|
RESUMO
Esse artigo aborda as
transformações urbanas ocorridas em Pirenópolis-GO, a partir da década
de 1980. A expansão do tecido urbano, a ocupação dos espaços e os novos
usos dos imóveis impostos pela exploração da atividade turística
produziram impactos socioambientais nesta pequena localidade, situada no
Entorno do Distrito Federal. A inauguração de Brasília em 1960 acelerou
a urbanização regional, o crescimento populacional e gerou uma forte
demanda por turismo e lazer na região central do país. A infra-estrutura
de transportes e de comunicações construída para interligar o
Centro-Oeste as demais regiões brasileiras e proporcionou as bases para
o crescimento do setor turístico. Esse fenômeno movimentou a economia
local e aqueceu o mercado imobiliário deslocando os moradores do centro
histórico em direção às áreas periféricas. A nova configuração da cidade
estendeu-se para além do Centro Histórico, tombado como Patrimônio
Histórico Nacional, onde foram criados novos bairros e loteamentos para
atender a demanda dos moradores e dos visitantes.
Palavras chave:
Turismo; Pirenópolis; transformações urbanas, mercado imobiliário.

Cidade de Pedras
INTRODUÇÃO
Esse artigo trata das transformações
socioambientais ocorridas na cidade de Pirenópolis-GO nas últimas
décadas do século passado. O município goiano está situado a 150
quilômetros de Brasília-DF e sofreu profundas mudanças na sua rotina de
pequena cidade, promovidas pela transferência da Capital Federal para a
região do cerrado, implementada durante o governo do Presidente
Juscelino Kubitschek de Oliveira, quando a nova capital foi construída e
inaugurada.
A partir da década de 1950, as atenções
se voltaram para o interior do País e ganhou novos contornos, durante o
governo do Presidente Juscelino e das realizações e das propostas
contidas no seu Plano de Metas. Durante a sua administração ocorreu à
incorporação de novos padrões de acumulação para a região, com a
pretensão de integrar a região do cerrado ao restante do País, a partir
de três eixos: a) investimentos estatais na área de infra-estrutura, no
sentido de solucionar os pontos de estrangulamento da economia regional;
b) estimulo aos investimentos privados (nacionais e estrangeiros) pela
instalação de plantas industriais; e c) interiorização do País, por meio
do projeto da construção de Brasília (ROCHA NETO
ET AL, 2006, p. 108).
Logo após a inauguração da
nova Capital da República no Planalto Central Brasileiro, ocorrem os
fenômenos da urbanização e da aceleração do crescimento populacional, no
entorno do Distrito Federal, de forma mais intensa e nos demais espaços
da região Centro-Oeste de maneira mais branda. Segundo cientistas
sociais, as décadas de 1960 e 1970 foram marcadas pelos investimentos na
área de habitação, com a construção de residências financiadas com os
recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS
(MARQUES & BICHIR. 2001),
essa nova política habitacional teve influência marcante na consolidação
de Brasília como Capital Federal do país, pois facilitou a construção de
residências para atender aos novos habitantes, em sua maioria,
transferidos da cidade do Rio de Janeiro para a região.
Os centros urbanos irradiaram para as
periferias os serviços, os postos de trabalho e a distribuição da renda.
Nesses espaços instalavam-se as pessoas de baixa renda e inserida no
mercado informal de trabalho. Esse modelo metropolitano brasileiro foi
construído na cidade do Rio de Janeiro, e exportado para as demais
cidades brasileiras, com todas as suas mazelas. Segundo Maricato “O
processo de urbanização se apresenta como uma máquina de produzir
favelas e agredir o meio ambiente” (2001, p. 39). A posição da autora é
corroborada por Bursztyn, que afirma ser o cerrado um retrato da
realidade brasileira, pois apresenta “Cidades inchadas, favelas, campos
arrasados pelas máquinas e povoados por bois, soja, cercas. [...] Na
mesma proporção em que cresce a produção, aumenta também a degradação,
do ambiente e das condições de vida” (2002, p. 9).
Na região central do país o
fenômeno da urbanização, capitaneado pela Capital Federal, que dinamizou
a economia regional criando a infra-estrutura necessária para a
consolidação de Brasília como centro das decisões nacionais, e tem
contribuído de forma marcante para a criação de uma rede urbana na
região do cerrado. Segundo Soares & Bessa é provável que os elevados
custos dos imóveis urbanos nas metrópoles tenham contribuído em parte
com esse movimento, aumentando a importância dos centros urbanos
intermediários – devido ao fato de possuírem papéis regionais e locais
expressivos. Afirmam ainda a respeito das cidades médias brasileiras,
que de modo geral, “[...] nas últimas décadas, vêm apresentando um
acentuado crescimento populacional, associado a um crescente
desenvolvimento fundamentado na implantação de uma base infra-estrutural
ligada aos transportes e às comunicações” (1999, p. 25).
Na década de 90, o aprofundamento da
tendência de fragmentação da estrutura produtiva brasileira, com o
crescimento, por exemplo, da agroindústria, agricultura irrigada,
empreendimentos voltados à exploração de recursos naturais, a acelerada
urbanização da fronteira, ratificou a inflexão na trajetória da taxa de
crescimento urbano das metrópoles, observada na década de 80. A
participação do crescimento metropolitano no total cai expressivamente,
enquanto as cidades de pequeno e médio porte passam a registrar uma
maior participação (SCHVASBERG, 2003, p. 45).
Como resultado dessa nova
realidade regional sobreveio uma demanda social por lazer e Turismo, que
cresceram e ganharam destaque a partir da década de 1980. Adotamos,
nesse texto, como definição de turismo a concepção clássica de viajar
com fins de entretenimento baseado na idéia de que nesses deslocamentos
as pessoas contemplam passivamente as paisagens sem participação ativa.
Porém sem deixar de levar em conta que a atividade turística pode ainda
ser definida do ponto de vista econômico como: o conjunto de resultados
alcançados e de serviços necessários para atrair aqueles que fazem
turismo (OLIVEIRA, 2001; DIAS & AGUIAR, 2002). Entretanto, os turistas
com um comportamento inadequado por desconhecem a dinâmica das
comunidades, provocam impactos que transformam o cotidiano e a cidade
vai perdendo referências e novos símbolos e signos tomam conta dos
espaços.
A presença de visitantes na
cidade de Pirenópolis, sobretudo vindos da Capital Federal e de
Goiânia-GO, intensificou a movimentação de pessoas movimentando e da
economia, o mercado imobiliário e alterando o cotidiano dos moradores.
Assim, é grande o risco do local, em função do turismo, se deparar com o
esvaziamento da sua identidade, e “a cidade [transformar-se] no
espetáculo do consumo, as ruas [redimensionarem-se e ganharem] outro
conteúdo que elimina o lúdico, pois, transforma-se, em lugar de
passagem” (CARLOS, 2004, p. 62).
Centro Histórico
A valorização do centro
histórico transformou os usos do solo e os tradicionais proprietários se
tornaram vítimas dos novos tempos. A mobilização dos agentes econômicos
na direção da exploração econômica do turismo os obrigou a cederem seus
espaços para o funcionamento de serviços de hotelaria, alimentação e
comércio. Além disso, houve um estímulo para o crescimento do tecido
urbano em direção às áreas periféricas. Segundo Schvasberg “Na base de
todo o processo, está a forma de como a terra, fator primordial na
produção/localização das atividades urbanas, [...] desempenha [seu
papel] na transformação da cidade” (2003, p. 53), ainda de acordo com as
afirmações do autor, “Tal característica é traduzida no padrão de
crescimento urbano por setores, com grandes vazios urbanos, localizados
entre as áreas mais centrais e as periferias urbanas [...]” (p. 53).
De acordo com as afirmações
de Barbosa, “O ecoturismo surgiu a partir de um turismo alternativo,
possivelmente como insatisfação com as formas do truísmo convencional
que, de um modo geral, ignorava as categorias sociais e ecológicas em
face da predominância de um turismo de massa” (200, p. 49).
Segundo Maria Luiza Mendonça, professora titular do Instituto de Estudos
Sócio-ambientais – Universidade Federal de Goiás e Coordenadora do
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Turismo e Cultura, a busca incessante
do novo, do diferente, do ainda não explorado, intocado pelo
desenvolvimento e pelo capital, aliado ao uso intenso de paisagens e das
mais variadas manifestações culturais “compromete e destrói ou retira da
localidade as condições mesmas que originariamente a elegeram” (2003, p.
43).
As alterações que
ocorrem nos atrativos em virtude da presença dos visitantes são
responsáveis pela perda de capacidade de atrair novos turistas, que
procuram outros locais que ainda apresentam um bom estado de
conservação. Devido à
procura pelo natural e a presença exagerada de turistas, o município
experimenta hoje as conseqüências do crescimento da atividade turística
e enfrenta dificuldades para manter seus atrativos históricos e naturais
em bom estado de conservação, devido ao elevado número de visitantes e a
falta de consciência destes, sobre a necessidade de se preservar o
ambiente físico. De acordo com Barbosa “A indústria do turismo
habilmente altera as condições geográficas do mundo que a história da
humanidade construiu nestes longos anos de existência. [...] Tudo em
prol da satisfação do turista [...]” (2001, p. 65).
FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PIRENÓPOLIS-GO
A data de fundação de Meia
Ponte é motivo de controvérsia, não existe acordo entre os diversos
autores quanto à data do evento. Alguns afirmam ter sido em 1727,
outros, no ano de 1731. No entanto, no livro, onde estão registrados os
batismos realizados na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, existem
assentamentos de batizados realizados naquela igreja no dia 02 de março
de 1732, a primeira hipótese parece ser a mais provável, pois o período
compreendido entre 07 de outubro de 1731 a 02 de março de 1732, é
considerado insuficiente para a construção de tão grande e sólida
edificação (JAYME, 1971).
A cidade goiana chamada
inicialmente de “Meia Ponte”,
hoje Pirenópolis, começou seu povoamento quando Bartolomeu Bueno da
Silva, o “Anhangüera”,
estabeleceu-se em Vila Boa de Goiás, hoje Cidade de Goiás. Os
bandeirantes, à procura de ouro, foram avançando para os sítios
próximos, e chegaram às minas auríferas localizadas no Rio das almas,
por eles nomeada de Nossa Senhora do Rosário, localizadas aos pés da
Serra dos Pireneus (BARBOSA, TEIXEIRA NETO & GOMES, 2004).
Inicialmente a localidade cresceu com a vinda de pessoas
interessadas em explorar o minério, jazida abundante no leito do Rio das
Almas. O arraial foi elevado à vila de
Meia Ponte em 10 de julho de 1832, e elevada à categoria de cidade em
agosto de 1853. Mudou de nome em 1890, quando passou a se chamar
Pirenópolis por conta de se achar plantada aos pés Serra dos Pireneus (BERTRAN,
2000).
Como o povoado estava
situado na junção das principais estradas da Província por ali passavam
grande número de tropas, logo seus habitantes perceberam que trabalhar
na terra e vender seus produtos seria uma atividade lucrativa. Segundo
Saint-Hilaire durante a semana os habitantes de Meia Ponte se dedicam à
agricultura e só vão ao arraial aos domingos. “As casas permanecem
vazias durante toda a semana. As terras da paróquia são apropriadas a
todo tipo de cultura, até mesmo a do trigo, mais é principalmente com a
criação de porcos e a cultura do fumo que se ocupam os colonos da
região” (1978, p. 37).
De acordo com Oliveira, no
início dos anos 1800 foram desenvolvidos esforços com o objetivo de
inserir a Província de Goiás no mercado nacional. São marcas destes
momentos esforços no sentido de instalar indústrias de manufaturas na
capital e, posteriormente, com a criação da fundição de ferro em
Traíras, a fim de incrementar a economia regional. No entanto, a maioria
das iniciativas fracassou devido à falta de mão-de-obra, a falta de
recursos financeiros e à dificuldade de integração devido à precariedade
da rede viária.
Embora toda a Província
sucumbisse no abandono e em crise econômica duradoura, Pirenópolis,
resistiu, tornando-se um pólo agrícola e comercial. Como fator
exponencial dessa resistência encontramos a figura do Comendador Joaquim
Alves de Oliveira – proprietário do engenho São Joaquim, hoje Fazenda
Babilônia, e do primeiro jornal de Goiás, a Matutina Meyapotense,
editado pela Typographia Oliveira (primeira da região Centro-Oeste do
país e também de propriedade do Comendador). Esse periódico de ideais
libertários, circulou de 5 de março de 1830 a 24 de maio de 1834 e
alcançava localidades de Goiás, de Minas Gerais e do Mato Grosso. Nesse
período foi construído um palacete de “365 janelas”, situado onde hoje
se encontra o campo das cavalhadas, e demolido em 1868, segundo a
tradição popular. O solar é citado no décimo terceiro parágrafo do
testamento do Comendador (JAYME, 1971).
Situada no Entorno do Distrito Federal, sendo um dos
municípios que compõem a RIDE - Região Integrada de Desenvolvimento do
Distrito Federal e Entorno a cidade de Pirenópolis ganhou importância
devido às opções de lazer, que se constituem de atrativos naturais,
como: as cachoeiras, as formações
rochosas, o cerrado e a sua rica biodiversidade
e a beleza das paisagens
naturais, entre as quais podemos destacar a “Cidade de Pedras”;
das áreas rurais como
as antigas fazendas
que remontam ao tempo da
escravidão;
e do patrimônio histórico, além da rica cultura local. Estes
elementos segundo Soares & Bessa, estão se tornando importantes em
pequenas aglomerações na região central do país,
é importante ressaltar que as
oportunidades econômicas advindas da exploração econômica destes
atrativos “[...] está se tornando
uma alternativa para o desenvolvimento sustentável das pequenas cidades
do cerrado, pois apresenta novas possibilidades de crescimento regional,
como é o caso de Pirenópolis [...]” (1999, p. 26).

A URBANIZAÇÃO DA REGIÃO CENTRAL DO BRASIL
Até a década de 1960 a rede
urbana do Planalto Central foi estabelecida em função da baixa densidade
demográfica e da estagnação econômica, presentes na região devido aos
grandes latifúndios e a pecuária. Segundo Soares & Bessa até a
transferência da Capital Federal para o interior do país "[...] a rede
urbana das áreas de cerrado apresentava-se desarticulada, ou seja, com
pequena integração interna, [...]" (1999, p. 15). Anteriormente era uma
região onde predominavam os vazios demográficos. A construção de
estradas ligando a capital federal aos demais centros nacionais,
permitiu o crescimento econômico e a atração de migrantes para a área
central do país (MOREIRA, 2002).
Tabela 01: Evolução da população em
Brasília-DF, na RIDE, Goiânia-GO e Região Metropolitana de Goiânia
(1960-2005).
|
Municípios |
1960 |
1970 |
1980 |
1991 |
1996 |
2000 |
2005 |
|
Brasília |
139.796 |
538.351 |
1.176.935 |
1.596.272 |
1.821.946 |
2.051.146 |
2.333.108 |
|
RIDE |
115.953 |
161.386 |
246.039 |
353.976 |
635.573 |
815.522 |
1.029.832 |
|
Goiânia |
151.953 |
381.055 |
714.174 |
920.257 |
1.003.477 |
1.093.007 |
1.201.006 |
|
RM de Goiânia |
- |
- |
- |
1.312.709 |
- |
1.743.297 |
2.013.073 |
|
TOTAL |
406.762 |
1.080.792 |
2.137.148 |
4.183.216 |
3.460.996 |
5.702.972 |
6.577.019 |
Fonte: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censos
Demográficos, 1960-2000. Contagem Populacional 1996 e 2005.
Segundo
Bessa & Soares (2001) a rede urbana da Região Centro-Oeste é recente e
tomou a atual configuração nas últimas décadas do século passado. As
principais cidades da região são Brasília e Goiânia, concentrando o
principal contingente populacional e os centros de poder federal e
estadual. Segundo dados da tabela 01, confirmou-se o que estava
previsto, desde os anos 1930, pelas políticas públicas definidas pelas
autoridades de Estado, que era atrair novos habitantes para a região
central do país. A transferência da Capital Federal reforçou “as
políticas de interiorização do país, [e] teve grande impacto político,
econômico e social nas áreas de cerrado” (SOARES & BESSA, 1999, p. 14) e
influenciou a formação de uma rede urbana que foi determinada pelas
atividades econômicas e pela localização dos centros de poder.
Durante os governos
militares, as políticas públicas incentivaram a ocupação das regiões
Centro-Oeste e Norte, entre as medidas tomadas naquele momento estão a
construção de rodovias como: a Belém-Brasília, a Cuiabá-Santarém, a
Transamazônica, a Manaus-Porto Velho e a Brasília-Cuiabá, entre outras,
todas usadas para promover a interiorização do desenvolvimento e a
criação de novos núcleos populacionais. A região passou por
intenso processo de urbanização, especialmente a área central do Estado
de Goiás e as imediações do Distrito Federal.
O Centro-Oeste passou por grandes
transformações nas últimas décadas, especialmente depois da construção
de Brasília, [...] era uma região com baixa densidade demográfica. A
abertura da rodovia Belém-Brasília em 1962 e a posterior construção de
outras grandes estradas atraíram capitais e migrantes (MOREIRA, 2002, p.
252-253).
No período também se
estimulou a ocupação das áreas de cerrados para fins agrícolas. A soja
foi o produto mais cultivado e a produção está totalmente voltada para o
comércio exterior. Segundo Theodoro, Leonardos & Duarte (2002), a
partir da década de 1970, a região passou a ser explorada de forma
intensiva, com a produção voltada para o mercado externo. A adoção do
modelo agroexportador viabilizou o desenvolvimento regional, mas criou
problemas sociais como a concentração de renda e terra.
“Este modelo de desenvolvimento agrícola
adotado pelo país, e especialmente no cerrado, além de socialmente
injusto, vem acarretando problemas ambientais gravíssimos, [...]” (2002,
p. 147). Os autores afirmam ainda que a urbanização acelerada e o
rápido crescimento da economia regional propiciado pela modernização do
campo não foram acompanhados pela preocupação ambiental, pois com a
"[...] implantação da agricultura moderna, assumiu-se a premissa de que
tudo era bom e adequado para qualquer situação, sem preocupações com
escassez e qualidade dos recursos naturais" (2002, p. 158).
Bessa & Soares
assinalam que no período compreendido entre os anos de 1960-1996, na
região Centro-Oeste, houve um crescimento econômico provocado pela
introdução de novas tecnologias para o plantio e armazenamento de grãos,
da implantação de novas atividades relacionadas à pecuária e à
avicultura (2001). Essa modernização nas atividades agropecuárias também
pode ser compreendida a partir das idéias de Moreira que afirma ser o
Centro-Oeste a área do país onde o setor industrial tem a menor
participação na estrutura produtiva, pois a “[...] atividade industrial
desenvolveu-se a partir da produção de alimentos e insumos para o setor
agropecuário, desdobrando-se em indústrias de transformação nos gêneros
alimentício, têxtil, madeireiro, farmacêutico, de borracha e de papel”
(2002, p. 254-255).
O crescimento
populacional e a intensa urbanização ocorrida nas últimas décadas do
século XX na Região Centro-Oeste, especialmente no Distrito Federal e no
Estado de Goiás, repercutem na conservação, sustentabilidade e no
desenvolvimento econômico centrado na exploração dos recursos naturais.
Assinala Silva (2003) que os padrões de produção sobre os quais se deu o
crescimento econômico no Cerrado são insustentáveis, uma vez que
concentram a renda e a estrutura fundiária, produzem impactos ambientais
cumulativos e perigosos, estimulando o êxodo rural e a ocupação
desordenada de novas áreas rurais e urbanas.
O cerrado é a cara do Brasil. Cidades inchadas, favelas, campos
arrasados pelas máquinas e povoados por bois, soja, cercas. Idealizado
como celeiro que aliviaria a nossa penúria, o cerrado se converteu em
grande exportador de víveres. Na mesma proporção em que cresce a
produção, aumenta também a degradação, do ambiente e das condições de
vida (BURSZTYN, 2002, p.9).
Analisando a
distribuição da população nas áreas de cerrado, há uma tendência para
aumentar a concentração da população nas cidades e de um acelerado
crescimento populacional. O Estado de Goiás apresenta um índice de
urbanização de 80,81%, segundo o censo de 2000 da FIBGE e o Distrito
Federal um índice de urbanização superior a 93%, enquanto o total da
região é de 86,70%. “A população urbana do Centro-Oeste cresceu 780% em
apenas três décadas” (MMA, 1998, p. 18).
A
organização do espaço geográfico brasileiro a partir da década de 1950
foi fortemente influenciada por processos sociais, políticos e
econômicos que geraram uma nova divisão regional constituída por três
grandes regiões, o Centro-Sul, o Nordeste e a Amazônia. O
desaparecimento do Centro-Oeste nesta nova classificação ocorreu devido
à fragmentação político-administrativa que ali se verificou na década de
1980, a qual
reflete processos mais acentuados de diferenciação sócio-econômica do
território. De acordo com Corrêa discorrer sobre a “[...] organização
regional do espaço brasileiro é algo muito complexo, pois se trata da
regionalização de um país de grandes dimensões que tem passado por um
complexo e desigual processo de diferenciação que envolve o espaço e o
tempo” (2005, p. 197). Ainda segundo Roberto Lobato Corrêa o processo
possui “[...] ritmos distintos de transformação e, ao que parece, tendem
a se tornarem mais velozes ao final do século XX” (p. 197).
A partir das mudanças ocasionadas pelo
boom
do setor turístico em Pirenópolis a cidade experimentou o crescimento de
seu tecido urbano, fruto da aquisição de residências secundárias pelos
turistas e do deslocamento dos moradores tradicionais do centro
histórico em direção a periferia, onde surgiram novos bairros e
loteamentos que acomodaram a demanda por novos imóveis.
FATORES DO CRESCIMENTO URBANO DE
PIRENÓPOLIS
O desenvolvimento urbano e econômico do Município de
Pirenópolis, no Estado de Goiás, está dentro do contexto dos conceitos
de centralização e concentração. Ramina (2004) colabora com o arcabouço
teórico para estabelecer diferenças conceituais entre a centralização,
aqui o caso do Distrito Federal enquanto organização intencional do
espaço, e a concentração, resultante da deformação do espaço, explicada
por Almeida (2005) a partir da industrialização do Sudeste do país.
A autora faz um paralelo entre as políticas de expansão
agrícola implantadas no Centro-Oeste e na região Sudeste, em consonância
com o Plano de Metas de (1956), que contemplava a construção de
Brasília, associada à implantação da rodovia Belém-Brasília, visando à
ocupação do Cerrado. A vegetação natural foi desaparecendo para dar
lugar aos plantios homogêneos e às obras de infra-estrutura. Há uma
reorientação quanto aos comportamentos coletivos e individuais das
práticas de uso dos recursos naturais e energéticos.
Almeida (2005) ao levantar os dados estatísticos sobre a
taxa de urbanização do Estado de Goiás, diz que os dados “revelam os
processos de urbanização acentuando as desigualdades municipais, e a
necessidade de considerar as diferenciações territoriais ao se tratar de
sujeitos excluídos [...]” (p. 333). A razão desse processo pode ser
analisada sob o ponto de vista do capital, Barros explica que ao
retrocedermos nosso olhar para o passado temos elementos marcantes para
“duvidar de que seja a pobreza a causa dos problemas ambientais. Ao
contrário, nossa convicção tende a se consolidar na direção de que esta
causalidade reside tendencialmente [sic] na concentração da riqueza,
espacial e economicamente” (BARROS, 2004, p.267), fenômeno que vem
ocorrendo no Centro-Oeste reproduzindo o ocorrido nas demais regiões do
país, segundo Moreira (2002) a indústria no Planalto Central têm se
concentrado ao longo do eixo Campo Grande – Goiânia - Brasília.
Barros (2004) afirma que a industrialização acentua tanto o
movimento de deslocamento quanto o de concentração de pessoas, e por
vezes, confunde os limites entre áreas urbanas e áreas rurais. As
possibilidades de melhorar a qualidade de vida, no que tange aos setores
da habitação, saúde, infra-estrutura, emprego e capacitação profissional
funcionam como atrativos que provocam os movimentos de esvaziamento e de
crescimento de cidades. Um exemplo desse processo acontece dentro das
metrópoles que têm, por um lado, suas áreas centrais esvaziadas, e por
outro o rápido crescimento dos assentamentos irregulares e das áreas
periféricas, precárias em infra-estrutura. Opinião compartilhada por
Maricato, que afirma que “O número de imóveis ilegais na maior parte das
grandes cidades é tão grande que, [...] A cidade legal (cuja produção é
hegemônica e capitalista) caminha para ser, cada vez mais, espaço da
minoria” (2001, p. 39).
Um fator bastante relevante no êxodo rural é o aumento
territorial dos grandes latifúndios promovidos a partir da incorporação
das pequenas propriedades, e esse fato social provoca a expulsão forçada
de pequenos proprietários: “Já nos anos 80, a agricultura intensiva
tomou impulso na região [centro-oeste], com a viabilização tecnológica
da soja definindo a estrutura fundiária que mostra um perfil ainda mais
claro quanto ao predomínio das grandes propriedades” (THEODORO,
LEONARDOS & DUARTE, 2002, p. 149).
Karam (2004) diz que podemos considerar o rural uma
continuidade do urbano do ponto de vista espacial, e a tabela abaixo
permite pensar que o modo de vida diferenciado produzido no espaço
urbano cria referências do ponto de vista social as quais interferem na
percepção da realidade.
Tabela 02: Evolução
da população em Pirenópolis e nos municípios goianos que fazem parte da
RIDE.
|
Municípios |
População total |
|
1960 |
1970 |
1980 |
1991 |
1996 |
2000 |
2005 |
|
Pirenópolis |
26.494 |
32.065 |
29.320 |
25.056 |
24.717 |
21.245 |
21.241 |
|
T O T A L |
115.953 |
161.386 |
246.039 |
353.976 |
635.573 |
815.522 |
1.029.832 |
Fonte: FIBGE. Censos
Demográficos, 1960-2000 e Contagem Populacional 1996 e 2005.
É possível inferir, a partir dos dados da Tabela 02, as seguintes
tendências de movimentações populacionais em Pirenópolis, Goiás:
Até 1960 – os dados revelam uma cidade brasileira de pequeno
porte localizada na Região Integrada - RIDE, antes da inauguração de
Brasília-DF;
De 1960 a 1970 – o crescimento populacional de Pirenópolis
foi significativo, com um acréscimo de 5.571 habitantes, que representam
um crescimento de 21%;
De 1970 a 1980 – Inicia-se um processo inverso nas taxas de
crescimento populacional;
A partir de 1991 – acentua-se a tendência de decréscimo
populacional.
Na Tabela 02, observa-se que
a população dos municípios goianos localizados na região de abrangência
da RIDE cresceu aproximadamente 892% em 45 anos. Enquanto nas outras
cidades a população aumentava com a chegada de novos habitantes, a
cidade Pirenópolis desenvolvia-se economicamente, ao mesmo tempo ocorria
o crescimento da malha urbana acompanhado do esvaziamento populacional a
partir da década de 1970. Segundo Soares & Bessa na região do cerrado,
“[...] pode ser constatada a existência de aglomerações urbanas em que
houve um expressivo esvaziamento de suas populações e atividades
econômicas que foram drenadas pelas cidades com papel regional mais
significativo” (1999, p. 26).
Tomando como apoio pressupostos teóricos de Milton Santos
para explicar o fenômeno do esvaziamento de subespaços na região
Centro-Oeste, o autor constatou que as cidades de 20 a 50 mil habitantes
entre 1950 e 1980 apresentaram porcentuais representativos os quais
mostram uma “evolução irregular no período, ainda que em 1980, alcance
índice ligeiramente elevado em relação ao de 1950” (2005, p. 92). Além
disso, outro fator importante para se analisar os movimentos
populacionais, são os índices referentes às cidades grandes. Santos diz
que “as cidades milionárias absorvem cerca de 35% do crescimento total
da população brasileira entre 1960 e 1980” (p. 92).
Quando o autor explica o fenômeno da urbanização em nível
regional, as perspectivas apontam para outras tendências. No mesmo
período, há uma grande concentração populacional na região Sudeste,
seguida pelas regiões do Nordeste e Sul, enquanto que às regiões
Centro-Oeste e Norte cabem “apenas fatias relativamente reduzidas. Ainda
que sua participação seja decrescente nos últimos quatro recenseamentos
(1950, 1960, 1970 e 1980), cerca de 60% da população residente nos
centros com mais de 20 mil habitantes se encontram o Sudeste” (SANTOS,
2005, p. 81).
Em Pirenópolis, enquanto cidade povoada há quase 300 anos
atrás, o movimento populacional foi peculiar, o qual pode ser explicado
pelas idéias desenvolvidas por Milton Santos no que tange à urbanização.
O autor diz que a intensificação da urbanização em algumas áreas de
“antigo povoamento, servidas por infra-estruturas antigas” manteve
raízes com seu passado, as quais têm papel ativo, porém apresentam
remotas possibilidades de atenderem às vocações do presente. O autor
segue a lógica da divisão internacional do trabalho e o mercado único
interno que integra o território para aprofundar a discussão dos
movimentos populacionais. As dimensões continentais do território
brasileiro necessitavam de uma lógica comum aos subespaços, a qual
privilegiasse diferentemente cada fração do espaço e seu momento
histórico, considerando as vocações atribuídas pela divisão territorial
do trabalho.
É relevante dizer que existe uma lógica comum, em escala
nacional aos subespaços, todavia eles têm movimentos próprios e
articulação com o todo: “é assim que podem se explicar não apenas esses
dados estatísticos que são as diferenças regionais dos índices de
urbanização, mas também dados estruturais, como as diferenças regionais
de forma e de conteúdo da urbanização” (SANTOS, 2005, p.67).
Em Pirenópolis, a modernidade não se implantou sobre o
vazio, porque havia heranças culturais, com marcas do período anterior
às técnicas inovadoras. Apesar do decréscimo populacional apresentado
acima na tabela 02, a malha urbana foi sendo modificada pelo processo de
parcelamento do solo, esvaziamento do centro histórico, e aprovação de
loteamentos urbanos em áreas periféricas.
Existem relações entre os locais de trabalho e os locais de
lazer, permeados pelas fantasias, desejos, sonhos, as quais motivam as
pessoas, com poder aquisitivo, a procurar uma segunda residência. Nas
cidades, segundo Villaça (1998), residência, indústrias e serviços
pleiteiam espaços. Todavia, todas as atividades disputam a
acessibilidade ao centro urbano: “Esse interesse na centralidade é a
própria razão de ser das cidades como organismo espacial. Sem ele, as
cidades não existiriam” (p.329). Na estrutura do espaço intra-urbano da
região Brasília-DF e Goiânia-GO, os setores econômicos dominaram as
áreas com funções especificas, ficando reduzido o espaço para lazer a
praças, parques e áreas públicas.
Com base nas idéias de Villaça (1998) podemos entender a busca pelo
turismo e lazer nas pequenas cidades do entorno das duas metrópoles
regionais. Elas apresentam características semelhantes: pequeno centro
histórico, atrativos naturais, acessibilidade. O autor destaca que os
movimentos populacionais temporários, dentro e fora das cidades
acontecem porque existe o acesso. Ele pergunta “Qual a origem ou a fonte
da centralidade? A resposta está na possibilidade de minimizar o tempo
gasto e os desgastes e custos associados aos deslocamentos espaciais de
seres humanos” (p. 242).
Tulik (2000), ao estudar a cidade de São Paulo, destaca a questão do
poder aquisitivo, o qual possibilita aos moradores de grandes centros
buscarem outras formas de turismo e lazer, seja fomentando a rede
hoteleira, seja adquirindo uma segunda residência nas regiões serranas e
litorâneas, uma vez que “[...] concentram altos índices de renda e um
contingente populacional que desfruta as conquistas sociais que lhes
garante disponibilidade financeira e maior extensão do tempo livre”
(2000, p. 196). Assim, entre os pontos de origem dos fluxos de pessoas e
as áreas próximas alastra-se uma expansão imobiliária representada pelo
aumento de vendas de residências secundária, Sassen & Roost (2001)
expõem que nos países ricos, grande parte dos habitantes reside em
subúrbios e pequenas cidades. Em Brasília e Goiânia, onde existem os
melhores Índices de Desenvolvimento Humano da região central do país,
esse fenômeno urbano acontece e os moradores mais abastados, cansados do
moderno representado por Brasília e Goiânia, duas cidades planejadas e
com menos de cem anos de existência, dos traçados arquitetônicos
arrojados e contemporâneos, das salas de concertos, e dos museus
procuram a natureza.
A cidade de Pirenópolis, por meio da administração municipal, tem
promovido transformações urbanas para se adaptar as novas exigências
impostas pelos novos tempos e receber os visitantes da região. Os
investimentos reforçam o teor histórico e bucólico das “cenas urbanas” e
aumentam às áreas de turismo ecológico, criando infra-estrutura,
revitalizando o centro histórico e restaurando patrimônio arquitetônico.
O
SIGNIFICADO DO TURISMO EM PIRENÓPOLIS-GO
A região Integrada de Desenvolvimento do entorno de Brasília - RIDE
caracteriza-se pela heterogeneidade, apresentando simultaneamente traços
metropolitanos ao lado de núcleos urbanos com estruturas provincianas e
agrárias. Nesse contexto de singularidade, Pirenópolis desponta-se como
expoente do Patrimônio Histórico Arquitetônico Cultural e Paisagístico
no interior goiano. O sítio histórico local é de grande valor e desperta
o interesse dos visitantes, entre os atrativos estão as Igrejas, os
monumentos e os prédios centenários, e as fazendas remontam ao tempo da
escravidão. As atrações culturais como: as cavalhadas e a festa do
divino, também os festivais e outros eventos culturais atraem muitos
turistas (SILVA ET AL., 2007).
Nesse local, a presença das pedreiras é um marco da atividade econômica,
com forte participação na arrecadação municipal, trazendo uma soma
considerável de recursos para Pirenópolis. A partir de 1990, a cidade
tornou-se interessante para os turistas, os quais passaram a visitá-la e
a ver nas pedras, monumentos. As inúmeras belezas naturais como as
cachoeiras, os paredões de pedra existentes nas elevações do relevo
presentes no município. A “Cidade de Pedras” de Pirenópolis, que
recentemente foi (re) descoberta por expedição científica patrocinada
pelo Governo do Estado de Goiás é outro importante atrativo turístico
incorporado ao acervo do município.
O perfil da cidade de Pirenópolis, com hotéis, residências transformadas
em pousadas, a rua do lazer, os festivais, culinária regional, bares com
música ao vivo, fábrica de doces e queijos, comércio de artesanato local
– crochê, artigos de palha, móveis rústicos – confirma a nova vocação
urbana: o turismo. Conforme Dias & Aguiar (2002), o “turismo é uma
indústria que continua crescendo rapidamente gerando mudanças nos
destinos, nos mercados, e nas atividades desenvolvidas” (p. 67). O
Turismo, para muitas pequenas cidades como Pirenópolis, representa a
possibilidade de superação da estagnação econômica, pois empreendimentos
voltados para a promoção do bem estar dos visitantes são implantados
gerando empregos e renda (SOARES & BESSA, 1999).
Muitos espaços da cidade adquirem funções diversas durante a
semana. Enquanto praças e ruas são locais de circulação de pedestres em
horário de trabalho, à noite, e nos finais de semana as atividades
turísticas povoam lugares inabitados, fazem uso da infra-estrutura
existente, e provocam modificações – abertura de vias de acesso,
ampliação do terminal de transporte, revitalização de espaços públicos
como o Teatro de Pirenópolis e o Cine Pirineus, de logradouros, pintura
dos imóveis, que revertem em benfeitorias para a população. É importante
ressaltar que esses espaços onde ocorrem atividades cotidianas e
turísticas quando (re)configurados aumentaram a qualidade de vida dos
residentes e criaram oportunidades de lazer para classes menos
abastadas.
Segundo Dias & Aguiar o Turismo cultural
é contraditório em relação à conservação do patrimônio arquitetônico,
porque da mesma maneira que a “[...] atividade turística fortalece a
necessidade de preservação para mantê-lo como atração o intenso
movimento de turistas nos ambientes históricos preservados causa
problemas enormes que pode levar a destruição de monumentos” (2002, p.
134).
Inicialmente o setor turístico se apropria e utiliza a infra-estrutura
já existente nas localidades receptoras, criadas pela população e por
outros setores da economia para outros fins. Dias & Aguiar (2002)
consideram que é necessário que exista uma divisão de tarefas para
aumentar a oferta turística. O governo cuida da parte política, da
segurança, da preservação da natureza e da cultura local, sistema de
transporte, redes de água e saneamento básico, enquanto que o setor
privado responde pela expansão imobiliária para atender a demanda por
alojamentos e alimentação. Convém à comunidade reforçar o espírito
hospitaleiro.
Quando são elaborados projetos paisagísticos modernizando e tornando
mais belas praças e parques, melhorando a infra-estrutura urbana, as
vias de acesso, a rodoviária, o aeroporto, a população residente
apropria-se e utiliza essa oferta de equipamentos. Viajantes podem se
frustrar quando não encontram as condições de acesso para locais
idealizados. Corrobora-se com as afirmações de Cruz (2000, p. 9) quando
ele diz que “O modo como se dá a apropriação de uma determinada parte do
espaço geográfico pelo turismo depende da política pública de turismo
que se leva a cabo no lugar”.
Outro aspecto ligado aos sonhos e à realização de viagens, além das
obras públicas, é a pressão sobre o meio ambiente. Os viajantes,
consumistas em potencial, dependendo do comportamento frente aos
atrativos naturais, e às populações autóctones, provocam modificações na
paisagem e no tecido urbano, os quais podem reverter os processos de
crescimento impulsionado pela busca turística do desconhecido. Rodrigues
diz que (1996, p. 25) esta é uma das dificuldades do planejamento
turístico: “conciliar os interesses de uma população que busca o prazer,
num local, onde outras pessoas vivem e trabalham”.
Nos estágios iniciais a população está satisfeita com as
melhorias e se comporta de forma educada e cordial com os visitantes,
mas em alguns casos com a passar do tempo essa atitude sofre
transformações. Todavia, é o bem estar dele, e uma estadia mais
agradável que o motiva a retornar. A melhor propaganda pode ser a
hospitalidade para com ele (LAGE & MILONE, 2000).
Em Pirenópolis, como foi constatado, que os antigos moradores cederam
suas propriedades para as atividades turísticas, e estabeleceram
residência nas áreas mais longínquas. Ainda não se pode falar de
socialização de valores, significados e visões de mundo, e nem de plena
aceitação das atividades turísticas pela população residente, a qual não
assume integralmente a readequação de mão-de-obra, representada pelo
exercício profissional do comércio e da oferta de serviços. O impacto
positivo do Turismo nas pequenas cidades localizadas no “Entorno” do
Distrito Federal, vem sendo demonstrado por meio da criação de empregos
e da melhoria na condição de vida da população receptora, mas existe um
problema, “Os postos de trabalho abertos pelo turismo são geralmente
sazonais – ocorrendo durante os períodos de alta temporada – e os níveis
salariais de um modo geral são comparativamente baixos, [...]” (DIAS &
AGUIAR, 2002, p. 148).
A migração de pessoas de outras cidades é surpreendente, pois quando se
procura uma pousada, um restaurante, descobre-se que os proprietários
acabaram de chegar ao município. Mendonça explica esse fenômeno acontece
em cidades provincianas que ainda procuram manter sua identidade e
refutam as modificações impostas pelo progresso como as modificações
substanciais na (re) configuração paisagística das cidades, que
alteração o processo de relacionamento social nas comunidades onde
acontece um desenvolvimento mais expressivo do turismo:
[...] na maioria das localidades, é
possível observar, ao lado de uma modificação na distribuição espacial
dos moradores, das atividades econômicas e dos locais destinados ao
lazer, o surgimento de um centro e, em contrapartida, de uma periferia.
É lá que são reorganizados os antigos moradores, bem como os segmentos
produtivos menos “pitorescos”, de maneira que o contato entre visitantes
e nativos, a inserção destes na paisagem urbana, aconteça apenas em
obediência às necessidades da produção, do consumo e da prestação de
serviços aos turistas (2003, p. 43).
Há um movimento pendular que impede que os ponteiros se
encontrem, marcando momentos distintos e diferenciados para aqueles que
deixam a localidade, e aqueles que chegam a ela. O mecanismo apropriado
para manter esta falta de sincronia, que pode ser observada em
Pirenópolis é o descompasso espacial e temporal dos movimentos de
turistas e da população local. Quando é possível, a comunidade autóctone
concilia seus interesses com os prováveis programas de lazer dos
turistas, e assim há coincidência entre a utilização dos espaços pelo
visitante e pelo morador, mas ocorre também o contrário, quando as
atividades são realizadas em momentos distintos.
Porém é importante ressaltar como afirma Luchiari, que a
“[...] organização territorial dos lugares turísticos não responde
somente à lógica do lugar, do meio, e da população, ela é a reprodução
de atributos valorizados nos centros urbanos emissores, [...]” (1998, p.
23). Numa visão mais ampla da atividade turística, os apelos
mercadológicos para comercializar “meio ambiente e cultura” entram no
campo do utilitarismo e ainda é necessário compreender que os lugares
turísticos sintetizam “[...] na materialidade das cidades que se
expandem, as novas representações sociais imprimidas ao uso do
território. Por isto os lugares não permanecerão ‘provincianos’ ou
‘selvagens’, porque estes atributos não representam mais a sociedade”
(1998, p. 23).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O crescimento da população regional e os grandes investimentos
realizados pelos sucessivos governos, na região dos cerrados a partir da
década de 1960 aumentaram o fluxo intra-regional de pessoas, criando uma
demanda turística que dinamizou a economia do Planalto Central
Brasileiro. No Planalto Central, as
aglomerações urbanas no entorno do Distrito Federal e na Região
Metropolitana de Goiânia concentram um importante contingente
populacional que é o maior alimentador destes movimentos pendulares da
população regional.
A implantação da infra-estrutura, hoje existente na região Centro-Oeste
permitiu a descoberta dos atrativos turísticos presentes nas pequenas
cidades próximas às duas metrópoles regionais. As pessoas ao buscarem
alternativas de lazer e descanso para preencher suas horas de folga com
atividades diferenciadas das rotinas, as quais elas estão submetidas
quando vivem em grandes cidades encontraram em Pirenópolis-GO uma
excelente alternativa de lazer e turismo, devido ao grande potencial
para a exploração econômica do setor. Todavia, como foi visto, existem
conflitos entre moradores e visitantes os quais geram outros
deslocamentos.
As carências históricas de urbanização herdadas, e por superar em
algumas áreas do Planalto Central, provocam conflitos diante da
realidade transformadora promovidos pela atividade turística. Os hábitos
culturais têm parte importante nas manifestações de resistência às
mudanças, sobretudo quando as populações locais se deparam com
“estranhos”. As cidades se dividem: de um lado, observamos que existem
aqueles moradores que se apropriam de benefícios econômicos
decorrentes da presença dos visitantes, mesmo perdendo os benefícios e
as vantagens decorrentes da localização na malha urbana, sossego,
privacidade; e de outro lado, encontram-se aquelas pessoas que mantêm os
vínculos com as tradições e o cotidiano.
Nessas diferenças constroem-se “muros” que separam bairros, grupos
sociais, atribuem-se novos usos ao solo, e aumenta a prestação de
serviços. O aquecimento do mercado de imóveis estimula o esvaziamento da
identidade na medida em que vai fazendo a “tábua rasa” de memórias e de
valores culturais. Em Pirenópolis-GO, isso vem se consolidando, pois ao
tornar-se uma cidade turística perdeu pouco a pouco “suas lembranças” de
local pacato, do silêncio, e da paz.
O trânsito de veículos automotivos e de pessoas no centro histórico
descaracteriza a paisagem bucólica, agora “desnuda”, exposta para ser
vista, admirada, e explorada. Os turistas chegam a Pirenópolis para
usufruir os seus atrativos, porém sem qualquer o compromisso com a
conservação do patrimônio, o qual pode se degradar por ações produzidas
pela natureza e ações antrópicas. Nesse “vai-e-vem” dos visitantes, os
moradores também deixam a cidade, outros chegam, e a malha urbana vai se
estendendo em direção as áreas periféricas.
Nessa dinâmica os moradores tradicionais, que tiveram suas
rendas aumentadas com a valorização de seus imóveis, se deslocaram em
direção às áreas periféricas, e outras cidades, ganhando Pirenópolis
novos moradores. Todavia, a diminuição da população local, a partir da
década de 1980, contrastou com a incorporação de novas áreas ao
território urbano.
Os imóveis da região central foram os primeiros a serem revitalizados, e
os proprietários cederam seus espaços
privados para o funcionamento de serviços de hotelaria, alimentação e
lojas. O artesanato de prata dominou o comércio de jóias, a madeira
transformou-se em artefatos de enfeite, suporte de objetos, sementes,
pedras, penas tomaram outros rumos e foram aproveitadas para a confecção
de bijuterias. As alterações que ocorreram no coração da cidade,
em virtude da presença dos visitantes, fizeram com que a localidade
passasse a ter movimentos populacionais sazonais, os quais resultaram na
criação de novos bairros e no esvaziamento de moradores da área central.
As oportunidades de crescimento, de investimento acontecem em variados
ramos de atividades, desde os grandes hotéis, às simples pousadas e
campings, até bares, restaurantes e o pequeno comércio. Houve uma
invasão de serviços e pessoas, a qual provocou o crescimento da cidade e
a expulsão de moradores. Assim, fez-se espaço para que outras pessoas
viessem experimentar, esporadicamente, a rotina de antigos moradores,
com o conforto semelhante de suas habitações particulares.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, M. G. A captura do cerrado e a
precarização de territórios: Um olhar sobre sujeitos excluídos. In:
ALMEIDA, M. G. (Org.) Tantos Cerrados. Goiânia: Ed. Vieira, 2005,
p. 321-347.
BARBOSA. A. S., TEIXEIRA NETO, A. & GOMES, H. Geografia:
Goiás-Tocantins. Goiânia: Ed. da UFG, 2004.
BARBOSA, Y. M. O despertar do
turismo: um olhar crítico sobre os não lugares. São Paulo:
Aleph, 2001.
BARROS, R. Uma nova ética na gestão urbana: a produtividade social. In:
MENDONÇA, F. (Org.). Cidade, ambiente e desenvolvimento:
abordagem interdisciplinar de problemáticas socioambientais urbanas de
Curitiba e RMC. Curitiba, Editora UFPR, 2004. p. 259-273.
BERTRAN, P.
História da terra e do homem no Planalto Central: Eco-história do
Distrito Federal: Do indígena ao colonizador. Brasília: Verano, 2000.
BESSA, K. C. F. O. & SOARES, B. R. Novas espacialidades nas áreas de
cerrado brasileiro: considerações sobre a rede urbana.
Revista Múltipla. Ano VI -
vol. 7 – nº 11, Brasília, dez. 2001. p. 197-217. Disponível em: <http://www.upis.br/multipla.htm>.
Acesso em: 12 set. 2007.
BURSZTYN, M. A cara do Brasil. In: DUARTE, M. L. G. & THEODORO, S. H. (Orgs.)
Dilemas do Cerrado: Entre o ecologicamente (in) correto e o
socialmente (in) justo. Rio de Janeiro: Garamond, 2002, p. 9-10.
CARLOS, A. F. A. O espaço urbano: Novos escritos sobre a cidade.
São Paulo: Contexto, 2004.
CORRÊA, R. L. Trajetórias geográficas, Rio de Janeiro: Bertrand
do Brasil, 2005.
CRUZ, R. C. O. Política de turismo e território. São Paulo:
Contexto, 2000.
DIAS, R. & AGUIAR, M. R. Fundamentos do turismo. Campinas:
Alínea, 2002.
FUNDAÇÃO IBGE. Censos populacionais de 1970, 1980, 1991 e 2000.
Rio de Janeiro: IBGE, 1970-2000.
____________. Contagem populacional de 1996 e 2005. Rio de
Janeiro: IBGE, 1996-2005.
JAYME, J. Esboço Histórico de Pirenópolis. Goiânia: Ed. UFG, 1971.
KARAM, K. F. Agricultura orgânica: estratégia para uma nova ruralidade.
In: MENDONÇA, F. (org.). Cidade, ambiente e desenvolvimento:
abordagem interdisciplinar de problemáticas socioambientais urbanas de
Curitiba e RMC. Curitiba, Ed. UFPR, 2004. p. 227-257.
LAGE,
B. H. G. & P. C. MILONE. Impactos socioeconômicos globais do turismo.
In: LAGE, B. H. G. & MILONE, P. C. (Orgs.). Turismo: Teoria e
prática. São Paulo: Atlas, 2000. p. 117-131.
LUCHIARI, M. T. D. P. Urbanização turística - um novo nexo entre o lugar
e o mundo. In: LIMA, L. C. (Org.). Da cidade ao campo: a
diversidade do saber-fazer turístico. Fortaleza: Ed. UECE, 1998. p.
15-29.
MARICATO, E. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
MARQUES, E. C. & BICHIR, R. M. Estado e espaço urbano:
revisitando criticamente as explicações sobre as políticas urbanas. In:
Revista de Sociologia e Política. Nº 16, Curitiba: UFPR/PRPPG, 2001.
MENDONÇA, M. L. M. Turismo sustentável: classes sociais e
subjetividades. In: MONTORO, T. S. (Org.). Cultura do turismo:
desafios e práticas socioambientais. Brasília: Thesauros, 2003, p.
29-54.
MMA/BRASIL.
Documento de apoio ao workshop para a discussão e elaboração do Plano
de Ação para os Ecossistemas do Cerrado. Brasília, 1998.
MOREIRA, I. O espaço Geográfico: Geografia Geral e do Brasil. São
Paulo: Ática, 2002.
OLIVEIRA, A. M. V. Uma ponte para o mundo goiano do século XIX:
um estudo da casa meia-potense. Goiânia, AGEPEL, 2001.
OLIVEIRA, A. P. Turismo e desenvolvimento: Planejamento e
organização. São Paulo: Atlas, 2001.
RAMINA, R. H. Redes e poder: O
processo de metropolização e a gestão dos recursos naturais. In:
MENDONÇA, F. (org.). Cidade, ambiente e desenvolvimento:
abordagem interdisciplinar de problemáticas socioambientais urbanas de
Curitiba e RMC. Curitiba, Editora UFPR, 2004. p. 53-76.
ROCHA NETO, J. M.,
ET AL. Revista Múltipla. Brasília, Ano XI - vol. 14 - nº
20, junho de 2006. p. 103-117. Disponível em: <http://www.upis.br/multipla.htm>.
Acesso em: 13 Jul. 2007.
RODRIGUES, A. B. Desafios para os estudiosos do turismo. In: RODRIGUES,
A. B. (Org.). Turismo e geografia: reflexões teóricas e enfoques
regionais. São Paulo: Hucitec, 1996. p. 17-32.
SAINT-HILAIRE, A. Viagem à Província de Goiás. Belo Horizonte:
Itatiaia, 1978.
SANTOS, M. A urbanização brasileira. São Paulo: EDUSP, 2005.
SASSEN, S. & ROOST, F. A cidade: Local
estratégico para a indústria global do entretenimento. In:
Espaço & Debates:
Revista de Estudos Regionais e Urbanos. São Paulo, Núcleo de Estudos
Regionais e Urbanos, Ano XVII, nº 41, 2001. p. 66-74.
SCHVASBERG, B. Tendências e problemas da
urbanização contemporânea no Brasil. In: CASTRIOTA, L. B. (Org.)
Urbanização brasileiras:
Redescobertas. Belo Horizonte: C/Arte, 2003, p. 43-65.
SILVA, B. C., ET AL. O potencial da "Cidade de Pedras" para
incrementar o Ecoturismo em Pirenópolis-GO. Revista P@rtes.
São Paulo, Jun. 2007. Disponível em: <http://www.partes.com.br>. Acesso
em: 05 jul. 2007.
SILVA, H. L. Desenvolvimento econômico e impacto socioambientais no
sudoeste de Goiás. Revista Múltipla. Brasília, Ano VIII - vol. 9 –
nº 15, dez. 2003, p. 129-148. Disponível em: <http://www.upis.br/multipla.htm>.
Acesso em: 13 nov. 2006.
SIQUEIRA, D. Turismo e religiosidade em Brasília. In: MONTORO, T. S.
(Org.) Cultura do turismo: desafios e práticas socioambientais.
Brasília: Thesauros, 2003, p. 67-102.
SOARES, B. R. & BESSA K. C. F. O. As novas redes do cerrado e a
realidade urbana brasileira. Universidade Federal de Goiás:
Boletim Goiano de Geografia. Vol. 19 2, Ed. UFG, Goiânia: 1999, p.
11-34.
THEODORO, S. H., LEONARADOS, O. H. & DUARTE, M. L. G. Cerrado: O celeiro
saqueado. In: DUARTE, M. L. G. & THEODORO, S. H. (Orgs.) Dilemas do
Cerrado: Entre o ecologicamente (in) correto e o socialmente (in)
justo. Rio de Janeiro: Garamond, 2002, p. 145-176.
TULIK, O. Residências secundárias no Estado de São Paulo – Identificação
de centros emissores de demanda. In: LAGE, B. H. G. & MILONE, P. C. (Orgs.).
Turismo: Teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2000, p. 196-205.
VILLAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Studio
Nobel, 1998. |