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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 19 de maio de 2008 11:20:15                                               

 
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TURISMO

Pirenópolis: Turismo x Crescimento Urbano

   
Boanerges Candido Da Silva - CEFETGO/UTFPR
Maclovia Correa da Silva - UTFPR
Jerônimo Rodrigues da Silva
Bianca Ortiz Redez Da Silva
Brenda Ortiz Redez Da Silva
Luciana Ananias Maia - UFPR
publicado em 26/11/2007

RESUMO

Esse artigo aborda as transformações urbanas ocorridas em Pirenópolis-GO, a partir da década de 1980. A expansão do tecido urbano, a ocupação dos espaços e os novos usos dos imóveis impostos pela exploração da atividade turística produziram impactos socioambientais nesta pequena localidade, situada no Entorno do Distrito Federal. A inauguração de Brasília em 1960 acelerou a urbanização regional, o crescimento populacional e gerou uma forte demanda por turismo e lazer na região central do país. A infra-estrutura de transportes e de comunicações construída para interligar o Centro-Oeste as demais regiões brasileiras e proporcionou as bases para o crescimento do setor turístico. Esse fenômeno movimentou a economia local e aqueceu o mercado imobiliário deslocando os moradores do centro histórico em direção às áreas periféricas. A nova configuração da cidade estendeu-se para além do Centro Histórico, tombado como Patrimônio Histórico Nacional, onde foram criados novos bairros e loteamentos para atender a demanda dos moradores e dos visitantes. 

Palavras chave: Turismo; Pirenópolis; transformações urbanas, mercado imobiliário.

  
Cidade de Pedras

INTRODUÇÃO 

Esse artigo trata das transformações socioambientais ocorridas na cidade de Pirenópolis-GO nas últimas décadas do século passado. O município goiano está situado a 150 quilômetros de Brasília-DF e sofreu profundas mudanças na sua rotina de pequena cidade, promovidas pela transferência da Capital Federal para a região do cerrado, implementada durante o governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, quando a nova capital foi construída e inaugurada.

A partir da década de 1950, as atenções se voltaram para o interior do País e ganhou novos contornos, durante o governo do Presidente Juscelino e das realizações e das propostas contidas no seu Plano de Metas. Durante a sua administração ocorreu à incorporação de novos padrões de acumulação para a região, com a pretensão de integrar a região do cerrado ao restante do País, a partir de três eixos: a) investimentos estatais na área de infra-estrutura, no sentido de solucionar os pontos de estrangulamento da economia regional; b) estimulo aos investimentos privados (nacionais e estrangeiros) pela instalação de plantas industriais; e c) interiorização do País, por meio do projeto da construção de Brasília (ROCHA NETO ET AL, 2006, p. 108).

            Logo após a inauguração da nova Capital da República no Planalto Central Brasileiro, ocorrem os fenômenos da urbanização e da aceleração do crescimento populacional, no entorno do Distrito Federal, de forma mais intensa e nos demais espaços da região Centro-Oeste de maneira mais branda. Segundo cientistas sociais, as décadas de 1960 e 1970 foram marcadas pelos investimentos na área de habitação, com a construção de residências financiadas com os recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS (MARQUES & BICHIR. 2001), essa nova política habitacional teve influência marcante na consolidação de Brasília como Capital Federal do país, pois facilitou a construção de residências para atender aos novos habitantes, em sua maioria, transferidos da cidade do Rio de Janeiro para a região.

Os centros urbanos irradiaram para as periferias os serviços, os postos de trabalho e a distribuição da renda. Nesses espaços instalavam-se as pessoas de baixa renda e inserida no mercado informal de trabalho. Esse modelo metropolitano brasileiro foi construído na cidade do Rio de Janeiro, e exportado para as demais cidades brasileiras, com todas as suas mazelas. Segundo Maricato “O processo de urbanização se apresenta como uma máquina de produzir favelas e agredir o meio ambiente” (2001, p. 39). A posição da autora é corroborada por Bursztyn, que afirma ser o cerrado um retrato da realidade brasileira, pois apresenta “Cidades inchadas, favelas, campos arrasados pelas máquinas e povoados por bois, soja, cercas. [...] Na mesma proporção em que cresce a produção, aumenta também a degradação, do ambiente e das condições de vida” (2002, p. 9).

            Na região central do país o fenômeno da urbanização, capitaneado pela Capital Federal, que dinamizou a economia regional criando a infra-estrutura necessária para a consolidação de Brasília como centro das decisões nacionais, e tem contribuído de forma marcante para a criação de uma rede urbana na região do cerrado. Segundo Soares & Bessa é provável que os elevados custos dos imóveis urbanos nas metrópoles tenham contribuído em parte com esse movimento, aumentando a importância dos centros urbanos intermediários – devido ao fato de possuírem papéis regionais e locais expressivos. Afirmam ainda a respeito das cidades médias brasileiras, que de modo geral, “[...] nas últimas décadas, vêm apresentando um acentuado crescimento populacional, associado a um crescente desenvolvimento fundamentado na implantação de uma base infra-estrutural ligada aos transportes e às comunicações” (1999, p. 25).

 

Na década de 90, o aprofundamento da tendência de fragmentação da estrutura produtiva brasileira, com o crescimento, por exemplo, da agroindústria, agricultura irrigada, empreendimentos voltados à exploração de recursos naturais, a acelerada urbanização da fronteira, ratificou a inflexão na trajetória da taxa de crescimento urbano das metrópoles, observada na década de 80. A participação do crescimento metropolitano no total cai expressivamente, enquanto as cidades de pequeno e médio porte passam a registrar uma maior participação (SCHVASBERG, 2003, p. 45).

 

            Como resultado dessa nova realidade regional sobreveio uma demanda social por lazer e Turismo, que cresceram e ganharam destaque a partir da década de 1980. Adotamos, nesse texto, como definição de turismo a concepção clássica de viajar com fins de entretenimento baseado na idéia de que nesses deslocamentos as pessoas contemplam passivamente as paisagens sem participação ativa. Porém sem deixar de levar em conta que a atividade turística pode ainda ser definida do ponto de vista econômico como: o conjunto de resultados alcançados e de serviços necessários para atrair aqueles que fazem turismo (OLIVEIRA, 2001; DIAS & AGUIAR, 2002). Entretanto, os turistas com um comportamento inadequado por desconhecem a dinâmica das comunidades, provocam impactos que transformam o cotidiano e a cidade vai perdendo referências e novos símbolos e signos tomam conta dos espaços.

            A presença de visitantes na cidade de Pirenópolis, sobretudo vindos da Capital Federal e de Goiânia-GO, intensificou a movimentação de pessoas movimentando e da economia, o mercado imobiliário e alterando o cotidiano dos moradores. Assim, é grande o risco do local, em função do turismo, se deparar com o esvaziamento da sua identidade, e “a cidade [transformar-se] no espetáculo do consumo, as ruas [redimensionarem-se e ganharem] outro conteúdo que elimina o lúdico, pois, transforma-se, em lugar de passagem” (CARLOS, 2004, p. 62).

           


Centro Histórico

A valorização do centro histórico transformou os usos do solo e os tradicionais proprietários se tornaram vítimas dos novos tempos. A mobilização dos agentes econômicos na direção da exploração econômica do turismo os obrigou a cederem seus espaços para o funcionamento de serviços de hotelaria, alimentação e comércio. Além disso, houve um estímulo para o crescimento do tecido urbano em direção às áreas periféricas. Segundo Schvasberg “Na base de todo o processo, está a forma de como a terra, fator primordial na produção/localização das atividades urbanas, [...] desempenha [seu papel] na transformação da cidade” (2003, p. 53), ainda de acordo com as afirmações do autor, “Tal característica é traduzida no padrão de crescimento urbano por setores, com grandes vazios urbanos, localizados entre as áreas mais centrais e as periferias urbanas [...]” (p. 53).

            De acordo com as afirmações de Barbosa, “O ecoturismo surgiu a partir de um turismo alternativo, possivelmente como insatisfação com as formas do truísmo convencional que, de um modo geral, ignorava as categorias sociais e ecológicas em face da predominância de um turismo de massa” (200, p. 49). Segundo Maria Luiza Mendonça, professora titular do Instituto de Estudos Sócio-ambientais – Universidade Federal de Goiás e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Turismo e Cultura, a busca incessante do novo, do diferente, do ainda não explorado, intocado pelo desenvolvimento e pelo capital, aliado ao uso intenso de paisagens e das mais variadas manifestações culturais “compromete e destrói ou retira da localidade as condições mesmas que originariamente a elegeram” (2003, p. 43).

            As alterações que ocorrem nos atrativos em virtude da presença dos visitantes são responsáveis pela perda de capacidade de atrair novos turistas, que procuram outros locais que ainda apresentam um bom estado de conservação.             Devido à procura pelo natural e a presença exagerada de turistas, o município experimenta hoje as conseqüências do crescimento da atividade turística e enfrenta dificuldades para manter seus atrativos históricos e naturais em bom estado de conservação, devido ao elevado número de visitantes e a falta de consciência destes, sobre a necessidade de se preservar o ambiente físico. De acordo com Barbosa “A indústria do turismo habilmente altera as condições geográficas do mundo que a história da humanidade construiu nestes longos anos de existência. [...] Tudo em prol da satisfação do turista [...]” (2001, p. 65).

 

 

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PIRENÓPOLIS-GO

 

            A data de fundação de Meia Ponte é motivo de controvérsia, não existe acordo entre os diversos autores quanto à data do evento. Alguns afirmam ter sido em 1727, outros, no ano de 1731. No entanto, no livro, onde estão registrados os batismos realizados na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, existem assentamentos de batizados realizados naquela igreja no dia 02 de março de 1732, a primeira hipótese parece ser a mais provável, pois o período compreendido entre 07 de outubro de 1731 a 02 de março de 1732, é considerado insuficiente para a construção de tão grande e sólida edificação (JAYME, 1971).

            A cidade goiana chamada inicialmente de “Meia Ponte”, hoje Pirenópolis, começou seu povoamento quando Bartolomeu Bueno da Silva, o “Anhangüera”, estabeleceu-se em Vila Boa de Goiás, hoje Cidade de Goiás. Os bandeirantes, à procura de ouro, foram avançando para os sítios próximos, e chegaram às minas auríferas localizadas no Rio das almas, por eles nomeada de Nossa Senhora do Rosário, localizadas aos pés da Serra dos Pireneus (BARBOSA, TEIXEIRA NETO & GOMES, 2004).

            Inicialmente a localidade cresceu com a vinda de pessoas interessadas em explorar o minério, jazida abundante no leito do Rio das Almas. O arraial foi elevado à vila de Meia Ponte em 10 de julho de 1832, e elevada à categoria de cidade em agosto de 1853. Mudou de nome em 1890, quando passou a se chamar Pirenópolis por conta de se achar plantada aos pés Serra dos Pireneus (BERTRAN, 2000).

            Como o povoado estava situado na junção das principais estradas da Província por ali passavam grande número de tropas, logo seus habitantes perceberam que trabalhar na terra e vender seus produtos seria uma atividade lucrativa. Segundo Saint-Hilaire durante a semana os habitantes de Meia Ponte se dedicam à agricultura e só vão ao arraial aos domingos.  “As casas permanecem vazias durante toda a semana. As terras da paróquia são apropriadas a todo tipo de cultura, até mesmo a do trigo, mais é principalmente com a criação de porcos e a cultura do fumo que se ocupam os colonos da região” (1978, p. 37).

            De acordo com Oliveira, no início dos anos 1800 foram desenvolvidos esforços com o objetivo de inserir a Província de Goiás no mercado nacional. São marcas destes momentos esforços no sentido de instalar indústrias de manufaturas na capital e, posteriormente, com a criação da fundição de ferro em Traíras, a fim de incrementar a economia regional. No entanto, a maioria das iniciativas fracassou devido à falta de mão-de-obra, a falta de recursos financeiros e à dificuldade de integração devido à precariedade da rede viária.

            Embora toda a Província sucumbisse no abandono e em crise econômica duradoura, Pirenópolis, resistiu, tornando-se um pólo agrícola e comercial. Como fator exponencial dessa resistência encontramos a figura do Comendador Joaquim Alves de Oliveira – proprietário do engenho São Joaquim, hoje Fazenda Babilônia, e do primeiro jornal de Goiás, a Matutina Meyapotense, editado pela Typographia Oliveira (primeira da região Centro-Oeste do país e também de propriedade do Comendador). Esse periódico de ideais libertários, circulou de 5 de março de 1830 a 24 de maio de 1834 e alcançava localidades de Goiás, de Minas Gerais e do Mato Grosso. Nesse período foi construído um palacete de “365 janelas”, situado onde hoje se encontra o campo das cavalhadas, e demolido em 1868, segundo a tradição popular. O solar é citado no décimo terceiro parágrafo do testamento do Comendador (JAYME, 1971).

                A cidade, beneficiada pela sua localização geográfica, próxima ao Distrito Federal, oferece opções e possibilidades de lazer aos moradores da Capital Federal. As características remanescentes da arquitetura portuguesa, com traçado de ruas irregular, com uma tendência à linearidade possuindo núcleos populacionais distintos no tecido urbano, os quais se juntam formando um desenho irregular. O centro histórico remonta ao tempo do ciclo aurífero e as construções arquitetônicas e urbanísticas de estilo colonial que o compõem, apresentam características opostas aos modernos monumentos existentes em Brasília. Segundo Siqueira a Capital Federal agrupa dois grandes mitos: a Cidade Utópica de Thomas Morus (1478-1535) que foi o escritor que tratou da utopia, da cidade sem propriedade privada, sem moeda e diferente da sociedade feudal. Escreveu a obra intitulada “Utopia”; e a Terra prometida Baseada na idéia do mito do profano e do sagrado na construção da Terra Prometida. O primeiro se refere ao planejamento urbano e a arquitetura futurista do Plano Piloto, e “os fundadores da cidade estavam imbuídos do sonho e da missão de inaugurar um novo tempo em uma nova civitas para um Brasil fundado no belo, na igualdade e na universalidade” (2003, p.77).

            Situada no Entorno do Distrito Federal, sendo um dos municípios que compõem a RIDE - Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno a cidade de Pirenópolis ganhou importância devido às opções de lazer, que se constituem de atrativos naturais, como: as cachoeiras, as formações rochosas, o cerrado e a sua rica biodiversidade e a beleza das paisagens naturais, entre as quais podemos destacar a “Cidade de Pedras”; das áreas rurais como as antigas fazendas que remontam ao tempo da escravidão; e do patrimônio histórico, além da rica cultura local. Estes elementos segundo Soares & Bessa, estão se tornando importantes em pequenas aglomerações na região central do país, é importante ressaltar que as oportunidades econômicas advindas da exploração econômica destes atrativos “[...] está se tornando uma alternativa para o desenvolvimento sustentável das pequenas cidades do cerrado, pois apresenta novas possibilidades de crescimento regional, como é o caso de Pirenópolis [...]” (1999, p. 26).

 

 

A URBANIZAÇÃO DA REGIÃO CENTRAL DO BRASIL

 

            Até a década de 1960 a rede urbana do Planalto Central foi estabelecida em função da baixa densidade demográfica e da estagnação econômica, presentes na região devido aos grandes latifúndios e a pecuária. Segundo Soares & Bessa até a transferência da Capital Federal para o interior do país "[...] a rede urbana das áreas de cerrado apresentava-se desarticulada, ou seja, com pequena integração interna, [...]" (1999, p. 15). Anteriormente era uma região onde predominavam os vazios demográficos. A construção de estradas ligando a capital federal aos demais centros nacionais, permitiu o crescimento econômico e a atração de migrantes para a área central do país (MOREIRA, 2002).

 

Tabela 01: Evolução da população em Brasília-DF, na RIDE, Goiânia-GO e Região Metropolitana de Goiânia (1960-2005).

Municípios

1960

1970

1980

1991

1996

2000

2005

Brasília

139.796

538.351

1.176.935

1.596.272

1.821.946

2.051.146

2.333.108

RIDE

115.953

161.386

246.039

353.976

635.573

815.522

1.029.832

Goiânia

151.953

381.055

714.174

920.257

1.003.477

1.093.007

1.201.006

RM de Goiânia

-

-

-

1.312.709

-

1.743.297

2.013.073

TOTAL

406.762

1.080.792

2.137.148

4.183.216

3.460.996

5.702.972

6.577.019

 

Fonte: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censos Demográficos, 1960-2000. Contagem Populacional 1996 e 2005.   

 

            Segundo Bessa & Soares (2001) a rede urbana da Região Centro-Oeste é recente e tomou a atual configuração nas últimas décadas do século passado. As principais cidades da região são Brasília e Goiânia, concentrando o principal contingente populacional e os centros de poder federal e estadual. Segundo dados da tabela 01, confirmou-se o que estava previsto, desde os anos 1930, pelas políticas públicas definidas pelas autoridades de Estado, que era atrair novos habitantes para a região central do país. A transferência da Capital Federal reforçou “as políticas de interiorização do país, [e] teve grande impacto político, econômico e social nas áreas de cerrado” (SOARES & BESSA, 1999, p. 14) e influenciou a formação de uma rede urbana que foi determinada pelas atividades econômicas e pela localização dos centros de poder.

            Durante os governos militares, as políticas públicas incentivaram a ocupação das regiões Centro-Oeste e Norte, entre as medidas tomadas naquele momento estão a construção de rodovias como: a Belém-Brasília, a Cuiabá-Santarém, a Transamazônica, a Manaus-Porto Velho e a Brasília-Cuiabá, entre outras, todas usadas para promover a interiorização do desenvolvimento e a criação de novos núcleos populacionais. A região passou por intenso processo de urbanização, especialmente a área central do Estado de Goiás e as imediações do Distrito Federal.

 

O Centro-Oeste passou por grandes transformações nas últimas décadas, especialmente depois da construção de Brasília, [...] era uma região com baixa densidade demográfica. A abertura da rodovia Belém-Brasília em 1962 e a posterior construção de outras grandes estradas atraíram capitais e migrantes (MOREIRA, 2002, p. 252-253).

 

            No período também se estimulou a ocupação das áreas de cerrados para fins agrícolas. A soja foi o produto mais cultivado e a produção está totalmente voltada para o comércio exterior. Segundo Theodoro, Leonardos & Duarte (2002), a partir da década de 1970, a região passou a ser explorada de forma intensiva, com a produção voltada para o mercado externo. A adoção do modelo agroexportador viabilizou o desenvolvimento regional, mas criou problemas sociais como a concentração de renda e terra. “Este modelo de desenvolvimento agrícola adotado pelo país, e especialmente no cerrado, além de socialmente injusto, vem acarretando problemas ambientais gravíssimos, [...]” (2002, p. 147). Os autores afirmam ainda que a urbanização acelerada e o rápido crescimento da economia regional propiciado pela modernização do campo não foram acompanhados pela preocupação ambiental, pois com a "[...] implantação da agricultura moderna, assumiu-se a premissa de que tudo era bom e adequado para qualquer situação, sem preocupações com escassez e qualidade dos recursos naturais" (2002, p. 158).

                Bessa & Soares assinalam que no período compreendido entre os anos de 1960-1996, na região Centro-Oeste, houve um crescimento econômico provocado pela introdução de novas tecnologias para o plantio e armazenamento de grãos, da implantação de novas atividades relacionadas à pecuária e à avicultura (2001). Essa modernização nas atividades agropecuárias também pode ser compreendida a partir das idéias de Moreira que afirma ser o Centro-Oeste a área do país onde o setor industrial tem a menor participação na estrutura produtiva, pois a “[...] atividade industrial desenvolveu-se a partir da produção de alimentos e insumos para o setor agropecuário, desdobrando-se em indústrias de transformação nos gêneros alimentício, têxtil, madeireiro, farmacêutico, de borracha e de papel” (2002, p. 254-255).

O crescimento populacional e a intensa urbanização ocorrida nas últimas décadas do século XX na Região Centro-Oeste, especialmente no Distrito Federal e no Estado de Goiás, repercutem na conservação, sustentabilidade e no desenvolvimento econômico centrado na exploração dos recursos naturais. Assinala Silva (2003) que os padrões de produção sobre os quais se deu o crescimento econômico no Cerrado são insustentáveis, uma vez que concentram a renda e a estrutura fundiária, produzem impactos ambientais cumulativos e perigosos, estimulando o êxodo rural e a ocupação desordenada de novas áreas rurais e urbanas.

 

O cerrado é a cara do Brasil. Cidades inchadas, favelas, campos arrasados pelas máquinas e povoados por bois, soja, cercas. Idealizado como celeiro que aliviaria a nossa penúria, o cerrado se converteu em grande exportador de víveres. Na mesma proporção em que cresce a produção, aumenta também a degradação, do ambiente e das condições de vida (BURSZTYN, 2002, p.9).

 

Analisando a distribuição da população nas áreas de cerrado, há uma tendência para aumentar a concentração da população nas cidades e de um acelerado crescimento populacional. O Estado de Goiás apresenta um índice de urbanização de 80,81%, segundo o censo de 2000 da FIBGE e o Distrito Federal um índice de urbanização superior a 93%, enquanto o total da região é de 86,70%. “A população urbana do Centro-Oeste cresceu 780% em apenas três décadas” (MMA, 1998, p. 18).

            A organização do espaço geográfico brasileiro a partir da década de 1950 foi fortemente influenciada por processos sociais, políticos e econômicos que geraram uma nova divisão regional constituída por três grandes regiões, o Centro-Sul, o Nordeste e a Amazônia. O desaparecimento do Centro-Oeste nesta nova classificação ocorreu devido à fragmentação político-administrativa que ali se verificou na década de 1980, a qual reflete processos mais acentuados de diferenciação sócio-econômica do território. De acordo com Corrêa discorrer sobre a “[...] organização regional do espaço brasileiro é algo muito complexo, pois se trata da regionalização de um país de grandes dimensões que tem passado por um complexo e desigual processo de diferenciação que envolve o espaço e o tempo” (2005, p. 197). Ainda segundo Roberto Lobato Corrêa o processo possui “[...] ritmos distintos de transformação e, ao que parece, tendem a se tornarem mais velozes ao final do século XX” (p. 197).  

            A partir das mudanças ocasionadas pelo boom do setor turístico em Pirenópolis a cidade experimentou o crescimento de seu tecido urbano, fruto da aquisição de residências secundárias pelos turistas e do deslocamento dos moradores tradicionais do centro histórico em direção a periferia, onde surgiram novos bairros e loteamentos que acomodaram a demanda por novos imóveis.

 

 

FATORES DO CRESCIMENTO URBANO DE PIRENÓPOLIS

 

            O desenvolvimento urbano e econômico do Município de Pirenópolis, no Estado de Goiás, está dentro do contexto dos conceitos de centralização e concentração. Ramina (2004) colabora com o arcabouço teórico para estabelecer diferenças conceituais entre a centralização, aqui o caso do Distrito Federal enquanto organização intencional do espaço, e a concentração, resultante da deformação do espaço, explicada por Almeida (2005) a partir da industrialização do Sudeste do país.

            A autora faz um paralelo entre as políticas de expansão agrícola implantadas no Centro-Oeste e na região Sudeste, em consonância com o Plano de Metas de (1956), que contemplava a construção de Brasília, associada à implantação da rodovia Belém-Brasília, visando à ocupação do Cerrado. A vegetação natural foi desaparecendo para dar lugar aos plantios homogêneos e às obras de infra-estrutura. Há uma reorientação quanto aos comportamentos coletivos e individuais das práticas de uso dos recursos naturais e energéticos.

            Almeida (2005) ao levantar os dados estatísticos sobre a taxa de urbanização do Estado de Goiás, diz que os dados “revelam os processos de urbanização acentuando as desigualdades municipais, e a necessidade de considerar as diferenciações territoriais ao se tratar de sujeitos excluídos [...]” (p. 333). A razão desse processo pode ser analisada sob o ponto de vista do capital, Barros explica que ao retrocedermos nosso olhar para o passado temos elementos marcantes para “duvidar de que seja a pobreza a causa dos problemas ambientais. Ao contrário, nossa convicção tende a se consolidar na direção de que esta causalidade reside tendencialmente [sic] na concentração da riqueza, espacial e economicamente” (BARROS, 2004, p.267), fenômeno que vem ocorrendo no Centro-Oeste reproduzindo o ocorrido nas demais regiões do país, segundo Moreira (2002) a indústria no Planalto Central têm se concentrado ao longo do eixo Campo Grande – Goiânia - Brasília.

            Barros (2004) afirma que a industrialização acentua tanto o movimento de deslocamento quanto o de concentração de pessoas, e por vezes, confunde os limites entre áreas urbanas e áreas rurais. As possibilidades de melhorar a qualidade de vida, no que tange aos setores da habitação, saúde, infra-estrutura, emprego e capacitação profissional funcionam como atrativos que provocam os movimentos de esvaziamento e de crescimento de cidades. Um exemplo desse processo acontece dentro das metrópoles que têm, por um lado, suas áreas centrais esvaziadas, e por outro o rápido crescimento dos assentamentos irregulares e das áreas periféricas, precárias em infra-estrutura. Opinião compartilhada por Maricato, que afirma que “O número de imóveis ilegais na maior parte das grandes cidades é tão grande que, [...] A cidade legal (cuja produção é hegemônica e capitalista) caminha para ser, cada vez mais, espaço da minoria” (2001, p. 39).

            Um fator bastante relevante no êxodo rural é o aumento territorial dos grandes latifúndios promovidos a partir da incorporação das pequenas propriedades, e esse fato social provoca a expulsão forçada de pequenos proprietários: “Já nos anos 80, a agricultura intensiva tomou impulso na região [centro-oeste], com a viabilização tecnológica da soja definindo a estrutura fundiária que mostra um perfil ainda mais claro quanto ao predomínio das grandes propriedades” (THEODORO, LEONARDOS & DUARTE, 2002, p. 149).  

            Karam (2004) diz que podemos considerar o rural uma continuidade do urbano do ponto de vista espacial, e a tabela abaixo permite pensar que o modo de vida diferenciado produzido no espaço urbano cria referências do ponto de vista social as quais interferem na percepção da realidade. 

 

Tabela 02: Evolução da população em Pirenópolis e nos municípios goianos que fazem parte da RIDE.

 

 

Fonte: FIBGE. Censos Demográficos, 1960-2000 e Contagem Populacional 1996 e 2005.

 

É possível inferir, a partir dos dados da Tabela 02, as seguintes tendências de movimentações populacionais em Pirenópolis, Goiás:

            Até 1960 – os dados revelam uma cidade brasileira de pequeno porte localizada na Região Integrada - RIDE, antes da inauguração de Brasília-DF;

            De 1960 a 1970 – o crescimento populacional de Pirenópolis foi significativo, com um acréscimo de 5.571 habitantes, que representam um crescimento de 21%;

            De 1970 a 1980 – Inicia-se um processo inverso nas taxas de crescimento populacional;

            A partir de 1991 – acentua-se a tendência de decréscimo populacional.

            Na Tabela 02, observa-se que a população dos municípios goianos localizados na região de abrangência da RIDE cresceu aproximadamente 892% em 45 anos. Enquanto nas outras cidades a população aumentava com a chegada de novos habitantes, a cidade Pirenópolis desenvolvia-se economicamente, ao mesmo tempo ocorria o crescimento da malha urbana acompanhado do esvaziamento populacional a partir da década de 1970. Segundo Soares & Bessa na região do cerrado, “[...] pode ser constatada a existência de aglomerações urbanas em que houve um expressivo esvaziamento de suas populações e atividades econômicas que foram drenadas pelas cidades com papel regional mais significativo” (1999, p. 26).

            Tomando como apoio pressupostos teóricos de Milton Santos para explicar o fenômeno do esvaziamento de subespaços na região Centro-Oeste, o autor constatou que as cidades de 20 a 50 mil habitantes entre 1950 e 1980 apresentaram porcentuais representativos os quais mostram uma “evolução irregular no período, ainda que em 1980, alcance índice ligeiramente elevado em relação ao de 1950” (2005, p. 92). Além disso, outro fator importante para se analisar os movimentos populacionais, são os índices referentes às cidades grandes. Santos diz que “as cidades milionárias absorvem cerca de 35% do crescimento total da população brasileira entre 1960 e 1980” (p. 92).

            Quando o autor explica o fenômeno da urbanização em nível regional, as perspectivas apontam para outras tendências. No mesmo período, há uma grande concentração populacional na região Sudeste, seguida pelas regiões do Nordeste e Sul, enquanto que às regiões Centro-Oeste e Norte cabem “apenas fatias relativamente reduzidas. Ainda que sua participação seja decrescente nos últimos quatro recenseamentos (1950, 1960, 1970 e 1980), cerca de 60% da população residente nos centros com mais de 20 mil habitantes se encontram o Sudeste” (SANTOS, 2005, p. 81).

            Em Pirenópolis, enquanto cidade povoada há quase 300 anos atrás, o movimento populacional foi peculiar, o qual pode ser explicado pelas idéias desenvolvidas por Milton Santos no que tange à urbanização. O autor diz que a intensificação da urbanização em algumas áreas de “antigo povoamento, servidas por infra-estruturas antigas” manteve raízes com seu passado, as quais têm papel ativo, porém apresentam remotas possibilidades de atenderem às vocações do presente. O autor segue a lógica da divisão internacional do trabalho e o mercado único interno que integra o território para aprofundar a discussão dos movimentos populacionais. As dimensões continentais do território brasileiro necessitavam de uma lógica comum aos subespaços, a qual privilegiasse diferentemente cada fração do espaço e seu momento histórico, considerando as vocações atribuídas pela divisão territorial do trabalho.

            É relevante dizer que existe uma lógica comum, em escala nacional aos subespaços, todavia eles têm movimentos próprios e articulação com o todo: “é assim que podem se explicar não apenas esses dados estatísticos que são as diferenças regionais dos índices de urbanização, mas também dados estruturais, como as diferenças regionais de forma e de conteúdo da urbanização” (SANTOS, 2005, p.67).

            Em Pirenópolis, a modernidade não se implantou sobre o vazio, porque havia heranças culturais, com marcas do período anterior às técnicas inovadoras. Apesar do decréscimo populacional apresentado acima na tabela 02, a malha urbana foi sendo modificada pelo processo de parcelamento do solo, esvaziamento do centro histórico, e aprovação de loteamentos urbanos em áreas periféricas.

            Existem relações entre os locais de trabalho e os locais de lazer, permeados pelas fantasias, desejos, sonhos, as quais motivam as pessoas, com poder aquisitivo, a procurar uma segunda residência. Nas cidades, segundo Villaça (1998), residência, indústrias e serviços pleiteiam espaços. Todavia, todas as atividades disputam a acessibilidade ao centro urbano: “Esse interesse na centralidade é a própria razão de ser das cidades como organismo espacial. Sem ele, as cidades não existiriam” (p.329). Na estrutura do espaço intra-urbano da região Brasília-DF e Goiânia-GO, os setores econômicos dominaram as áreas com funções especificas, ficando reduzido o espaço para lazer a praças, parques e áreas públicas.

Com base nas idéias de Villaça (1998) podemos entender a busca pelo turismo e lazer nas pequenas cidades do entorno das duas metrópoles regionais. Elas apresentam características semelhantes: pequeno centro histórico, atrativos naturais, acessibilidade. O autor destaca que os movimentos populacionais temporários, dentro e fora das cidades acontecem porque existe o acesso. Ele pergunta “Qual a origem ou a fonte da centralidade? A resposta está na possibilidade de minimizar o tempo gasto e os desgastes e custos associados aos deslocamentos espaciais de seres humanos” (p. 242).     

Tulik (2000), ao estudar a cidade de São Paulo, destaca a questão do poder aquisitivo, o qual possibilita aos moradores de grandes centros buscarem outras formas de turismo e lazer, seja fomentando a rede hoteleira, seja adquirindo uma segunda residência nas regiões serranas e litorâneas, uma vez que “[...] concentram altos índices de renda e um contingente populacional que desfruta as conquistas sociais que lhes garante disponibilidade financeira e maior extensão do tempo livre” (2000, p. 196). Assim, entre os pontos de origem dos fluxos de pessoas e as áreas próximas alastra-se uma expansão imobiliária representada pelo aumento de vendas de residências secundária, Sassen & Roost (2001) expõem que nos países ricos, grande parte dos habitantes reside em subúrbios e pequenas cidades. Em Brasília e Goiânia, onde existem os melhores Índices de Desenvolvimento Humano da região central do país, esse fenômeno urbano acontece e os moradores mais abastados, cansados do moderno representado por Brasília e Goiânia, duas cidades planejadas e com menos de cem anos de existência, dos traçados arquitetônicos   arrojados e contemporâneos, das salas de concertos, e dos museus procuram a natureza.

A cidade de Pirenópolis, por meio da administração municipal, tem promovido transformações urbanas para se adaptar as novas exigências impostas pelos novos tempos e receber os visitantes da região. Os investimentos reforçam o teor histórico e bucólico das “cenas urbanas” e aumentam às áreas de turismo ecológico, criando infra-estrutura, revitalizando o centro histórico e restaurando patrimônio arquitetônico.

 

O SIGNIFICADO DO TURISMO EM PIRENÓPOLIS-GO 

A região Integrada de Desenvolvimento do entorno de Brasília - RIDE caracteriza-se pela heterogeneidade, apresentando simultaneamente traços metropolitanos ao lado de núcleos urbanos com estruturas provincianas e agrárias. Nesse contexto de singularidade, Pirenópolis desponta-se como expoente do Patrimônio Histórico Arquitetônico Cultural e Paisagístico no interior goiano. O sítio histórico local é de grande valor e desperta o interesse dos visitantes, entre os atrativos estão as Igrejas, os monumentos e os prédios centenários, e as fazendas remontam ao tempo da escravidão. As atrações culturais como: as cavalhadas e a festa do divino, também os festivais e outros eventos culturais atraem muitos turistas (SILVA ET AL., 2007).

Nesse local, a presença das pedreiras é um marco da atividade econômica, com forte participação na arrecadação municipal, trazendo uma soma considerável de recursos para Pirenópolis. A partir de 1990, a cidade tornou-se interessante para os turistas, os quais passaram a visitá-la e a ver nas pedras, monumentos.  As inúmeras belezas naturais como as cachoeiras, os paredões de pedra existentes nas elevações do relevo presentes no município. A “Cidade de Pedras” de Pirenópolis, que recentemente foi (re) descoberta por expedição científica patrocinada pelo Governo do Estado de Goiás é outro importante atrativo turístico incorporado ao acervo do município.

O perfil da cidade de Pirenópolis, com hotéis, residências transformadas em pousadas, a rua do lazer, os festivais, culinária regional, bares com música ao vivo, fábrica de doces e queijos, comércio de artesanato local – crochê, artigos de palha, móveis rústicos – confirma a nova vocação urbana: o turismo. Conforme Dias & Aguiar (2002), o “turismo é uma indústria que continua crescendo rapidamente gerando mudanças nos destinos, nos mercados, e nas atividades desenvolvidas” (p. 67). O Turismo, para muitas pequenas cidades como Pirenópolis, representa a possibilidade de superação da estagnação econômica, pois empreendimentos voltados para a promoção do bem estar dos visitantes são implantados gerando empregos e renda (SOARES & BESSA, 1999).

            Muitos espaços da cidade adquirem funções diversas durante a semana. Enquanto praças e ruas são locais de circulação de pedestres em horário de trabalho, à noite, e nos finais de semana as atividades turísticas povoam lugares inabitados, fazem uso da infra-estrutura existente, e provocam modificações – abertura de vias de acesso, ampliação do terminal de transporte, revitalização de espaços públicos como o Teatro de Pirenópolis e o Cine Pirineus, de logradouros, pintura dos imóveis, que revertem em benfeitorias para a população. É importante ressaltar que esses espaços onde ocorrem atividades cotidianas e turísticas quando (re)configurados aumentaram a qualidade de vida dos residentes e criaram oportunidades de lazer para classes menos abastadas. 

Segundo Dias & Aguiar o Turismo cultural é contraditório em relação à conservação do patrimônio arquitetônico, porque da mesma maneira que a “[...] atividade turística fortalece a necessidade de preservação para mantê-lo como atração o intenso movimento de turistas nos ambientes históricos preservados causa problemas enormes que pode levar a destruição de monumentos” (2002, p. 134).

Inicialmente o setor turístico se apropria e utiliza a infra-estrutura já existente nas localidades receptoras, criadas pela população e por outros setores da economia para outros fins. Dias & Aguiar (2002) consideram que é necessário que exista uma divisão de tarefas para aumentar a oferta turística. O governo cuida da parte política, da segurança, da preservação da natureza e da cultura local, sistema de transporte, redes de água e saneamento básico, enquanto que o setor privado responde pela expansão imobiliária para atender a demanda por alojamentos e alimentação. Convém à comunidade reforçar o espírito hospitaleiro.

Quando são elaborados projetos paisagísticos modernizando e tornando mais belas praças e parques, melhorando a infra-estrutura urbana, as vias de acesso, a rodoviária, o aeroporto, a população residente apropria-se e utiliza essa oferta de equipamentos. Viajantes podem se frustrar quando não encontram as condições de acesso para locais idealizados. Corrobora-se com as afirmações de Cruz (2000, p. 9) quando ele diz que “O modo como se dá a apropriação de uma determinada parte do espaço geográfico pelo turismo depende da política pública de turismo que se leva a cabo no lugar”.

Outro aspecto ligado aos sonhos e à realização de viagens, além das obras públicas, é a pressão sobre o meio ambiente. Os viajantes, consumistas em potencial, dependendo do comportamento frente aos atrativos naturais, e às populações autóctones, provocam modificações na paisagem e no tecido urbano, os quais podem reverter os processos de crescimento impulsionado pela busca turística do desconhecido. Rodrigues diz que (1996, p. 25) esta é uma das dificuldades do planejamento turístico: “conciliar os interesses de uma população que busca o prazer, num local, onde outras pessoas vivem e trabalham”.

            Nos estágios iniciais a população está satisfeita com as melhorias e se comporta de forma educada e cordial com os visitantes, mas em alguns casos com a passar do tempo essa atitude sofre transformações. Todavia, é o bem estar dele, e uma estadia mais agradável que o motiva a retornar. A melhor propaganda pode ser a hospitalidade para com ele (LAGE & MILONE, 2000).

Em Pirenópolis, como foi constatado, que os antigos moradores cederam suas propriedades para as atividades turísticas, e estabeleceram residência nas áreas mais longínquas. Ainda não se pode falar de socialização de valores, significados e visões de mundo, e nem de plena aceitação das atividades turísticas pela população residente, a qual não assume integralmente a readequação de mão-de-obra, representada pelo exercício profissional do comércio e da oferta de serviços. O impacto positivo do Turismo nas pequenas cidades localizadas no “Entorno” do Distrito Federal, vem sendo demonstrado por meio da criação de empregos e da melhoria na condição de vida da população receptora, mas existe um problema, “Os postos de trabalho abertos pelo turismo são geralmente sazonais – ocorrendo durante os períodos de alta temporada – e os níveis salariais de um modo geral são comparativamente baixos, [...]” (DIAS & AGUIAR, 2002, p. 148).

A migração de pessoas de outras cidades é surpreendente, pois quando se procura uma pousada, um restaurante, descobre-se que os proprietários acabaram de chegar ao município. Mendonça explica esse fenômeno acontece em cidades provincianas que ainda procuram manter sua identidade e refutam as modificações impostas pelo progresso como as modificações substanciais na (re) configuração paisagística das cidades, que alteração o processo de relacionamento social nas comunidades onde acontece um desenvolvimento mais expressivo do turismo:

 

[...] na maioria das localidades, é possível observar, ao lado de uma modificação na distribuição espacial dos moradores, das atividades econômicas e dos locais destinados ao lazer, o surgimento de um centro e, em contrapartida, de uma periferia. É lá que são reorganizados os antigos moradores, bem como os segmentos produtivos menos “pitorescos”, de maneira que o contato entre visitantes e nativos, a inserção destes na paisagem urbana, aconteça apenas em obediência às necessidades da produção, do consumo e da prestação de serviços aos turistas (2003, p. 43).

                                  

            Há um movimento pendular que impede que os ponteiros se encontrem, marcando momentos distintos e diferenciados para aqueles que deixam a localidade, e aqueles que chegam a ela. O mecanismo apropriado para manter esta falta de sincronia, que pode ser observada em Pirenópolis é o descompasso espacial e temporal dos movimentos de turistas e da população local. Quando é possível, a comunidade autóctone concilia seus interesses com os prováveis programas de lazer dos turistas, e assim há coincidência entre a utilização dos espaços pelo visitante e pelo morador, mas ocorre também o contrário, quando as atividades são realizadas em momentos distintos.

            Porém é importante ressaltar como afirma Luchiari, que a “[...] organização territorial dos lugares turísticos não responde somente à lógica do lugar, do meio, e da população, ela é a reprodução de atributos valorizados nos centros urbanos emissores, [...]” (1998, p. 23). Numa visão mais ampla da atividade turística, os apelos mercadológicos para comercializar “meio ambiente e cultura” entram no campo do utilitarismo e ainda é necessário compreender que os lugares turísticos sintetizam “[...] na materialidade das cidades que se expandem, as novas representações sociais imprimidas ao uso do território. Por isto os lugares não permanecerão ‘provincianos’ ou ‘selvagens’, porque estes atributos não representam mais a sociedade” (1998, p. 23).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O crescimento da população regional e os grandes investimentos realizados pelos sucessivos governos, na região dos cerrados a partir da década de 1960 aumentaram o fluxo intra-regional de pessoas, criando uma demanda turística que dinamizou a economia do Planalto Central Brasileiro. No Planalto Central, as aglomerações urbanas no entorno do Distrito Federal e na Região Metropolitana de Goiânia concentram um importante contingente populacional que é o maior alimentador destes movimentos pendulares da população regional.

A implantação da infra-estrutura, hoje existente na região Centro-Oeste permitiu a descoberta dos atrativos turísticos presentes nas pequenas cidades próximas às duas metrópoles regionais. As pessoas ao buscarem alternativas de lazer e descanso para preencher suas horas de folga com atividades diferenciadas das rotinas, as quais elas estão submetidas quando vivem em grandes cidades encontraram em Pirenópolis-GO uma excelente alternativa de lazer e turismo, devido ao grande potencial para a exploração econômica do setor. Todavia, como foi visto, existem conflitos entre moradores e visitantes os quais geram outros deslocamentos.

As carências históricas de urbanização herdadas, e por superar em algumas áreas do Planalto Central, provocam conflitos diante da realidade transformadora promovidos pela atividade turística. Os hábitos culturais têm parte importante nas manifestações de resistência às mudanças, sobretudo quando as populações locais se deparam com “estranhos”. As cidades se dividem: de um lado, observamos que existem aqueles moradores que se apropriam de benefícios econômicos decorrentes da presença dos visitantes, mesmo perdendo os benefícios e as vantagens decorrentes da localização na malha urbana, sossego, privacidade; e de outro lado, encontram-se aquelas pessoas que mantêm os vínculos com as tradições e o cotidiano.

Nessas diferenças constroem-se “muros” que separam bairros, grupos sociais, atribuem-se novos usos ao solo, e aumenta a prestação de serviços. O aquecimento do mercado de imóveis estimula o esvaziamento da identidade na medida em que vai fazendo a “tábua rasa” de memórias e de valores culturais. Em Pirenópolis-GO, isso vem se consolidando, pois ao tornar-se uma cidade turística perdeu pouco a pouco “suas lembranças” de local pacato, do silêncio, e da paz.

O trânsito de veículos automotivos e de pessoas no centro histórico descaracteriza a paisagem bucólica, agora “desnuda”, exposta para ser vista, admirada, e explorada. Os turistas chegam a Pirenópolis para usufruir os seus atrativos, porém sem qualquer o compromisso com a conservação do patrimônio, o qual pode se degradar por ações produzidas pela natureza e ações antrópicas. Nesse “vai-e-vem” dos visitantes, os moradores também deixam a cidade, outros chegam, e a malha urbana vai se estendendo em direção as áreas periféricas.

            Nessa dinâmica os moradores tradicionais, que tiveram suas rendas aumentadas com a valorização de seus imóveis, se deslocaram em direção às áreas periféricas, e outras cidades, ganhando Pirenópolis novos moradores. Todavia, a diminuição da população local, a partir da década de 1980, contrastou com a incorporação de novas áreas ao território urbano.

Os imóveis da região central foram os primeiros a serem revitalizados, e os proprietários cederam seus espaços privados para o funcionamento de serviços de hotelaria, alimentação e lojas. O artesanato de prata dominou o comércio de jóias, a madeira transformou-se em artefatos de enfeite, suporte de objetos, sementes, pedras, penas tomaram outros rumos e foram aproveitadas para a confecção de bijuterias. As alterações que ocorreram no coração da cidade, em virtude da presença dos visitantes, fizeram com que a localidade passasse a ter movimentos populacionais sazonais, os quais resultaram na criação de novos bairros e no esvaziamento de moradores da área central.

As oportunidades de crescimento, de investimento acontecem em variados ramos de atividades, desde os grandes hotéis, às simples pousadas e campings, até bares, restaurantes e o pequeno comércio. Houve uma invasão de serviços e pessoas, a qual provocou o crescimento da cidade e a expulsão de moradores. Assim, fez-se espaço para que outras pessoas viessem experimentar, esporadicamente, a rotina de antigos moradores, com o conforto semelhante de suas habitações particulares.

 

 

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Boanerges Candido Da Silva
 

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Boanerges Candido Da Silva

Mestrando em Tecnologia e Desenvolvimento pela UTFPR

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