tarefa de explicar o Brasil e, ao explicar como somos, nos ajuda a entender e respeitar os que são diferentes de nós.

“Essa historicidade do homem, de que ele se faz cada vez mais consciente ao mesmo tempo em que conhece sua finitude, leva-o a aspirar a sua transcendência. Essa transcendência que ele só irá encontrar no sonho que arquitetou, na Ciência que produziu, no artefato que logrou construir, na compreensão que deu aos objetos do mundo ao seu redor, naturais ou modificados pelo seu trabalho; este registro e este trabalho que irão se agasalhar nos museus, sob a forma de objetos e artefatos, marcando a perenidade da ação e da inteligência compreensiva e modificadora do homem, aquilo que marca a sua transcendência e redime a sua finitude” (RÚSSIO, 1979).

Analisando as palavras de RÚSSIO, poderíamos dizer que é uma boa definição de patrimônio integral, situando os museus como espaço de cultura dos homens onde seus pertences, sua cultura materializada pode ser revistada constantemente. Os museus assumem o papel de poderosos meios educativos ao alcance da atividade turística e recreacional.

 

Considerando alguns pontos 

Concordamos com BRUNO (1996:12) “Os museus brasileiros tem contribuído para melhor compreensão deste universo caleidoscópio que envolve o ‘meio’ e a ‘raça’ deste território e desta nação, serviram em alguns momentos como expressão de um projeto nacional, e tem demonstrado a multiplicidade de formas e cores que na base dos distintos processos criativos que aproximam e misturam as influências nativas, africanas e européias. Cabe destacar, ainda, que os Museus desse país nos têm ajudado a compreender o que somos, a conhecer a Ciência que produzimos e a arte que elaboramos da mesma forma, estas instituições registram nossas fronteiras geográficas, sinalizam em direção à contribuição dos imigrantes e nos permitam conhecer a longevidade dos nosso povos”.

Entretanto temos uma formação em Museologia deficitária, poucos cursos nos níveis de extensão, graduação e pós-graduação. A disciplina Museologia também não é muito comum nas grades de outros cursos. Os cursos de Turismo, dada a relação e a necessidade de trabalhar com os Museus e o Patrimônio - atrelado ao crescimento desse setor universitário - poderiam colocar em sua grade esta disciplina. Inicialmente teríamos a falta de profissionais, isso poderia forçar o desenvolvimento da Museologia no Brasil.

Portanto atuar em relação à formação teórica, nos dias de hoje da Museologia, significa preparar os indivíduos para o trabalho ‘sobre o outro’, ‘com o outro’ e ‘para o outro’, a partir do conceito de patrimônio integral, sem esquecer o peso e a importância das coleções e das instituições museológicas tradicionais.

 

Referências

 

BRUNO, Maria Cristina O. Museologia: algumas idéias para a sua organização disciplinar. In Cadernos de Sóciomuseologia, n. 09, Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia, Lisboa, 1996

BRUNO, Maria Cristina O. Museus Brasileiros: um universo a ser conhecido. In ALMEIDA, M. C. B. (coord.) Guia de Museus Brasileiros. São Paulo: Edusp, 1996 (p.9-13).

BRUNO, Maria Cristina O. Teoria museológica: a problematização de questões relevantes à formação profissional. In Cadernos de Sóciomuseologia, n. 10, Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia, Lisboa, 1997 (p.13-20).

DUMAZEDIER, Jofre. "Sociologia Empírica do Lazer" [tradução Silvia Mazza e J.Guinsburg]. São Paulo, Editora Perspectiva, 1999, p.165-178

DUMAZEDIER,Joffre. Teoria Sociológica da Decisão.SP,SESC,1980. (Biblioteca Científica SESC – Série Lazer,1).

DUMAZIDIER, Joffre. Valores e conteúdos culturais do lazer. Tradução Regina Maria Vieira. São Paulo: Sesc, 1980.

ICOM. Status de l’ICOM. Paris: ICOM, 1987.

KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do Turismo: por uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.

LORENÇO, Maria C. França. Museus para sempre. In ALMEIDA, M. C. B. (coord.) Guia de Museus Brasileiros. São Paulo: Edusp/CPC, 1997 (p.7-11).

RODRIGUES, Adyr Balestreri. Turismo e Espaço – Rumo a um conhecimento transdisciplinar. 2ª edição. São Paulo: Hucitec, 1999.

RÚSSIO, Waldisa. Museologia e Museu. O Estado de São Paulo – Suplemento Cultural, São Paulo, v.3, n.139, 1997.

SCHEINER, Tereza C. Formação de profissionais de museus: desafios para o próximo milênio. Anais, II Semana de Museus da USP, 1999 (p87-100).

 

 
  

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::sobre o autor::

Clézio Santos é geógrafo, Professor do Colegiado de Geografia do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), do curso de Geografia do Centro Universitário Assunção (UNIFAI), mestre em Geografia (USP), mestre e doutorando em Geociências (UNICAMP). Autor de inúmeros trabalhos na área de Geografia, Turismo e Cartografia.  

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