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“Aqui se consome Marx”
João dos Santos Filho
Não sei por que, mas quando pesquisamos sobre Políticas
Públicas de Turismo no Brasil verificamos que se torna uma constante
desconsiderar o turismo doméstico, a não ser em breves menções, na
verdade há um destaque e exaltação, de forma efusiva ao turismo
receptivo. Seria complexo de inferioridade! Entendimento do fenômeno do
turismo como uma atividade exclusiva da elite ou ainda reflexo da falta
de Políticas Públicas responsáveis e competentes nesse campo? Pois
deveriam considerar o turismo como um direito de todas as classes
sociais, mas obviamente surge em primeiro lugar, à questão da
inconsistência acadêmica e teórica no setor e a incompetência daqueles
que foram e são responsáveis por responder pelo turismo nas instâncias
públicas.
Como sabemos pela imprensa, foram para lá indicados
políticos, parentes, compadres, comadres, filhos, políticos
profissionais, marqueteiros, bancários, historiadores, economistas,
advogados, engenheiros e sociólogos todos ótimos profissionais em suas
respectivas áreas, entretanto deixaram muito a desejar no comando do
turismo brasileiro. Pois se sujeitaram aos limites dados pelo Estado
neoliberal e a lógica do Capital que enxerga o turismo como uma
mercadoria barata para rápida acumulação de capital.
Diante do exposto passamos a detalhar uma pequena cronologia
sobre a história do turismo no Brasil, destacando em especial o descaso
com o turismo interno:
1923 - Inicia-se com Touring Clube do Brasil o turismo organizado,
que prestava serviços de reparos automobilísticos, preocupado em
estimular o turismo interno e fazer com que o nosso país ingressasse na
rota do turismo receptivo. Conseguiu ter um quadro de associados,
fundado em 1923, por elementos da classe dominante chamado Sociedade
Brasileira de Turismo.
A idéia da burguesia nessa época era de fato valorizar a
vida nacional, mostrando a história da realidade brasileira, por isso
dedicam inúmeras ações na preservação e melhoria da infra-estrutura da
região das cidades históricas de Minas Gerais, na perspectiva de induzir
o brasileiro a visitar seu país.
Na verdade, a entidade privada Touring Clube do Brasil, em
1938, iniciava a sinalização turística no país e Minas Gerais já fretava
vapores para realizar excursões pelo Rio São Francisco, começava a se
esboçar a administração de um bureau para informações no porto de
Salvador e do Rio de Janeiro, atendendo aos passageiros. Nesse período
podemos dizer que há uma atenção voltada para o turismo interno na mesma
proporção do turismo receptivo.
1939
- O Estado Getulista necessitava, após a implantação da Ditadura,
escolher quem seriam seus interlocutores principais. Para isso, criou,
em 1939, o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, como instrumento
capaz de centralizar e direcionar a ideologia coercitiva junto à
população em geral e aos trabalhadores em particular.
Por isso, Getúlio, ao ser consultado sobre o turismo como
fonte renda, demonstrou certa indiferença, contudo imediatamente sua
filha sugere. “Quem sabe se juntando o
[Serviço de Inquéritos Políticos e Sociais] - SIPS do Filinto
para a organização no interior e o [Departamento de Imprensa e
Propaganda] - DIP do Lourival para a propaganda, se possa começar alguma
coisa nesse setor, ainda que modestamente?” (PEIXOTO, 1960:
361)
E assim, em 1938, nasce à preocupação do governo
Federal para com o turismo no Brasil, seria cômico se não fosse trágico,
mas o mesmo foi pensado junto ao SIPS -
Serviço de Inquéritos Políticos e Sociais,
encarregado da coordenação de elementos informativos de interesse
da polícia Preventiva. Atividades exclusivamente de controle ideológico
em que a espionagem, a policia secreta, a repressão a qualquer outro
discurso que não fosse a ideologia do Estado Novo formatavam as
atividades desse órgão de informação e segurança nacional.
O turismo foi entendido por
Alzira (filha de Getúlio Vargas) como algo capaz de divulgar o Brasil e
levar a imagem de seu pai para o exterior. Por isso, ela só poderia
pensar no turismo, apensado aos órgãos policiais, pois estes é que
sustentavam o Estado Novo e davam a “legitimidade” ditatorial para um
populismo que questionava a dominação norte-americana no território
nacional e dava uma liberdade previamente delimitada às classes
trabalhadoras pelo governo.
Assim entendida, a preocupação
pelo turismo vai aparecer em dezembro de 1939, quando foi
definitivamente criado o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP,
que era fusão entre o SIPS e o setor de propaganda, em cuja estrutura
aparece uma Divisão de Turismo.
Na verdade, o turismo surge aos governantes como solução
para tirar a economia da crise em que se encontra, por isso pensa-se
somente no turismo receptivo, como forma de ingresso de recursos
econômicos, consignado em moeda forte, o dólar. O turismo interno
é algo esquecido e até menosprezado pelo Estado que taxia esse assunto,
quando cria o SESC, SENAC, em 1946.
1956 a 1961 – Tudo indica que
Juscelino queria acelerar o crescimento do turismo doméstico e atrair
para o Brasil o fluxo de turistas estrangeiros, tornando Brasília à nova
porta de entrada do turismo receptivo, apesar de não estar mencionado no
seu Plano de Meta. Em 21 de novembro de 1958, pelo Decreto-Lei n.
44.863, foi criada a Comissão Brasileira de Turismo (Combratur) que
tinha como atribuições realizar o planejamento
turístico nacional.
Na verdade, a
preocupação com o turismo era tanta que o Brasília Palace Hotel foi a
primeira obra definitiva concluída na Nova Capital, inaugurado em 30 de
maio de 1958 e conhecido como Hotel de Turismo. Com capacidade para
hospedar 350 pessoas, funcionou durante 20 anos como ponto de encontro
de autoridades, artistas, moradores da cidade e turistas.
O fluxo de turistas, diplomatas, políticos estrangeiros e
nacionais e funcionários públicos que chegavam para organizar a Capital
Federal crescia de forma constante. O Hotel Palace de Brasília foi
obrigado a atender os turistas e presidentes estrangeiros sem estar
inaugurado
Com uma combinação de fatores de ordem política e de
marketing, articulou, com seu amigo Adolfo Bloch, dono do conglomerado
empresarial Manchete, a revista mais lida no Brasil, de
projeção internacional, para que, após a inauguração de Brasília, no dia
20 de abril de 1960, a editora Bloch lançasse, um dia depois (21 de
abril de 1960), uma edição histórica sobre a inauguração, na revista.
Não é por acaso que
Juscelino Kubitschek nomeou a esposa
de Bloch, dona Lucy,
para ocupar o cargo de diretora da Divisão de Turismo do
Ministério da Indústria - Combratur. A idéia de JK era aproveitar a
criação de Brasília e o ufanismo que reinava na sociedade nacional e
canalizar isso para o turismo.
1964
- Os militares criaram a EMBRATUR em 1966 e usaram-na para encobrir a
repressão, a tortura, o seqüestro das Forças Armadas junto à população
civil. Desenvolveram um ufanismo cívico moralista e fizeram desta a
ideologia carro-chefe para salvar o Brasil do comunismo e para adotarmos
a vida pró-americana e “democrática” cristã.
O Estado usou do turismo para encobrir atos de repressão à
sociedade, tanto Getúlio e os governos militares posteriores utilizaram
do turismo como escudo para que seus interesses de imagem fossem
maquiados pelo “paraíso tropical”. Se 1930 foi para firmar a imagem de
Getúlio como pai dos pobres e dos trabalhadores, em 1964 os militares
usaram do turismo para divulgar o exotismo do carnaval e da terra dos
prazeres erótico e exótico.
Diante dos fatos, entendemos que a essencialidade desse
governo, seja pelo desenvolvimento de políticas públicas para os mais
necessitados nas diferentes estratificações sociais. Assim sendo não
podemos esquecer que:
·
Há uma tendência das políticas públicas no Estado
capitalista de atender do topo da pirâmide até a classe media,
esquecendo e em muitos casos ou desconsiderando por completo os mais
pobres, isso está discutido nas obras dos cientistas sociais; James
Petras e Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Agustín Cueva, Leopoldo Zea,
Mario Benedetti, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Otavio Ianni e
Francisco de Oliveira e muitos outros. .
·
O entendimento que o fenômeno do turismo como uma
indústria, isso ficou celebre em razão de um texto ufanista do antiquado
ex-presidente da Embratur que gostava de colocar propaganda nos táxis da
Inglaterra;
·
A mercantilização do turismo é um movimento que atinge
todos os países, em que o neoliberalismo enxerga como a saída da crise
econômica, principalmente nos país em desenvolvimento. Por isso, seu
apelo é praticamente dirigido para o turismo receptivo e a hospitalidade
toda voltada para o “bem receber do estrangeiro”;
·
O preconceito de que turismo só é possível para as classes
alta e média, pois os pobres não possuem esse direito, por entenderem
que o turismo é algo secundário e supérfluo aos outros extratos da
população;
·
Tornar o turismo a bandeira política da direita e da
esquerda, como se essa atividade fosse capaz de reverter o quadro de
recessão econômica que atinge o planeta;
Dentro dessas variáveis que desgovernam toda e qualquer
atividade de desenvolvimento voltada para políticas publicas séria e que
sejam entendidas em sua totalidade, necessitamos aclarar as seguintes
observações que venho desde 1999 pontuando;
1.
Por que de nossa crítica a “Política Nacional de Turismo”? Porque
a mesma é pensada isolada dos outros setores de desenvolvimento, o que
limita sua extensão de sua abrangência, tornando-a secundária e
periférica em sua ação direta quando colocada na prática. Entender que
ação do turismo deve ser visto em seu movimento histórico e “atender”
todas as classes sociais. Principalmente por aqueles governos
comprometidos com as classes populares como é o caso do PT.
Nada adianta elaborar programas lastreados por uma inteligente
e ardilosa campanha de marketing como foi o caso do
“Vai Brasil” em que a diarista Marinete(s) brasileira, não possui
computador e nem cartão de crédito para poder solicitar os serviços
desse programa. Segundo afirmação do Ministério do turismo as operadoras
e o trade em geral diminuíram as suas margens de lucros. Difícil é
acreditar nisso, pois essas tarifas VB são específicas no período da
baixa temporada.
Quando criticamos a “Política nacional de Turismo” estamos
afirmando que a mesma não possui uma visão de totalidade, mas sim de
parcialidade, pois veja no site do Ministério de Turismo o numero de
programas que aparecem todos apensados há uma estrutura burocrática do
aparelho de Estado nada parcimoniosa.
Parecem serem programas emergências, pois vão surgindo
inspirados numa lógica de marketing ufanista, e laqueados de glamour, em
que a aparência mistifica é sua verdadeira essência. Todas as ações
estão dirigidas para colocar o turismo como salvador da economia
nacional.
BIBLIOGRAFIA
PEIXOTO, Alzira Vargas do Amaral. Getúlio Vargas, meu pai. Porto
Alegre: Globo, 1960.
SANTOS FILHO, João dos. O espelho da história: o fenômeno
turístico no desenvolvimento da história. In
Pasos Revista de Turismo y Patrimônio Cultural.. Volumen 5,
número1 de Enero de 2007.
................................................... EMBRATUR, da euforia
ao esquecimento: o retorno às raízes quando serviu à Ditadura Militar.
Não estamos em uma ditadura militar, mas servimos a quem?
Revista Espaço Acadêmico,
Maringá (PR), nº. 35 abril de 2004.
Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/035/35jsf.htm Acesso em
1 de maio 2008.
............................................... O turismo brasileiro:
equívocos, retrocessos e perspectivas – o balanço que nunca foi feito.
Revista Espaço Acadêmico, Maringá (PR), nº. 25 junho de 2003.
Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/025/25jsf.htm. Acesso
em 1 de maio 2008.
Lucy Bloch esposa de Adolfo Bloch escreve um livro em 1964,
intitulado Guia Turístico.
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