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Desde o início das minhas pesquisas e estudos sobre o fenômeno do
turismo venho escrevendo artigos científicos que apontam para o
entendimento de que as políticas públicas neste setor mudam radicalmente
de direção a partir do golpe militar de 1964, pois o “Estado do bem
estar social” que começou a ser montado em 1930, começa a ser desmontado
pelo interesse do capital internacional, sinalizando uma
intencionalidade clara na defesa inconteste do turismo receptivo.
A lógica do Estado brasileiro em
privilegiar o turista estrangeiro decorre de fatores de ordem econômica
e pragmática que entende ser o turismo um campo fértil e relativamente
virgem para a ampliação e reprodução do capital. Esse fenômeno é
visto como uma indústria capaz de potencializar o desenvolvimento
econômico de qualquer localidade, estado ou nação.
No Brasil o Estado na perceptiva de
promover o desenvolvimento econômico, político e social acaba adquirindo
como característica o apelo ufanista na tentativa de combater a
dominação estrangeira presente em todos os setores da sociedade e
populista, pois necessita obter apoio das classes trabalhadoras para
implantar o processo de modernização e industrialização.
O marco desse período é o governo de 1930
que deu as bases para um Brasil industrial, nacionalista e de forte
apoio à classe trabalhadora apesar de seu corte de ditadura fascista,
soube capitalizar a criação de um Estado autoritário paternalista
desenvolvendo políticas públicas voltadas ao atendimento das
necessidades dos trabalhadores com profundo apoio popular, segundo o
historiador Boris Fausto, afirma:
Um novo tipo de Estado nasceu após 1930,
distinguindo-se do Estado oligárquico não apenas pela centralização e
pelo maior grau de autonomia como também por outros elementos. Devemos
acentuar pelo menos três dentre eles: 1. a atuação econômica,
voltada gradativamente para os objetivos de promover a industrialização;
2. a atuação social, tendente a dar algum tipo de proteção aos
trabalhadores urbanos, incorporando-os, a seguir, a uma aliança de
classes promovida pelo poder estatal: 3. o papel central
atribuído às forças Armadas – em especial o Exército – como suporte da
criação de uma indústria de base e, sobretudo como fator de garantia da
ordem interna.
Com total apoio das classes trabalhadoras
o governo de Getúlio Vargas inaugura o período populista na política
brasileira baseado na formatação de alianças entre capital e trabalho
pelo Estado, demonstrando certa oposição e denúncia (carta testamento)
para com os interesses plenos do capital internacional. Esse processo
permanece até antes do golpe militar de 1964 que tinha por objetivo
frear o avanço das classes populares e preparar um dos muitos ciclos
para uma nova forma de ampliação da mais valia.
Apesar da luta nacionalista ganhar espaços
na política brasileira, como também, em todos os setores; nas artes, na
literatura, na escultura, na pintura no cinema e principalmente na
política como oposição ao estrangeirismo e ao domínio ideológico dos
Estados Unidos. A pressão ideológica naquele momento colocada pelo mundo
é o estilo da american way of life que se torna modelo do
sucesso da vida ocidental.
As características do governo getulista
contribuíram para o desenvolvimento de um Estado preocupado com o lazer
e turismo da população trabalhadora, podemos assim descrever:
·
Apoio da igreja católica ao
Estado “revolucionário”, como exemplo marcante foi à inauguração da
estátua do Cristo Redentor no Corcovado
em 12 de outubro de 1931, que deu a cidade do Rio de Janeiro um ícone
universal da hospitalidade e símbolo do catolicismo. É nesse mesmo ano
que a igreja conseguiu introduzir o ensino da religião nas escolas
públicas;
·
Centralização do poder
político do Executivo e Legislativo nas mãos do chefe da nação, nomeando
interventores para cargos de governadores e prefeitos e dando ênfase
para a relação política assistencialista de pai para filho. Por isso a
quase inexistência de concurso para serviço público, característica da
política clientelista;
·
Centralização econômica com
a criação do Conselho Nacional do Café – CNC com controle direto dos
produtores de café;
·
A criação de uma política
trabalhista em que o Estado assumia o controle direto da classe
trabalhadora, com o surgimento do Ministério do trabalho, Indústria e
Comércio e o incentivo para a criação de sindicatos;
·
Com a criação em dezembro de 1939 do Departamento de Imprensa e
Propaganda - DIP, responsável por todos os serviços de propaganda dos
ministérios e do governo no Brasil e exterior. Dentre eles as homenagens
ao presidente, formatada por meio da imagem do grande pai, eram um
instrumento de promoção pessoal, de sua família, e de outros políticos.
O DIP tornou-se o órgão coercitivo que controlava a liberdade de
pensamento e expressão durante o Estado Novo e o porta-voz autorizado do
regime, centralizava e coordenava a propaganda do governo e era também
um serviço de informações e censura. Apoiava a produção de filmes
educativos e colaborava com a imprensa estrangeira para evitar que
entrassem informações nocivas ao país, como também, decidia qual a
imagem que podia ser levada ao exterior organizava festas e
manifestações patrióticas em cuja imagem e o jargão simulado eram de
Vargas “Pai dos Pobres” o que ajudou a consolidar em pouco tempo o poder
do ditador.
·
Por interferência direta de
Alzira Vargas e do ator Procópio Ferreira o Estado getulista cria a
Divisão de Turismo que surge atrelada ao DIP, com o objetivo de
cristalizar ainda mais a imagem do presidente.
Em 1964 o golpe militar foi
efetivado segundo os seus precursores, para impedir o avanço dos
comunistas e acabar com a corrupção no Brasil, pelo menos essa é a fala
dos generais e velhos políticos. O grande inimigo do povo brasileiro
eram as ideologias estranhas aos princípios cristãos que o
capelão americano, padre Patrick Peyton se encarregava junto ao
governador Adhemar de Barros de organizar as
marchas da família com Deus pela Liberdade.
Os
pronunciamentos de Adhemar após o golpe de 1964 são claros e
apaixonantes na saga contra os comunistas:
A grande conquista, obtida
nessa primeira fase da luta, é a da libertação nacional do jugo
bolchevista. Estatísticas que fizemos nos últimos tempos revelam que o
Partido Comunista cresceu exageradamente. Através dos esforços de 2400 a
2500 agentes vindos da China continetal, da Rússia, de Cuba e de tôda a
América Latina, a massa comunizada ampliou-se enormente. Mas a bandeira
brasileira continuará a ser auriverde e a cruz não será substituída pela
foice e o martelo.
Com a censura
dos meios de comunicação e a campanha aberta e direta contra o
comunismo, o Estado militar de 1964 faz planos economicos que
favoreceram as multinacionais, elege prioridades no campo da educação
por meio de acordos com as agencias de ensino norteamericanas. E entende
o turismo como prioridade nacional, colocando que “Coube a Joaquim
Xavier da Silveira o privilégio de colaborar com a Revolução na tarefa
de promover a integração nacional que é uma das resultantes de um
programa de desenvolvimento do turismo [...]. ( DA SILVEIRA. Turismo
Prioridade Nacional. s/d, p. 10 ).
Os
militares criam a EMBRATUR e usam-na para encobrir a repressão, a
tortura, o seqüestro das Forças Armadas junto à população civil.
Desenvolvem um ufanismo cívico moralista e fazem desta a ideologia carro
chefe para salvar o Brasil do comunismo e adotarmos a vida pró-americana
e “democrática” cristã.
Tanto na década de 1930 como
em 1964 o Estado usou do turismo para encobrir os atos de repressão à
sociedade, tanto Getúlio e os governos militares posteriores utilizaram
do turismo como escudo para que seus interesses de imagem fossem
maquiados pelo “paraíso tropical. Se 1930 foi para firmar a imagem de
Getúlio como pai dos pobres e dos trabalhadores, em 1964 os militares
usaram para divulgar o exotismo do carnaval e da terra dos prazeres
tropical.
Com isso, podemos entender
duas questões separadamente; a primeira porque a maioria das feiras
internacionais que o Brasil participou o empresariado brasileiro teve um
avanço extraordinário em suas vendas e aceitação dos seus produtos no
exterior? Pela capacidade de setores que souberam modernizar seus
produtos para enfrentar o mercado internacional. A segunda que deve ser
percebida separadamente da primeira, a publicidade sobre o Brasil feita
pela EMBRATUR de 1966 até 1996 nessas feiras foi uma verdadeira
tragédia; o estimulo acentuado a mulheres nuas com o tratamento de país
erótico em que a pobreza obriga mulheres a se prostituir como opção de
empregabilidade.
Tudo isso se configura como
tragédia que hoje, apesar da campanha contra o turismo sexual pode ser
percebido no interior dos aeroportos brasileiros, quando da chegada de
vôos charters procedentes do exterior para o nordeste brasileiro. É
somente, permanecerem alguns minutos no saguão dos aeroportos e pronto,
pessoas inescrupulosos verdadeiros bandidos fazendo o papel de contato
com os estrangeiros para agenciar garotas. Bem como a autorização do uso
indiscriminado da Marca Brasil que algumas vezes aparece dando suporte a
publicações de divulgação de apelo sexual.
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