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Desde o momento que tomei conhecimento do
resultado da pesquisa encomendada pela EMBRATUR ao Instituto Zaytec,
intitulada o “Perfil do Turista Estrangeiro e Imagem do Brasil”. Venho
tentando saber mais do referido trabalho, qual foi o projeto elaborado,
o problema destacado, a problemática delimitada, a construção e seleção
de hipóteses, a metodologia utilizada, a construção de objetivos e a
elaboração do questionário. Na verdade tenho buscado entender o
tratamento científico dispensado aos dados coletados dessa pesquisa,
pois há resultados extremamente inéditos e inesperados diante da
percepção que o turista estrangeiro tem sobre o Brasil.
Mas até o presente momento desconhecemos
por completo a metodologia utilizada ou qualquer outra informação desse
discutível trabalho. E se enganam aqueles que pensam que esta minha
preocupação é mera implicância de alguém crítico a “Política Nacional de
Turismo”. Nosso questionamento se deve a essência das pesquisas de
opinião que podem até de forma involuntária levar a constatações
equivocadas ou errôneas.
O filósofo Pierre Bourdieu acredita que a
pesquisa de opinião pública apresenta sérios limites, pois banaliza as
sondagens e possui pouco rigor científico em sua execução, bem como, não
podemos supor que a opinião esteja ao alcance de qualquer indivíduo e
que todas têm a mesma opinião ou tenham de fato interesse sobre o
assunto. Demonstra que as pesquisas desse tipo em turismo são
questionáveis e passíveis de erros qualitativos em razão da hegemonia
dos dados coletados.
Devemos esclarecer que os resultados dessa
pesquisa, afirma de que o “turista estrangeiro mais gosta é do povo
brasileiro”. Essa conclusão carrega um conjunto de impressões subjetivas
e atitudes políticas de cunho ideológico que quando explicitas em sua
essencialidade pode revelar fortes preconceitos, tais como:
-
Gosta do povo brasileiro por achá-lo
exótico, e resultado da miscigenação com o europeu, africano e índio,
acreditando de forma eurocentrista que a ascendência genética
predominante destacada foi dada pelo “colonizador (explorador)
europeu”;
-
Imigrantes brasileiros que moram na
Europa, sabem que a comunidade européia em sua maioria, com destaque
para a Espanha e Inglaterra possui um enorme preconceito xenófobo para
com os povos latino americano;
-
Há agências que organizam os vôos
charter oferecendo mais de um tipo de pacote para o turismo
sexual. Os non-stop party, em que o turista desembarca sem
nenhuma reserva de hospedagem, disposto a realizar sua fantasia
sexual, pois para ele aqui tudo pode. Fica confinado em uma espécie de
hotel de fachada, mas na verdade são casas de sexo especializadas em
adolescentes;
-
As mulheres são oferecidas aos turistas
estrangeiros por taxistas quando desembarcam ou pelo próprio agente de
viagem, barraqueiros e vendedores eventualmente funcionam como
intermediários. Em geral, não recebem nada pela indicação, mas a
menina vira uma espécie de "parceira" daquele que a indicou, ela vai
recorrer sempre a esse taxista para as corridas maiores, ela vai fazer
seu cliente consumir na barraca de praia. Constituem-se em um comércio
silencioso e criminoso regado muitas vezes pela droga;
-
Para burlar a fiscalização, muitos
turistas acabam se hospedando em flats, casas de veraneio, bordéis ou
alugam apartamentos, em que a entrada é menos fiscalizada e o suborno
do porteiro é bem mais fácil;
Esses motivos nós mostram uma percepção
completamente diferente do turista estrangeiro para com o povo
brasileiro, pelo menos aquela que já havíamos comentado em artigo
escrito em 2000 “Carta ao excelentíssimo presidente da República” o qual
passo a transcrevê-la em parte:
http://www.revistaturismo.com/artigos/presidente.html
Lembramos que a EMBRATUR serviu também aos
interesses do Brasil ufanista na década de 70, divulgando a noção de um
país de mulheres lindas, mulatas (de Sargentelli e Joãozinho 30) semi
desnudas, sedutor (marketing que muito tempo serviu de produto de
divulgação para a propaganda, via filmes, pôster e folders enviados para
o exterior), ordeiro, pró-americano e anticomunista para o mundo
(explicitado pelo apoio e a participação da EMBRATUR com seu escritório
em New York, se justifica pela intensa demanda de participação em feiras
e atividades culturais no território americano). O marketing usado pela
empresa acabou timbrando uma imagem veiculada no exterior pela ideologia
de "lugar de sexo fácil", como descreve em sua excelente tese de
mestrado a professora Rosana Bignami Viana de Sá, quando afirma:
A imagem do paraíso não se reduz à idealização da selva primordial em
seus aspectos de flora e fauna. Ela adquire um outro significado que a
relaciona ao pecado original e o país acaba por ser conhecido como o
lugar do sexo fácil e barato.
Mesmo aos olhos do observador pouco atento, é óbvio a tentativa de
atrair turistas ao Brasil através do uso de imagens de belas mulheres e
com referências ao apelo sexual.
Como também, a autora menciona o que se publica no exterior sobre o
Brasil, no caso ela utiliza-se da reportagem de um jornalista italiano
referente a um artigo chamado "Le mete eccitanti d'inverno" da revista
Tutto turismo, em que relata os seguintes comentários do repórter:
" Para os jovens é fácil encontrar companhia, as mulheres brasileiras
não se fazem de difícil, obviamente quando elas têm vontade. Porém, vale
a pena lembrar que o Rio é a cidade onde se encontra o maior número de
prostitutas e de homossexuais em todo continente americano."
A esse exemplo, poderíamos arrolar outros mais, pois a imagem que a
mídia nacional fez no exterior sobre o Brasil deixou uma marca no campo
da sedução, em que belas praias, mulheres e o exótico devem ser
repensadas, principalmente pela EMBRATUR, que apesar de ter amenizado
essa situação, tornando-se mais cuidadosa com seu material de propaganda
promocional enviado ao exterior, o problema hoje adquiriu dimensões
alarmantes.
O fluxo de turistas estrangeiros que chegam ao país em busca do turismo
sexual com adultos e crianças é imenso. O equacionamento desta questão
passa pela existência de um trabalho policial preventivo nos aeroportos,
rede hoteleira e taxistas. Acompanhado de um grande programa educacional
em que a EMBRATUR deveria em conjunto com as operadoras nacionais e
estrangeiras mostrar as complicações jurídico-legais ao turista e a
empresa.
Não podemos negar que o Brasil esta sendo
conhecido no exterior como uma potencia emergente, a economia estável, a
descoberta agora anunciada do Pré-sal, um crescimento pós-crise superior
a muitas outras nações, adquirindo respeito no trato do meio ambiente e
uso de combustível renovável, se constituí em uma liderança política e
econômica junto aos países de todos os continentes.
Obviamente que possuímos ainda profundas
mazelas oriundas das desigualdades profundas, bem como, criadores de uma
Política Nacional de Turismo elitista voltada para o turista
estrangeiro, que há décadas alimentou a venda do turismo brasileiro
acoplada à imagem da mulher brasileira.
O Brasil necessita mudar e tem mudado, mas
duvido, que essa pecha tenha deixado de existir, por isso, enquanto não
tivermos acesso à pesquisa em questão, seremos um crítico a essas
pesquisas mágicas.
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