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O planejamento turístico é uma atividade que tem por objetivo maior
alterar a situação atual para uma situação futura desejada. Este câmbio
da realidade turística de uma destinação, inexoravelmente atinge ao
mercado turístico, isto em razão de o mercado turístico ser uma das
razões da existência do planejamento do setor. Para aclarar esta
afirmação é necessário explicar o que se entende por mercado turístico.
De uma maneira geral, mercado pode ser definido como o ambiente onde
oferta e demanda se encontram havendo comércio ou troca de produtos,
bens ou serviços. Lemos (2001, p.128) explica que o mercado turístico é
“o conjunto de relações de troca e de contatos entre aqueles que querem
vender e os que querem comprar bens e serviços turísticos”, onde se
inserem oferta e demanda.
Cabe aclarar aspectos pertinentes à demanda, pois é esta quem irá fruir
a oferta com produtos e serviços turísticos. Compreende-la e estuda-la
em sua amplitude é fator significativo para o planejamento turístico de
sucesso. Genericamente, demanda pode ser conceituada como a quantidade
de serviços e produtos que se deseja obter por um determinado preço e
tempo. A atividade turística implica necessariamente o deslocamento
temporal de pessoas da sua residência habitual, desta forma, também
demanda a prestação de serviços especiais, tais como: transporte,
hospedagem, alimentação, entretenimento, e outros. Beni (1998, p.201)
explica que a demanda turística é uma “compósita de bens e serviços, e
não uma demanda de simples elementos ou de serviços específicos
isoladamente considerados; em suma, são demandados bens e serviços que
se complementam entre si”.
Por relacionar quantidades de serviços e bens, preço e tempo
pode-se concluir que a demanda está ligada também à decisão,
comportamento, do consumidor, e estas análises de comportamento do
consumidor são o objeto de estudo da teoria da demanda, de acordo com
Lage e Milone (1991), os autores ainda colocam que “o consumidor tem por
objetivo primordial a obtenção da máxima satisfação de seus gastos,
através da escolha da melhor combinação possível dos produtos do
turismo” (p. 36).
A demanda é influenciada por alguns fatores: preços dos
produtos turísticos; preços dos outros bens ou serviços; nível de renda
dos turistas e preferência dos turistas (LAGE e MILONE, 1991). Já por
conta desses fatores é possível observar que a demanda turística é
extremamente heterogênea, pois por si só, as preferências e renda do
turista são aspectos altamente elásticos frente ao tempo, somente para
colocar como exemplo. Lemos (2001) classifica a demanda turística, a fim
de criar padrões de comportamento do turista, quanto ao: espaço; meio de
transporte utilizado; motivação da viagem; tempo de permanência; forma
de organização; quantidade de pessoas e quanto à idade. Mas ainda o
autor alerta que essas classificações não são excludentes entre si.
Todos esses fatores, que fazem da demanda heterogênea, segundo Beni
(1998), servem para a segmentação de mercado turístico, pois do
contrário, não seria possível orientar uma política de turismo que
atendesse particularmente cada destinação. Mas para isso, é preciso uma
análise profunda das motivações para, ainda segundo o autor, constituir
a oferta da melhor forma, a fim de atender à demanda.
A segmentação possibilitaria, de acordo com o mesmo autor, o
conhecimento das principais destinações que trabalham com a mesma
segmentação, e da composição homogênea dos turistas em potencial.
Aumentando
assim as concorrências de mercado, obrigando à criação de políticas de
turismo claras e específicas, vinculação de propaganda especializada
atingindo a demanda específica e também a maior promoção de pesquisas
científicas na área.
Com o volume de informações recebidas diariamente, nos mais
diversos meios de comunicação e a rapidez em processá-las, a demanda
torna-se cada vez mais exigente em relação à oferta, pois o número de
promoções e de produtos e destinações turísticas recebidas, bem como as
facilidades de acessar essas informações é tão elevado, que já é
possível ao turista organizar todos os detalhes da sua viagem com o
auxílio da Internet. E isso proporciona um mercado cada vez mais
competitivo a fim de atender com sucesso as elevadas expectativas dos
turistas em relação à oferta, onde o fator qualidade é o “único critério
que se impõem de maneira natural para determinar o êxito ou o malogro
dos produtos e serviços” Beni (1998, p.151).
Molina (2003) explica que o turismo seria caracterizado atualmente pela
conduta de consumo dos turistas, porque este consumo tenderia a
fragmentar-se cada vez mais, tornando-se menos homogêneo para atender a
demandas cada vez menos homogêneas, o autor cita dois tipos de produtos
que têm mostrado êxito contemporaneamente: produtos de alta tecnologia
como parques temáticos e “os produtos que exploram os recursos ou
situações culturais e sociais [...]” (p. 89). Os produtos citados podem
ser justificados, dentro da heterogenezação da demanda, por suas
variedades de atrações que cada um pode oferecer, atendendo então a uma
variada gama de turistas e suas preferências.
Sobre o viajante contemporâneo, Avighi (2000, p. 102) explica que em
relação ao turista de outrora residem algumas diferenças:
saem de cena o
consumista da zona franca, o turista ostentatório, os roteiros
clássicos. O viajante de vanguarda busca a realização interior e dá
ênfase ao meio ambiente e à compreensão da cultura e da história de
outros lugares, quer conhecer povos e se enriquecer culturalmente.
Percorre roteiros não visitados e elabora seus próprios itinerários.
Mas Avighi afirma que sempre haverá o turista de compras, e que este
seria sempre bem-vindo nas localidades pelo incentivo que dá ao comércio
local, mas que pouco a pouco o turista deixaria as massas para não mais
apenas contemplar, mas também conviver, vislumbrar o novo, o diferente,
e justifica colocando que: “a articulação mediatizada entre o global e o
local gera uma representação sobre lugares e povos e incita a
vivenciá-los” (p.103), pois com meios de comunicação tão eficientes e
presentes, as informações sobre todas as partes do mundo podem
rapidamente ser propagadas no âmbito global, gerando para o turismo, o
que Avighi (2000) chama de “a volta do turista ‘viajante’” (p. 102), com
a necessidade de sanar as curiosidades sobre o mundo, e este viajante
buscaria produtos turísticos que provocassem a sua imaginação, e
sustenta: “Há um imaginário local que se põem no imaginário global por
meio da mídia [...]” (p.105).
Avighi (2000) comenta ainda que sempre haverá espaço para o turistas de
compras, é possível que sempre haverão roteiros turísticos baseados nos
grandes ícones culturais, mas o que se presta a salientar neste momento,
é a importância da valorização da cultura como um todo, para sanar as
necessidades do turista viajante.
Petrocchi (2002) tratando da demanda turística comenta que satisfaze-la
é necessário para a sobrevivência da destinação, pois segundo o autor
“demanda significa mercado. E, se tudo depende do mercado, há
necessidade de estuda-lo, conhece-lo, saber de seus desejos e movimentos
[...]” (p. 87).
Após estas explanações sobre os conceitos de mercado e demanda
turística, para acercar-se mais do aspecto do planejamento turístico,
queda ainda tratar das metodologias de estudo da demanda para checar
como este pode beneficiar ao planejamento turístico.
A demanda turística pode ser conhecida, ou estimada, segundo
Petrocchi (2002) através de pesquisa direta, realizada no núcleo emissor
do turista. Contudo, o autor não descarta a pesquisa no núcleo receptor,
entretanto ele alerta que estas metodologias tratam de demanda real para
oferta real. Quando se trata de planejamento turístico, se trata também
de mudanças no mercado turístico, é dizer que a localidade em estudo
deterá novos produtos turísticos, e provavelmente os turistas sobre ela
terão opiniões diferentes das que atualmente tem. A pesquisa direta,
particularmente no núcleo receptor interessa sempre, pois ela determina
o perfil e a satisfação da demanda real, traz números e inclusive
através de seus resultados pode-se ter objetivos para o planejamento, no
que concerne à (in)satisfação do visitante.
No que concerne à metodologia de estudo da demanda potencial,
países europeus e os Estados Unidos têm lançado mão da econometria, que
segundo Petrocchi (2002) são modelos matemáticos que permitem calcular
números futuros do mercado que figurarão as tendências. suas aplicações
para o turismo originou a teorometria, que são equações que estabelecem
as relações entre as variáveis estudadas no ramo do turismo. Algumas
dessas variáveis podem ser destacadas, tais como os fatores
socioeconômicos (população, renda, preços das viagens, urbanização e
industrialização, ciclo dos negócios, aumento do tempo de lazer),
culturais e psicossociais (escala de necessidades e motivos de viagens,
turismo e status, níveis culturais e educacionais, promoção e
propaganda) e técnicos (atuação do estado, sistema de transportes,
infra-estrutura turística, operadores turísticos).
Este é apenas um exemplo de base de análise para previsão de
demanda potencial. Contudo, conhecer o perfil da demanda, ainda que real
não deve ser descartado, e desafortunadamente a teorometria ainda não
alcançou este modelo. Mas as pesquisas diretas no núcleo receptor podem
figurar como uma fonte segura e sólida para este estudo.
Para tal, a título de exemplo de metodologia, será utilizada a
da Secretaria de Estado de Turismo do Paraná, que há 15 anos trabalha
com pesquisas estatísticas em turismo em diferentes localidades (com
destaque para Foz do Iguaçu, Curitiba e o Litoral), e que a cada ano
incrementa o número de localidades contempladas com o estudo.
O instrumento utilizado é o questionário. Para cada localidade existe um
questionário diferente, mas de forma geral, eles atendem a
características gerais. O mesmo é aplicado a visitantes que pernoitaram
ao menos uma noite na cidade, e que são maiores de 18 anos e que estão
encerrando sua visita. Estes visitantes são abordados nos portões de
saída da cidade, no caso de Foz do Iguaçu por exemplo as abordagens se
dão na BR 277, Ponte Internacional da Amizade, Ponte Tancredo Neves
(respectivamente as fronteiras do Brasil com o Paraguai e a Argentina),
terminal rodoviário e aeroviário. Abordar no momento em que o visitante
deixa o destino garante que ele já tenha realizado todos os consumos de
produtos e serviços possíveis e desejados e que desta forma pode emitir
uma opinião geral sobre o destino.
O questionário é estruturado em perguntas abertas e fechadas, e é
composto por núcleos: perfil do visitante (procedência, idade,
profissão, gênero, forma de viajar e renda); organização da viagem
(motivação da viagem, se utilizou agência de viagens, meio de transporte
e de hospedagem utilizado, quais pontos turísticos visitou, freqüência
com que visita a cidade e os gastos na cidade); percepção com relação ao
destino (se indicaria este para outras pessoas, se pretende retornar,
opinião sobre a infra-estrutura básica e turística da cidade com
detalhamento e forma de classificar a cidade); e projeções sobre outros
produtos ou localidades do entorno de interesse turístico (se visitaria,
quanto tempo dedicaria a esta visita, quais pontos do entorno
visitaria). O instrumento é aplicado duas vezes ao ano: na baixa e na
alta temporada, e a abordagem ao turista é aleatória.
A tabulação e descrição dos dados fornece um retrato do perfil do
visitante, que permite orientar ações de planejamento, no sentido de
otimizar os recursos já utilizados e colocar em prática os potenciais,
segmentar o mercado, e da mesma forma com a divulgação do destino, sendo
a mesma destinada aos pólos emissores reais e os potenciais. Bem como
dirigir ao trade para proceder com o atendimento a satisfação
total do cliente. Os dados ainda fornecem ao Estado e ao mercado números
de visitantes e seu gasto. Apenas para citar como exemplo dos usos do
estudo da demanda para o planejamento turístico.
Com o mercado turístico cada vez mais competitivo, composto por uma
infinidades de produtos que tentam atender a demanda heterogênea e cada
vez mais crítica; e concorrências acirradas entre destinos, este é um
panorama que pode ser considerado simplista, mas não irreal. E estas são
apenas algumas das razões pelas quais o planejamento turístico apoiado
pelo estudo da demanda se faz necessário. Conhecer o público alvo
atrai-lo com eficiência e em sua estadia no destino atender ou mesmo
superar as suas expectativas pode ser a chave do sucesso e consolidação
das localidades turísticas.
Referências
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Turismo: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2000.
BENI, M.
Análise estrutural do turismo.
São
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BOULLÓN, R.
Las
actividades turísticas y recreacionales:
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México: Trillas
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BAHL, M.
Legados étnicos na cidade de Curitiba: opção para diversificação da
oferta turística local. 1994. Dissertação (mestrado) Universidade de São
Paulo, São Paulo: 1994.
COOPER, C.
Turismo princípios e práticas. Porto Alegre: Bookman, 2002.
LAGE, B.; MILONE,
C. Economia do turismo. Campinas: Papirus, 1991
LEMOS, L.
Turismo: que negócio é este? Campinas: Papirus, 2001
MOLINA, S. O
pós turismo. São Paulo: Aleph, 2003
PETROCCHI, M.
Planejamento e gestão do turismo. São Paulo: Futura, 2002 |