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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 09 de outubro de 2008 23:02:11                                               

 
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TURISMO

O Turismo e as transformações socioespaciais em Pirenópolis-GO

   

Boanerges Candido Da Silva*
Maclovia Correa da Silva*
José Maria Teles Filho *
Júlio César Caixeta *
Luciana Ananias Maia
*


publicado em 01/10/2008

 

Resumo

Para a redação do presente artigo realizamos leituras sobre o tema e fizemos observações in loco, na ocasião aplicamos alguns questionários com visitantes em Pirenópolis-GO, procuramos compreender as transformações ocorridas nesta localidade nas últimas décadas. Utilizamos conceitos, apresentados pelo referencial teórico da geografia, a contextualização espacial fundamenta-se no conceito de região, considerando suas diversas classificações. Os estudos dos fatores da delimitação territorial do desenvolvimento são enfocados a partir da importância do Turismo como agente transformador do espaço nesta localidade. A inauguração de Brasília em 1960 acelerou o desenvolvimento regional, a urbanização e o crescimento populacional criando demandas econômicas e sociais. A infra-estrutura de acesso e de comunicações implantadas na região para interligar a Capital Federal aos demais centros urbanos nacionais impôs modificações nos usos e costumes regionais. As rápidas transformações ocorridas no Planalto Central nas últimas décadas do século passado motivaram a migração para o interior do país e criou um fluxo intra-regional de pessoas que gerou a demanda por Turismo e Lazer na região do cerrado. Na localidade de Pirenópolis as novas práticas socioeconômicas estão centradas no aproveitamento dos atrativos históricos, culturais e naturais. A localização geográfica, representada proximidade com Brasília-DF e Goiânia-GO facilitou a exploração econômica da atividade turística e proporcionou as condições para a acessibilidade e a cidade foi inserida no contexto da moderna economia globalizada e promoveu a o crescimento do tecido urbano e impôs novos comportamentos sociais.

 

Palavras chave: Desenvolvimento; Turismo; Ecoturismo; Tecido Urbano. 

 

Introdução  

O Turismo[1] tem se apresentado também como um fenômeno da sociedade pós Revolução Industrial, não apenas pelo fator econômico, mas também pelos aspectos sociais, espaciais e ambientais. As dimensões sociais do setor abrangem as relações culturais, a mobilidade horizontal, a comunicação social, a administração, o trabalho e o lazer.

 

A prática atual do Turismo reflete a lógica do mundo moderno advinda do processo de globalização da sociedade e da economia, abrangendo os mais diversos campos (político, econômico, social e cultural). Nesse contexto, o espaço geográfico é repensado, uma vez que ele se torna concreto e se realiza por meio das práticas sociais. Ora, o Turismo coloca-se como uma prática social dinamizadora e formadora de novos espaços o que o torna um campo fértil de estudo da geografia (BATISTA, 2003, p. 19-20).

 

A atividade turística é complexa e “possui interdisciplinaridade com diversas áreas da ciência como a Antropologia, a Sociologia, a Economia, a Arquitetura, o Urbanismo, entre outras disciplinas e tem grande interface com a Geografia” (SILVA, 2008). Desta maneira podemos induzir que é uma atividade que influencia e intervêm no espaço geográfico.

         O espaço é, portanto a área que pode ser vivenciada, experimentada e sentida por indivíduos ou por uma sociedade. De acordo com as idéias propostas por Santos (1996), o espaço geográfico é a natureza modificada pelo trabalho do ser humano. Nesse sítio, o cotidiano é representado pelas práticas do dia-a-dia das pessoas.

Na medida em que o Turismo representa uma ligação do lugar com o mundo, seu desenvolvimento irá certamente transformar o ambiente, sobretudo devido às inúmeras interações que a atividade proporciona entre os visitantes e os residentes de uma comunidade receptora. “O Turismo tem introduzido e espalhado valores culturais e sociais por todo o mundo”. No seu âmbito se descortina um campo em que acontecem novas discussões da Geografia (LAGE; MILONE, 2000, p. 124).

As transformações pelas quais passa a sociedade contemporânea deram origem a uma “crise ambiental”, que exerce um papel fundamental e determinante para o aparecimento dos movimentos “[...] sociais conservacionistas, ecologistas e ambientalistas e para que, entre os governos e as populações de modo geral, se tenham começado a buscar, e em alguns casos a adotar, novas formas de desenvolvimento [...]” (DIAS, 2003, p. 18), que representam uma nova maneira de se relacionar com a natureza, possibilitando a sua preservação para a existência e sobrevivência humana.

         A transferência da Capital Federal para o interior do Brasil, em 1960, permitiu a implantação na Região Centro-Oeste de uma moderna malha viária e de comunicações, que combinada com a modernização do campo acelerou a urbanização regional. A construção de Brasília, junto com as políticas públicas de interiorização do país, teve grande impacto, econômico e social nas áreas do cerrado. “O ‘olhar’ para o interior do País é muito recente e ganhou maiores contornos durante o governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira e do seu Plano de Metas (1956-60), responsável pela incorporação de um novo padrão de acumulação para a região” (SILVA, 2008, p. 101).

         Com o crescimento do contingente populacional na região o Turismo enquanto atividade de descanso e Lazer ganhou devido ao aumento do fluxo intra-regional de pessoas. A urbanização acelerada, propiciada pela nova realidade regional pós-inauguração da nova Capital Federal, pela modernização do campo não foram acompanhados pela preocupação socioambiental e nas cidades da região estão presentes os mesmos problemas dos demais centros urbanos brasileiros. Porém promoveu o aumento da demanda por serviços na região, entre os setores que mais cresceram estão o Turismo e Lazer.

         A nova realidade socioeconômica regional acentuou o processo de degradação do Cerrado, devido às políticas governamentais direcionadas para a modernização do campo. Os investimentos em culturas agrícolas destinados a exportação e a abertura de novas pastagens para alimentar o rebanho bovino, combinado com a criação de uma infra-estrutura de transportes e de comunicação necessárias para a consolidação de Brasília como Capital Federal.  

 

Tecnologia, acessibilidade e Turismo

         As novas técnicas e tecnologias incorporadas ao cotidiano da humanidade a partir da Revolução Industrial, particularmente na área de transporte, permitiram que algumas pessoas dispusessem de tempo para se deslocarem durante as férias em busca de descanso e Lazer. Este fato impulsionou o crescimento do Turismo que se converteu em atividade econômica rendosa. "O Turismo é o setor da economia que mais cresce na atualidade, já tendo atingido o status de principal atividade econômica no mundo" (DIAS, 2003, p. 9).

         O Setor turístico nasceu e se desenvolveu com a economia capitalista. Por ser um serviço, não é considerado um artigo de primeira necessidade. A atividade “[...] sofreu – e ainda sofre – com todas as crises ao longo da história. [...] O maior exemplo é a II Guerra Mundial, que provocou a interrupção do Turismo” (TRIGO, 1999, p. 19).

         O século XX apresentou como uma de suas marcas o desenvolvimento tecnológico do automóvel, meio de transporte e locomoção mais utilizado pela sociedade moderna, que se tornou símbolo de status e poder. O Turismo ganhou importância e cresceu se valendo de infra-estrutura como as estradas, nas quais os veículos particulares percorrem com segurança e rapidez os trajetos ao encontro dos atrativos turísticos. “No início, devido ao alto custo, era usado pelos mais ricos, mas a partir da década de 1950, os eles [automóveis] se popularizaram” (SILVA, 2008, p. 63).

         Dentro desse contexto, ocorreu um processo de valorização da atividade turística, que despontou como uma panacéia para o desenvolvimento econômico e social dos países periféricos. O aumento do fluxo turístico decorrente de novos hábitos de Lazer e de viagens intensificaria os deslocamentos dos moradores de países ricos, segundo este entendimento, a atividade abriria as portas para o progresso de países pobres (DIAS, 2003).

         A atividade turística nas últimas décadas do século passado passou a ser compreendida como um bem econômico, material e imaterial, que atende as necessidades de descanso e Lazer dos indivíduos. Essa prática, enquanto uma das alternativas utilizadas para a conservação dos recursos naturais teve como fundamento uma ideologia triunfalista, acreditava-se que o Turismo viria “[...] substituir as indústrias poluidoras da Revolução Industrial, por uma atividade limpa e não contaminante – uma indústria sem chaminés” (DIAS, 2003, p. 13).

         Para as instituições como a Organization for Economic Cooperation and Development - OECD e a Organização das Nações Unidas - ONU o setor possuía características que o diferenciaria quanto aos demais investimentos, pois se devolve dentro de parâmetros de racionalidade contrária à degradação ambiental, ao lucro imediato e à acumulação predatória de capital (SILVA, 2008).

         No Brasil, em meados da década 1980, o Turismo passou a ser visto como um mecanismo econômico capaz de gerar desenvolvimento que seria estratégico para compensar perdas de postos de trabalho no setor industrial. A atividade emergiu na economia contemporânea como fonte de geração de rendas e de promoção do crescimento nas regiões e cidades que souberam aproveitaram o potencial dos atrativos.

         O Turismo muito se beneficia dos avanços tecnológicos nos meios de transporte que permitiram o crescimento, de forma consistente nas últimas décadas, do número de pessoas que se deslocam em busca de Lazer. A maior agilidade na divulgação das informações tem facilitado as viagens. Os modernos e eficientes sistemas de transportes encurtaram as distâncias ao diminuir o tempo gasto nos deslocamentos: o espaço mundial ficou mais integrado. “O progresso tecnológico dos transportes, aliado à acumulação de capital, despertou maior desejo de viajar” (CASTRO, 2002, p. 113).

         Sem a expansão das modalidades de transporte e dos meios de comunicação, o desenvolvimento capitalista não atingiria a base técnica atual e as relações econômicas mundiais não alcançariam o patamar da globalização dos negócios. Na economia moderna, as pessoas necessitam se deslocar freqüentemente pelos mais variados motivos e para os lugares mais diversos, gerando um mercado promissor para a atividade turística.

         As mudanças ocorridas na cidade de Pirenópolis também estão relacionadas aos fatores tecnológicos. A transferência da Capital Federal para o interior do país, em 1960, permitiu a implantação na Região Centro-Oeste de uma moderna malha viária e de comunicações, que combinada com a modernização do campo acelerou a urbanização regional e a migração. A presença de um maior contingente populacional na região estimulou o Turismo e reproduziu os demais fenômenos socioambientais existentes nas proximidades das maiores cidades brasileiras. "A construção de Brasília no Planalto Central, reforçando as políticas de interiorização do país, teve grande impacto político, econômico e social nas áreas do cerrado" (SOARES; BESSA, 1999, p. 14).

No contexto das transformações ocorridas na região Centro-Oeste, que sofreu rápido processo de urbanização influenciado pela transferência da nova Capital Federal. As cidades do seu entorno experimentaram um crescimento fruto das novas demandas econômicas. A necessidade de habitar, trabalhar, circular e recrear foi (re) definindo novos usos para o solo, as atividades produtivas e a acessibilidade (SILVA, 2008). 

Gráfico 1: Origem do visitante

Fonte: elaborado pelos autores com base questionário aplicado em Pirenópolis-GO – em 2007

 

         As vias feitas para garantir a acessibilidade aos atrativos turísticos e os demais investimentos em infra-estrutura são de alguma forma apropriados pela população, que faz uso delas no seu cotidiano. Assim, a administração pública tem mais condições de preservar os acervos culturais em museus e bibliotecas, de remodelar e manter parques, praças e outros espaços não urbanizados, e o espectro de serviços têm seus custos absorvidos por esses recursos.

         O pólo turístico de Pirenópolis-GO atraiu, em um primeiro momento, movimentos espontâneos de circulação de pessoas e veículos provindos de áreas vizinhas e mais distantes. Mais tarde, com a mudança da Capital Federal para o Centro-Oeste, um conjunto de vias possibilitou as viagens para muitas cidades até então isoladas. Com maior acessibilidade, aumentou o fluxo de turistas, e se intensificaram as ações, tanto do poder público como da iniciativa privada, na direção de dotar a cidade de infra-estrutura para atender as necessidades de alimentação dos visitantes, de implantar novos equipamentos, e de ajustar a demanda e a oferta de hospedagem com a construção de hotéis, reformas de casas para pousadas.  

                                                                    

O crescimento do Turismo e do tecido urbano em Pirenópolis

         Na história de Goiás, o espaço no sentido geográfico era composto por vazios demográficos e grandes latifúndios, dificultando que o território assumisse a atual configuração. Foi a partir dos primeiros anos do século passado, que a migração em direção à região do cerrado se tornou possível, devido as grandes obras de infra-estrutura realizadas em função da nova Capital Federal (MOREIRA, 2002).

         As obras de infra-estrutura implantadas foram rodovias, ferrovias, aeroportos, um moderno sistema de telecomunicações e grandes hidrelétricas entre outras ações na direção da interiorização da população e da consolidação de Brasília como sede do poder público federal. “Este momento vem marcado por políticas governamentais de gestão do território voltadas para o desenvolvimento econômico e a integração regional [...]” (BATISTA, 2003, p. 18).

A participação do governo federal no processo de urbanização do Centro-Oeste foi fundamental, e a partir do golpe de estado praticado pelos militares em 1964, a atuação do poder público se fortaleceu e a idéia de povoar os vazios demográficos brasileiros como estratégia para manter a soberania territorial ganhou força. O lema “Integrar para não entregar” foi muito explorado nas propagandas oficiais da época, incentivando o crescimento populacional e econômico da região central do Brasil.

A distribuição espacial da população nas áreas de cerrado, de acordo com a metodologia de cálculo utilizada pelo IBGE, revela uma tendência à concentração em áreas urbanas. Os dados do último censo demográfico demonstram que o Estado de Goiás e o Distrito Federal já apresentam índices de urbanização superiores à média nacional. A repercussão na conservação, na sustentabilidade e no desenvolvimento econômico centrado na exploração dos recursos naturais é grande e tem provocado reações de alguns setores da sociedade (SILVA, 2008).

         O processo de urbanização sofre sensíveis modificações a partir da década de 1990, com a diminuição ritmo do êxodo rural, a maior integração entre o meio rural e as cidades. Com ao aumento do número de trabalhadores e proprietários rurais que passaram a residir nos centros urbanos, ocorreu uma diminuição no ritmo de crescimento das cidades com mais de um milhão de habitantes (SOARES; BESSA, 1999).

         A nova realidade brasileira e regional estimulou a demanda turística, o acesso a momentos de descanso e afastamento das atividades desenvolvidas na maior parte do ano. Esta necessidade é atendida pelo Turismo que se tornou uma das formas mais populares de Lazer usufruídas pela sociedade contemporânea.

A cidade de Pirenópolis é um campo único para o desenvolvimento do Turismo na região do cerrado. Com o crescimento da atividade, ela incorporou mudanças em sua configuração espacial, evidenciadas por traçados irregulares das ruas e dos monumentos. Novos bairros, com o desenho mais homogêneo distanciaram-se do centro histórico, e criaram novos processos sociais e urbanos de integração (ALMEIDA, 2006).

A região administrativa do entorno de Brasília caracteriza-se pela heterogeneidade, apresentando simultaneamente traços cosmopolitas ao lado de núcleos urbanos com estruturas provincianas e agrárias. Nesse contexto ímpar, Pirenópolis desponta como expoente do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Cultural e Paisagístico nacional no interior goiano.

Pirenópolis-GO, situada na região denominada Entorno do Distrito Federal funciona com centro receptor de turistas, principalmente pela sua proximidade com a Capital Federal, a variedade de atrativos presentes no seu território e a hospitalidade do povo comum nas pequenas cidades goianas. Ela apresenta características diferenciadas dos outros municípios que compõem a RIDE, pois possui importante acervo histórico-arquitetônico e uma cultura secular, juntamente com as tradições guardadas e revividas por seus moradores, no cotidiano, ou nos momentos de celebrações solenes, religiosas ou profanas (SILVA, 2008).

         Nesta localidade goiana a atividade turística inicialmente se desenvolveu explorando o potencial histórico e cultural, posteriormente o Ecoturismo ganhou importância e esta nova maneira de relacionamento entre o homem e a natureza reflete o interesse que o morador dos centros urbanos demonstra por maior contato com a natureza. O meio natural atualmente é um dos mais importantes atrativos das viagens de Turismo e Lazer.

         De acordo com Cruz (2000), a constatação de alterações espaciais provocadas no tecido urbano pelo Turismo é mais perceptível em cidades litorâneas. Nas localidades situadas no interior, como Pirenópolis-GO situada na região do cerrado, qualquer alteração no cotidiano pode fazer com que perdas e ganhos acarretem em polêmicas entre moradores e turistas.

         Por vezes, as modificações de uso não permitem de imediato, a construção de uma idéia dos novos significados que um espaço pode assumir. O (re) ordenamento espacial pode ser mínimo e passar despercebido ou imperceptível, mas os observadores mais atentos conseguem visualizar os novos (re) arranjos espaciais e distinguir as alterações no organismo urbano.

         Em Pirenópolis, o crescimento do tecido urbano foi significativo, novos bairros e loteamentos se formaram nas áreas periféricas provocando uma reorganização espacial que motivou antigos moradores a abandonarem a centralidade da cidade. O centro histórico (foto 1) antes ocupado pela população autóctone perdeu parte do caráter residencial, hoje abriga os empreendimentos comerciais necessários ao atendimento do visitante ou se tornaram residências secundárias[2].

Estas transformações urbanas e político-econômicas em Pirenópolis a partir de 1980, são resultado da acelerada reorganização econômica que o mundo passou e que tiveram grandes implicações na estruturação do espaço urbano na Região Centro-Oeste.

            A realização da atividade turística pode criar também, no espaço, uma segregação funcional que se reflete socialmente. Ocorre um “processo de elitização” ou de “gentrificação” que determinam a valorização imobiliária de alguns bairros, expulsando a população diante da incapacidade de arcar com os custos impostos pelo poder público e pelos novos usos. Segundo (BATISTA, 2003, p. 108), “O turismo como prática social, como processo econômico, criando e recriando espaços vem imprimindo em Pirenópolis mudanças em sua dinâmica sócio espacial”.

 

Foto 1/Centro Histórico de Pirenópolis-GO

Foto do autor – 2007

 

         Há casos em que pontos da cidade são identificados e escolhidos pelo poder público para se converter em atrativos turísticos. A escolha potencializa as localidades e atrai os visitantes, em Pirenópolis o tombamento do Centro Histórico alçado à categoria de Patrimônio Histórico e Cultural Nacional, valorizou os imóveis provocando a expulsão dos antigos moradores para a criação das condições necessárias para a adequação da área à nova imagem pretendida pela administração municipal (SILVA, 2008). 

         O interesse pelo Turismo pode ser acompanhado pelos dados estatísticos relacionados ao deslocamento de pessoas, confirmados em estatísticas, mas também está na criação de novos significados, na sua capacidade de (re) organizar sociedades, de (re) condicionar o ordenamento do espaço territorial e nas transformações das relações sociais promovendo mudanças econômicas, culturais e sociais (MENDONÇA, 2003).

Na medida em que os turistas se deslocam buscando conhecer novas culturas, levam a sua própria cultura, que é diferente, e eles encontram nas cidades pessoas interessadas em conhecê-la e consumi-la. Até então, pode-se presumir que deveria acontecer apenas o desejado intercâmbio cultural.

 

Todavia a identidade local nas comunidades receptoras de visitantes passa por um processo de aculturação. Novos hábitos surgem do processo de relacionamento entre essas comunidades e os turistas. Como resultado desta prática acontece a perda da identidade local com a assimilação de novos hábitos provenientes do relacionamento do turista com a população (SILVA, 2008, p. 15-16).

 

         As raízes destas contradições residem no fato das comunidades receptoras nem sempre estarem preparadas, no sentido de entender o valor de suas tradições, seus hábitos e costumes, e começarem então a desprezar sua própria cultura e “substituí-la” pela cultura do turista, mesmo que involuntariamente. Com o tempo, festas religiosas e pagãs começam a perder seu valor, a culinária típica começa a ser substituída, até a maneira de vestir e a linguagem utilizada são modificadas. O resultado é que além de perderem sua identidade, perdem o seu principal atrativo para o Turismo: a singularidade e a originalidade de sua cultura.

A atividade turística tem representado uma nova oportunidade de crescimento econômico para o município de Pirenópolis-GO, mas em decorrência das modificações impostas pelas demandas de Turismo e de Lazer no Brasil Central, esta cidade passou por um processo de (re) configuração urbana, de transformação nas relações sociais e na cultura, experimentando um processo de esvaziamento da sua população em direção a centros urbanos maiores e de perda da identidade cultural (SILVA, 2008).

         Neste município, a atividade turística já é a terceira fonte de arrecadação, conforme informações obtidas no Centro de Atendimento ao Turista - CAT. O destaque a partir do final da década de 1980 é o Ecoturismo devido ao bom índice de preservação do meio ambiente, pois, as atividades tradicionais na localidade sempre foram praticadas de forma extensiva com a finalidade de prover a subsistência dos produtores rurais e de suas famílias, sem os interesses comerciais que marcam o moderno agronegócio.

         As transformações constatadas pelos autores em Pirenópolis-GO estão relacionadas a presenças dos visitantes. Os moradores do Centro Histórico cederam o espaço residencial para a implantação de atividades se apoio e suporte as necessidades dos visitantes, lojas de lembranças e presentes, hotéis, pousadas, bares e restaurantes. Outras foram vendidas aos visitantes, que as mantêm fechadas a maior parte do ano, funcionado como segunda residência. No lugar dos restaurantes de comida típica, surgiram as pizzarias e a culinária internacional.

         A localidade passou por um processo de transformação na malha urbana. As mudanças ocorrem não somente na direção do atendimento das demandas criadas pela atividade turística, e pelo tombamento da cidade pelo IPHAN, mas também pelos movimentos populacionais. A vinda de novos moradores, a saída de pessoas que preferiram viver em outras cidades, as pessoas que optaram por uma segunda residência na localidade, a acessibilidade e o êxodo rural interno impulsionou a construção de novos traçados para o tecido urbano.  

 

Turismo e o Ecoturismo como indutores do desenvolvimento

         Dentro do Turismo um novo segmento, o Ecoturismo, vem ganhando adeptos e importância, esta prática pode ser definida como uma atividade baseada na natureza, em que a motivação dos turistas é observar e apreciar as belezas naturais e as culturas tradicionais existentes nas pequenas localidades e na zona rural, sem participação ativa, ou seja, evitando interferência (SILVA, 2008).

         O meio ambiente é o principal produto do Turismo Ecológico, ele é o ingrediente essencial e poderoso para o fascínio dos turistas, a sua conservação é vital para manter o poder de seduzir e, portanto existe a necessidade do envolvimento da população autóctone no processo de planejamento e de exploração econômica dos atrativos naturais. O Ecoturismo é uma atividade com impactos ambientais mínimos, ao praticá-lo os turistas procuram a satisfação de necessidades legítimas como o “[...] repouso, a diversão, a recreação e a cura, [também buscam a realização dos anseios] intelectuais, espirituais e de conhecimento” (FURLAN; NUCCI, 1999, p. 101).

         O Ecoturismo no final do século passado experimentou um grande desenvolvimento, a partir da década de 1990 "o boom do ecoturismo é tal que em todo o mundo surgiram destinos ecoturísticos, que oferecem atividades e projetos relacionados com a interação homem-natureza" (DIAS, 2003, p.103). No Brasil apesar de haver muito espaço para o crescimento do Turismo Ecológico, o setor ainda enfrenta muitos problemas, mas está se estruturando e avançando.

 

O ecoturismo é o segmento que mais cresce no mundo. Representa hoje 8 % do mercado global. No Brasil, onde existe cerca de 200 agências de ecoturismo, o crescimento é de 30 % ao ano. A maioria do público das agências de ecoturismo tem entre 25 e 35 anos, é formada por solteiros com curso superior; 75 % são mulheres (FURLAN; NUCCI, 1999, p. 101).

 

         A economia moderna usa os recursos naturais de forma intensa com o objetivo de produzir cada vez mais e alcançar lucros crescentes. As atividades agrárias são reconhecidamente fortes depredadoras dos recursos naturais. Os efeitos devastadores dessa prática têm sido a destruição de ecossistemas frágeis como o cerrado, onde a utilização de técnicas modernas e a mecanização do campo produziram enorme devastação, fenômeno ainda inexistente em Pirenópolis, pois na localidade a agropecuária praticada era destinada à subsistência do produtor e da sua família.

         Nas sociedades contemporâneas o aperfeiçoamento técnico “[...] na procura de aumento da produtividade por hectare e por trabalhador visando aumentar a lucratividade, o ambiente natural está cada vez mais sendo alterado, chegando em algumas áreas do Brasil e do mundo a verdadeira degradação ambiental” (ROSS, 2005, p. 225).

         O Poder Público e a população de algumas cidades do Cerrado, como Pirenópolis, no Estado de Goiás, já possuem uma interação com a atividade turística e exploram o Turismo incentivando as festas folclóricas e religiosas, promovendo eventos e criando uma estrutura para apoio aos visitantes. A cidade recebe um expressivo número de turistas, interessados no Turismo Histórico e Cultural.

         No caso de Pirenópolis-GO, o poder público e a iniciativa privada têm usado as manifestações culturais como: a festa do morro, a festa do divino e as Cavalhadas, e promovido festivais para atrair mais visitantes ao município. As cavalhadas, que retratam as guerras entre cristãos e mouros merecem atenção especial, foi construído um local apropriado para a realização da encenação, o cavalhódromo, com a finalidade de dar mais conforto e permitir uma presença maior de público às encenações (SILVA, 2008).

         Os principais fluxos de turistas, que alimentam a demanda regional por Lazer partem do Distrito Federal, de Goiânia e de Anápolis, as maiores cidades desta região goiana, na busca dos atrativos naturais, culturais e históricos existentes na região denominada Entorno do Distrito Federal com destaque para a cidade de Pirenópolis-GO.

         O município de Pirenópolis-GO vem experimentando um “boom” no setor de Turismo, desde o final dos anos 1980, esse fenômeno tem motivado o crescimento da malha urbana e promovido a periferização da população tradicional, que está se deslocando do centro histórico para os novos bairros e loteamentos que surgiram na periferia da cidade, esse fenômeno já foi constatado em outras localidades por vários pesquisadores (SILVA ET AL., 2007; DIAS, 2003; MENDONÇA, 2003; BARBOSA, 2001).

         Atualmente a rede hoteleira local é bastante variada, possuindo desde as tradicionais pousadas, aos luxuosos hotéis, além de varias áreas de camping. Recentemente o Serviço Social do Comércio - SESC inaugurou um balneário que oferece estadia a preços populares. O acesso ao município é fácil, existindo várias opções por meio rodoviário e um aeroporto de médio porte. A cidade possui uma razoável infra-estrutura urbana para o atendimento ao visitante, praças, restaurantes, bares com música ao vivo, teatro, cinema, enfim varias atividades destinadas a promover o bem estar do visitante (SILVA, 2008).

         Apesar das modificações e dos novos usos urbanos impostos pelo Turismo, a população local consegue conviver com as novidades, em parte isso ocorre por que a freqüência dos turistas acontece nos feriados, fins de semana, datas festivas locais, sempre em períodos curtos. Após a partida dos visitantes a comunidade retoma novamente a sua rotina e se apropria dos equipamentos urbanos, utilizando-os da forma costumeira com os seus usos tradicionais.

 

 Considerações

         O Turismo é uma atividade antiga, desde os mais remotos tempos, as pessoas se deslocavam pelos mais variados motivos, essas viagens manifestavam o interesse de conhecer novas regiões, novos povos e de aumentar o conhecimento dos que as realizavam. Os deslocamentos criam oportunidades econômicas e geram riquezas. Os empreendedores aproveitam as possibilidades investindo seus recursos financeiros na busca do lucro, porém para obterem sucesso precisam do trabalho de outros, assim geram empregos e renda nas comunidades emissoras e receptoras de turistas. Junto com os benefícios econômicos e sociais surgem os problemas, decorrentes de um planejamento equivocado ou da falta de preparo dos agentes para lidarem com as demandas do setor.

         A atividade turística experimentou um crescimento acelerado nas últimas décadas do século XX, especialmente nos países desenvolvidos. Esta nova realidade ocorreu devido ao aumento das disponibilidades financeiras e do tempo livre, da melhoria dos sistemas de transportes, de comunicações e do processo de globalização da economia mundial, que em conjunto, ajudaram o Turismo a se tornar uma atividade de massa, com importantes repercussões na economia dos países e das localidades receptoras.

         A transferência da Capital Federal para o interior, promoveu transformações na região do cerrado como: a acelerada urbanização, a modernização do campo, o crescimento econômico e a implantação de moderna rede de infra-estrutura, que juntas integraram o Centro-Oeste com as demais regiões do país, incrementando as correntes migratórias em direção a área central do país e criando um fluxo intra-regional de pessoas, fatos que combinados tornaram o Turismo uma importante atividade na economia da região Centro-Oeste e de forma especial nas pequenas cidades históricas como Pirenópolis situada na região do entorno do Distrito Federal.

         A localização geográfica do município, nas proximidades dos dois maiores centros urbanos regionais, Goiânia-GO e Brasília-DF, associada ao moderno e eficiente sistema viário implantado para facilitar o acesso à cidade são fatores que favorecem a exploração do Turismo. A exploração desta atividade permitiu o crescimento econômico do município e trouxe outros benefícios junto com os visitantes como: o aumento do nível cultural; a melhoria na infra-estrutura urbana, nas vias de acesso à cidade e nos serviços públicos.

         Os poderes público estadual e municipal aproveitaram o potencial dos atrativos turísticos existentes no município e incentivaram a exploração econômica da atividade do Turismo em todas as suas modalidades. Os atrativos históricos, culturais, naturais e gastronômicos despertam forte interesse e curiosidade.

         O Turismo Histórico e o Turismo Cultural são segmentos que merecem destaque e atraem a presença de visitantes em Pirenópolis-GO, mas devido ao comportamento inadequado dos turistas e a sua disposição de consumirem os atrativos sem se preocuparem com a degradação dos mesmos criam problemas para a conservação dos atrativos naturais, históricos e culturais.

         O Ecoturismo se apresenta como uma alternativa de desenvolvimento ainda pouco explorada e com importante potencial de crescimento na cidade de Pirenópolis-GO. Os atrativos naturais apresentam uma grande variedade, possibilitando o satisfatório atendimento do ecoturista, que em número cada mais expressivo tem procurado esta cidade, onde desfrutam os recursos naturais, descansando e se afastando do cotidiano agitado dos centros urbanos.

            O potencial dos atrativos existentes em Pirenópolis-GO despertou um forte interesse entre os habitantes dos grandes centros localizados na Região Centro-Oeste. O desejo por um maior contato com o meio natural, tornou o Ecoturismo uma importante alternativa para o desenvolvimento das pequenas cidades localizadas no Entorno do Distrito Federal. Em algumas pequenas cidades como Pirenópolis a exploração econômica do setor já é uma realidade e tem dinamizado a economia local gerando renda, criando postos de trabalho, ampliando as oportunidades de investimentos e promovendo a inclusão social.

 

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, M. L. A cidade de Pirenópolis e o impacto do tombamento. Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2006.

BARBOSA, Y. M. O despertar do turismo. São Paulo: Aleph, 2001.

BATISTA, O. Visões de Pirenópolis: o lugar e os moradores face ao Turismo. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Goiás, Instituto de Estudos sócio-ambientais, Goiânia, 2003.

CRUZ, A. G. Política de turismo e território. São Paulo: Contexto, 2000.

DIAS, R. Turismo sustentável e meio ambiente. São Paulo: Atlas, 2003.

FURLAN, S. A.; NUCCI, J. C. A conservação das florestas tropicais. São Paulo: Atual, 1999.

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[1] Os termos Turismo, Turismo Ecológico, Ecoturismo e Lazer, nesta dissertação serão grafados com letras maiúsculas para destacar a importância dessas atividades.

 

[2] Residências secundárias ou segunda residência são termos utilizados na literatura específica do Turismo. Trata-se de alojamentos turísticos particulares, utilizados esporadicamente, nos momentos de Turismo e lazer, por pessoas que residem em outros locais (TULIK, 2000).

 

 

 
 
  

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Boanerges Candido Da Silva

Mestre em Tecnologia e Desenvolvimento pela UTFPR

Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás

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Maclovia Correa da Silva

Doutora pela Unicamp

Professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da UTPR

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Júlio César Caixeta

Graduado em Geografia pela UFG

Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás

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Graduanda em Letras – Língua inglesa pela UFPR
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