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INTRODUÇÃO
Escrever sobre o turismo brasileiro exige
um retomar do processo histórico que se inicia com o descobrimento,
se estabelece com a colonização, cresce com a república e se
fortalecem com os governos populistas. Porém, é utilizado pelo
Estado militar de 1964, com objetivo de ocultar a eliminação física,
tortura e a repressão a seus opositores. A ditadura militar usou da
EMBRATUR para construir e divulgar uma imagem de país,
pró-americano, gigante, anticomunista e democrático.
Hoje a política pública de turismo para a população brasileira
permanece estagnada nos entraves de uma “Política Nacional de
Turismo – 2003 a 2007” de base internacionalista cujo enfoque
prioritário é o turismo receptivo.
Urge fazer com que os responsáveis pelo
turismo nacional entendam as limitações dessa política, que é
reflexo de uma compreensão de cunho economicista de base empirista,
preocupada principalmente em aferir a quantidade de entrada de
divisas na economia brasileira por meio do turismo receptivo, para
bater recordes duvidosos, festejado sempre por uma armação
publicitária de tonalidade sublimar e de produção nem sempre
nacional.
Esse entendimento limitado e simplista
sobre o turismo, agregado ao fato do fenômeno aderir à lógica do
capital e empurrar o referido fenômeno a serviço dos interesses
da classe dominante dentro da estratificação social. É a lógica do
turismo no neoliberalismo, oculta o concreto pensado
e simultaneamente arma o fetiche do entendimento da aparência do
real, fazendo do mesmo algo de glamour e mítico em que a leitura
existencialista e fenomenologia banca sua expressão.
Cabem aos estudiosos deste fenômeno
alertar para essa percepção de fundo positivista que encobre a sua
produção literária, pois os estudos apresentam uma base filosófica
dentro dos parâmetros do neopositivismo,
em que os dados quantitativos descolados da materialidade formatam
os discursos das classes dirigentes. Como assim comenta o filosofo
Lukács;
Todos sabem que nas últimas décadas, radicalizando as velhas
tendências gnosiológicas, o neopositivismo dominou de modo
incontrastado, com sua recusa de princípio em face de toda e
qualquer colocação ontológica, considerada como não científica. Esse
domínio se deu não apenas na vida filosófica propriamente dita, mas
também no mundo da práxis. Se analisássemos bem as constantes
teóricas (sic) dos grupos dirigentes políticos, militares e
econômico de nosso tempo descobriríamos que elas – consciente ou
inconscientemente – são determinadas por métodos de pensamento
neopositivistas.
ONTOLÓGICA DO CONCEITO DE TURISMO
Para
entendermos o fenômeno do turismo, necessitamos apreender como esse
conceito se forma na historia da humanidade, pois só assim poderemos
compreender sua constituição ontológica, para isso, recorremos ao
materialismo histórico, método que permite alcançar a totalidade
histórica dos fatos, segundo a análise dos modos de produção.
Segundo Marx;
... Até as categorias mais abstratas – precisamente por causa de sua
natureza abstrata – apesar de sua validade para todas as épocas,
são, contudo, na determinidade dessa abstração, igualmente produto
de condições históricas e não possuem plena validez senão para essas
condições e dentro dos limites destas.
Com isso Marx esta alertando que um
conceito é produto das condições objetivas da materialidade
produzida pelo homem em sua relação de trabalho com o meio, pois ele
desenvolve uma ação entre formas moventes e movidas da própria
matéria, isto determinações de existência. Por isso, os conceitos
expressam e sinalizam patamares de uma possível materialidade que
corresponde ao estagio de desenvolvimento das relações de produção
e, portanto, podem ser ressignificados linguisticamente, porem não
deixam de apresentar uma continuidade de significado histórico
acumulativa de um todo mais desenvolvido.
Com isso, podemos entender que a palavra
ócio, independente de sua significação etnológica vem acompanhada de
uma historicidade presente e futura. Essa potencialidade só existe
em decorrência da capacidade que o homem tem de abstração e usá-la
para o entendimento do mundo.
Nesse sentido, entendemos que a palavra é
uma construção social que pode ser ampliada, substituída, alterada,
mas sempre mantêm uma significação originária que lhe permite
entender sua historicidade primeira. Marx detalha esse entendimento
no seu clássico texto “O método da Economia Política”, com o
seguinte comentário;
O dinheiro pode existir, e existiu historicamente, antes que
existisse o capital, antes que existissem os Bancos, antes que
existisse o trabalho assalariado. Desse ponto de vista, pode-se
dizer que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes
de um todo menos desenvolvido, ou relações subordinadas de um todo
mais desenvolvido, relações que já existiam antes que o todo tivesse
se desenvolvido, no sentido que se expressa em uma categoria mais
concreta. Nessa medida, o curso do pensamento abstrato que se eleva
do mais simples ao complexo corresponde ao processo histórico
efetivo.
A leitura proposta por Marx buscou
encontrar as leis históricas que levam a transformação da sociedade,
para tanto encara a transformação econômica, social e política como
um processo que só tem condições de ser apreendido quando a
consciência dos homens domina e oriente a transformação histórica.
Pois só assim o homem poderá se afastar do pensamento místico,
religioso e das abstrações idealista e metafísica que nutrem o
neopositivismo, pois produz abstrações vazias em razão de desprezar
as relações sócias de produção e as forças produtivas.
Nesse sentido, a leitura histórica
permite entender que o conceito de turismo é um significado que vem
se consolidando historicamente, segundo o desenvolvimento das
relações de produção
e, portanto não pode ser entendido somente como nascido ou/e
desenvolvido no modo de produção capitalista.
Em um livro de minha autoria, afirmo;
O turismo aparece como resultado de um longo processo de sinalização
que vai se efetivando durante o movimento da história; nasce como o
trabalho, uma vez que produz seu contrário – o não trabalho – que
vai apresentar várias significações, até sua forma mais acabada, o
turismo.
CONCLUSÕES
Na verdade a política pública no
campo do turismo foi sempre um instrumento organizado, montado e
utilizado para atender as classes dominantes, quer nacional ou
internacional. E essa não é uma peculiaridade de nossa política
pública em turismo, outras tiveram o mesmo destino, como foi o caso
do nascimento da educação pública brasileira.
Por isso, não há nenhuma novidade, mas
sim uma característica peculiar do fenômeno turístico. O turismo
é tido como uma atividade econômica de alto grau de racionalização
do capital na busca de maior produtividade, surgindo como a
atividade capaz e propensa a ampliar a reprodução do capital
de forma rápida e acumulativa, pois seu “produto” exige um
leque de serviços que requer uma massiva e diversa empregabilidade.
Por isso a atividade turística surge como um possível milagre para
os sistemas capitalistas e “socialistas” como elemento capaz de
trazer o crescimento desses países.
O turismo possui, então, uma diversidade
e abrangência na totalidade de todas as suas atividades societárias,
sua globalização atinge desde as populações pobres até as classes
abastadas; culturas se mesclam, culturas se destroem, outras
aparecem agora padronizadas pela vida do Fast Food e das
classificações hoteleiras decretadas de cima para baixo segundo os
padrões norte-americanos e europeus num processo dialético em que o
novo pode ser o descobrimento do valor histórico do velho ou ao
inverso o novo ser a destruição do velho. A perfeita ditadura das
grandes corporações capitalistas multinacionais que estão hoje,
comprando e implantando empreendimentos imobiliários na orla do
litoral nordestino
Com isso, estamos afirmando que o Estado
tem o dever de desenvolver políticas públicas para as classes
populares, bem como, fortalecer as secretarias (municipais e
estaduais), autarquias e ministérios que estejam diretamente
envolvidos com o turismo. E tomar cuidado para que as atividades
“importantes” dos Conventions Visitors Bureaux que em muitas
localidades vem indiretamente ocupando espaço dos órgãos públicos de
turismo. O leitor poderia afirmar “se o setor público não faz os
Conventions pela agilidade da iniciativa privada faz!
Essa afirmação é simplista e falsa, pois
quando o setor público desativa, ou simplesmente fecha uma
repartição do Estado. Na verdade esta prestando um desserviço aos
mais necessitados e afastando-se do seu dever civil de entender a
comunidade como um todo e estender seus serviços a quem não pode
“comprá-los”.
Turismo ainda é considerado pela economia
neoliberal como sinônimo de glamour e de riqueza. Riqueza esta, que
só pode ser usufruída pelas classes abastadas, pois é desse turismo
que o capital tem interesse. O outro, qual outro? Aquele que
conhecemos vulgarmente como farofeiro, mochileiro, religioso (Padin
Cícero, Lunardeli ou Aparecida e outros), esses não interessa as
multinacionais.
O que interessa aos grupos multinacionais
são áreas virgens, reservas de mata nativa, onde vivem populações
autóctones, verdadeiros paraísos terrestres, muito comuns na orla
marítima do Brasil. São esses lugares paradisíacos que a fúria do
capital deseja. Por isso, parem de acalentar um Plano
Nacional de Turismo que nasceu falido e clone da ditadura dos
curiosos do turismo.
Para finalizar, não poderia deixar de
registrar, como já o fizpela internet, por meio de um
artigo, minha indignação perante o processo fascista da EMBRATUR na
formatação da exposição;
40 anos EMBRATUR: Um passeio pela história
do turismo no Brasil. O que nos deixa mais revoltado é que
poderíamos esperar uma exposição desse tipo de qualquer outro
governo (tucanos, militares golpistas), mas nunca do governo petista
da qual somos filiado e militante.
JOÃO
DOS SANTOS FILHO é bacharel em Turismo pelo Centro
Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e
bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Educação: História
e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Foi coordenador dos
cursos de Turismo da Faculdade Nobel e também do Centro
Universitário Filadélfia de Londrina (Unifil); e professor
na Universidade Norte do Paraná de Londrina (Unopar); e
professor na Faculdade Maringá – PR. É membro-fundador do
Instituto de Análises sobre o Desenvolvimento Econômico
Social (Iades) e da Associação Brasileira de Bacharéis em
Turismo de São Paulo (ABBTUR/SP). Foi professor-convidado na
Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de
Heredia (UNA), na cidade de San José da Costa Rica, para
ministrar disciplina no curso de pós-graduação, no semestre
de 1995. Ministrou curso na Universidad de Rio Cuarto, na
cidade de Rio Cuarto-Argentina; na pós-graduação
em Integração Latino-Americana e na Universidad de San
Carlos, na Guatemala. É professor concursado pela
Universidade Estadual de Maringá, no Estado do Paraná,
Brasil e professor no Centro de Ensino Superior de Maringá (Cesumar)
na cidade de Maringá-Pr.
Acessar o site
www.espacoacademico.com.br clicando “turismo em debate”
e consultando o texto de minha autoria:
EMBRATUR, da euforia ao
esquecimento: o retorno às raízes quando serviu à Ditadura
Militar. Não estamos em uma ditadura militar, mas
servimos a quem?
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