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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 17 de março de 2008 23:52:02                                               

 
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TURISMO
"Política Nacional de Turismo” dá adeus ao turista brasileiro: turismo só para o estrangeiro
João dos Santos Filho[1]

publicado em 22/02/2008


A ideologia do turismo, ao reservar à periferia em geral e ao Brasil em particular a função de servirem de “colônia de férias” dos habitantes dos países centrais, acaba reforçando a máxima da disponibilidade colonial: de que existimos para satisfazer as necessidades metropolitanas, agora como “museus vivos”, serviçais, paisagens maravilhosas e fontes de prazer sexual.
[1]
 

          Desde o início das minhas pesquisas e estudos sobre o fenômeno do turismo venho escrevendo artigos científicos que apontam para o entendimento de que as políticas públicas neste setor mudam radicalmente de direção a partir do golpe militar de 1964, pois o “Estado do bem estar social” que começou a ser montado em 1930, começa a ser desmontado pelo interesse do capital internacional, sinalizando uma intencionalidade clara na defesa inconteste do turismo receptivo.

A lógica do Estado brasileiro em privilegiar o turista estrangeiro decorre de fatores de ordem econômica e pragmática que entende ser o turismo um campo fértil e relativamente virgem para a ampliação e reprodução do capital. Esse fenômeno é visto como uma indústria capaz de potencializar o desenvolvimento econômico de qualquer localidade, estado ou nação.

No Brasil o Estado na perceptiva de promover o desenvolvimento econômico, político e social acaba adquirindo como característica o apelo ufanista na tentativa de combater a dominação estrangeira presente em todos os setores da sociedade e populista, pois necessita obter apoio das classes trabalhadoras para implantar o processo de modernização e industrialização.

O marco desse período é o governo de 1930 que deu as bases para um Brasil industrial, nacionalista e de forte apoio à classe trabalhadora apesar de seu corte de ditadura fascista, soube capitalizar a criação de um Estado autoritário paternalista desenvolvendo políticas públicas voltadas ao atendimento das necessidades dos trabalhadores com profundo apoio popular, segundo o historiador Boris Fausto, afirma:

 

Um novo tipo de Estado nasceu após 1930, distinguindo-se do Estado oligárquico não apenas pela centralização e pelo maior grau de autonomia como também por outros elementos. Devemos acentuar pelo menos três dentre eles: 1. a atuação econômica, voltada gradativamente para os objetivos de promover a industrialização; 2. a atuação social, tendente a dar algum tipo de proteção aos trabalhadores urbanos, incorporando-os, a seguir, a uma aliança de classes promovida pelo poder estatal: 3. o papel central atribuído às forças Armadas – em especial o Exército – como suporte da criação de uma indústria de base e, sobretudo como fator de garantia da ordem interna.[2]    

 

 

 Com total apoio das classes trabalhadoras o governo de Getúlio Vargas inaugura o período populista na política brasileira baseado na formatação de alianças entre capital e trabalho pelo Estado, demonstrando certa oposição e denúncia (carta testamento) para com os interesses plenos do capital internacional. Esse processo permanece até antes do golpe militar de 1964 que tinha por objetivo frear o avanço das classes populares e preparar um dos muitos ciclos para uma nova forma de ampliação da mais valia.

Apesar da luta nacionalista ganhar espaços na política brasileira, como também, em todos os setores; nas artes, na literatura, na escultura, na pintura no cinema e principalmente na política como oposição ao estrangeirismo e ao domínio ideológico dos Estados Unidos. A pressão ideológica naquele momento colocada pelo mundo é o estilo da american way of life que se torna modelo do sucesso da vida ocidental.  

As características do governo getulista contribuíram para o desenvolvimento de um Estado preocupado com o lazer e turismo da população trabalhadora, podemos assim descrever:

·        Apoio da igreja católica ao Estado “revolucionário”, como exemplo marcante foi à inauguração da estátua do Cristo Redentor no Corcovado* em 12 de outubro de 1931, que deu a cidade do Rio de Janeiro um ícone universal da hospitalidade e símbolo do catolicismo. É nesse mesmo ano que a igreja conseguiu introduzir o ensino da religião nas escolas públicas;

·        Centralização do poder político do Executivo e Legislativo nas mãos do chefe da nação, nomeando interventores para cargos de governadores e prefeitos e dando ênfase para a relação política assistencialista de pai para filho. Por isso a quase inexistência de concurso para serviço público, característica da política clientelista;

·        Centralização econômica com a criação do Conselho Nacional do Café – CNC com controle direto dos produtores de café;

·        A criação de uma política trabalhista em que o Estado assumia o controle direto da classe trabalhadora, com o surgimento do Ministério do trabalho, Indústria e Comércio e o incentivo para a criação de sindicatos;

·        Com a criação em dezembro de 1939 do Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP, responsável por todos os serviços de propaganda dos ministérios e do governo no Brasil e exterior. Dentre eles as homenagens ao presidente, formatada por meio da imagem do grande pai, eram um instrumento de promoção pessoal, de sua família, e de outros políticos. O DIP tornou-se o órgão coercitivo que controlava a liberdade de pensamento e expressão durante o Estado Novo e o porta-voz autorizado do regime, centralizava e coordenava a propaganda do governo e era também um serviço de informações e censura. Apoiava a produção de filmes educativos e colaborava com a imprensa estrangeira para evitar que entrassem informações nocivas ao país, como também, decidia qual a imagem que podia ser levada ao exterior organizava festas e manifestações patrióticas em cuja imagem e o jargão simulado eram de Vargas “Pai dos Pobres” o que ajudou a consolidar em pouco tempo o poder do ditador.

·        Por interferência direta de Alzira Vargas e do ator Procópio Ferreira o Estado getulista cria a Divisão de Turismo que surge atrelada ao DIP, com o objetivo de cristalizar ainda mais a imagem do presidente.

    

            Em 1964 o golpe militar foi efetivado segundo os seus precursores, para impedir o avanço dos comunistas e acabar com a corrupção no Brasil, pelo menos essa é a fala dos generais e velhos políticos. O grande inimigo do povo brasileiro eram as ideologias estranhas aos princípios cristãos que o capelão americano, padre Patrick Peyton se encarregava junto ao governador Adhemar de Barros de organizar as marchas da família com Deus pela Liberdade.

            Os pronunciamentos de Adhemar após o golpe de 1964 são claros e apaixonantes na saga contra os comunistas:

 

A grande conquista, obtida nessa primeira fase da luta, é a da libertação nacional do jugo bolchevista. Estatísticas que fizemos nos últimos tempos revelam que o Partido Comunista cresceu exageradamente. Através dos esforços de 2400 a 2500 agentes vindos da China continetal, da Rússia, de Cuba e de tôda a América Latina, a massa comunizada ampliou-se enormente. Mas a bandeira brasileira continuará a ser auriverde e a cruz não será substituída pela foice e o martelo.[3]

 

            Com a censura dos meios de comunicação e a campanha aberta e direta contra o comunismo, o Estado militar de 1964 faz planos economicos que favoreceram as multinacionais, elege prioridades no campo da educação por meio de acordos com as agencias de ensino norteamericanas. E entende o turismo como prioridade nacional, colocando que “Coube a Joaquim Xavier da Silveira o privilégio de colaborar com a Revolução na tarefa de promover a integração nacional que é uma das resultantes de um programa  de desenvolvimento do turismo [...]. ( DA SILVEIRA. Turismo Prioridade Nacional. s/d, p. 10 ).     

            Os militares criam a EMBRATUR e usam-na para encobrir a repressão, a tortura, o seqüestro das Forças Armadas junto à população civil. Desenvolvem um ufanismo cívico moralista e fazem desta a ideologia carro chefe para salvar o Brasil do comunismo e adotarmos a vida pró-americana e “democrática” cristã.

            Tanto na década de 1930 como em 1964 o Estado usou do turismo para encobrir os atos de repressão à sociedade, tanto Getúlio e os governos militares posteriores utilizaram do turismo como escudo para que seus interesses de imagem fossem maquiados pelo “paraíso tropical. Se 1930 foi para firmar a imagem de Getúlio como pai dos pobres e dos trabalhadores, em 1964 os militares usaram para divulgar o exotismo do carnaval e da terra dos prazeres tropical.

            Com isso, podemos entender duas questões separadamente; a primeira porque a maioria das feiras internacionais que o Brasil participou o empresariado brasileiro teve um avanço extraordinário em suas vendas e aceitação dos seus produtos no exterior? Pela capacidade de setores que souberam modernizar seus produtos para enfrentar o mercado internacional. A segunda que deve ser percebida separadamente da primeira, a publicidade sobre o Brasil feita pela EMBRATUR de 1966 até 1996 nessas feiras foi uma verdadeira tragédia; o estimulo acentuado a mulheres nuas com o tratamento de país erótico em que a pobreza obriga mulheres a se prostituir como opção de empregabilidade.

            Tudo isso se configura como tragédia que hoje, apesar da campanha contra o turismo sexual pode ser percebido no interior dos aeroportos brasileiros, quando da chegada de vôos charters procedentes do exterior para o nordeste brasileiro. É somente, permanecerem alguns minutos no saguão dos aeroportos e pronto, pessoas inescrupulosos verdadeiros bandidos fazendo o papel de contato com os estrangeiros para agenciar garotas. Bem como a autorização do uso indiscriminado da Marca Brasil que algumas vezes aparece dando suporte a publicações de divulgação de apelo sexual.


 

* Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras” EDUSC, Universidade de Caxias do Sul.  E-mail  joaofilho@onda.com.br

[1] OURIQUES, Helton Ricardo. A produção do turismo: fetichismo e dependência. Campinas: Alínea, 2005, p. 141.

 

[2] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003, p. 327.

* A estátua do Cristo Redentor foi projetada pelo arquiteto francês Paul Landowski e construída pelo brasileiro engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa e iluminada pelo inventor Guglielmo Marconi, de seu iate Ellectra, ancorado na costa britânica.

[3]Revista Manchete. Adhemar Pereira de Barros. Eu desembainhei a espada missionária. Rio de Janeiro, 18 de abril de 1964. Ano II n. 626.               

 

 
  

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::sobre o autor::

JOÃO DOS SANTOS FILHO é bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Foi coordenador dos cursos de Turismo da Faculdade Nobel e também do Centro Universitário Filadélfia de Londrina (Unifil); e professor na Universidade Norte do Paraná de Londrina (Unopar); e professor na Faculdade Maringá – PR. É membro-fundador do Instituto de Análises sobre o Desenvolvimento Econômico Social (Iades) e da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo de São Paulo (ABBTUR/SP).

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