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Nesses anos, em que estamos estudando, investigando e
escrevendo sobre os problemas do turismo brasileiro, deparamo-nos de
forma persistente com antigos e velhos obstáculos; tropeçamos,
caímos, levantamos e tentamos nos aprumar diante da mesmice
improvisada e o desvio de rumo no
trato do turismo pelo poder público. Depois de recompormos e
equilibrar-nos lutamos para que o discurso irracionalista no turismo
não ganhe espaço, pois desde a criação da Embratur em 1966 o
ufanismo, a sandice e a galhofa, fazem parte das
matrizes que formatam as políticas públicas em turismo no Brasil.
A memória histórica deste país sofreu um processo
constante de amnésia, encolhimento e ocultação rejeitando sua
própria história e impondo uma outra, de perfil militar cultivando e
inculcando junto às gerações; a ideologia do golpe militar
(anticomunista) que idealizava um Brasil potencia e cantava a
musica Ninguém segura esse país para a construção do Estado
fascista. Deixaram profundas seqüelas no conjunto da sociabilidade
nacional, ainda hoje sentida, quando nos deparamos com a exposição
chamada; 40 anos Embratur:
Um passeio pela história do turismo no Brasil.
Marx diria que a história é
produto dos homens no processo de luta de classes e que a mesma só é
verdadeira quando os seus atores assumem os rumos da sociedade na
luta pela libertação do ser humano de qualquer forma de subjugação,
portanto é ai que pode alcançar o reino da felicidade. Porém, como
afirma de forma inteligente no seu livro A Ideologia Alemã:
Até aqui, todas as concepções históricas
recusaram esta base real da história ou, pelo menos, consideraram-na
como algo de acessório, sem qualquer ligação com a marcha da
história. É por isto que a história foi sempre descrita de acordo
com uma norma que se situa fora dela.
Na verdade tudo
aquilo que repudiamos esta explicito nesta exposição, pois faz uma
seleção tendenciosa dos fatos, ocultando outros e construindo uma
história oficial que interessa a classe dominante, isto é, “uma
norma que se situa fora dela”. A exposição em questão retrata a
política para o setor do turismo que o governo brasileiro adotou
desde 1966 e que permanece a mesma até hoje: A ênfase ao turismo
receptivo e omissão quase total ao turismo interno.
Podemos deduzir que o entendimento que o Estado
tem sobre o fenômeno do turismo, se configura em uma atividade que
se completa e se realiza junto aos extratos sociais superiores. Esse
preconceito faz com que o turismo seja pensado como algo seletivo,
naturalizando o turismo apartheid hoje presente na maioria dos
países latino-americano:
Cria-se uma discriminação étnica que poderíamos chamar de um
verdadeiro apartheid do turismo, estimulado pelos
grandes empreendimentos nacionais e estrangeiros que isolam a
população nativa do convívio para com o turista.
Essa atitude de indiferença para com o turismo
interno e o apoio maciço aos grandes e luxuosos empreendimentos via
o turismo receptivo é a leitura cinematográfica que podemos fazer da
exposição, pois desde a criação da Embratur até hoje, mais do que
nunca, as políticas de turismo se mostram preocupadas com o turista
estrangeiro.
Não poderíamos deixar de destacar o belíssimo marketing
que a Embratur emprega no cotidiano de seus atos, alguns primorosos
esteticamente, como aqueles expostos na exposição, outros
decadentes, mentirosos, apelativos e subliminares como é o caso da
propaganda feita em torno do programa lançado pela Embratur chamado
Vai Brasil, divulgado com sendo o programa para as classes
populares, com a participação da personagem Marinete (a diarista).
Quando visitamos a exposição de 40 anos da Embratur, não
pudemos deixar de relembrar o filme A História Oficial
produzido em 1984 uma obra prima do cinema argentino com a divina
Norma Aleandro sobre a busca da latinidade e a luta contra a
história montada pelos militares.
Por que negar os fatos que ocorreram no período de 1966
até 1996 com a imagem do Brasil no exterior, pois não são
mencionados na exposição da Embratur? Será que foi um equivoco de
quem montou a exposição? Será que as pessoas responsáveis por esse
resgate histórico desconhecem a história desse período, ou ainda,
são produtos das seqüelas ideológicas que mencionamos?
Para que não digam, que o autor desconhece o papel da
Embratur hoje, e que comete um erro de compreensão, inventando ou
recriando uma história fantasiosa sobre a mesma, resolvemos
encontrar depoimentos que reforcem nossas pesquisas e para isso
temos a fala de Otavio Fincato,
responsável pela agência de Turismo Viaggio na Itália, que afirma:
A fortíssima imagem no exterior de que o
Brasil é uma grande festa não é obra do acaso. Em 1966, quando foi
fundado o Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), houve muito
incentivo a campanhas publicitárias que mostravam sempre as belas
praias do Rio de Janeiro e a nudez das mulheres no carnaval. Era a
época da Ditadura Militar e o objetivo das campanhas era vender uma
falsa idéia de liberalismo e democracia, em oposição às denúncias do
povo ao governo ditador. Porém, essa idéia prevalece até hoje. "Os
turistas estrangeiros que compram passagens para o Brasil estão
sempre em busca de belas praias e do clima de descontração que o
país tropical proporciona. Os lugares mais procurados são Maceió,
Fortaleza, Bahia, Rio de Janeiro e as cataratas do Iguaçu"
.
A função de resgatar a história é ter a coragem de
demonstrar cientificamente a verdade, e esta, parece que ficou longe
das intenções da Embratur quando elaborou essa exposição. Além do
que, o material coletado para a mesma foi intencionalmente
escolhido, buscando aquele que não viesse a comprometer nenhum dos
anteriores presidentes da Embratur e colocando no arquivo morto o
restante.
Isso pode ser comprovado quando a pesquisadora
Louise Prado
Alfonso em sua dissertação de mestrado “Embratur: Formadora de
imagens da nação brasileira” relata que ao investigar dados para sua
pesquisa na sede da Embratur conseguiu salvar 200 caixas de
documentos que seriam destruídos por essa instituição como antigos
documentos.
O
leitor poderia ficar estarrecido com o tratamento que a Embratur
dispensa a preservação de sua memória histórica, mas podes crer que
não é diferente de outros setores, mas o que agrava é que devemos
perguntar; A quem interessa esse tipo de exposição?
A recuperação da memória histórica do turismo brasileiro que não é;
ou a construção de uma história que interessa aos seus antigos e
antiquados presidentes ou ao governo federal.
Poderíamos perguntar ainda,
qual a atitude que a academia e pesquisadores do turismo no Brasil
declinam sobre isso, sabendo que há alguns investigadores
trabalhando com farto e raro material iconográfico sobre a Embratur
e os resultados do estudo apontam uma outra história sobre os 40
anos da entidade. Lutemos pela verdade histórica e o desmascaramento
da história oficial.
João dos Santos Filho é bacharel em Turismo pelo Centro
Universitário Ibero-Americano (Unibero) e bacharel em
Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC/SP), Mestre em Educação: História e Filosofia
da Educação pela PUC/SP. Foi coordenador dos cursos de
Turismo da Faculdade Nobel e também do Centro Universitário
Filadélfia de Londrina (Unifil); e professor na Universidade
Norte do Paraná (Unopar). É membro-fundador do Instituto de
Análises sobre o Desenvolvimento Econômico Social (Iades) e
da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo de São
Paulo (ABBTUR/SP). Foi professor-convidado na Facultad de
Filosofia y Letras de la Universidad
Nacional de Heredia (UNA), na cidade de San José da Costa
Rica, para ministrar disciplina no curso de pós-graduação,
no semestre de 1995. Ministrou curso na Universidad de Rio
Cuarto, na cidade de Rio Cuarto – Argentina; na
pós-graduação em Integração Latino-Americana e na
Universidad de San Carlos, na Guatemala. É professor
concursado pela Universidade Estadual de Maringá, no Paraná
- Brasil e professor da Faculdade Maringá e professor
substituto na Universidade Estadual Paulista (Unesp/ UD de
Rosana).
Tem
vários artigos publicados em livros e revistas científicas
nacionais e internacionais é autor do livro A ontologia do
turismo: a explicação de suas causas primeiras, editora da
Universidade de Caxias do Sul e colaborador nos sites:
www.estudosturisticos.com.br e
www.espacoacademico.com.br e do Conselho Editorial da
Revista Eletrônica do Centro de Estudos em Geopolítica e
Relações Internacionais (Cenegri)
www.intellector.com.br. Membro do Conselho Científico
do Boletim de Estudos em Hotelaria e Turismo (Beth),
do curso de Turismo das Faculdades Integradas da Vitória de
Santo Antão (Faintvisa) e Membro do Conselho Editorial da
revista semestral Global Tourism –
www.periodicodeturismo.com.br
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MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, A
Ideologia Alemã I: Crítica da filosofia Alemã mais recente
na pessoa dos seus representantes Feuerbach, B. Bauer e
Stirner, e do socialismo alemão na dos seus Diferentes
profetas. Portugal: Presença, 1976. p. 50.
SANTOS FILHO, João dos. O turismo em
nossa latinidade: uma nova forma de colonização. In:
Turismo: enfoques teóricos e práticos. Miguel Bahl
(organizador). São Paulo: Roca, 2003, p.374.
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