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O desenvolvimento da sociedade aliado ao crescimento econômico leva
invariavelmente à reflexão sobre a necessidade da preservação do meio em
que se vive. Ora pela poluição do ar ou da água, aquecimento da Terra,
ora pelo excesso de produção de resíduos, apenas para citar como
exemplos dos impactos da vida atual no meio ambiente. Isto posto, os
recursos não renováveis são os primeiros da lista preservacionista, a
fim de que se possa legar às gerações futuras um ambiente habitável.
Na mesma reflexão sobre os impactos ao ambiente, advindos da vida na
sociedade atual, também devem ser considerados neste bojo a necessidade
de lazer e tempo livre, como resultado de um cotidiano vivido em cidades
grandes, poluídas e rotina estressante. Neste sentido, o turismo faz
parte da reflexão com ênfase, pois muitas vezes resulta como uma
alternativa à necessidade do lazer e do tempo livre, ou apenas
espraiamento. Assim o turismo passa a ser um consumidor do meio
ambiente, considerando a partir das motivações para viagens e atividades
de lazer. Acerca do afluxo crescente de visitantes sobre as localidades,
em busca de lazer e diversão e consumindo o meio, as localidades
receptoras têm dois caminhos a serem seguidos: planejar ou perecer.
Pode parecer tanto drástico dizer planejar ou perecer, mas no sentido em
que destinos turísticos passam a receber fluxos de visitantes,
consumindo água, gerando resíduo, visitando atrativos muitas vezes
frágeis, não raro poluindo o meio; e a matéria prima do turismo passa a
ser comprometida dessa forma, é dizer: o turismo consumirá o próprio
turismo. Contudo, o planejamento como sendo a opção mais racional para a
sobrevivência da localidade deve ser considerado a partir das premissas
de sustentabilidade.
Por sustentabilidade no turismo entende-se o atendimento das
necessidades dos visitantes sem comprometer a possibilidade de uso dos
recursos pelas gerações futuras. Ainda sob a luz das definições, cabe
alertar que meio ambiente é constituído pelos recursos da natureza e por
aqueles construídos pelas pessoas.
Pelo tanto, a relação do turismo com o meio ambiente é indiscutível,
pois o meio ambiente é a matéria prima dos produtos turísticos que por
sua vez constituem-se no eixo motivador dos deslocamentos.
O turismo tem algumas fases de relacionamento com o meio ambiente,
Ruschmann (2001) cita e explica:
Primeira fase, no século XVIII, que se caracteriza pela descoberta da
natureza e das comunidades receptoras, na qual os turistas tinham muita
curiosidade sobre os meios em que visitavam.
Segunda fase, no final do século XIX e início do século XX, que se
caracteriza por um turismo elitista, e não havia preocupação com o meio
ambiente. Houve um Boon imobiliário e as construções civis
tomaram conta de muitos destinos turísticos. A natureza é nesta fase
domesticada em detrimento do desejo da sociedade.
Terceira fase ocorre a partir dos anos de 1950 até os anos de 1980, que
é caracterizada pelo turismo de massa. Houve uma expansão dos destinos
turísticos, oriunda do aumento da demanda, e para tal a urbanização das
costas, vales e montanhas toma conta das localidades ainda não
descobertas pelo turismo na fase anterior.
Quarta fase, depois dos anos 1980, o turismo de massa passa a não ser
mais desejado, e há um aumento das viagens motivadas pela ecologia. Para
tal, se faz necessário que o meio ambiente natural, e também cultural
esteja em condições para receber a uma leva mais interessada em sua
preservação.
Neste sentido, saem ganhando as localidades que puderam manter seu
patrimônio ambiental em condições de oferecer ao visitante experiências
turísticas relevantemente positivas. Isto posto, parte-se do princípio
que se a localidade é sustentável para o visitante, também deve estar
para o morador.
Os agentes do turismo fazem um esforço para manter este frágil
equilíbrio entre o meio e o turismo, embora, segundo Ruschamann (2001)
tenham consciência da difícil tarefa que lhes é concedida. A fim de
manter este equilíbrio, os profissionais do turismo trabalham com
perspectivas de turismo sustentável, na intenção de conter os impactos
negativos do e maximizar os positivos que o turismo proporciona.
Barretto (2005) comenta ainda que parte das localidades turísticas no
Brasil pensam no desenvolvimento sustentável do meio porque ele pode
atrair mais visitantes, e não pelos motivos preservacionistas.
A sustentabilidade do turismo está alicerçada nos interesses não apenas
do meio ambiente (cultura e natureza), mas também nos profissionais do
mercado turístico, os quais se fazem necessários para atuarem com
propriedade sobre este meio; o envolvimento da comunidade local que
sempre será a primeira a sentir os impactos do turismo; fatores
econômicos, pois a atividade turística deve ser rentável ao maior número
possível de grupos de interesse; e na plataforma da política, onde o
Estado é o responsável pela elaboração e cumprimento das legislações,
pelo uso de parte do patrimônio turístico, especialmente aqueles
considerados patrimônio cultural ou natural, e também pelas políticas de
turismo que elabora e executa. Assim sendo, considera-se planejamento
sustentável do turismo aquele que envolve e considera: meio ambiente,
profissionais, a sociedade local, a economia, e política no sentido de
abranger a máquina estatal. Quando um desses aspectos falha, a
sustentabilidade falhará também no seu intuito. Dessa forma, apenas
poderá ser garantida a sustentabilidade turística da localidade se todos
esses eixos trabalham em sincronia.
Como idéia de sustentabilidade para o turismo, Costa (2002) comenta que
a igualdade social e o crescimento econômico devem estar norteados pela
questão ambiental. E isso porque o planejamento sustentável do turismo
deve considerar em todos os seus aspectos a comunidade receptora e as
reações que a atividade vai impor sobre o ambiente em que ela reside.
Molina (1998) elenca os princípios da sustentabilidade do turismo, que
devem ser observadas pelo planejamento: respeitar e cuidar da comunidade
dos seres viventes; melhorar a qualidade da vida humana; conservar a
vitalidade e a diversidade da Terra; reduzir ao mínimo a utilização dos
recursos não renováveis; manter-se dentro da capacidade de carga da
Terra; modificar as atitudes e práticas pessoais; facultar às
comunidades o cuidado com seu próprio ambiente; proporcionar um marco
nacional para a integração do desenvolvimento e da conservação; e formar
uma aliança mundial.
Do exposto por Molina, cabe ressaltar alguns aspectos, tais como a
modificar a atitude e práticas pessoais e manter-se dentro da capacidade
de carga da Terra. Estes dois podem ser levados como norteadores do
planejamento sustentável do turismo, pois, o primeiro primará pelo
câmbio de atitudes dos locais, visitantes e até mesmo dos gestores do
turismo, no sentido de conhecer, autoconhecer e respeitar o ambiente. A
mudança de atitude da comunidade local e do visitante é fundamental
quando se quer sustentabilidade, e dentro deste quesito entrará a
preservação mediante não vandalismo, reconhecimento da necessidade dos
pagamentos da taxas, aquisição de artesanato e mercadorias locais
(fomentando a micro economia local), consumo de pratos típicos,
interpretação do patrimônio, a diminuição da produção de resíduos,
programas de reciclagem dos residuos, e tantos outros que podem levar à
satisfação tanto por parte do turista (pois ações como esta, irão
garantir uma experiência turística rica, repleta dos autoctonismos e sua
cultura), como por parte do visitado (que terá a economia mais ativa e a
cultura valorizada).
E o estudo da capacidade de carga irá balizar sobremaneira o
planejamento do turismo na localidade, pois é o resultado deste estudo
que irá determinar a política de uso do patrimônio a fim de determinar
quanta presença humana ele suporta, sem atentar contra a disposição do
mesmo para a posterioridade. Para chegar ao resultado da capacidade de
carga, deve-se levar em consideração, por exemplo: tamanho da área
utilizável pelo turista; e fragilidade do patrimônio (COSTA, 2002). Cale
ressaltar que a capacidade de carga não deve ser encarada apenas como
física (em termos físicos quantas pessoas o local suporta), mas também
permissível (a parte do suportável pelo lugar quanto se permite número
que usualmente é menor que a física); capacidade de carga social
(quantos turistas a comunidade local pode suportar sem incomodar-se); e
até mesmo psicológica (quantas pessoas podem estar no local sem
comprometer a fruição aprazível).
Também o planejamento turístico sustentável deve pautar-se pelos
zoneamentos de interesse do meio, é dizer, fixar os usos adequados das
diversas áreas do solo que passaram pelo espaço planejado.
Ruschmann (2001) alerta para as fases do desenvolvimento da atividade
turística em uma localidade, que passa de desconhecida total, até ser
descoberta pelos visitantes, passar para a fase da consolidação e
declínio. O declínio para muitas localidades é fatal em termos de
turismo, e se dá em função da degradação do patrimônio turístico,
especulação imobiliária, descaracterização do ambiente, e outros. Daí
surge com mais força a necessidade do planejamento sustentável para o
turismo, de modo que o turismo possa ser preservado enquanto atividade e
não conheça o declínio onde são deixadas edificações vazias, ambiente
degrado e todos os impactos negativos que deste advém.
O planejamento sustentável do turismo deve considerar a hierarquia das
atrações, elencado-as em: recursos protegidos (critérios de
conservacionismo); recursos prioritários para o desenvolvimento do
turismo (introdução de legislação específica para seu uso, e como pode
ser o carro chefe da atividade turística na região, devem ser
implantadas facilidades); recurso de grande interesse turístico (áreas
onde o turismo pode desenvolver-se com outras atividades, figurando como
uma atividade econômica extra. Para tal recomenda-se instalação de
algumas facilidades); e recurso de interesse turístico secundário (seu
desenvolvimento como atração turística está subordinado à outra atração,
logo os esforços para tal também estarão subordinados). Para cada uma
dessas hierarquias se desenvolvem ações distintas a fim de potencializar
a ação sustentável e a mensuração do seu uso (Ruschmann 2001).
Em consoante com esta hierarquização dos atrativos, deve-se observar
atentamente para a definição dos objetivos e prazos de execução, pois
eles devem estar com vistas aos critérios de sustentabilidade,
promovendo otimizações para o turistas, comunidade local, Estado,
profissionais e meio ambiente como um todo.
É relevante salientar que o planejamento sustentável do turismo não
pretende afastar o sujeito do meio ambiente, alija-lo da cultura e da
natureza. Ao contrário, quer manter os recursos para que outros também
possam fruí-lo. E esta fruição reservada às futuras gerações depende
sobremaneira de planejamento adequado e preocupado com a
sustentabilidade (ambiental, social, profissional, política e
econômica). |