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Os estudos sobre a historiografia do turismo brasileiro têm revelado
dados curiosos, que são objeto de debates e reflexões junto à academia.
A história do turismo nacional ainda é pouco conhecida, e as relações
pesquisadas estão muitas vezes longe de resgatar suas raízes autóctones,
pois são dados tratados epistemologicamente com bases empíricas
estrangeiras, um tipo de eurocentrismo moderno. Esquecendo-se que os
ditos modelos teóricos para a implantação de núcleos turísticos se
resumem a conclusões de cunho metafísico, sem levar em conta os padrões
históricos societários nacionais, regionais e locais.
Isso nos leva a pensar o fenômeno do
turismo como algo ligado exclusivamente ao desenvolvimento das forças
produtivas capitalistas num viés economicista, em que o neoliberalismo
acena para o turismo como um instrumento de crescimento puramente
econômico para sociedades em geral. É nesta lógica que o sistema
econômico sine qua non governa e acaba determinando aos centros
de pesquisa e estudos a imposição de um modo quasi faciente de
entender o objeto do turismo.
Para ultrapassarmos esse estilo acadêmico
duvidoso e criticável, nossas pesquisas têm revelado que o fenômeno do
turismo brasileiro possui uma historicidade própria, com imensa riqueza
de dados empíricos. Como percebemos, a preocupação pelo turismo vai
ocorrer:
Assim, em 1938, nascia à preocupação do
governo Federal com o turismo no Brasil. Seria cômico se não fosse
trágico, pois o mesmo foi pensado junto ao SIPS - Serviço de Inquéritos
Políticos e Sociais, encarregado da coordenação de elementos
informativos de interesse da polícia Preventiva. Atividades
exclusivamente de controle ideológico em que a espionagem, a polícia
secreta, a repressão a qualquer outro discurso que não fosse a ideologia
do Estado Novo, formatavam as atividades desse órgão de informação e
segurança nacional ( SANTOS FILHO, 2008, p.108 ).
A incorporação burocrática e
administrativa do turismo pelo aparelho de Estado se dá via a tonalidade
policial, como um instrumento de apoio à ideologia dominante, fomentando
a criação de eventos e tipos de atividades de lazer e culturais com o
objetivo de fortalecer o “Estado Novo”. É desse período em 1938, que a
Divisão de Imprensa e Propaganda – DIP cria a Divisão de Turismo e a
coloca como instrumento privilegiado para a construção da imagem de
Getúlio Vargas. E publica a primeira estatística sobre turistas
estrangeiros em visita ao Brasil em 1942:
O movimento turístico, com a guerra e
consequente diminuição do tráfego marítimo, ficou quase que reduzido aos
naturais do Continente americano, notadamente argentinos, uruguaios e
estadunidenses. Ainda assim, no ano passado, o Brasil foi visitado por
1.793 turistas dos Estados Unidos, 1.008 argentinos, 285 uruguaios, 101
ingleses e um menor número procedente de nacionalidades diferentes
(CULTURA POLÍTICA, 1942.V.21, p. 185)
Assim, o fenômeno turístico será um
instrumento usado pelo Estado para dar suporte ao processo de controle
social da sociedade civil, com o objetivo de impor a lógica de uma
sociedade política chamada “Estado Novo” que utiliza o poder de controle
policial e a repressão para governar.
Esse processo se repetiu novamente em 1966
com a criação da EMBRATUR, dois anos após a ditadura militar,
torna-se instrumento de “combate ideológico”, para
tentar ir de encontro à imagem que a imprensa progressista estrangeira
divulgava sobre o Brasil, denunciando a tortura, a prisão e o
assassinato de brasileiros pelos militares golpistas. A EMBRATUR se
caracteriza como uma estrutura responsável em divulgar o Brasil
democrático, pró-americano e cristão, negando a ditadura militar com
ares de um ufanismo nacionalista de direita.
Esses dois processos
utilizam o turismo para garantir ao aparelho de Estado sua
governabilidade, para isso usa e abusa da repressão e controle da
sociedade civil desenvolvendo um modus operandi de combate a todos
aqueles que ousassem criticar o regime militar ou mencionasse a falta de
democracia no Estado Brasileiro, para esses algozes do poder todos são
comunistas.
Essa genética histórica do
turismo brasileiro ainda esta presente e permanece forte, mas com
nomenclaturas diferentes, num país que entende o turismo como sendo uma
atividade exclusiva dos estrangeiros, pelo menos o fluxo de dados
coletados em sua totalidade são exclusivos do turismo receptivo. Os
planos Nacionais de Turismo permanecem como esboços de um rascunho mal
elaborado encima das necessidades extemporâneas de setores hegemônicos
do trade turístico voltado para o turista estrangeiro.
Por não estar voltado
prioritariamente para o desenvolvimento do turismo interno, não consegue
formalizar nenhum plano voltado às necessidades nacionais e
automaticamente fica fora das prioridades orçamentárias de governo.
Transitando ou parasitando no lobby das emendas parlamentares,
instrumento escroto e imoral da democracia neoliberal. Sem verba o
Ministério do Turismo fica a mercê dos interesses de políticos que
despejam suas emendas parlamentares, com a intenção de atender suas
bases políticas que nada tem a haver com o turismo, ou contratarem
eventos “turísticos”, “culturais”, partidários e até religiosos, em que
as empresas contratantes apresentam alguma relação de parentesco ou de
amizade com políticos ou funcionários da estrutura governamental.
Obviamente que o
Ministério do Turismo, por mais que deseje, não se pode apresentar um
planejamento de atividades baseados em um Plano verdadeiramente Nacional
de Turismo, mas sim ficar na mão de políticos barganhistas. Que dominam
a estrutura administrativa do turismo no governo Federal e fazem parte
do folclore turístico brasileiro.
Na história do turismo brasileiro,
encontramos inúmeros momentos caricatos cheio de humor, embalado pela
idéia do sofisticado chiquê. Essa é a noção que alimenta o imaginário
dos políticos curiosos, que sempre estiveram à frente dos órgãos
públicos de turismo, uns mais dedicados a viajar, outros que faziam
questão de elitizar a atividade para sair na coluna social, outros,
ainda, servindo-se do cargo para galgar posições políticas maiores na
área pública ou privada.
O turismo marca a idéia do lúdico, da
viagem, do deslocamento, do divertimento e do descanso; tudo isso
alimentado pela ideologia neopositivista de que essa é uma atividade
reservada às classes abastadas e, portanto, a ênfase é para o turismo
receptivo e não para o turismo interno.
A presidência da EMBRATUR e do Ministério
do Turismo continuam sendo, palcos de disputa de políticos que indicam
protegidos do partido, dos militares e dos meios de comunicação. Essa é
uma prática corriqueira e comum no interior do Estado brasileiro que
secundariza a competência profissional a favor do apadrinhamento
político.
Bibliografia
CULTURA POLÍTICA.
Revista Mensal de Estudos Brasileiros. Rio de Janeiro: Departamento
de Imprensa e Propaganda - DIP. Ano II, n. 21, 10 de novembro de 1942.
SANTOS FILHO, João. O Turismo na era
Vargas e o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP. Revista de
Cultura e Turismo – CULTUR, Santa Cruz, ano 2, n.02, 2008.
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