|
Mitos e ladainhas do fazer turístico: apologia ao fetiche
João dos Santos
Filho
Aqui, os
produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras
autônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim, no
mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso
eu chamo o fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo
são produzidos como mercadoria, e que, por isso, é inseparável da
produção de mercadorias.
Esse caráter
fetichista do mundo das mercadorias provém, como a análise
precedente já demonstrou, do caráter social peculiar do trabalho que
produz mercadorias. (Karl Marx. O Capital – O caráter fetichista
da mercadoria e seu segredo. Os economistas, 1996).
RESUMO:
O presente artigo tem por objetivo criticar as
leituras de base empirista do fenômeno do turismo e os seus
principais limites, destacando os pressupostos que gravitam na
explicação desse entendimento. Apontando a existência de outras
epistemes que apesar de possuírem limites podem muitas
vezes, dependendo do pesquisador e do o objeto a ser estudado ser
usada parcialmente (significa, sem perder a matriz ideológica de uma
ou de outra) para o entendimento do objeto. O processo de
questionamento do discurso neopositivista que invade a leitura do
turismo é capaz de ser percebido quando procedemos a uma leitura
histórico crítico do mesmo.
Palavras – chaves:
Empirismo, turismo e neopositivismo, epistemes,
turismo apartheid, etnocentrismo.
SUMMARY
- The present article has the purpose to criticize the empiricism
ideas based on the phenomenon of the tourism and its principal
limits, detaching the presuppositions that gravitate on the
explanation of that understanding highlight. Pointing the existence
of other epistemes (knowledge) that in spite of they possess
limits, they can many times, depending on the researcher and the
objective, to be studied partially (it means, without losing the
ideological head office of one or another) to a better understanding
of the main object. The process of questioning the
logical-positivism speech that invades the reading of the tourism is
capable of being noticed when we proceed to a historical and
critical study of it.
Key words:
empiricism, tourism and logical positivism, tourism, Apartheid
tourism, epistemes.
Escrever de forma científica
sobre o fenômeno do turismo como qualquer outro assunto requer
paciência, disciplina, conhecimento epistemológico, dedicação à
pesquisa e particularmente nesse campo uma certa audácia
investigativa vanguardista, o mesmo, se constitui em uma “ciência”
recente no campo das humanidades. Permeada de preconceitos no
conjunto da academia, pois raros são os estudos existentes nos
centros de pesquisa que avançam para discussões teóricas, históricas
e ontológicas do fenômeno do turismo, além do que, a matriz
historiográfica desses trabalhos tem por base quase sempre uma
realidade histórica européia, própria de uma visão etnocentrista.
Com isso, não poderíamos
deixar de nos referir ao estudo clássico realizado pelo sociólogo
Octavio Ianni em seu livro “Sociologia da Sociologia
Latino-Americana” no qual com propriedade relata como se dá esse
processo de dominação:
[...] as influências européias e
norte-americanas na sociologia da América Latina sempre se exerceram
em três níveis: teórico, metodológico e quanto à problemática. Em
geral, as relações com os centros de ensino e pesquisa das nações
dominantes provocaram a transferência de teorias interpretativas,
metodologias de pesquisa e temas de investigação empírica. Nos três
níveis, os cientistas sociais latino-americanos tenderam e ainda
tendem a adotar, integral ou parcialmente, as sugestões e os
“modelos” formulados nas obras, nas aulas e nas pesquisas dos
cientistas sociais europeus e norte-americanos. Isto é verdade tanto
para as diversas ciências sociais como para a sociologia, em
particular (IANNI, 1976, p.44 ).
O cotidiano da
América Latina
demonstra que sua
história
esteve sempre centrada no
campo
do movimento das idéias
e das armas, explicitado
pelos
grupos de resistência e de
emancipação
do povo autóctone
contra
os interesses dos colonizadores. Os
grandes
contos da literatura
latina
reforçam a tese de forte
perfil crítico e de
oposição
às classes dirigentes
rurais e urbanas, bem
como, aos movimentos
sociais
que buscam a liberdade
perdida.
Assim, a ação entre os
homens é resultado de uma relação social sinalizada pelas atividades
de trabalho que são produto de relações políticas, econômicas e
sociais na qual estão sustentados por uma relação de poder dada pela
lógica do capital. Resultado da atuação de homens vivos,
assim o trabalho (vivo) humano é a categoria máxima de explicitação
fundante da humanidade e a base explicativa da existência dos homens
que formatam o pensamento racional do ser humano, como bem explicita
George Lukács em seu texto “As bases ontológicas do pensamento e da
atividade do homem” na Revista Temas de Ciências Sociais:
Com justa razão se pode designar o
homem que trabalha, ou seja, o animal tornado homem através do
trabalho, como um ser que dá respostas. Com efeito, é inegável que
toda atividade laborativa surge como solução de resposta ao
carecimento que a provoca. Todavia, o núcleo da questão se perderia
caso se tomasse aqui como pressuposto uma relação imediata. Ao
contrário, o homem torna-se um ser que dá respostas precisamente na
medida em que – paralelamente ao desenvolvimento social e em
proporção crescente – ele generaliza, transformando em perguntas
seus próprios carecimentos e suas possibilidades de satisfazê-los; e
quando, em sua resposta ao carecimento que a provoca, funda e
enriquece a própria atividade com tais mediações, freqüentemente
bastante articuladas (LUKÁCS, 1978, p.5 ).
Nesse sentido, a categoria trabalho é
um ato consciente e teleológico que leva os homens a desenvolverem
situações da vida concreta, alimentando o cotidiano de sua
existência, isso o afasta da vida natural animalesca e o aproxima
cada vez mais da vida social. É aí que o mesmo dá respostas às suas
necessidades por meio de mediações sociais, produto do meio em que
vivem.
A categoria trabalho se configura então, em
uma ação desempenhada por homens em sua existência, movimentando a
dinâmica da história no contexto da luta de classe e por sua
qualidade modificante e modificadora, transforma os
indivíduos e a realidade. Esse processo histórico-dialético
constante de transformação alimenta o conhecer científico, buscando
explicação para os fenômenos sociais em especial o turismo em uma
dimensão crítica que suplante as leituras positivistas existentes.
Portanto, entender a
realidade de forma racional e não fetichista é decodificar respostas
tidas como definitivas e recodificá-las novamente com novos
elementos na perspectiva da superação dos entendimentos e saberes
anteriores. Esse movimento de estar sempre repondo, ampliando e de
descobrir o novo, eleva o conhecimento e a compreensão dos fatos da
realidade na busca do entendimento científico e na lógica do
desenvolvimento da humanidade.
Para entender a
realidade os homens criam conceitos tidos como lógicos que o
auxiliam nessa compreensão, como expressões de uma dada
temporalidade social explicitada por meio de uma relação dentro do
mundo da economia política. Apresentando saberes baseados em
ideologias
diferentes que estão presentes por meio de epistemologias opostas
total ou parcialmente e que em alguns casos podem vir até a se
complementarem.
Com isso, queremos afirmar
que as epistemologias não se misturam, mas podem ser usadas
simultaneamente para o entendimento da realidade, por que as mesmas
possuem em sua essencialidade dimensões de limites teóricos
diferentes entre si, assim, o seu uso concomitante é possível,
desde que, esteja calibrada pelo interesse científico do pesquisador
e de seu objeto de estudo. Assim, o que vai determinar o uso de
epistemologias diferentes é o objeto que está sendo estudado, este
pode requerer o uso combinado de epistemes antagônicas ou
não.
O fenômeno do turismo
como todo e qualquer ato decorrente do trabalho humano pressupõe
entendimentos diferentes e conflitantes, que se sustentam nas formas
de consciência social expressando ideologias de ver e sentir o
mundo. A leitura científica dessa realidade vai ser dada por meio de
epistemologias que segundo a organização da sociedade representam o
interior da luta de classes.
A leitura do turismo, não
podia ser diferente da análise feita pelo neopositivismo, pois
também, galgou espaços de interpretação desse fenômeno por meio de
métodos de pensamento idealista e produziu uma literatura de
vertente metafísica em que a harmonia funcionalista se perde no
ufanismo da categoria turismo. Com um suporte na economia
política clássica seus estudos refletem um uso vulgarizado do
empirismo e uma leitura economicista do real que atende aos
interesses da classe que está no poder.
Essa literatura começa a ser
questionada, rediscutida e inicia um processo de debates no interior
das academias que favorecem o aparecimento de outras interpretações
de base histórica e materialista em que a crítica sobressai como
elemento principal de seu perfil epistemológico.
Na verdade a literatura do
fenômeno turístico existente se enquadra em duas epistemologias a
quais Karl Marx discute profundamente no seu texto “O Método da
Economia Política”, quando visualiza a existência de dois métodos
para explicar a realidade:
O primeiro constitui o caminho que foi
historicamente seguido pela nascente economia. Os economistas do
século XVII, por exemplo, começavam sempre pelo todo vivo: a
população, a nação, [...]
O último método é
manifestadamente o método cientificamente exato. O concreto é
concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade
do diverso. (MARX, 1882, p.14).
Essas referências ao texto
de Marx se devem ao fato de que o
seu escrito se torna esclarecedor para compreendermos os princípios
metodológicos pelos quais o discurso neopositivista do turismo está
circunscrito. A hegemonia plena aos dados empíricos é prioritária na
explicação da realidade, estabelecendo-se a ditadura da quantidade
como valor explicativo do real, é na hospitalidade e no
entretenimento que o capital globalizado encontra guarita
para se instalar e ampliar sua mais-valia. Isso produz uma aceitação
fraudulenta da realidade, pois o fetiche da mercadoria (turismo)
avança para dar respostas às necessidades dos homens, produzindo uma
compreensão fenomenológica e colocando o turismo como capaz de ser
sustentável; mensageiro da paz; instrumento de
desenvolvimento econômico e como fator de integração entre os
homens. Essas intenções de fundo idealistas encobrem o
verdadeiro discurso sobre o turismo e movimentam o marketing do
fetiche como a mercadoria das ilusões.
Ao se referir ao último
método Marx coloca a abstração como elemento hegemônico em
contraponto ao empirismo e com isso abre um patamar de
questionamentos ao pensamento burguês. Esse processo permitiu
desenvolver um pensamento crítico voltado para uma historicidade
necessária, contrapondo a visão empirista que alimenta um
economicismo longe da realidade social, política e econômica do qual
é produto.
Esclarecemos que o embate
acadêmico entre epistemologias opostas enriquece a compreensão do
objeto do turismo, fortalecendo seu patamar como ciência e como
assunto que deve ser investigado. Por isso, o presente artigo não
tem por objetivo criticar as visões de fundo empiricistas, mas
demonstrar seus limites, mitos e discursos que apesar de
equivocados, realizaram uma leitura do real (turismo) que serviu
para iniciar a compreensão desse fenômeno. Portanto, não descartamos
a contribuição que as mesmas trouxeram para o conhecimento do
turismo, entretanto, entendemos que a realidade comporta outras
interpretações. Mesmo porque, ambas epistemes possuem seus
limites e que podem muitas vezes, dependendo do pesquisador, serem
usadas parcialmente (significa, sem perder a matriz ideológica de
uma ou outra) para o entendimento do objeto, como fez com todo rigor
científico o professor e sociólogo Florestan Fernandes em muitos de
seus estudos, como tive oportunidade de discutir esse fato no texto
de minha autoria chamado Espelho da história: entendimento do
fenômeno turístico na humanidade, publicado na revista
eletrônica
www.espacoacademico.com.br e pela revista eletrônica
Revista Global Tourism
volume 2 número 1 novembro 2005.
MITOS E LADAINHAS DO FAZER
TURÍSTICO
O primeiro mito que
ocorre é aquele em que a atividade
turística surge e ganha espaço como um elemento capaz de trazer e
acelerar o crescimento econômico de uma localidade, região ou país.
Essa força empreendedora e “mágica” do turismo tida como de
tonalidade desenvolvimentista nas economias em processo de
crescimento, trazem em seu bojo a fetichização do mesmo como
elemento capaz de superar a miséria e pobreza, alavancando o
desenvolvimento econômico. Esse entendimento pode imputar ao turismo
características metafísicas, pois o conceito adquire qualidades que
só podem ser entendidas no mundo das idealizações de referência
fenomenológica.
Inadmissível é saber que
essa leitura fetichizada do conceito é produzida com maior ênfase em
países em que as economias estão estagnadas ou sofrendo com o
pagamento da dívida externa. E aí surge com enorme força o turismo
como elemento salvador do mundo dos homens, capaz de trazer de volta
o pleno desenvolvimento econômico social e cultural de um país, uma
das últimas saídas para a tentativa de minimizar a crise do sistema
capitalista e socialista.
Esse processo que acontece
tanto nos países capitalistas como socialistas que apostam no
turismo como elemento capaz de carrear dólares para sua balança de
pagamentos vem acompanhado de um apelo baseado no fetiche erótico ou
na dimensão da militância política e partidária da antiga esquerda.
Para tanto, acabam estimulando o aparecimento de um turismo
apartheid entre nacionais e estrangeiros e no interior dos
próprios brasileiros. Com uma prática de negação da hospitalidade
turística os turistas recebem atendimento de forma desigual, pois a
procedência e a moeda (real ou dólares) fazem e trazem a
desigualdade no tipo de hospitalidade.
Preços desiguais para
nacionais e estrangeiros em todos os setores da atividade econômica,
principalmente no campo dos equipamentos turísticos: na verdade há
uma “legalização” da exploração do turista estrangeiro, sim
simplesmente por ser estrangeiro, e a preferência por um turismo de
elite acaba pressionando e afastando o turista nacional criando um
tipo de apartheid no turismo.
Essa aderência idealista ao
conceito de turismo favorece o aparecimento de um elitismo na sua
compreensão, acompanhado de um glamour que acaba encobrindo a
realidade de miséria e pobreza. Submetendo as populações nacionais a
consumir um turismo periférico engrossando a ligação existente entre
turismo e colonialismo, como expliquei no texto “O
Turismo em nossa latinidade: uma nova forma de colonização”:
Esse processo
de globalização do turismo atende aos interesses do capital
internacional que, na falsa premissa de trazer emprego e
desenvolvimento para as localidades, acaba ampliando a miséria e o
desespero das populações nativas e regionais. Cria-se uma
discriminação étnica que poderíamos chamar de uma verdadeira
apartheid do turismo, estimulado pelos grandes empreendimentos
nacionais e estrangeiros que isolam a população nativa do convívio
para com o turista (SANTOS FILHO, 2003,P.374).
Na verdade os espaços públicos e
coletivos estão diminuindo sujeitando as populações que vivem em
áreas com potencial turístico para fora de seus lugares, pois os
mesmos foram privatizados, elitizados produzindo um turismo
apartheid assentado na discriminação social, política, cultural,
religiosa e econômica. O capital usa e drena para si os
componentes de um colonialismo moderno por meio do turismo tão
opressor como a discriminação étnica e o etnocentrista.
O segundo mito é aquele que
parte da premissa do qual o turismo nasceu com o capitalismo, ou
seja, com o surgimento do trabalho assalariado e a propriedade
privada, como também, pela concentração dos meios de produção, essa
seria a instância que os qualifica como sistema capitalista.
Entretanto, essa definição é por demais genérica e sem a
quantificação de aproximações de períodos históricos confiáveis, as
ciências sociais contemplam estudos mais pontuais, os quais venho
demonstrando em artigos que tenho escrito sobre a atividade
turística,
pois a mesma possui uma temporalidade anterior ao feudalismo que é
iniciada na sociedade tribal.
No artigo já mencionado “Espelho da
história: O fenômeno turístico no percurso da humanidade”
discuto a questão de que o turismo tenha iniciado com o capitalismo,
demonstro que esse fenômeno surge junto às necessidades básicas do
ser humano, portanto antecede a qualquer modo de produção. O
fenômeno do turismo não pode ser buscado junto ao capitalismo, mas
sim, em sua anterioridade, naquilo que Marx sempre mencionou no
“método da economia política” a categoria, mas simples pode exprimir
relações dominantes de um todo menos desenvolvido. Assim o fenômeno
do turismo deve ser entendido em sua dimensão epistemológica e saber
que:
A importância desse estudo para a
ciência do turismo é que a mesma pode ser percebida como uma
necessidade histórica/biológica, que a coloca em outro patamar a
explicação teórica e que põe por terra toda e qualquer teoria que
insinue que o turismo nasceu com o capitalismo.
O turismo nasce como uma resposta cultural dada a uma necessidade
biológica, portanto faz parte da referência histórica dos homens
(SANTOS FILHO, 2003).
A literatura existente que trata do
turismo consagra o pressuposto de que o mesmo começa com o
capitalismo, esse viés tem uma base epistemológica weberiana, em que
seu aparecimento foi determinado pela modernização da civilização
ocidental, bem como, o grau de racionalidade religiosa adquirida
para o desenvolvimento das ciências. Assim entender que o
capitalismo traz em seu o bojo as travas que devem ser abertas do
desenvolvimento da sociedade, não é nenhuma exclusividade do estudo
de Max Weber, mas foi este que com seu livro A ética protestante
e o espírito do capitalismo, detalhou o espírito do capitalismo
destravando os elementos que impulsionam a economia ocidental.
Os limites dessa episteme não
permitem avançar para um entendimento anterior do capitalismo, além
do que seu marco teórico está no fato da sua falta de historicidade
dificultando a apreensão do real. Nesse sentido, o entendimento que
capital e capitalismo não são idênticos e possuem uma
imensa distância do aparecimento de um e de outro, como assim
expressa o filósofo István Mészáros:
“Capital” é uma categoria histórica
dinâmica e a força social a ela
correspondente aparece – na forma de capital “monetário”,
“mercantil” etc. – vários séculos antes da formação social do
CAPITALISMO enquanto tal emergir, e se consolidar. De fato, Marx
estava muito interessado em apreender as especificidades históricas
das várias formas do capital e suas transições de uma a outra, até
que eventualmente o CAPITAL INDUSTRIAL se torne a força dominante do
metabolismo sócio-econômico e objetivamente defina a fase clássica
da formação capitalista (MÉSZÁROS, 1987, p. 115).
Nesse caso, não podemos afirmar que o
turismo surge com o capitalismo, mas sim, é anterior ao aparecimento
do próprio capital, como uma necessidade básica
historicamente determinada. Assim explicamos o turismo como
sinalizado com o aparecimento das necessidades básicas e, portanto
anterior ao aparecimento do capital e do capitalismo.
O terceiro mito se refere à literatura
potencializada por bases idealistas que acompanha o conceito de
turismo sustentável. Essa idéia domina todo o discurso acadêmico
sobre o turismo, criando uma compreensão de corte holístico que
produz um entendimento de fundo messiânico, bem como, expressa a
essencialidade de base fenomenológica desse conceito.
A ocupação depredadora e irracional
feita pelos homens e suas corporações nos campos econômicos, sociais
e político do planeta Terra foi entendida como problema ambiental
mundial a partir da década de 70. Os encontros e embates sobre o
meio ambiente e o eco-sistema discutem criticamente quais as
verdadeiras condições de interagir do homem com os problemas
sócio-ambientais.
A riqueza de um lado, em sua busca
constante de querer acumular capital usa seu poder econômico para
fazer valer seus interesses egoístas e mercantis, montando quadros
de corruptores e impondo a certeza da imunidade às leis e da
cumplicidade do aparelho de Estado. Essa situação desenvolve um
processo de privatização das áreas naturais para abrigar
investimentos hoteleiros estrangeiros e nacionais, desenvolvendo um
turismo de apartheid, com conseqüências econômicas e
políticas de grave conteúdo social.
Na realidade esse quadro de
corrupção do aparelho de Estado, de uma forma ou de outra agiliza os
interesses do capital e demonstra a fragilidade legal do
mesmo, que está a serviço das classes dominantes. Esse processo é
denunciado por Marx em 1848 no Manifesto
Comunista do Partido Comunista:
[...]
a burguesia a partir do estabelecimento da grande indústria e do
mercado mundial, conquistou, finalmente, a soberania política
exclusiva no Estado representativo moderno. O governo moderno não
é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe
burguesa. ( MARX, 1987. p. 78, grifo nosso ).
A referência de que o Estado está a
serviço dos interesses da classe dominante é o principio básico do
governo neoliberal que coloca a impossibilidade de haver de fato uma
representação democrática capaz de servir aos interesses coletivos.
Nesse sentido, fica difícil pensar num desenvolvimento sustentável
ou num turismo de sustentabilidade, pois a determinação de classe
está dada pelo capital e o Estado se limita a ser um
ordenador dos interesses privados, portanto o jogo político
privilegia as referências de ordem privadas.
O turismo sustentável se transforma em
um conceito muito mais de efeito gramatical do que de aplicabilidade
prática, é apropriado pela lógica do capital, alavancando os
interesses do modelo econômico como o grande instrumento salvador
das economias, o chamado indevidamente como “indústria do turismo”.
O termo sustentabilidade adquire uma referência quase religiosa e se
deixa apropriar pelo modismo do empreendedorismo, propagando a idéia
de um tipo de sebastianismo norte-americano.
A pobreza e miséria são fatores também
bloqueadores e que acabam alimentando a falsa sustentabilidade, pois
a desigualdade é resguardada por um Estado que trabalha e aprofunda
a diferença social entre os homens e alarga as contradições. Esse
movimento político favorece o aparecimento do fetiche da
sustentabilidade que ganha todos os setores da vida social e no
turismo se prolifera quase como um “axioma” próprio desse fenômeno;
ganhando comando nas vozes dos desavisados; inculcando nos alunos a
idéia de que o turismo funciona independente das questões
estruturais, isto é, desprezando as questões políticas, econômicas e
sociais.
Nesse sentido, as políticas públicas
em turismo em países em que as diferenças sociais são marcantes no
interior da estratificação populacional, devem planificar políticas
globais de turismo especialmente para a população carente de
recursos financeiros para que possam dedicar parte de seu tempo
livre em atividades de lazer. Porém, o que está ocorrendo é um
não-compromisso do Estado para com as questões relativas à
formulação de políticas públicas de turismo que se omite desse seu
papel e passa essa função á iniciativa privada.
Essa prática vem ocorrendo de forma
acelerada com a implantação da “Política nacional de turismo de 2003
a 2007”. Em razão desse fato, aquele trabalho que nós começamos na
década dos anos 70, em que fazíamos o discurso para que as regiões,
municípios, estados e o próprio governo federal entendesse que o
turismo deveria ser prioridade no conjunto das políticas públicas e
para tanto, essas instâncias de poder deveriam criar suas
secretarias, autarquias, divisões ou algum órgão público que se
responsabiliza pelo desenvolvimento do turismo, hoje sofre o combate
da criação dos Convention Visitors Bureaux que vem acoplado ao
discurso neoliberal como a solução para o desenvolvimento do
turismo.
O quarto mito é aquele que sempre
acompanhou a formulação das Políticas Públicas em Turismo no Brasil
– uma determinação que podemos chamar de axiomática, pois considera
o turismo como instrumento “exemplar” para refugiar os interesses de
ampliação e reprodução do capital. O que levou o Estado a ter
uma compreensão restrita e limitada desse fenômeno, entendendo o
turismo receptivo como a base para qualquer política pública nesse
campo.
A lógica dessa ideologia de base
globalizante acompanha o culto ao individualismo e consagra as
relações sociais de produção como resultado da “naturalização” das
leis de mundialização do capital. Esse processo veicula os
interesses do capital traduzida por um forte processo de
emulação que transparece para o cotidiano como sendo manifestações
de base individual, mas na verdade obedecem a uma lógica das classes
que defendem os interesses do capital.
A importância do turismo para o Estado
surge em virtude dos recursos que os estrangeiros movimentam em
território nacional, por isso a ideologia incorporada pelo governo
brasileiro desde os anos de 1960 canaliza seu interesse para o
turismo receptivo. Como sendo a única visão possível e correta de
trabalhar uma política de turismo para a nação brasileira, pois seus
doutos se encastelam no culto a um individualismo da privacidade
amparado pelo idealismo metafísico que é retrato da própria negação
do homem e da tentativa massacrante de “humanização” da mercadoria.
Sobre essa questão o filósofo István Mészáros em seu livro A
teoria da Alienação, com pontualidade sinalizadora com o que
estamos afirmando comenta:
O culto da privacidade e da autonomia
individual realiza, com isso, a dupla função de proteger
objetivamente a ordem estabelecida contra o “desafio pela ralé” e
proporcionar objetivamente a realização espúria de uma
interiorização escapista para o indivíduo isolado e impotente, que é
mistificado pelos mecanismos da sociedade capitalista que o manipula
(MÉSZÁROS, 1981, p. 263).
Nesse sentido, o que interessa ao
Estado é o recurso econômico que o turista estrangeiro introduz no
mercado e aos brasileiros do trade e população geral cabe o
treinamento dentro da lógica da hospitalidade submissa pela educação
americanizada do bem receber que oculta a matriz da dominação
colonizadora do neopositivismo.
O trade é submetido a
treinamentos e certificações que acabam impondo um estilo de
hospitalidade universal, que torna secundário a forma de ser da
hospitalidade autóctone nacional, padronizando um estilo de ser
segundo o interesse do mercado. Essa tendência acaba enfatizando uma
hospitalidade globalizada que falsamente cultua uma universalidade
que está sendo guiada pelos interesses do
capital.
Com a população em geral ocorre que o
turismo se torna algo inacessível, pois acabam sendo excluídas dessa
prática social e o Estado preocupado com o turista estrangeiro,
submete a população a programas de sensibilização na qual o
brasileiro é objeto de treinamentos constantes para aprender a
conhecer seu potencial turístico e como atender ao turista. Esses
programas todos apelam para a sedução motivadora por meio da técnica
Zopp. O que confirma o culto ao individualismo, pois toda a
responsabilidade recaiu sobre o indivíduo como o grande responsável
pelo desenvolvimento do turismo brasileiro, por isso a relevância
que essa técnica dá ao moderador é elemento chave, pelo seu papel de
minimizar os conflitos dos discursos que tentam ser mais críticos e
de oposição.
Essa técnica
ou
modelo Zopp desencadeia um
processo
de sensibilização que tem
por
objetivo preparar os
brasileiros
para serem hospitaleiros
para
com o estrangeiro, na
verdade todo
programa
elaborado pelo governo
Federal
é no sentido de preparar
o Brasil
para receber o estrangeiro
e é isso o que
o Plano
Nacional de Turismo
explicita em sua
matriz.
Referências Bibliográficas
IANNI Octavio. Sociologia da
Sociologia Latino-Americana. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1976.
LUKÁCS, G. As Bases Ontológicas do
Pensamento e da Atividade do Homem. In Revista Temas de Ciências
Humanas. São Paulo: Ciências Humanas, nº 4, 1978.
MARX, Karl. Manifesto do partido
comunista. São Paulo: Global, 1987.
SANTOS FILHO, João dos. O turismo em
nossa latinidade: uma nova forma de colonização. In: Turismo:
enfoques teóricos e práticos. Miguel Bahl (organizador). São
Paulo: Roca, 2003.
JOÃO
DOS SANTOS FILHO é bacharel em Turismo pelo Centro
Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e
bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Educação: História
e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Foi coordenador dos
cursos de Turismo da Faculdade Nobel e também do Centro
Universitário Filadélfia de Londrina (Unifil); e professor
na Universidade Norte do Paraná de Londrina (Unopar);
professor na Faculdade Maringá – PR. e
professor substituto da Universidade Estadual Paulista –
UNESP- UD de Rosana.
É membro-fundador do Instituto de Análises sobre o
Desenvolvimento Econômico Social (Iades) e da Associação
Brasileira de Bacharéis em Turismo de São Paulo (ABBTUR/SP).
Foi professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da
Universidad Nacional de Heredia (UNA), na cidade de San José
da Costa Rica, para ministrar disciplina no curso de
pós-graduação, no semestre de 1995. Ministrou curso na
Universidad de Rio Cuarto, na cidade de Rio Cuarto-Argentina;
na pós-graduação em Integração Latino-Americana e na
Universidad de San Carlos, na Guatemala. É professor
concursado pela Universidade Estadual de Maringá, no Estado
do Paraná, Brasil.
Possui vários artigos publicados em livros e revistas
acadêmicos nacionais e internacionais, e colaborador nos
sites:
www.estudosturisticos.com.br e
www.espacoacademico.com.br e do Conselho Editorial
da Revista Eletrônica do Centro de Estudos em Geopolítica
e Relações Internacionais (Cenegri)
www.intellector.com.br. Membro do Conselho
Científico do Boletim de Estudos em Hotelaria (Beth);
do curso de Turismo das Faculdades Integradas da Vitória
de Santo Antão (Faintvisa) e Membro do Conselho
Editorial da revista semestral Global Tourism -
www.periodicodeturismo.com.br .
Desde o ano 2000
venho me dedicando a escrever sobre turismo ciência e a
ontologia histórica desse fenômeno. Apresentei diversos
trabalhos em encontros científicos: No congresso brasileiro
de turismo 2000 – XX ENBETUR, na qualidade de debatedor em
mesa redonda para discutir a temática – O turismo como
ciência. Na qual escrevemos o texto: Turismo: ciência ou
técnica? Publicado na Revista Turismo: Dimensões e
Perspectivas, da Faculdade Nobel em 2001. IV Congresso
Internacional de Turismo da rede Mercocidades, realizado em
2002, apresentando o texto: A ciência do turismo se
produz no processo das contradições epistemológicas de seus
saberes, publicado na revista eletrônica
www.espacoacademico.com.br. Em 2003 no I Seminário de
Pesquisa em turismo do Mercosul realizado pelo mestrado
acadêmico em turismo da Universidade de Caxias do Sul, como
coordenador do grupo de trabalho “Epistemologia do
Turismo”. Na qual apresentamos o trabalho; Negação do
paraíso celestial e a luta pela emancipação do trabalho,
publicado na Revista Turismo e Analise da USP/ECA/ALEPH.Em
2004 foi coordenador do grupo de trabalho, Pós – Turismo
no IV Congresso de Turismo da Rede Mercocidades – Integração
pela paz. Novamente em 2004 apresentou no II
Seminário de Pesquisa em turismo do Mercosul, promovido pelo
Mestrado acadêmico em Turismo na Universidade de Caxias do
Sul o artigo “Thomas Cook – marco da historiografia
dominante do turismo: Ensaio Sociológico sobre o surgimento
e preconceito ao fenômeno turístico na história”. Em
2005 no III Seminário de pesquisa em turismo do mercosul
realizado pelo mestrado acadêmico em turismo da Universidade
de Caxias do Sul apresentamos o artigo “Espelho da
história: O fenômeno do turístico no percurso da humanidade.
Publicado na revista eletrônica Tourism Global
www.periodicodeturismo.com.br
|