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RESUMO
O estudo detalhado
entre os dois períodos ditatoriais, 1930 e 1964, no que se refere ao uso
do turismo pelo aparelho de Estado brasileiro; a primeira, a Ditadura
Militar de 1930 com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda –
DIP, no governo de Getúlio Vargas; a segunda, o Golpe Militar de 1964 e
a criação da Empresa Brasileira de Turismo – EMBRATUR, em 1966, bem,
como, a relação entre ambos os períodos históricos apresentam certa
semelhança na forma de como os Estados ditatoriais conduziram o turismo.
Pode parecer, num primeiro momento, algo artificial e sem propósito, mas
o aprofundamento de nossas pesquisas vem sinalizando a existência de uma
similitude entre esses períodos, e alerta, ainda, para a carência
iconográfica da história brasileira que foi deixada e esquecida por
interesses de classe.
Palavras-chave:
Turismo e Ditadura Militar; uso político da Embratur; Vargas e o
turismo; turismo e repressão.
ESCLARECIMENTOS
PRELIMINARES
f) finalmente, hipótese indispensável a
ser fixada, a divulgação e promoção do Brasil no exterior. A tarefa é de
toda a máquina governamental tantos (sic) nas áreas estaduais como
federal. Cumpre ser organizado um verdadeiro pool, capaz de
lançar a imagem do Brasil como País a ser visitado e conhecido. (DA
SILVEIRA, s/d: 33)
[nota de rodapé] 11. Vale o registro de
que o Correio Braziliense surgido no México em 7 de agosto de
1964, já se propunha, no décimo, porém último número, de 27 de outubro
de 1964, a denunciar, no exílio, “o terror e a tortura
institucionalizados no Brasil”, com o golpe. Afirmava: “Não sendo o
único, esse é também um modo de Lutar”. (ROLLEMBERG CRUZ, 2002: 455)
d) “Há uma frente brasileira de
informação que difama nosso país e mantém em nossa terra repórteres que
mentem lá fora, apresentando um quadro brasileiro inteiramente
falsificado, inteiramente pejorativo. Nada de importante acontece no
país sem a ação dos comunistas. Há uma poeira vermelha nos olhos do povo
e de grande parte das autoridades brasileiras”. (GENERAL
MILTON TAVARES DE SOUZA, 1980: 23)
Dentro da historiografia sobre o turismo brasileiro, existem
relações que ainda necessitam ser objeto de investigação pelos
estudiosos deste fenômeno, há necessidade de cruzar inúmeras variáveis
com diferentes premissas para descobrir e delimitar novos campos de
pesquisa, e de imediato pode-se destacar o estudo de duas relações: a
primeira, a Ditadura Militar de 1930 e a criação do Departamento de
Imprensa e Propaganda – DIP, no governo de Getúlio Vargas; a segunda, o
Golpe Militar de 1964 e a criação da Empresa Brasileira de Turismo –
EMBRATUR, em 1966, bem como a relação entre ambos os períodos históricos
apresentam certa semelhança na forma de como os Estados ditatoriais
conduziram o turismo.
Pode parecer, num primeiro momento, algo artificial e sem
propósito, mas o aprofundamento de nossas pesquisas vem sinalizando a
existência de uma similitude entre esses períodos, e alerta, ainda, para
a carência iconográfica da história brasileira que foi deixada e
esquecida por interesses de classe. A existência desse material
referente à época é rara, pois há entidades e pessoas interessadas em
dificultar seu acesso.
Partimos do pressuposto de que o turismo é um fenômeno
social, cuja existência surge no interior das necessidades básicas do
ser humano
e, portanto, passível de estar presente em qualquer sistema econômico e
político no percurso do desenvolvimento da humanidade, aparecendo,
muitas vezes, com outra designação gramatical e conceitual.
Com isso, estamos atribuindo a esse fenômeno um movimento
que vem apensado ao desenvolvimento das relações de produção, natural na
agregação de valor e acelerado pela difusão universal do modo de
produção, em que um dos seus lemes é a produção para o consumo e
serviços, próprio do capital, como bem discute István Mészáros,
quando afirma:
Naturalmente, esta visão da história do
mundo, concebida como a difusão universal do modo de produção mais
avançada no quadro de um mercado mundial plenamente desenvolvido – ou
seja, como um processo de real “vir-a-ser”, caracterizado por atividades
claramente identificáveis de produção e consumo, dentro de seus
parâmetros estruturais e institucionais muito bem definidos - trouxe com
ela a visão correspondente da saída dos antagonismos destrutivos da
ordem social prevalecente, pois, de um lado, ela visava como
pré-requisitos de sua realização, o nível mais elevado possível de
produtividade - o que, por sua vez, implicava a necessária
transcendência de determinadas barreiras e contradições locais e
nacionais, bem como uma total integração benéfica e racionalização
cooperativa da produção material e intelectual numa escala global. (MÉSZÁROS,
2002: 86)
Esse processo de racionalização do capital, para a
extração da mais-valia na busca de maior produtividade, atinge a
atividade turística, considerada capaz e propensa a ampliar a reprodução
do capital de forma rápida, pois seu “produto” exige um leque de
serviços que requer, na maioria dos casos, uma ampla e diversa
empregabilidade. Por isso, a atividade turística surge como salvação
para os governos capitalistas e pós-capitalistas, como
elemento capaz de tirar as economias da crise econômica que ronda esses
sistemas.
O turismo possui, então, uma abrangência em quase todas as
atividades societárias, e sua mundialização atinge desde o povoado
ribeirinho até os grandes centros urbanos: culturas mesclam-se, culturas
destroem-se num processo dialético em que o novo pode ser o
descobrimento do valor histórico do velho ou ao inverso, o novo ser a
destruição do velho.
O fenômeno do turismo é resultado do incremento logístico da
natureza e da recuperação e resgate da história de um povo, combinado
com a necessidade do capital em poder explorar uma mão-de-obra
barata, com baixo nível educacional e cultural. Essa é a lógica de sua
dialética histórica para manter a super-reprodução e ganhar espaços nas
pranchetas dos magos do desenvolvimento econômico.
Aliado à necessidade de reprodução do capital, a tendência
dos Estados nacionais é se preocupar com o turismo receptivo, pois as
grandes corporações multinacionais se interessam por investimentos para
o turista estrangeiro.
Na verdade, as grandes corporações no campo do turismo
desenvolveram seus megaempreendimentos para atingir o turismo de luxo,
entendendo que esse turista é o estrangeiro que está de visita ao país.
O objetivo das grandes redes hoteleiras estrangeiras, quando se instalam
nos países hospedeiros, é compor sua clientela com estrangeiros como a
classe de alto poder aquisitivo.
O turismo é uma das poucas atividades econômicas em que o
capital está preocupado em manter uma mística de glamour para preservar
e estimular a idéia de fetiche e que o turismo é atividade
reservada às classes ricas. Em contrapartida, para manter os altíssimos
níveis de reprodução e exploração do capital, necessita pagar
baixos salários em toda a cadeia produtiva do turismo, por isso, afirmo
que o turismo possui, em relação às outras atividades econômicas, um
excelente mercado de trabalho, porém com medíocres e miseráveis
salários.
Uma descrição detalhada do processo econômico, que ocorre no
fenômeno turístico segundo a lógica do neoliberalismo, está descrito no
livro do economista François Chesnais que, de forma didática, escreve:
No caso do turismo, as vantagens de
localização são representadas pela dotação em riquezas naturais (sol,
mar, montanha etc.), bem como pelo valor de patrimônio cultural e
histórico de um país (arquitetura, museus etc.). São esses fatores, e
também as multinacionais especializadas, que determinam a capacidade de
o país atrair turistas.
Boa parte das atividades ligadas à
indústria do turismo (hotéis e restaurantes, clubes de férias) é
intensiva em mão-de-obra; é por isso que a multinacional do setor obtém
consideráveis vantagens por sua localização em países que combinem
atrações naturais com a mão-de-obra barata. (CHESNAIS, 1996:
202-3)
Para que o capital continuasse sua trajetória de ampliação
da mais-valia e acelerasse o processo de acumulação do mesmo, apela para
o apoio das classes dominantes e, com a ajuda dos militares, formatam as
ditaduras no Brasil e países da América Latina.
O impacto do Estado ditatorial na sociedade em geral foi
brutal, perseguições à população estudantil, a trabalhadores de todas as
áreas, a intelectuais, a professores, a funcionários públicos, a membros
da igreja, a artistas e à própria Forças Armadas os quais sofreram atos
de barbárie física e simbólica. Torturas, seqüestros, aposentadorias
compulsórias, cassações, prisões e assassinatos tornaram-se rotina nos
quartéis:
Tomando posse, o ditador marechal
Castelo Branco estabeleceu um regime de completa arbitrariedade. Só nos
dois primeiros meses, usando o poder que lhe conferia o Art. 10 do
malfadado Ato Institucional n. 1, cassou os direitos políticos de 37
pessoas, entre as quais três ex-presidentes, seis governadores estaduais
e 55 membros do Congresso Nacional. Dez mil funcionários públicos foram
demitidos e cerca de cinco mil inquéritos sumários envolvendo 40 mil
pessoas foram abertos. (Ação Popular Marxista–Leninista do Brasil, 1972:
28)
Preocupados com a imagem do Brasil no exterior, comprometida
com as denúncias sobre a tortura, repressão, seqüestro e assassinatos
junto à população civil, o governo brasileiro necessitava urgentemente
criar outra imagem, cujo apelativo recaiu sobre a mulher brasileira;
aproveitando da natureza, do sol, do mar e do fetiche de mulheres
sedutoras, dançando no carnaval do Rio de Janeiro.
Com apoio da EMBRATUR, fez-se a divulgação da imagem do
Brasil para o exterior, criando um material iconográfico de alto padrão
gráfico, acompanhado de uma folheteria especifica para a exportação
do imaginário brasileiro, lastreada no conjunto de um discurso ufanista
que levou o Estado fascista a naturalizar o absurdo.
O Estado fascista contra-ataca, estimulando, em seus
quadros, o processo de deduragem com alcagüetes treinados pelos órgãos
de repressão brasileiros e estrangeiros, que passam a fazer a limpeza
ideológica contra o perigo do comunismo, em todos os setores da vida
nacional.
Não é por acaso que o Ministério das Relações Exteriores no
comando Embaixador Vasco Leitão da Cunha, homem de confiança dos
militares, desenvolveu um processo de caça aos diplomatas considerados
de esquerda e criando, em 1966, o Centro de informações no exterior –
CIEX, que tinha a incumbência de vigiar a atuação dos exilados
políticos brasileiros.
Nesse processo de “combate ideológico” a EMBRATUR, de 1966
até 1996, tornou-se instrumento da qual a ditadura se serviu para tentar
ir de encontro à imagem que a imprensa progressista estrangeira
divulgava, denunciando a tortura, a prisão e o assassinato de
brasileiros pelos militares golpistas:
A imprensa no exílio foi editada em
diferentes países: Argélia, Chile, França, Suécia, Itália, Suíça,
Dinamarca, Noruega, Holanda, Alemanha ocidental, Alemanha oriental,
Portugal, Inglaterra, México, Costa Rica, Argentina. Mas foi, sem
dúvida, em Santiago e Paris que a imprensa concentrou-se. Nas duas
capitais do exílio brasileiro, aparecem não só o maior número de
periódicos, mas também os mais expressivos e os de maior duração.
A maior parte da imprensa, porém,
combinou documentos de organizações, artigos temáticos, informações e
estudos sobre a situação social e econômica brasileira, denúncias da
ditadura, de tortura e de prisão política, notícias do Brasil. (ROLLEMBERG
CRUZ, 2002: 455-3-4)
Essas informações levam-nos a entender melhor o porquê de a
EMBRATUR ter sido utilizada para marcar, no exterior, a imagem de país
tropical, com democracia racial, país do futuro. Nesse caso, não
poderíamos deixar de comentar que, até alguns anos atrás, as informações
contidas no site da EMBRATUR eram, ainda, retratos desse ufanismo
golpista dos militares, como podemos perceber:
Mais adiante, comete e intensifica a visão ufanista e desta
vez com um agravante, minimiza o Golpe Militar de 1964 e dá uma
valorização indevida aos militares, afirmando que:
O Congresso Nacional, diga-se o que
disser dele, funciona com a regularidade de um relógio há 175 anos.
[...] A força do Congresso é tamanha que nem mesmo a ditadura militar
dos anos 60 pôde prescindir dele. Até os ditadores sabem que o Brasil é
ingovernável sem representantes eleitos. ( Idem, 2007: 4)
Esses fatos reafirmam nossas suspeitas de que a EMBRATUR foi
usada pelos militares com a anuência de seus presidentes, visto que no
site dirigido para divulgar o Brasil, somos atropelados com um discurso
em que os atores principais do golpe de Estado são convertidos, pela
história oficialesca, em fascistas tolerantes: “Até os ditadores sabem
que o Brasil é ingovernável sem representantes eleitos”.
NASCIMENTO DA EMBRATUR
O primeiro governo da Revolução de 31 de
março, preocupado com a estagnação reinante, enfrentou realisticamente,
como em tudo o mais, o problema do turismo e sobre ele legislou,
dando-lhe o enfoque indispensável de organização e abordando-o dentro de
sua moderna concepção de fenômeno essencial ao progresso do país.
(MAGALHÃES PADILHA, 1972: 5)
Discorrer sobre o nascimento da EMBRATUR não é tarefa nada fácil, pois o
material iconográfico deste período está sendo recuperado
parcimoniosamente, graças ao esforço de pesquisadores
que lutam individualmente para resgatar a história do turismo
brasileiro. Diante desse fato, escolhemos como base central, o caminho
da reconstituição histórica dos principais fatos que direta ou
indiretamente estão envolvidos para despertar o poder público para essa
temática, sem, contudo, esquecer os dados novos que serão incorporados.
ANTECEDENTES
Iniciamos com o Golpe Militar de 1930, movimento que foi deflagrado pela
emergência da classe média já expressiva, do tenentismo como símbolo de
oposição ao rigor da hierarquia militar, de uma nascente burguesia e de
um movimento operário politizado pelos imigrantes europeus, todos
insatisfeitos com a forma de ser da chamada República Velha. Na verdade,
a “revolução” de trinta foi um basta à hegemonia política econômica de
São Paulo e Minas Gerais, gerada pelo café para com os demais produtos
em beneficio da indústria nascente e progressista.
O Brasil ganha certa dimensão de nação em que a indústria aparece no
cenário econômico e o Rio de Janeiro, cidade que sempre foi preparada
para preservar sua beleza natural e abrigar sua identidade cosmopolita
para o estrangeiro, foi a primeira unidade do território nacional a
preocupar-se com o turismo, a qual sempre esteve nos comentários dos
estrangeiros, como escreve o cientista alemão Hermann Burmeister, em
1853, em livro publicado sobre o Brasil:
Nunca empreendi excursões maiores nos
arredores do Rio, pois exigem alguns dias e só podem ser feitas a
cavalo, circunstância que, devido ao meu estado de saúde, se tornavam
impossíveis para mim. Há, porém, muitos outros pontos interessantes, a
maior ou menor tempo da cidade, os quais se recomendam especialmente aos
turistas que, demorando-se pouco no Rio, desejam conhecer de perto a
paisagem (sic) e a vida campestre do povo. (BURMEISTER, 1980: 81)
O Rio de Janeiro sempre despertou ao estrangeiro o gosto pelo belo, pela
natureza, pelo místico, pelo mágico, pelo lúdico, pela praia e pelo sol.
As descrições vão da declaração de amor a essa terra e seus habitantes,
até o deboche crítico para se questionar a política do imperador:
Sabemos que nenhum país da terra foi
mais ricamente abençoado pela natureza do que este Brasil, que se acha
em cultura e desenvolvimento intelectual tão atrasado em relação aos
países europeus; é deveras um paraíso, que a superstição vigia qual
querubim com sua espada chamejante, de onde a árvore da ciência da
história natural e universal, com seus dourados frutos de hespéridas, é
enredada e quase sufocada pelas parasitas do fanatismo, do escravagismo
e da ignorância. (SEIDLER, 1980:
61)
Esse clima de amor à natureza e de apego a uma religiosidade amparada a
saudades dos estrangeiros explica, para nós, como essa religião se
amparou na nostalgia existencial dos indivíduos, representando o apego
efetivo e direto da Igreja Católica aos negócios de Estado. Obviamente,
o governo de Getúlio necessitava do apoio da Igreja para manter o
processo político “revolucionário” e se firmar perante a massa de
trabalhadores que seria a base da existência de seu governo, portanto,
impõe uma organização da classe trabalhadora dentro dos limites da vida
sindical, segundo interesses do Estado.
Em 12 de outubro de 1931, Getúlio Vargas, que necessitava do apoio da
Igreja, oferece dois grandes momentos a essa instituição; a inauguração
da estátua do Cristo Redentor, no Corcovado, e a permissão do ensino de
religião nas escolas públicas. Escreve em um de seus diários:
Realizam-se, na capital, grandes festas
comemorativas da inauguração do Cristo no Corcovado.
Compareço a esta e recebo a bênção apostólica do papa (sic).
Recebo os peregrinos que vieram assistir
à inauguração do Cristo no Corcovado. (VARGAS, 1995:
75)
Com Decreto n. 19.941, de 30 de abril de 1931, Getúlio dispõem sobre a
instrução religiosa nos cursos primário, secundário e normal e atende a
uma antiga reivindicação da Igreja Católica, que retribui, dando apoio
aberto e direto ao governo:
A Igreja levou a massa da população
católica a apoiar o novo governo. Este, em troca, tomou medidas
importantes em seu favor, destacando-se um decreto, (sic) de abril de
1931, que permitiu o ensino da religião nas escolas públicas. (FAUSTO,
2003: 333)
Esse nosso esforço em tentar demonstrar a influência da
Igreja no governo ocorre em razão de, que tal aspecto vai diretamente
solidificar a cidade do Rio de Janeiro no desenvolvimento do turismo,
visto que o Brasil cria a primeira marca turístico-religiosa, do maior
portão de entrada de estrangeiros em território brasileiro. Nesse
sentido, o Cristo Redentor do Corcovado transforma-se no cartão postal
do turismo brasileiro e o Rio de Janeiro, em ícone da hospitalidade
brasileira.
Não é por acaso que Getúlio, ao firmar a imagem de protetor
dos trabalhadores, recorreu ao fato de ter que construir um aparato que
lhe permitisse controlar a opinião pública, e, assim, aplicou a censura
aos meios de comunicação. Em 1931 surgiu o Departamento Oficial de
Publicidade, primeiro passo para o Estado organizar e direcionar a
opinião pública em torno do personagem de Getúlio Vargas,
posteriormente, em 1934, com a Constituição, a máquina burocrática
reorganiza-se, criando o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC).
A questão social, baseada no
assistencialismo fincado na imagem do presidente, passou a ser o grande
destaque no país: direitos democráticos foram conquistados, a
participação popular no processo político aumentou e foi estimulada pelo
próprio Estado em troca do apoio ao presidente.
A centralização econômica e política
fortaleceu-se quando, em 1939, o governo criou um dos órgãos mais
importantes para dar suporte ideológico ao seu discurso populista, a
criação do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, que em um de
seus decretos menciona a atividade turística como de sua
responsabilidade:
“Cria o Departamento de Imprensa e Propaganda
e dá outras providências (27-12-1939)
Art. 1.0
Fica criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (D. I. P.),
diretamente subordinado ao Presidente da República.
Art. 2.0
O D.I.P. tem por fim:
a)
centralizar, coordenar, orientar e superintender a propaganda nacional,
interna ou externa, e servir, permanentemente, como elemento auxiliar de
informação dos ministérios e entidades públicas e privadas, na parte que
interessa à propaganda nacional;
b)
superintender, organizar e fiscalizar os serviços de turismo interno
e externo;
c)
fazer a censura do Teatro, do Cinema, de funções recreativas e
esportivas de qualquer natureza, da rádio-difusão, da literatura social
e política, e da imprensa, quando a esta forem cominadas as penalidades
previstas por lei;
d)
estimular a produção de filmes nacionais;
e)
classificar os filmes educativos e os nacionais para concessão de
prêmios e favores;
f)
sugerir ao Governo a isenção ou redução de impostos e taxas federais
para os filmes educativos e de propaganda, bem como a concessão de
idênticos favores para transporte dos mesmos filmes;
g)
conceder, para os referidos filmes, outras vantagens que estiverem em
sua alçada;
h)
coordenar e incentivar as relações da imprensa com os Poderes Públicos
no sentido de maior aproximação da mesma com fatos que se ligam aos
interesses nacionais;
i)
colaborar com a imprensa estrangeira no sentido de evitar que se
divulguem informações nocivas ao crédito e à cultura do país;
j)
promover intercâmbio com escritores, jornalistas e artistas nacionais e
estrangeiros;
l)
estimular as atividades espirituais, colaborando com artistas e
intelectuais brasileiros, no sentido de incentivar uma arte e uma
literatura genuinamente brasileiras, podendo, para isso, estabelecer e
conceder prêmios;
m)
incentivar a tradução de livros de autores brasileiros;
n)
proibir a entrada no Brasil de publicações estrangeiras nocivas aos
interesses brasileiros, e interditar, dentro do território nacional, a
edição de quaisquer publicações que ofendam ou prejudiquem o crédito do
país e suas instituições ou a moral;
o) promover, organizar, patrocinar ou
auxiliar manifestações cívicas e festas populares com intuito
patriótico, educativo ou de propaganda turística, concertos,
conferências, exposições demonstrativas das atividades do Governo, bem
como mostras de arte de individualidades nacionais e estrangeiras;
p)
organizar e dirigir o programa de rádio-difusão oficial do Governo;
q)
autorizar mensalmente a devolução dos depósitos efetuados pelas empresas
jornalísticas para a importação de papel para imprensa, uma vez
demonstrada, a seu juizo, a eficiência e a utilidade pública dos jornais
ou periódicos por elas administrados ou dirigidos.
Art. 3.0
O D.I.P. será constituído de;
a)
Divisão de Divulgação;
b)
Divisão de Rádio-difusão;
c)
Divisão de Cinema e Teatro;
d) Divisão de Turismo;
e)
Divisão de Imprensa;
f)
Serviços Auxiliares, que são os de Comunicações, Contabilidade e
Tesouraria, Material, Filmoteca, Discoteca, Biblioteca.”
(Lex, Legislação Federal, 1939, pp. 666-667).
Citado por Carone, Edgar A Terceira República (1937 –1945),pg.47
a 49(grifo nosso).
O leitor pode indagar que importância há nesse fato tão
divulgado pela historiografia brasileira, a novidade está em que o
Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), fortificado, em
1937, pelo Estado Novo, convidou o cartofilista Manuel Móra para
incorporar as fileiras dessa entidade. Português, naturalizado
brasileiro, trabalhava no Departamento de Turismo da Municipalidade do
Rio de Janeiro, onde havia realizado alguns desenhos primorosos
semelhantes a cartões-postais.
Manuel Mora, por sua genialidade, foi incorporado pelo DIP -
Departamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939, e atuou na
vanguarda dos desenhos usados para ilustrar o material de propaganda de
Getúlio Vargas.
Mas, para a nossa pesquisa, o que nos interessa de fato são
os cartões que retratam a preocupação em a cidade do Rio de Janeiro se
consolidar como pólo turístico para o mundo.
A propaganda sobre o Rio de Janeiro, nesses cartões,
transmite a idéia de brasilidade, nacionalismo, integração e uma
mensagem positiva sobre o Rio que, na verdade, queria sinalizar a
centralização política do governo Getulista. As ilustrações são
evidentes no campo da política de boa vizinhança, mescladas ao apelo a
um turismo com um discreto charme sedutor, estilo belle époque,
destacando o tipo das mulheres dos países aos quais estava dirigido.
O Rio reconhece que pode firmar-se como pólo turístico
internacional, e o Estado por meio do DIP prepara toda uma legislação
para coordenar as atividades que direta e indiretamente envolvem
atividades de turismo. Na verdade, a preocupação com a imagem do Brasil,
no exterior, faz com que o governo de Vargas deixe essa função com:
A máquina de propaganda e doutrinação
montada pelo regime no período pós-30 extrapolou todas as formas de
propaganda estatal até então conhecidas ou sonhadas no país. Não foi
apenas a criação do DIP ou a utilização do rádio e do cinema como meios
de uniformização da massa e de sua visão de mundo que faziam o cotidiano
de cada pessoa mediada pela doutrinação ideológica. (CANCELLI, 1993:
35-6)
Nos dois perídios históricos, a Ditadura Militar de 1930 e
1964, o Estado tinha como inimigo comum, os comunistas. Getúlio Vargas
utilizou da Intentona Comunista de 1935, com muito jogo político e
habilidade, com o pretexto para programar seus planos golpistas e criou
a psicose sobre o anticomunismo, mesmo sabendo que o Partido Comunista
foi posto na ilegalidade e todos os seus militantes estavam no interior
das prisões.
O combate ao comunismo pelas forças políticas e econômicas
do capital acelerou-se desde a vitória dos bolcheviques, em 1917, na
Rússia, nesse momento, o mundo presencia o aparecimento de outro sistema
econômico chamado socialismo,
na qual as forças reacionárias mundiais se unem, numa “santa aliança”
contra a construção do socialismo.
Segundo o historiador Thomas Skidmore:
A “ameaça bolchevista” era, no entanto,
uma preocupação importante da liderança “burguesa”. A junta militar, por
exemplo, emitiu um manifesto a 27 de outubro, pedindo calma, avisando a
população para tomar cuidado porque os “elementos perniciosos à ordem
social procuram infiltrar no meio operário idéias nocivas à paz
pública”. Essa preocupação de interceptar qualquer “agitação” proletária
– uma fôrça (sic) de potencial desprezível no Brasil da década de 30 –
tornou-se mais marcante nas cogitações de quase todos os setores da
elite política tradicional depois da instalação do Governo Vargas. (SKIDMORE,
1982: 29)
Acrescenta-se que o Estado Novo e seu braço armado, as
Forças Armadas, constroem a ideologia antiliberal, de base nacionalista
e centralizadora, que deve ser hegemônica e imposta à sociedade nacional
como proposta para que o capital governasse seus interesses. A tônica
que sinalizará esse governo será a perseguição aos comunistas,
considerados inimigos da pátria e da essência da humanidade, como
explicita Cancelli, quando afirma:
Dentre todos os inimigos construídos
pelo Estado, os comunistas foram os que mais impulsionaram a ação da
polícia, mais justificaram sua existência e mais fortemente serviram à
associação mítica de sua ideologia como obra do demônio. (CANCELLI,
1993: 79 e 80)
A polícia do Distrito Federal, em 1931, no comando do
médico Batista Luzardo, importou técnicos da polícia de New York,
para combater o comunismo, mas temos que lembrar que a intimidade entre
os órgãos de informação e a segurança é uma prática antiga entre os
países sul-americanos para monitoramento dos anarquistas estrangeiros e
dos comunistas.
No campo do turismo, a década de 1930 se preocupará com essa
temática, enquanto empreendimento puramente econômico, como consta no
depoimento de Alzira Vargas:
Pediram-me que sugerisse ao Patrão, com a máxima urgência, a criação de
um organismo que se dedicasse à propaganda de nossas belezas naturais, e
fomentasse a vinda de turistas estrangeiros a nosso País. Diziam-me, com
números e cifras, quantos milhares de pessoas haviam visitado a França,
a Itália, a Suíça, o Canadá, etc., e o quanto isso havia representado
para a economia interna desses países. (PEIXOTO, 1960:
360-1)
Na verdade, o turismo surge aos governantes como solução
para tirar a economia da crise em que se encontra, por isso pensa-se
somente no turismo receptivo, como forma de ingresso de recursos
econômicos, consignado em moeda forte, o dólar. O turismo interno
é algo esquecido e até menosprezado pelo Estado que taxia esse assunto,
quando cria o SESC, SENAC, em 1946.
O golpe militar de 1964 foi efetivado, segundo os seus
precursores, para impedir o avanço dos comunistas e acabar com a
corrupção no Brasil, pelo menos essa era a fala dos generais e velhos
políticos. O grande inimigo do povo brasileiro eram as ideologias
estranhas aos princípios cristãos que o capelão
americano, padre Patrick Peyton, encarregava-se, junto ao governador
Adhemar de Barros, de organizar as
marchas da família com Deus pela Liberdade.
Os pronunciamentos de Adhemar, após o golpe
de 1964, são claros e apaixonantes na saga contra os comunistas:
A grande conquista, obtida
nessa primeira fase da luta, é a da libertação nacional do jugo
bolchevista. Estatísticas que fizemos nos últimos tempos revelam que o
Partido Comunista cresceu exageradamente. Através dos esforços de 2.400
a 2..500 agentes vindos da China continetal, da Rússia, de Cuba e de
tôda a América Latina, a massa comunizada ampliou-se enormente. Mas a
bandeira brasileira continuará a ser auriverde e a cruz não será
substituída pela foice e o martelo. (BARROS, 1964: 66)
Com a censura dos meios de comunicação e a
campanha aberta e direta contra o comunismo, o Estado militar de 1964
fez planos econômicos que favoreceriam as multinacionais, elegeu
prioridades no campo da educação por meio de acordos com as agências de
ensino norte-americanas. E entendeu o turismo como prioridade nacional,
colocando que “Coube a Joaquim Xavier da Silveira o privilégio de
colaborar com a Revolução na tarefa de promover a integração nacional
que é uma das resultantes de um programa de desenvolvimento do turismo
[...].
(DA
SILVEIRA, s/d: 10)
Os militares criaram a EMBRATUR e usaram-na para encobrir a
repressão, a tortura, o seqüestro das Forças Armadas junto à população
civil. Desenvolveram um ufanismo cívico moralista e fizeram desta a
ideologia carro-chefe para salvar o Brasil do comunismo e para adotarmos
a vida pró-americana e “democrática” cristã.
Tanto na década de 30 como em 1964, o Estado usou do turismo
para encobrir atos de repressão à sociedade, tanto Getúlio e os governos
militares posteriores utilizaram do turismo como escudo para que seus
interesses de imagem fossem maquiados pelo “paraíso tropical”. Se 1930
foi para firmar a imagem de Getúlio como pai dos pobres e dos
trabalhadores, em 1964 os militares usaram do turismo para divulgar o
exotismo do carnaval e da terra dos prazeres erótico e exótico.
Com isso, podemos entender duas questões separadamente, a
primeira por que na maioria das feiras internacionais de que o Brasil
participou, o empresariado brasileiro teve um avanço extraordinário em
suas vendas e aceitação dos seus produtos no exterior? Pela capacidade
de setores que souberam modernizar seus produtos para enfrentar o
mercado internacional. A segunda que deve ser percebida separadamente da
primeira, a publicidade sobre o Brasil, feita pela EMBRATUR, de 1966 a
1996; nessas feiras, foi uma verdadeira tragédia; o estímulo acentuado a
mulheres nuas, com o tratamento de país erótico em que a pobreza obriga
mulheres a se prostituir como opção de empregabilidade.
Tudo isso se configura como tragédia que, hoje, apesar da
campanha contra o turismo sexual, pode ser percebida no interior dos
aeroportos brasileiros, quando da chegada de vôos charters,
procedentes do exterior para o nordeste brasileiro. É só permanecermos
alguns minutos no saguão dos aeroportos e, pronto, pessoas
inescrupulosas, verdadeiros bandidos, fazendo o papel de contato com os
estrangeiros para agenciar garotas.
Na história do turismo brasileiro, encontramos inúmeros
momentos caricatos, cheio de humor, embalado pela idéia do sofisticado
chiquê. Essa é a noção que alimenta o imaginário dos políticos curiosos,
que sempre estiveram à frente dos órgãos públicos de turismo, uns mais
dedicados a viajar, outros que faziam questão de elitizar a atividade
para sair na coluna social, outros, ainda, servindo-se do cargo para
galgar posições políticas maiores na área pública ou privada.
O turismo marca a idéia do lúdico, da viagem, do
deslocamento, do divertimento e do descanso; tudo isso alimentado pela
ideologia neopositivista de que essa é uma atividade reservada às
classes abastadas e, portanto, a ênfase é para o turismo receptivo e não
para o turismo interno.
A presidência da EMBRATUR continua sendo, palco de disputa
de políticos que indicavam protegidos do partido, dos militares e dos
meios de comunicação. Essa é uma prática corriqueira e comum no interior
do Estado brasileiro que secundariza a competência profissional a favor
do apadrinhamento político.
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desembainhei a espada missionária. In: Revista Manchete Rio de
Janeiro, 18 de abril de 1964, ano II, n. 626.
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Ed. Da Universidade de São Paulo, 1980.
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Janeiro: Record, s/d.
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MARCONI, Paolo. A censura política na imprensa brasileira (1968 –
1978). São Paulo: Global, 1980.
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Rio de Janeiro: Bloch Editores, N. 11, 1972.
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SANTOS FILHO, João dos. O espelho da história: o fenômeno
turístico no desenvolvimento da história. In
Pasos Revista de Turismo y Patrimônio Cultural.. Volumen 5,
número1 de Enero de 2007.
................................................... EMBRATUR, da euforia
ao esquecimento: o retorno às raízes quando serviu à Ditadura Militar.
Não estamos em uma ditadura militar, mas servimos a quem?
Revista Espaço Acadêmico,
Maringá (PR), nº. 35 abril de 2004.
Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/035/35jsf.htm Acesso em
1 de maio 2008.
............................................... O turismo brasileiro:
equívocos, retrocessos e perspectivas – o balanço que nunca foi feito.
Revista Espaço Acadêmico,
Maringá (PR), nº. 25 junho de 2003.
Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/025/25jsf.htm. Acesso
em 1 de maio 2008.
Acessar o
site
www.espacoacademico.com.br, clicando “turismo em debate” e
consultando os textos de minha autoria: EMBRATUR, da euforia
ao esquecimento: o retorno às raízes quando serviu à Ditadura
Militar. Não estamos em uma ditadura militar, mas servimos a
quem? Como também: O turismo brasileiro: equívocos,
retrocessos e perspectivas – o balanço que nunca foi feito.
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