Como cientista social e turismólogo que
milita academicamente com o fenômeno do turismo e hospitalidade a mais
de vinte anos, não poderia esquecer as belíssimas aulas sobre a
“história das ideologias”, do saudoso sociólogo e amigo Fernando Perrone
na admirável ECA - Escola de Comunicações e Artes da USP. No começo da
década de 80 em pleno embate entre as forças democráticas que estavam
consolidando-se, e as forças dos porões da ditadura militar que
persistiam em permanecer dominando.
Na verdade foi um período histórico em que
a ECA sofreu, mas soube resistir e Perrone foi um desses professores,
que por meio de prontidão em favor da democracia sabia dar as aulas
dentro de um cunho crítico e esclarecedor para o entendimento da
realidade social brasileira.
Foi pensando neste fato que fomos
obrigados a refletir sobre a pesquisa “Perfil do Turista Estrangeiro e
Imagem do Brasil” encomendada pela EMBRATUR ao Instituto Zaytec.
Que segundo um dos resultados quantificados é extremamente impactante
para a lógica do turismo nacional, pois com uma amostragem de apenas
2.405 entrevistas realizadas em turistas que vieram ao Brasil, deu que
45% dos entrevistados afirmam que o “melhor do país é o povo
brasileiro”.
Parece que esse dado se constitui em um
fato novo nas pesquisas deste campo,
merecendo cuidados especiais no que se
refere; a delimitação do problema de pesquisa; a construção de
hipóteses; a variáveis delimitadas, conceitos e tipologia. Pois a
interpretação e a tabulação devem estar aliadas aos cuidados de rigor
científico, que não pode ser confundido como meras pesquisas de opinião,
que quase sempre são traduzidas pela rapidez das respostas de densidade
emocional, provocadas pela intervenção de entrevistador mal treinado.
Como não temos acesso a essa pesquisa,
somos obrigados a levantar essas questões e recordarmos do livro “A
Mistificação das Massas pela Propaganda Política” do russo Serge
Tchakhotine, traduzido por Miguel Arraes em 1967. Que discute com
profundidade o poder das palavras trabalhado dentro do processo
ideológico, que pode criar verdades imaginárias que acabam guiando a
racionalidade humana. Além da existência de pesquisas realizadas
na Universidade de Coimbra,
sobre a imigração brasileira em Portugal constatou que os portugueses
vêem a mulher brasileira relacionada ao sexo e a dos homens à falta de
compromisso e à malandragem.
A EMBRATUR deveria fazer também uma
pesquisa junto aos funcionários das operadoras brasileiras de turismo
para verificar como as operadoras de turismo estrangeiras classificam e
vendem os roteiros de praias da maioria do nordeste brasileiro, ou ainda
verificar por que a maioria dos vôos charter se compõe de homens
, que quando desembarcam no Brasil não possuem reserva em hotéis.
Por esses motivos de ordem metodológica e
de mera observação do cotidiano do turismo no Brasil, questionamos os
resultados da pesquisa “Perfil do Turista Estrangeiro e Imagem do
Brasil” e indagamos, não seria mais uma das muitas jogadas de marketing
da EMBRATUR.
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