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V - Última verba
1. Eu sou o Capital, o rei do mundo.
2. Caminho escoltado pela mentira, pela inveja, pela avareza, pela
trapaça e pelo assassínio. Levo a divisão à família e a guerra à cidade.
Por toda a parte por onde passo semeio o ódio, o desespero, a miséria e
as doenças.
3. Sou o Deus implacável. Regozijo-me no meio das discórdias e dos
sofrimentos. Torturo os assalariados e não poupo os capitalistas meus
eleitos. (LAFARGUE, Paul. O Direito à preguiça e outros textos. 1977 p.
188) |
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Iniciamos esse artigo com as falas do médico cubano Paul Lafargue, genro de Karl
Marx e militante do partido socialista francês, por entender que o mesmo em um
dos seus inteligentes escritos expressa uma atualidade para o entendimento da
tragédia do vôo 3054 da TAM.
Gostaríamos de esclarecer que partimos do pressuposto de que a culpabilidade da
tragédia que matou mais de 200 cidadãos brasileiros, bem como, a crise aérea
pelo que o Estado brasileiro vem passando é decorrente de uma soma de variáveis
que estão ligadas de forma hegemônica e determinante a dimensão dos interesses
econômico do Capital que se sobrepõe aos da preservação da vida humana. Nesse
sentido, entendemos que existem culpados que estão a serviço do Capital e
tornam-se servos, cegos, surdos e algumas vezes mudos diante da necessidade de
ampliar a mais-valia na defesa dos poderosos interesses econômicos.
Por isso, devemos entender que a lógica para encontrar os responsáveis pela
tragédia, está além da personificação jurídica de indivíduos, só assim podemos
entender o problema por meio de uma atitude crítica e fazer encaminhamentos para
resoluções. Portanto, gostaríamos de discutir a questão por um ângulo ainda não
abordado em sua plenitude, apesar de alguns escritos e falas mencionarem a
questão de forma secundária.
Vamos iniciar com algumas indagações que se respondidas sempre levam ao mesmo
responsável pela tragédia, o Capital, traduzido por inúmeros interesses
econômicos, então podemos lançar as seguintes perguntas:
1. Que interesses levaram a prefeitura de São Paulo a permitir a construção de
prédios, alterando a lei de zoneamento no perímetro do espaço aéreo de
Congonhas?
2. Que motivos levaram a Infraero a liberar a pista de Congonhas, sem estar
completamente concluída?
3. Que motivos levaram ao Estado a punir os sargentos Wellington Rodrigues e
Carlos Trifilio, por quebra da disciplina militar ou por promoverem greve, por
melhores condições de trabalho e salário?
4. Que motivos levaram no dia 17 de julho, minutos antes do trágico acidente, os
controladores de vôo a propor fechar o aeroporto de Congonhas, devido aos
problemas na pista e não foram ouvidos?
5. Quem tem interesse na privatização da Infraero como solução para o caos aéreo
brasileiro?
6. Por que as empresas aéreas estão atuando no limite máximo da super utilização
das aeronaves buscando a maximização de lucros rápidos e reestruturando rotas e
regras de vôo que priorizam os interesses puramente comerciais?
7. Por que o ministro Waldir Pires teria dito que a ANAC representa o Estado e
tem que impor às empresas aéreas a redistribuição das rotas, enquadrando-as
naquilo que foi acordado pelo Estado?
8. Que interesses são defendidos pela ANAC, os públicos ou privados?
9. Por que Infraero e a FAB estariam indiretamente tentando isolar a ANAC das
discussões sobre a crise aérea no país?
Todas essas questões devem ser respondidas em sua especificidade, pois em sua
universalidade sabemos que o determinante é o interesse econômico. È aí que
poderemos encontrar os responsáveis por esses assassinatos e colocá-los na
cadeia.
Apesar de que, em tempos de tristeza somos obrigados a presenciar absurdos de
pura irracionalidade em que não sabemos até agora qual foi à intenção desses
representantes do Estado em conceder a medalha "Mérito Santos Dumont" a dois
dirigentes da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), órgão responsável por
regulamentar e fiscalizar a aviação civil no Brasil e a adotar medidas que
atendam ao interesse público. Os agraciados com a homenagem foram o presidente
da agência, Milton Zuanazzi, e a diretora Denise Abreu que estão no alvo da
mídia e sendo investigados pela CPI do apagão.
Para completar, o assessor especial da presidência da República para assuntos
internacionais o professor Marco Aurélio Garcia foi flagrado "festejando" com a
notícia que a falha que causou o acidente era da aeronave. Com gestos obscenos e
com total desrespeito as vítimas o velho militante do diretório do Partido dos
Trabalhadores da Vila Olímpia em vez de guardar luto, desrespeitou a essência da
sociabilidade da vida. Por esse motivo, a Comissão de Ética Pública, órgão que
assessora o presidente da República decidiu analisar o caso.
Na verdade uma coisa fica mais do que explicita a determinação econômica é
patente, a vida humana esta ao sabor dos grupos econômicos que aplicam
livremente o overbook, cancelam vôos, não dão atendimento aos passageiros,
utilizam aviões com problemas técnicos, censuram trabalhadores e obrigam pilotos
a extrapolarem às 85 horas de vôos por mês.
Nesse sentido, cabe a nós exigir a punição dos responsáveis e não esquecer que
infelizmente os interesses econômicos corrompem os princípios básicos da
existência humana e tornam o ser humano uma simples mercadoria. Pois, o Capital
transforma tudo em mercadoria, comercializando vidas humanas e atribuindo
valores materiais para a perda da mercadoria -ser humano- ou descartando-a para
reposição.
Desejo imensamente que os parentes das vítimas do vôo 3054, consigam justiça
perante o tribunal dos homens e que os mártires dessa tragédia nunca sejam
esquecidos, pois os mesmos como nós lutavam por uma causa, manter a vida.
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