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RESUMO
As políticas públicas
de turismo no Brasil, desde a criação da Empresa Brasileira de Turismo –
EMBRATUR, em 1964, até o final da gestão do ministro Walfrido dos Mares
Guia, apresentam algumas características comuns como a exaltação
desmedida das atratividades nacionais no contexto de ações do Estado que
privilegiam investidores e turistas internacionais, além de programas
que não têm viabilizado mudanças na estrutura social do país. Portanto,
suas características principais estão interligadas ao ufanismo, à
sandice e à galhofa.
Para entender tal situação, são estudados e evidenciados acontecimentos
históricos em conjunto com o turismo nacional, num desvendar de segredos
que somente a Economia Política pode nos auxiliar a fim de compreender
esse objeto.
PALAVRAS CHAVE:
turismo, políticas
públicas, ufanismo, sandice, galhofa.
UFANO,
TONTERIA Y GALLOFA SON ATRIBUTOS DE LAS POLÍTICAS PÚBLICAS.
GT 5 – PLANEAMENTO Y POLÍTICAS PÚBLICAS. CATEGORIA
POSTGRADO
RESUMEN –
Las políticas publicas de turismo en Brasil desde la
creación de la empresa Brasileña de Turismo – EMBRATUR en 1964 hasta el
final de la gestión del ministro Walfrido dos Mares Guia. Presentan
algunas características comunes como la exaltación desmedida de las
atractividades nacionales en el contexto de acciones del Estado que
privilegian investidotes y turistas internacionales. Además de programas
que no viabilizan cambios en la estructura social del país. Por tanto,
sus características principales están interrelacionadas al ufano,
tontería y gallofa. Para eso, son estudiados y evidenciados
acontecimientos históricos en conjunto con el turismo nacional, en un
desvendar de secretos que solamente la Economía Política puede
auxiliarnos a comprender este objeto.
PALABRAS
CLAVE:
turismo, políticas públicas, ufano, tontería, gallofa.
ESCLARECIMENTOS
PRELIMINARES
As políticas públicas de turismo no Brasil acompanham a
trajetória das descontinuidades administrativas do Estado brasileiro e
apresentam algumas características básicas comuns que alimentam um
continuísmo administrativo. Nossa intenção é demonstrar que estas
questões seguem e persistem na matriz ideológica de base idealista a
favor do turismo receptivo.
Para tanto, optou-se pelo estudo geral das principais linhas
de ação presentes nos principais períodos históricos em que o turismo
foi objeto de política pública ou, pelo menos, assim se apresentou. Para
a compreensão dessas políticas, realizamos inicialmente uma abordagem do
Estado Neoliberal, que delega, ao setor privado, a responsabilidade de
planejamento e fomento da coisa pública, esquecendo-se de que a
competitividade imposta pelo sistema faz com que o núcleo central de
preocupação da iniciativa privada seja responsável pela manutenção e
ampliação da mais valia e não das necessidades coletivas sociais.
Justamente no contexto do Estado mínimo e também na
utilização da máquina estatal em favor de interesses privados, são
produzidas pontualmente algumas políticas públicas de turismo,
caracterizadas pelo ufanismo, pela sandice e pela galhofa. Podemos
compreender o ufanismo como a idolatria aos atrativos da pátria, e,
propriamente no turismo, diversas ações foram e têm sido influenciadas
por esse discurso,
com a idealização de regiões com base em um glamour
apelativo e construído artificialmente.
Outra
dimensão problemática na qual se apóiam as diretrizes do turismo
nacional é a sandice do estabelecimento de uma estrutura incompatível
com a realidade sócio-econômica brasileira, uma vez que foi e continua
sendo formatada para o estrangeiro. E, finalmente, também motivo para
galhofa, é o programa Roteiros do Brasil que, por não se basear na
organização do turismo e em outros setores a nível local, deixa de ter a
consistência necessária para promover mudanças substanciais. A partir
desses apontamentos,
foi elaborado o presente trabalho, evidenciando que a história e o
turismo se cruzam num desvendar de segredos e fatos caracterizados pelo
exagero vinculado à insensatez e ao gracejo, que, somados, resultam
geralmente em tragédia.
1 O DESMORONAMENTO DO ESTADO PELAS AÇÕES NEOLIBERAIS
O auxilio da
abordagem histórico-crítica, no contexto do que são políticas públicas,
permite a compreensão dos direcionamentos do turismo nacional. As
comunidades gregas referiam-se às cidades como polis, daí vem o
termo política: ações que têm como foco a administração dos negócios
públicos, a polis, o Estado. Como salienta Chevallier (1982, p.11), “uma
política deve necessariamente tomar posição em face dos problemas da
natureza do homem, de sua condição e de seu destino [...]”, sendo que
qualquer classe política deve posicionar-se em relação ao Estado e as
políticas públicas devem ser pensadas e elaboradas tendo em vista o
benefício das vontades e necessidades coletivas.
Para o
entendimento das políticas públicas na atualidade, é necessário partir
do seu eixo norteador, ou seja, o Estado Neoliberal. Com um enfoque
centrado nas características da sociedade contemporânea, o termo
remete-nos ao que é novo, indicando a recuperação e reformulação de
idéias e ações liberais - o chamado pós-modernismo.
Trata-se do liberalismo com vestes novas, colocadas justamente para
promover o desmonte e pulverização do Estado em benefício de corporações
nacionais e estrangeiras.
Nesse
sentido, convêm salientar que a fundamentação e as atitudes de governos
neoliberais tentam negar a existência da luta de classes, valorizando a
necessidade dos fatores de produção, substituindo a idéia de conflito
entre as classes sociais pelo pacto da harmonia e coexistência pacífica
de interesses. Para os neoliberais, todos os bens possuem valor em
função da utilidade que os mesmos apresentam aos consumidores, não
considerando a teoria do valor trabalho e as relações de produção que
dominam o mercado capitalista. Para os neoliberais, existem bens e não
mercadorias, pois consideram que a noção de bem se associa à satisfação
de desejos do ser humano, sendo que o objeto só adquire valor em contato
com o sujeito, ou seja, ele não tem um valor de troca em si, mas somente
quando entra em contato com a pessoa.
É justamente
essa a fundamentação do discurso utilizada pelos neoliberais para
defender o afastamento do Estado e a livre circulação de mercadorias,
porque, por meio dele, espalham a idéia de que todas as coisas funcionam
equilibradamente no contexto de um sistema em que a oferta se ajusta às
pressões da demanda, e os custos de produção se ajustam ao valor
determinado pelas preferências individuais (SOUZA, 2000), ou seja, é o
mercado que regula a atividade produtiva, e o Estado não deve interferir
em qualidade, preço, quantidade, localização geográfica e distribuição.
Na fase de
mundialização do Capital, em que os investimentos de corporações ocorrem
em território mundial e a globalização financeira evidencia-se, a
tendência é o aumento da competitividade dos mercados, tendo como braço
operacional os conglomerados transnacionais. Nesse sentido, os governos
subservientes ao capital internacional privilegiam o mercado em
detrimento da coletividade e caminham a passos largos para acentuar o
grau de dependência que já era marcante no Brasil desde a década de 50:
As economias
centrais, depois de consolidarem seu sistema econômico nacional de
maneira autocentrada, impulsionados pelo dinamismo da reprodução do
capital, ampliaram em escala mundial o seu espaço vital, modelando assim
a natureza extrovertida da economia periférica. Posteriormente, a partir
do último pós-guerra, em decorrência da superacumulação de capital e das
vantagens comparativas quanto ao emprego da mão-de-obra, realizaram o
deslocamento da produção e do capital do centro para os países
subdesenvolvidos, bloqueando o desenvolvimento das economias nacionais
emergentes e superpondo-se aos próprios Estados nacionais, submetidos
por razões óbvias aos seus interesses. (MACHADO, 1999, p.134)
A Ditadura
Militar dilapidou o Estado brasileiro e abriu um campo propício à
corrente de pensamento e ações neoliberais, potencializando o grau de
dependência do Brasil e abalando os projetos de base nacionalista em
prol dos ditames políticos e econômicos de países dominantes. Com o
declínio do Estado de Bem-Estar Social em diversos países, começaram, a
partir do final de 1970,
as políticas
neoliberais.
Especificamente no Brasil, Collor iniciou a fase neoliberal de forma
audaciosa, que foi expandida e aprimorada por Fernando Henrique Cardoso
e teve continuidade com Luis Inácio Lula da Silva. Enquanto esperava-se
que este governo rompesse com os interesses do Fundo Monetário
Internacional, iniciasse de fato a reforma agrária e recuperasse o
Estado do processo de privatização iniciado há décadas, ele, ao
contrário, não promoveu rupturas com o neoliberalismo (ANTUNES, 2004).
São políticas dos governos que seguem esta corrente: a promoçao da
desregulamentação, o aniquilamento dos sindicatos, a privatização e a
concessão à iniciativa privada com a desmontagem dos serviços públicos e
a “polarização social” (ANDERSON, 1998, p. 19). Na fase atual do
Capitalismo, as atitudes dos governos neoliberais são legitimadas pela
sociedade quando esta é despolitizada, passiva e desagregada
socialmente. Assim, sua disseminação e aplicação pode ser percebida
quando se deixam de lado os projetos nacionais e adotam-se os
transnacionais; promove-se a separação entre política, Estado e
sociedade; e utiliza-se a máquina estatal em prol das classes que detêm
os meios de produção nacionais ou transnacionais (IANNI, 2004, p.56).
Para Bauman (1999, p.15), está em curso “um consistente e inexorável
deslocamento dos centros de decisão, junto com os cálculos que baseiam
as decisões tomadas por esses centros, livres de restrições
territoriais”. Esse é o campo para o entendimento das políticas públicas
atuais de turismo no Brasil: com o afastamento do Estado em prol da
iniciativa privada e imposição de suas regras, tem ocorrido uma
verdadeira destruição das iniciativas desenvolvimentistas de caráter
local:
A
dominação de grupos transnacionais que prezam tão somente as
“perscpectivas de retorno” e, para isso, não internalizam custos sociais
e ambientais, ocasionam, muitas vezes, um verdadeiro apartheid
entre complexos e populações locais. A privatização de localidades que
podem se firmar como destinos turísticos e todas as demais
atividades-chave para a soberania de uma nação [...] faz parte do anseio
de dominio do capital internacional que atende, única e exclusivamente,
a seus objetivos de lucro. (MARTONI, 2006, p.86)
Assim,
escrever sobre as políticas públicas de turismo no Brasil constitui um
passeio histórico repleto de entusiasmo e também de grandes decepções,
pois a preocupação do Estado capitalista brasileiro sempre foi com o
turismo receptivo, como instrumento para a captação de recursos
econômicos e poucas vezes direcionado ao lazer e ao turismo interno da
classe trabalhadora, salvo nos períodos do Estado populista.
As reflexões posteriores, além de apontar a trajetória histórica das
políticas públicas de turismo, salientam a necessidade de rompimento e
mudanças que não foram realizadas pelo ex-ministro Mares Guia.
2 REFLEXÕES SOBRE AS
POLÍTICAS PÚBLICAS DE TURISMO: DE 1970 À GESTÃO DE MARES GUIA
Em 1975,
ocorreu, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional sobre Lazer, Cultura,
Recreação e Educação Física, realizado pelo Serviço Social do Comércio,
Serviço Social da Indústria e Ministério do Trabalho. O evento foi
realizado no Hotel Glória, em plena Ditadura Militar, de 24 a 29 de
agosto, recebendo todo o apoio do Estado que entendia o lazer como
instrumento capaz de amenizar a relação capital e trabalho.
O evento foi
marcado pela presença de autoridades, como o Ministro do trabalho
Arnaldo da Costa Prieto, que roubou o espetáculo: no começo de sua
exposição, perante um auditório com mais de 700 pessoas, houve um
estampido que movimentou a segurança do referido ministro. Tratava-se da
lâmpada de magnésio de um dos potes de iluminação apoiado por um tripé
que estourou. O tumulto foi resolvido quando um dos operadores de câmara
detectou o acidente.
Após o
esclarecimento do fato, as pessoas voltaram a seus lugares e a calma
tomou conta do ambiente. O ministro do trabalho, que havia levado um
enorme susto, pensando que se tratava de um atentado contra ele, retomou
a cadeira e sentou-se. O que ele não sabia é que a substância da lâmpada
de magnésio fora arremessada, com o estouro, diretamente em seu assento.
O bravo ministro deu início à palestra, permanecendo sem movimentos
bruscos dos quadris e, ao terminar, foi direto para o hospital cuidar do
glúteo. O curioso é que, neste encontro, foi apresentado um programa
elaborado nos Estados Unidos contra a obesidade e a falta de exercícios
físicos dos americanos. Chamado “Mexa-se”, foi posteriormente copiado
pela TV Globo, com o apoio do governo militar como forma de desviar
atenção dos acontecimentos de repressão e tortura às quais a população
civil estava submetida.
Apesar de
entendermos os interesses da Ditadura e do principal meio de comunicação
do país em oferecer à sociedade a ideologia do “pão e circo”,
entendemos, também, que pelo menos havia ou sobrava a “nobre” intenção
de demonstrar preocupação com o lazer e o turismo da população
brasileira. É possível perceber que, nesse período, a burguesia,
juntamente com governo militar, incentivou a prática do esporte, lazer e
recreação, como forma de criar uma juventude sã e com moral civilista
para a construção de uma cidadania sem a ideologia comunista.
O turismo e
o lazer foram objetos de um encaminhamento pelo Estado quando ocorreram
as discussões e seminários elaborados pelo pioneirismo do professor,
investigador e sociólogo Renato Requixá que, na direção do SESC, criou
uma equipe de pesquisadores e trouxe para o Brasil Pierre Lane e o
sociólogo e educador francês Joffre Dumazedier. Na ocasião, conseguiu-se
colocar o país na discussão humanista do esporte, lazer e recreação,
além de destacar o turismo como algo que pertence e é direito de todas
as classes sociais.
Nessa época,
parte dos meios de comunicação, fora obrigada a defender o golpe
construindo a idéia de que os militares vieram para salvar a nação da
corrupção e do comunismo, fazia oposição aos mesmos, publicando nos
jornais receitas de bolo no espaço da matéria censurada. Outros, como os
tablóides, atreviam-se a publicar abertamente textos combativos ao
governo ditatorial.
Com isso,
percebemos que nem tudo foi perdido, porém os processos de
descontinuidade e apagamento da memória histórica, no que se refere às
políticas públicas de turismo no Brasil voltadas à população
trabalhadora, sofreram um processo constante de amnésia. Não se
enfatizam, entretanto, os períodos dos governos populistas em que a
prática esportiva e de lazer era estimulada pelo Estado, que construiu
centros esportivos e abriu espaços campestres e balneários para a classe
trabalhadora. O que fica em evidência são os dados quantitativos
referentes ao aumento dos gastos pelo turista estrangeiros; o culto a
uma hospitalidade voltada para os não-nacionais; o número de eventos
captados no exterior; o aumento dos vôos chartes e a prática do
turismo sexual. Na verdade, historicamente, as políticas públicas de
turismo partem de um planejamento pautado e pontilhado pelo ufanismo,
sandice e galhofa.
2.1 UFANISMO
[De ufano, do
v. ufanar, + -ismo; por alusão ao livro Por que Me
Ufano do Meu País, do Conde Afonso Celso.] S. m.
Brás. Atitude, posição ou sentimento dos que, influenciados pelo
potencial das riquezas brasileiras, pelas belezas naturais do país,
etc., dele se vangloriam desmedidamente. (FERREIRA, 1986)
O ufanismo é
um produto que surge, forma-se e se desenvolve em decorrência dos
interesses do Capital, por meio de um movimento de dupla pressão
econômica e ideológica. A primeira é decorrente do processo de
colonização (exploração e pilhagem) dos trópicos que transformaram o
continente latino- americano em uma grande empresa para o comércio de
mercadorias, com base nos recursos naturais que foram sugados dentro da
lógica imperialista. Esta questão fica clara nas pesquisas realizadas
pelo historiador Eduardo Galeano, em seu livro
As veias abertas da América – Latina:
É a América Latina a
região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se
transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como
tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de
poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais,
os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos
naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de
classes de cada lugar têm sido sucessivamente determinados, de fora, por
sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. (GALEANO, 1985,
p.14)
A segunda
ocorre pela cristalização do poder político, que a burguesia concentra,
determinando qual será a imagem do país que deve ser veiculada no
exterior. Podemos começar pela Carta sobre o descobrimento do Brasil,
escrita por Pedro Vaz de Caminha, em que encontramos a seguintes
referências principais:
Pardos, nus, sem
coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.
Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção
ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos;
E tomou dois
daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons
corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia
andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou;
A feição deles é
serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem
feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir
ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca
disso são de grande inocência.
Ambos traziam o
beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento
de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta
como um furador. (www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta.html).
Os
colonizadores (entendidos como exploradores), quando aqui desembarcaram,
trouxeram consigo uma determinada visão de mundo lastreada de
preconceitos, que vão refletir o comportamento que os mesmos tiveram
para com os nativos da terra, seja destruindo ou explorando, embora
sempre integrado a uma fricção inter-étnica como diria Darcy Ribeiro.
Portanto, escravizar, estuprar e matar os nativos da terra eram atos
comum entre os exploradores europeus.
O contato
dos portugueses com os nativos foi algo extremamente traumático, visto
que a cultura mais frágil militarmente se perdeu. O fato é que o
processo neocolonialista, implementado pelo Capital, adquire e
reveste-se de um caráter de exploração usando o viés religioso, como
pode ser percebido na Carta de Caminha. Contudo, esse processo revela
que seu real interesse eram os recursos minerais e humanos. Darcy
Ribeiro, em seu livro “O povo brasileiro”, esclarece-nos esse fato,
quando afirma:
Visivelmente, os
recém-chegados, saídos do mar, eram feios, fétidos e infectos. Não havia
como negá-lo. É certo que, depois do banho e da comida, melhoram de
aspectos e de modos. Maiores terão sido, provavelmente, as esperanças do
que os temores daqueles primeiros índios. Tanto assim é que muitos deles
embarcaram confiantes nas primeiras naus, crendo que seriam levados a
terras sem Males, morada de Maíra ( Newen Zeytung 1515 ). Tantos
que o índio passou a ser, depois do pau-brasil, a principal mercadoria
de exportação para a metrópole. ( RIBEIRO, 1995, p.42 )
A idéia de
que os brasileiros são liberados e que “tudo pode”, porque não há
limites para seu comportamento sexual, é uma lógica construída
historicamente decorrente daquilo que os colonizadores aqui
presenciaram, segundo seus preconceitos. Eles viajaram cerca de 40 dias
entre Portugal e Brasil, chegando exaustos e imundos, afinal se banhavam
nos navios com vinagre e era comum sofrerem com diarréias e vômitos.
Ao
desembarcar, sentiam o cheiro da mata nativa composta de vários odores
fantásticos, ao mesmo tempo em que se deparavam com um novo mundo, sendo
estes recursos acentuados pelas lembranças do tempo infernal de moradia
no navio. Seus olhos adquiriam uma percepção de estar no paraíso,
refletida na afirmação de que “as suas vergonhas, tão alto e tão
cerradinho e tão limpo das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos,
não se envergonhavam”. O texto de Caminha esta repleto de comentários
referentes ao impacto da nudez sentido pelo estrangeiro. Em uma parte,
afirma: “suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim
descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma”, e em
outra, completa com uma declaração de apreciação estética: “Nosso Senhor
lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons”. Mais adiante,
admite que o povo nativo seja “gente bestial, de pouco saber e
por isso tão esquiva”, mas volta a elogiá-lo: “e naquilo me
parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz
o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus
são tão limpos, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser”. Mais
adiante, descreve uma situação difícil e cômica ao mesmo tempo:
Entre todos estes
que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre
à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em
volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de estendê-lo muito
para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de
Adão não seria maior -- com respeito ao pudor. (CAMINHA)
Não há
dúvida que os portugueses entendiam o Brasil como um paraíso sexual,
sendo os trópicos a base do reino das belezas naturais do homem e da
mulher (por isso achavam que haviam descoberto o paraíso terrestre) em
que todos viviam nus. Na verdade, uma terra sem rei e sem lei, onde tudo
se pode e nada é impossível. Estes elementos sinalizam a visão
etnocentrista que trabalha com um arcabouço de formas, caminhos e razões
que o pensamento produz por meio de profundas distorções que se
perpetuam nas emoções, sentimentos, valores, pensamentos, imagens e
representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós,
isto é, o outro. Este problema não é exclusivo de uma determinada época
nem de uma única sociedade, visto que o etnocentrismo se constitui uma
das tendências presente na história da humanidade.
Assim,
salientamos algumas de suas características que se sobressaíram na
segunda metade da década de 60.
O Regime Militar de 1964 teve
apoio das classes conservadoras e de setores fundamentais da sociedade
civil. Nos centros escolares, haviam os famosos “dedos-duro”, e os
professores que discordassem do regime ou promovessem o pensamento
critico dos alunos eram sumariamente presos e interrogados, demitidos,
torturados e/ou mortos. Esta época, aclamada de ufanista apareceram os
slogans: “Brasil, Ame-o ou deixe-o”; “Este é um País que vai
para frente”; “Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo” (esta
alusiva à Copa do Mundo de
1970, a famosa
“Lei de Gerson”); “Ninguem segura este país”; “Brasil potência”; “Brasil
gigante”.
O governo
passou a usar a propaganda formatada por um marketing de primeira linha
para conseguir a simpatia do povo e, com isso, construir um Estado que
dissiminasse a sensação de otimismo generalizado, visando esconder os
problemas do regime militar fascista. O futebol foi usado com objetivos
ufanísticos, pois há uma militarização em sua organização desde a
escolha de jogadores, passando pelo técnico, até a estrutura física dos
grandes estádios de futebol.
Quando os militares se deram conta de que o desenvolvimento do turismo
poderia ser uma saída para combater a crise economica, social e moral do
Estado, o qual haviam recem submetido ao golpe, criaram a EMBRATUR e,
posteriormente, o Sistema de Turismo, vinculado ao Ministerio das
Relações Exteriores, como pode ser constado no livro de Joaquim Xavier
da Silveira, primeiro presidente da EMBRATUR:
O turismo
passava a ser considerado indústria básica constituindo atividade de
interêsse nacional. Permitia-se pela primeira vez aplicação de
incentivos fora das áreas da SUDENE e SUDAM, entregando-se à
iniciativa privada instrumento eficiente e capaz de imprimir um nôvo
ritmo ao desenvolvimento do turismo. (SILVEIRA, s/d, p. 21)
Nessa
perspectiva, o turismo adquire a qualificação de mercadoria e, para tal,
havia necessidade da criação de uma estrutura ágil com a finalidade de
promover o Brasil no exterior e divulgar uma imagem que apelasse para as
“qualidades inatas” do povo brasileiro. O intuito principal era combater
o perigo dos comunistas que estavam alojados na imprensa brasileira, bem
como daqueles que foram para exterior e eram os responsáveis pela
propaganda difamante contra o Brasil por meio de publicação de
tablóides, panfletos, jornais e revistas que denunciavam a ditadura
fascista, suas torturas e execução de seus oponentes. O General Milton
Tavares de Souza expõe que:
Há uma frente de
informação que difama nosso país e mantém em nossa terra repórteres que
mentem lá fora, apresentando um quadro brasileiro inteiramente
falsificado, inteiramente pejorativo. Nada de importante acontece no
país sem a ação dos comunistas. Há uma poeira vermelha nos olhos do povo
e de grande parte das autoridades brasileiras. (O Estado de São Paulo. 2
de outubro de 1976)
A EMBRATUR
foi criada oficialmente com a função de ordenar uma política nacional de
turismo, conforme relata, Joaquim Xavier da Silveira, um dos diretores
da Associação Comercial do Rio de Janeiro. A ascensão ao cargo
demonstrava o poder do Rio de Janeiro como força do turismo nacional e a
tônica do padrão dado à divulgação do Brasil: mar, sol e mulheres
douradas da praia de Ipanema, com seu biquíni, padrão exportação.
Extra-oficialmente, tratava-se de um órgão encarregado de fazer a
contrapropaganda dos exilados no exterior, enaltecendo as maravilhas do
Brasil, ao passar a idéia de país dos trópicos e núcleo mundial do
pecado capital. Buscando sua função inicial de porta-voz do governo
brasileiro, elaborou uma campanha mercadológica oficialista, mostrando a
idéia de um Brasil multirracial de tonalidade pacífica, democrático e
ordeiro para o mundo.
Nessa época,
apelou-se para uma propaganda de exploração do erotismo e da beleza da
mulher brasileira, bem como para o lado exótico e a diversidade
cultural, de nosso povo demonstrando uma convivência social cuja
existência era mais produto de romances e novelas do que da realidade
histórica do país. A estratégica consistiu em se montar uma propaganda
política oficial que seria veiculada por meio de um órgão de turismo, em
que as belezas do Brasil serviriam para ocultar o que de fato estava
ocorrendo no país. Com um apelo voltado à plástica da mulher brasileira,
ao carnaval e à hospitalidade do povo em bem-receber o turista
estrangeiro, criaram-se instrumentos que exploravam o lúdico das
pessoas, transmitindo-lhes uma mensagem de otimismo e ufanismo
nacionalistas.
O ufanismo,
quando usado no discurso, configura-se como uma linguagem que utiliza a
filosofia existencialista averbada pelo idealismo vulgar, que só permite
o entendimento da realidade via idolatria a princípios etnocêntricos.
Este discurso palmilha a política brasileira do turismo, constituindo um
elemento presente em quase toda a literatura produzida dentro e fora da
academia. A nossa preocupação é que no turismo há um apego ao lúdico e
uma constante tentativa de idealizar uma região, segundo os parâmetros
de um glamour apelativo e construído artificialmente que, não
raras vezes, vaza para as raias do irracionalismo. Associado aos
interesses dos empreendimentos turísticos, a fala ufanista facilita
ações para a reprodução e manutenção do Capital que nem sempre faz parte
do interesse coletivo. Esse ufanismo produz uma idealização nacional que
alimenta e formata a imagem que divulgamos do Brasil no exterior, desde
a chegada dos europeus até a atualidade.
2.2 SANDICE
[De sand-,
como em sandeu, + ice.] S. f.
Qualidade, condição
ou ação de sandeu; necedade, parvoíce, insensatez, tolice (FERREIRA,
1986).
O Plano
Nacional de Turismo 2002 a 2007 está comprometido, por sua natureza, com
princípios economicistas, próprios do discurso neoliberal no qual foi
formatado, cuja base é a busca do crescimento econômico do turismo
decorrente da criação de serviços destinados a atender exclusivamente o
turista estrangeiro. Isto fica explícito na mensagem do senhor
Presidente da República:
É inegável a nossa
vocação para o turismo. Dispomos de todas as condições para cativar
nossos visitantes – praias, florestas, montanhas, rios, festivais,
culinária diferenciada, parques nacionais, cidades históricas e a
tradicional hospitalidade brasileira, assim como, os equipamentos, as
empresas, e a qualidade dos serviços já encontrados em muitas regiões do
país. Receber bem é o traço marcante do nosso povo. A mistura de nossas
raças gerou uma gente alegre, solidária, onde todos se encontram nas
diferenças, num ambiente de convivência pacífica. Somos um país de
todos. (PLANO NACIONAL DE TURISMO - 2003 A 2007, p. 3)
Nessa parte
do discurso, fica evidente o turismo entendido como uma potencialidade
natural, quase como uma vocação “genética” para uma hospitalidade
brasileira, elaborada historicamente segundo a índole integrativa do
português e do escravo obediente “para cativar nossos visitantes”. Este
discurso voltado para incrementar o turismo receptivo evidencia que
“somos um país de todos” e passa a idéia de que não temos diferenças
sociais ou qualquer tipo de racismo.
A premissa
básica que sustenta o entendimento desse turismo é a lógica do turismo
receptivo que, por sinal, todos os patamares do trade turístico
devem priorizar. Isso pode ser visto e confirmado quando a mensagem se
refere à criação de novos empregos pelo turismo – trata-se somente de
dados quantitativos que não refletem a realidade de regiões onde são
crescentes os interesses privados devido à omissão do Estado. Mais
adiante, é abordado novamente o turismo receptivo:
Além dessas
perspectivas, o turismo pode cumprir um perfil importante no equilíbrio
da balança comercial, com o ingresso de novas divisas, por meio do
aumento no fluxo de turistas estrangeiros e da atração de investimentos
para a construção de equipamentos turísticos. (PLANO NACIONAL DE TURISMO
– 2003 a 2007, p. 5)
Para
finalizar e endossar a prioridade ao turismo receptivo, a mensagem
justifica a transformação da EMBRATUR em um órgão voltado ao marketing e
à captação de eventos no exterior:
Por todos esses
motivos, já em campanha havíamos assumido o compromisso de criarmos o
Ministério do Turismo e de profissionalizarmos a EMBRATUR, voltando o
seu foco para a promoção, marketing e o apoio à comercialização do
produto turístico brasileiro no mundo. (PLANO NACIONAL DE TURISMO – 2003
A 2007, p. 5)
Como adequar
essa proposta com a diminuição das desigualdades sociais? As políticas
promovidas pelo Governo Federal, por meio da estrutura do Ministério do
Turismo, não contempla a diminuição das desigualdades sociais, ao
contrário, antes de tudo, têm aumentado a competitividade econômica de
alguns investidores do setor. Esta é uma questão que deve ser colocada
em evidência e revista pela Ministra Marta Suplicy, uma vez que os
programas gerenciados pelo poder público priorizam os grandes
empreendimentos turísticos estrangeiros que geralmente não têm
beneficiado a coletividade.
Verifica-se,
atualmente, essa realidade em projetos e complexos efetivados de grupos
como o Reta Atlântico (português), Pestana (português), Iberostar
(espanhol), Amorim (português), Marriot (estadunidense), Accor
(francês), Vila Galé (português) Studio Europa Engineering (italiano) e
outros que contemplam principalmente o turismo de sol e mar. Com isso, é
possível identificar dois processos: o primeiro atinge as comunidades
nativas, pois esses empreendimentos, com a conivência do Estado, atuam
na contra-mão de políticas de inclusão social, gerando tão somente
subempregos. O segundo contempla a possibilidade de “ser” turista, pois
há um verdadeiro “abismo” entre os empreendimentos e os turistas
nacionais, uma vez que a estrutura é totalmente imprópria à realidade
sócio-econômica de parcela considerável da população. Assim, o
território é formatado para aqueles que podem gastar: os estrangeiros.
O Estado
libera, para os estrangeiros, sem qualquer restrição ou ações de
regulamentação consistentes, a aquisição de imóveis e empreendimentos no
litoral brasileiro, sendo que esse procedimento trará, para a população
local, um impacto cultural, econômico, político e social sem
precedentes, em que o sentimento de exclusão aparecerá mesclado ao
sentimento de um novo processo de colonização no contexto da
globalização, assim, como querem os neoliberais:
Esse processo de
globalização do turismo atende aos interesses do capital internacional
que, na falsa premissa de trazer emprego e desenvolvimento para as
localidades, acaba ampliando a miséria e o desespero das populações
nativas e regionais. Cria-se uma discriminação étnica que poderíamos
chamar de um verdadeiro apartheid do turismo, estimulado pelos
grandes empreendimentos nacionais e estrangeiros que isolam a população
nativa do convívio para com o turista. (SANTOS FILHO,
2003, p.374)
Aparelhados
pelo Estado e seguindo a lógica da competitividade, os investidores têm
aproveitado a abertura para investir em territórios que estão sendo
internacionalizados por conta dos vultosos investimentos. Aproveita-se
de nossos recursos e potencialidades paisagísticas e comprometem-se
implicitamente somente com o fluxo de dinheiro e altos lucros. Ações
sociais fazem parte tão somente de estratégias mercadológicas para o
aumento da competitividade e manutenção da aparência que, de forma
contrária, não ocorreriam.
Nesse
sentido, o discurso que busca o entendimento do fenômeno do turismo pelo
viés puramente economicista limita e obscurece o caminho da razão para o
entendimento do real e adere aos planejamentos em que o respeito à
sustentabilidade está condicionado aos interesses da reprodução do
Capital. O fato é que há uma estratificação que garante aos interesses
do grande capital a prioridade no turista estrangeiro, tornando os
programas e metas que contemplam o turismo interno em ações secundárias
para uma política pública de turismo.
Por isso,
entendemos que, apesar dos esforços direcionados ao turismo brasileiro,
o governo pecou por deixar a lógica neoliberal comandar e
instrumentalizar os interesses das classes trabalhadoras. Pode-se
destacar, assim, que o ethos da sandice esteve presente na
Política Nacional de Turismo, principalmente quando destacou o turismo
como o elemento-chave para o desenvolvimento (criação de empregos e
ocupações diversas), conforme consta em suas metas: “criar condições de
gerar 1.200.000 novos empregos e ocupações”. Essa ousadia em colocá-lo
como o paladino do desenvolvimento, capaz de superar a pobreza e a
miséria dos países capitalistas periféricos a todo custo, produz feridas
iniciadas pelo desprezo à vida, em que os princípios societários aderem
às raias da irracionalidade, apoiadas nos parâmetros das desgraças
humanas.
2.3. GALHOFA
[Do esp. Gallofa.],
poss. do lat. med. galli offa, S. f.1. Gracejo, risota, risada.2.V.
zombaria (FERREIRA, 1986)
Compreendemos que a política nacional de turismo deve ser pautada por
planos, programas e projetos que efetivamente possam mudar a estrutura
turística nacional. Quando falamos em mudanças, enfatizamos que qualquer
ação política, no campo do turismo, deve partir das características e do
atendimento às necessidades especificas de cada região do país e estar
integrada a outros setores. Caso contrário, teremos transformações
qualitativas que não poderão ser efetivadas. Neste sentido, é motivo de
gracejo o conteúdo do macro-programa de regionalização do turismo -
Roteiros do Brasil.
Ao abordar
esse programa, apresentado no Plano Nacional de Turismo, verificamos que
sua proposta central é a
“estruturação, o ordenamento e a diversificação da oferta turística no
país”.
O mesmo
apresenta os seguintes objetivos:
Promover o
desenvolvimento e a desconcentração da atividade turística; apoiar o
planejamento, a estruturação e o desenvolvimento das regiões turísticas;
aumentar e diversificar produtos turísticos de qualidade, contemplando a
pluralidade cultural e a diferença regional do País; possibilitar a
inserção de novos destinos e roteiros turísticos para comercialização;
fomentar a produção associada ao turismo, agregando valor à oferta
turística e potencializando a competitividade dos produtos turísticos;
potencializar os benefícios da atividade para as comunidades locais;
integrar e dinamizar os arranjos produtivos do turismo; aumentar o tempo
de permanência do turista nos destinos e roteiros turísticos; dinamizar
as economias regionais.
Ao
analisarmos esses objetivos, devemos, em um primeiro momento, relembrar
e traçar parâmetros relacionando com o Programa Nacional de
Municipalização do Turismo, criado pela portaria nº 130 de 1994, do,
então, Ministério da Indústria, Comércio e Turismo. Sua proposta
principal era fomentar o turismo nos municípios, com os seguintes
objetivos: conscientizar a sociedade para a importância do turismo;
descentralizar ações de planejamento;
estimular o
fortalecimento das relações dos diferentes níveis do poder público com a
iniciativa privada; e disponibilizar aos municípios brasileiros com
potencial turístico, condições técnicas, organizacionais e gerenciais
para o desenvolvimento do turismo (PNMT, s/d).
É possível
confirmar que as ações operacionais de capacitação do PNMT, divididas em
três oficinas, não surtiram efeitos práticos por alguns motivos: (a) não
se exigia a atuação de profissionais como monitores municipais; (b) a
concepção do programa foi baseada em diretrizes da Organização Mundial
do Turismo, compradas e adequadas para o Brasil: adotou-se a metodologia
ZOPP (Planejamento de projetos orientados por objetivos).
Transformadas em oficinas de capacitação, formadas por grupos em que os
participantes recebem perguntas a serem analisadas com o objetivo de se
chegar a um consenso. Essas oficinas são acompanhadas pelos moderadores
que auxiliam os grupos com recomendações técnicas e esclarecimento de
dúvidas, contudo os moderadores não precisam necessariamente ter
formação ou atuação comprovada na área. Sua escolha foi justificada por
ser um método de que todos participam e contribuem, eliminando as
dispersões geradas por conflitos de idéias, à medida que os temas devem
ter o consenso do grupo (SILVA JÚNIOR, 2004, p. 65). Assim, é necessário
considerar que esta é uma metodologia excludente “por intimidar aqueles
que possuem outra lógica, outra linguagem e tem interesses distintos da
maioria dos técnicos presentes”. Esta questão justifica-se, pois
qualquer crítica é abrandada pelos moderadores (RODRIGUES, 2003, p.97);
(c) não executava as ações, mas baseavam-se tão somente na preparação
das comunidades por meio das próprias oficinas, uma vez que o alcance
pretendido (em ações e projetos) não chegava a contemplar os custos de
investimentos, como aborda Silva Júnior (2004, p.79): “não se pode
pensar em um programa eficaz sem considerar a restauração da capacidade
do Estado de investir ou induzir investimentos privados”; (d)
desconsiderava as características de políticas locais e as diferenças de
interesses de classes, sobressaindo as vontades individualistas de
empresários influentes e não necessariamente as da comunidade; e não
possuíam uma lógica histórica, integrada com outros setores fundamentais
para o desenvolvimento do turismo nas localidades. Foi, em última
análise, um programa de caráter irracional que iludiu comunidades.
Com a
criação do Ministério em 2003, não houve uma proposta de reformatação e
adequação do PNMT, segundo os moldes necessários para o desenvolvimento
local. Movido por propostas de alguns Estados e projetos de roteiros
apresentados ufanisticamente e sem uma estrutura de suporte consolidada,
formulou-se outro programa, o de regionalização, conhecido também por
Roteiros do Brasil.
É interessante observar que os objetivos traçados para este dependem do
encaminhamento de um plano turístico em nível local primeiramente, o que
não há em diversos municípios, uma vez que o PNMT não possibilitou outra
realidade senão reuniões para a motivação dos “interessados” pelo
turismo.
Nesse
sentido, compreendemos que cada região, está configurada, por um
conjunto de elementos naturais a serviço da ação transformadora do
homem, possuindo diferenciais que podem ser evidenciados e aproveitados
turisticamente, mas são os municípios que, de forma articulada, podem
induzir o desenvolvimento regional, ou seja, a regionalização vai
depender da dinâmica, dos recursos e da interação entre municípios e
suas instituições e características culturais. Isso pode ocorrer
mediante políticas públicas, que promovam a elaboração e desenvolvimento
de planos, contemplando o turismo e outros setores interligados.
É justamente
na lógica organizacional dos municípios com possíveis articulações que
contemplem setores capazes de dinamizar a economia e valorizar
intrinsecamente o patrimônio natural, histórico e cultural que a
regionalização deve ser compreendida e estimulada. Abordando o setor do
turismo, que geralmente não é capaz, por si só, de promover o
desenvolvimento a longo prazo, verificamos que o macro programa do
Governo Federal não possui a solidez necessária, uma vez que
praticamente não há planos municipais de desenvolvimento integral do
setor, baseados em políticas públicas consistentes. Portanto, partimos
do pressuposto de que o planejamento com bases locais deve ser o eixo
norteador para a regionalização.
O estudo da
região, a partir dos municípios que a integram, é interdisciplinar,
sendo que o turismo e a geografia cultural, abordando as políticas, o
planejamento, a área cultural e natural, as paisagens, a história
cultural e a ecologia cultural, são de extrema importância para as
propostas inter-municipais de desenvolvimento turístico. Para isso, é
realizado o mapeamento do “arranjo e organização espacial de complexos
de características relacionadas ou conectadas”, envolvendo os elementos
naturais e a história, uma vez que “a história de qualquer povo evoca a
sua fixação numa paisagem, seus problemas ecológicos e concomitantes
culturais [...]” (WAGNER; MIKESELL, 2003, p. 50).
Trata-se de
uma série de elementos que devem ser considerados e não tão somente o
estabelecimento de roteiros ou circuitos. Salientamos esta questão,
pois, na publicação do Ministério do Turismo apresentando os resultados
e as perspectivas do turismo no Brasil, de junho de 2006, é ressaltado,
no Item 3.4 do Capítulo I, o mapeamento realizado para “identificar as
regiões e roteiros turísticos que devem ser objeto do ordenamento e
estruturação territorial, gestão, qualificação e promoção, com visão de
curto, médio e longo prazo” (Turismo no Brasil, 2007-2010). Segundo a
publicação, em 2004, foram identificadas 219 regiões turísticas,
envolvendo 3.203 municípios pelo programa de regionalização. Destas
regiões, 134 apresentaram 451 roteiros turísticos, no Salão do Turismo
chamado Roteiros do Brasil, que ocorreu em junho de 2005, na cidade de
São Paulo.
As regiões,
representadas por municípios, apresentaram propostas de roteiros que,
mesmo sendo interessantes, não oferecem a possibilidade, por si só, de
promover a regionalização, como apontamos anteriormente. Um exemplo
pontual é o programa envolvendo as Estradas Reais, do Estado de Minas
Gerais, apresentado pela revista Exame (2007/2008) como “um dos maiores
programas turísticos do país”, estabelecido em 1999, quando ainda estava
em curso o PNMT. O Estado, no contexto neoliberal, delegou a
responsabilidade de planejamento e gestão das rotas ao Instituto Estrada
Real, criado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais.
Referenciados em mapas e na Internet, os caminhos Novo, Velho e dos
Diamantes são mostrados como forma de desenvolvimento regional.
Uma pesquisa
que está sendo desenvolvida pelo Departamento de Turismo da Universidade
Federal de Ouro Preto irá apontar as distorções do programa e a
capacidade do plano de marketing do instituto em moldar a aparência para
ocultar a essência da questão.
Assim, não detalharemos aqui alguns problemas detectados nestes “eixos
turísticos” como, por exemplo, o pouco embasamento histórico para a
demarcação das rotas; a ênfase na comercialização de uma estrutura
suporte que é deficiente; e os acordos políticos e econômicos que
desvirtuaram o trajeto. Desejamos enfatizar, como exemplificação, que
diversos municípios não possuem qualquer organização sólida em termos de
planejamento e políticas públicas que contemplem o turismo para basear
uma proposta de regionalização.
Uma
referência para os três caminhos é a cidade de Ouro Preto, Minas Gerais,
que carece de uma organização interna em diversos setores: não há
regulamentação para a atuação de guias; não existe tratamento de esgoto;
os distritos com potencialidades naturais nem sempre são contemplados
por ações do poder público; e os vínculos entre prefeitura e
universidade no setor de turismo, ainda são tênues. Pretendemos
demonstrar, destacando Ouro Preto no contexto de um programa estadual, a
irracionalidade de uma proposta de regionalização com a desorganização
turística de localidades que compõem e configuram um espaço. E mais: ao
Estado delegar a uma entidade representativa de interesses privados a
responsabilidade pelo turismo, as ações desenvolvidas irão atender a
interesses individualistas. Acrescentando-se que mesmo em municípios que
precisam desenvolver um diagnóstico para a elaboração de um plano
turístico, o Instituto Estrada Real oferece cursos de camareiras e
garçons, ou seja, é repetição de ações de treinamento do PNMT em
benefício dos empresários mais influentes.
Com o
afastamento do Estado, ou o que é pior, com a utilização de sua
estrutura para fins de interesses privados, o turismo tem sido cada vez
mais um instrumento de exclusão e concentração de renda do que de
inclusão e valorização intrínseca do patrimônio. Com a ausência de
políticas públicas que contemplem a coletividade, o turismo pode ser
entendido “pela apropriação capitalista dos momentos de ócio individual,
transformados em um imenso aparelho coletivo de enriquecimento privado”
(OURIQUES, 2005, p.18).
Nesse
contexto, o programa Roteiros do Brasil torna-se motivo de galhofa,
pois: (a) não considera a competitividade imposta pelo sistema
capitalista, ao enfatizar a integração e cooperação de empresas ligadas
direta ou indiretamente ao turismo; (b) anuncia mais dele mesmo, pois
substancialmente não promove modificações substanciais em localidades; e
(d) trabalha superficialmente a regionalização, deixando de considerar
outros setores para o desenvolvimento do turismo e a dinâmica
territorial que caracteriza e diferencia uma determinada região.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A política
pública estabelecida pelos militares com o intuito principal de
trabalhar e moldar uma imagem do país, que, por sinal, tem como reflexo
o turismo sexual que está arraigado implicitamente na mente de muitos
estrangeiros; a continuidade ou descontinuidade de ações que
privilegiaram, desde 1966, os empreendimentos internacionais, criando um
verdadeiro abismo entre meios receptivos e turistas nacionais; e os
contínuos programas em que verbas são direcionadas a oficinas de
treinamento e ao marketing são motivos concretos para duvidarmos da
seriedade de ações do Estado para promover o turismo nacional.
Apresentado
o plano de turismo 2007-2010 pela Ministra Marta Suplicy, verificamos
que a proposta principal de desenvolver o turismo doméstico deve estar
contemplada nos programas que, até o presente momento, não tiveram
reformulações para reordenar o plano.
Ressaltamos, ainda, que inciamos a análise desse plano, contemplando
suas propostas, objetivos e diretrizes, uma vez que a lógica irracional
da internacionalização territorial, dos interesses de corporações e das
políticas subservientes a estes devem ser quebradas por ações políticas
firmes que vão contra a lógica exploratória do sistema ao qual o turismo
brasileiro está subordinado.
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WAGNER, Philip; MIKESELL, Marvin. Os temas da Geografia Cultural. In
CORRÊA et al. Introdução à Geografia Cultural. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2003.
O
Pós-modernismo, enquanto conceito do momento, busca fragmentar a
realidade para entendê-la em suas várias especificidades e em um
processo de desconstrução, atingindo o pensamento histórico e
obedecendo à lógica do pensamento antitotalizante, rejeitando as
grandes interpretações. Isso ocasiona um apoio à não-mudança do
modo de produção capitalista, auxiliando na criação de
mecanismos que solidificam seu status quo. Portanto, a
pós-modernidade pressupõe ultrapassar o capitalismo não enquanto
sistema econômico, mas, sim, atender o princípio básico da
expansão máxima da produção, circulação da mercadoria e
tecnologia, estendendo o acesso da mesma aos vários extratos
sociais, na perspectiva de ampliar o consumismo e, com isso,
minimizar a exploração capitalista. Busca aumentar os horizontes
da ampliação do capital, congelando o cotidiano revolucionário
da realidade e formatando a linguagem do “pós” como presente em
todas as instâncias da sociedade.
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