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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 26 de dezembro de 2007 21:58:45                                               

 
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TURISMO

Planejamento turístico e desenvolvimento sustentável

   

Poliana Fabíula Cardozo

publicado em 11/12/2007

O desenvolvimento da sociedade aliado ao crescimento econômico leva invariavelmente à reflexão sobre a necessidade da preservação do meio em que se vive. Ora pela poluição do ar ou da água, aquecimento da Terra, ora pelo excesso de produção de resíduos, apenas para citar como exemplos dos impactos da vida atual no meio ambiente. Isto posto, os recursos não renováveis são os primeiros da lista preservacionista, a fim de que se possa legar às gerações futuras um ambiente habitável.

Na mesma reflexão sobre os impactos ao ambiente, advindos da vida na sociedade atual, também devem ser considerados neste bojo a necessidade de lazer e tempo livre, como resultado de um cotidiano vivido em cidades grandes, poluídas e rotina estressante. Neste sentido, o turismo faz parte da reflexão com ênfase, pois muitas vezes resulta como uma alternativa à necessidade do lazer e do tempo livre, ou apenas espraiamento. Assim o turismo passa a ser um consumidor do meio ambiente, considerando a partir das motivações para viagens e atividades de lazer. Acerca do afluxo crescente de visitantes sobre as localidades, em busca de lazer e diversão e consumindo o meio, as localidades receptoras têm dois caminhos a serem seguidos: planejar ou perecer.

Pode parecer tanto drástico dizer planejar ou perecer, mas no sentido em que destinos turísticos passam a receber fluxos de visitantes, consumindo água, gerando resíduo, visitando atrativos muitas vezes frágeis, não raro poluindo o meio; e a matéria prima do turismo passa a ser comprometida dessa forma, é dizer: o turismo consumirá o próprio turismo. Contudo, o planejamento como sendo a opção mais racional para a sobrevivência da localidade deve ser considerado a partir das premissas de sustentabilidade.

Por sustentabilidade no turismo entende-se o atendimento das necessidades dos visitantes sem comprometer a possibilidade de uso dos recursos pelas gerações futuras. Ainda sob a luz das definições, cabe alertar que meio ambiente é constituído pelos recursos da natureza e por aqueles construídos pelas pessoas.

Pelo tanto, a relação do turismo com o meio ambiente é indiscutível, pois o meio ambiente é a matéria prima dos produtos turísticos que por sua vez constituem-se no eixo motivador dos deslocamentos.

O turismo tem algumas fases de relacionamento com o meio ambiente, Ruschmann (2001) cita e explica:

Primeira fase, no século XVIII, que se caracteriza pela descoberta da natureza e das comunidades receptoras, na qual os turistas tinham muita curiosidade sobre os meios em que visitavam.

Segunda fase, no final do século XIX e início do século XX, que se caracteriza por um turismo elitista, e não havia preocupação com o meio ambiente. Houve um Boon imobiliário e as construções civis tomaram conta de muitos destinos turísticos. A natureza é nesta fase domesticada em detrimento do desejo da sociedade.

Terceira fase ocorre a partir dos anos de 1950 até os anos de 1980, que é caracterizada pelo turismo de massa. Houve uma expansão dos destinos turísticos, oriunda do aumento da demanda, e para tal a urbanização das costas, vales e montanhas toma conta das localidades ainda não descobertas pelo turismo na fase anterior.

Quarta fase, depois dos anos 1980, o turismo de massa passa a não ser mais desejado, e há um aumento das viagens motivadas pela ecologia. Para tal, se faz necessário que o meio ambiente natural, e também cultural esteja em condições para receber a uma leva mais interessada em sua preservação.

Neste sentido, saem ganhando as localidades que puderam manter seu patrimônio ambiental em condições de oferecer ao visitante experiências turísticas relevantemente positivas. Isto posto, parte-se do princípio que se a localidade é sustentável para o visitante, também deve estar para o morador.

Os agentes do turismo fazem um esforço para manter este frágil equilíbrio entre o meio e o turismo, embora, segundo Ruschamann (2001) tenham consciência da difícil tarefa que lhes é concedida. A fim de manter este equilíbrio, os profissionais do turismo trabalham com perspectivas de turismo sustentável, na intenção de conter os impactos negativos do e maximizar os positivos que o turismo proporciona. Barretto (2005) comenta ainda que parte das localidades turísticas no Brasil pensam no desenvolvimento sustentável do meio porque ele pode atrair mais visitantes, e não pelos motivos preservacionistas.

A sustentabilidade do turismo está alicerçada nos interesses não apenas do meio ambiente (cultura e natureza), mas também nos profissionais do mercado turístico, os quais se fazem necessários para atuarem com propriedade sobre este meio; o envolvimento da comunidade local que sempre será a primeira a sentir os impactos do turismo; fatores econômicos, pois a atividade turística deve ser rentável ao maior número possível de grupos de interesse; e na plataforma da política, onde o Estado é o responsável pela elaboração e cumprimento das legislações, pelo uso de parte do patrimônio turístico, especialmente aqueles considerados patrimônio cultural ou natural, e também pelas políticas de turismo que elabora e executa. Assim sendo, considera-se planejamento sustentável do turismo aquele que envolve e considera: meio ambiente, profissionais, a sociedade local, a economia, e política no sentido de abranger a máquina estatal. Quando um desses aspectos falha, a sustentabilidade falhará também no seu intuito. Dessa forma, apenas poderá ser garantida a sustentabilidade turística da localidade se todos esses eixos trabalham em sincronia.

Como idéia de sustentabilidade para o turismo, Costa (2002) comenta que a igualdade social e o crescimento econômico devem estar norteados pela questão ambiental. E isso porque o planejamento sustentável do turismo deve considerar em todos os seus aspectos a comunidade receptora e as reações que a atividade vai impor sobre o ambiente em que ela reside.

Molina (1998) elenca os princípios da sustentabilidade do turismo, que devem ser observadas pelo planejamento: respeitar e cuidar da comunidade dos seres viventes; melhorar a qualidade da vida humana; conservar a vitalidade e a diversidade da Terra; reduzir ao mínimo a utilização dos recursos não renováveis; manter-se dentro da capacidade de carga da Terra; modificar as atitudes e práticas pessoais; facultar às comunidades o cuidado com seu próprio ambiente; proporcionar um marco nacional para a integração do desenvolvimento e da conservação; e formar uma aliança mundial.

Do exposto por Molina, cabe ressaltar alguns aspectos, tais como a modificar a atitude e práticas pessoais e manter-se dentro da capacidade de carga da Terra. Estes dois podem ser levados como norteadores do planejamento sustentável do turismo, pois, o primeiro primará pelo câmbio de atitudes dos locais, visitantes e até mesmo dos gestores do turismo, no sentido de conhecer, autoconhecer e respeitar o ambiente. A mudança de atitude da comunidade local e do visitante é fundamental quando se quer sustentabilidade, e dentro deste quesito entrará a preservação mediante não vandalismo, reconhecimento da necessidade dos pagamentos da taxas, aquisição de artesanato e mercadorias locais (fomentando a micro economia local), consumo de pratos típicos, interpretação do patrimônio, a diminuição da produção de resíduos, programas de reciclagem dos residuos, e tantos outros que podem levar à satisfação tanto por parte do turista (pois ações como esta, irão garantir uma experiência turística rica, repleta dos autoctonismos e sua cultura), como por parte do visitado (que terá a economia mais ativa e a cultura valorizada).

E o estudo da capacidade de carga irá balizar sobremaneira o planejamento do turismo na localidade, pois é o resultado deste estudo que irá determinar a política de uso do patrimônio a fim de determinar quanta presença humana ele suporta, sem atentar contra a disposição do mesmo para a posterioridade. Para chegar ao resultado da capacidade de carga, deve-se levar em consideração, por exemplo: tamanho da área utilizável pelo turista; e fragilidade do patrimônio (COSTA, 2002). Cale ressaltar que a capacidade de carga não deve ser encarada apenas como física (em termos físicos quantas pessoas o local suporta), mas também permissível (a parte do suportável pelo lugar quanto se permite número que usualmente é menor que a física); capacidade de carga social (quantos turistas a comunidade local pode suportar sem incomodar-se); e até mesmo psicológica (quantas pessoas podem estar no local sem comprometer a fruição aprazível).

Também o planejamento turístico sustentável deve pautar-se pelos zoneamentos de interesse do meio, é dizer, fixar os usos adequados das diversas áreas do solo que passaram pelo espaço planejado.

Ruschmann (2001) alerta para as fases do desenvolvimento da atividade turística em uma localidade, que passa de desconhecida total, até ser descoberta pelos visitantes, passar para a fase da consolidação e declínio. O declínio para muitas localidades é fatal em termos de turismo, e se dá em função da degradação do patrimônio turístico, especulação imobiliária, descaracterização do ambiente, e outros. Daí surge com mais força a necessidade do planejamento sustentável para o turismo, de modo que o turismo possa ser preservado enquanto atividade e não conheça o declínio onde são deixadas edificações vazias, ambiente degrado e todos os impactos negativos que deste advém.

O planejamento sustentável do turismo deve considerar a hierarquia das atrações, elencado-as em: recursos protegidos (critérios de conservacionismo); recursos prioritários para o desenvolvimento do turismo (introdução de legislação específica para seu uso, e como pode ser o carro chefe da atividade turística na região, devem ser implantadas facilidades); recurso de grande interesse turístico (áreas onde o turismo pode desenvolver-se com outras atividades, figurando como uma atividade econômica extra. Para tal recomenda-se instalação de algumas facilidades); e recurso de interesse turístico secundário (seu desenvolvimento como atração turística está subordinado à outra atração, logo os esforços para tal também estarão subordinados). Para cada uma dessas hierarquias se desenvolvem ações distintas a fim de potencializar a ação sustentável e a mensuração do seu uso (Ruschmann 2001).

Em consoante com esta hierarquização dos atrativos, deve-se observar atentamente para a definição dos objetivos e prazos de execução, pois eles devem estar com vistas aos critérios de sustentabilidade, promovendo otimizações para o turistas, comunidade local, Estado, profissionais e meio ambiente como um todo.

É relevante salientar que o planejamento sustentável do turismo não pretende afastar o sujeito do meio ambiente, alija-lo da cultura e da natureza. Ao contrário, quer manter os recursos para que outros também possam fruí-lo. E esta fruição reservada às futuras gerações depende sobremaneira de planejamento adequado e preocupado com a sustentabilidade (ambiental, social, profissional, política e econômica).

 
  

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::sobre o autor::

Poliana Fabiula Cardozo é mestre bacharel em Turismo (UNIOESTE/UCS), professora assistente e pesquisadora da UNICENTRO.  

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Janaína Ramos Ferreira e
Poliana Fabíula Cardozo
publicado em 15/11/2007

 

 

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