ISSN 1678-8419  

Última atualização feita em:16-04-2006 21:49

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Crise na Varig permite rever a Política Nacional de Turismo
Por João dos Santos Filho

 

                                                                                             Porque querem matar a Varig?

                                                                                                      João dos Santos Filho*

 

Prezados funcionários da Varig e cidadãos brasileiros, relutamos em escrever sobre a crise que afeta essa companhia aérea, mas em virtude de entendermos que a mídia em geral passa longe das causas reais do problema, pois o assunto vem sendo tratado de forma grosseira, insensível, fetichista e não patriótica. Não conseguimos conter nosso ímpeto nacionalista de militante político dirigido pela formação de cientista social e turismólogo, por isso, resolvemos aprofundar a polêmica para redirecionar o debate na recuperação das verdadeiras causas que ameaçam esse patrimônio nacional.

De imediato, recordamos a leitura dos postulantes do neoliberalismo ou como chamaria o antropólogo e romancista Darcy Ribeiro os Chicagos boys, aqueles que monitoram o Estado segundo os interesses das multinacionais e transnacionais; aqueles que entendem o Estado como não interventor na economia; aqueles que acreditam na mão mágica da iniciativa privada como capaz de defender os interesses coletivos e de brasilidade.

Isso nos reporta ao ano 1978 em que a American Airlines em um coquetel para o trade em São Paulo, fez um discurso para os convidados afirmando de forma enfática que o inventor do avião foram os irmãos Wright. Obviamente nossa pressão arterial alterou o estômago enjoou e saímos do local e fomos até ao bairro do Bexiga comer uma pizza.

A crise da Varig nos fez relembrar também, o quanto essa empresa é conhecida e querida no Brasil e no exterior. No território nacional tem sua força consolidada como colaboradora do campo da cultura; peças de teatro, produção de filmes, musicais e shows possuem a chancela Varig como patrocinadora. O atendimento ao passageiro é reconhecido pelos expertes em transporte aéreo como o melhor do mundo, pois possuía um atendimento de bordo similar ao um restaurante de primeira classe.

Esse glamour trouxe aos usuários da Varig a sensação de carinho, proteção, segurança, familiaridade e conforto ao passageiro, o qual eram objetos de uma hospitalidade assaz idílicos, muitos guardavam seu bilhete aéreo confeccionado em papel cartão e de seda como relíquias de colecionadores.

A Varig chegou no ápice de sua fama, com uma forte mídia na imprensa nacional e internacional capaz de desempenhar um papel de coadjuvante em janeiro de 1959 quando  exilados cubanos que viviam no Rio de Janeiro, planejaram o seqüestro de uma das suas aeronaves no aeroporto do Galeão. Mas o plano teve de ser abortado devido à revolução cubana ter sido mais rápida que as articulações dos revolucionários que a aqui viviam, que acabaram conseguindo junto ao presidente Juscelino Kubitschek um DC3 da FAB para chegarem a Havana passando por Brasília.      

No exterior, promoveu o Brasil, a brasilidade, mostrou a idiossincrasia do nosso povo, recuperou a memória de Santos Dumont aos quatro cantos do mundo, protegeu e quase teve de resgatar brasileiros de golpes militares em países latino-americanos, deu fuga para brasileiros marcados para morrer no período da ditadura militar, e transportou esperanças a flagelados da seca e enchente e ajudou a entrelaçar trocas de mensagens entre estrangeiros e brasileiros.

 A Varig no logo de sua história criou 110 escritórios no exterior, dezenas de países foram contemplados com uma extensão de nossa casa, pois era assim que sentíamos quando lá estávamos, cafezinho, jornal, chimarrão, guaraná e informações que ajudam ao turista brasileiro e estrangeiro.

 O papel da Varig como divulgadora do Brasil no estrangeiro é incontestável e foi tremendamente responsável mesmo tendo que enfrentar na década dos anos setenta e oitenta, como também grande parte da década de noventa. As propagandas equivocadas, machistas, eróticas e irresponsáveis sobre as belezas e sedução das mulheres brasileiras na qual a Embratur fazia no exterior acabou incentivando o turismo sexual. 

Os escritórios da Varig no exterior eram o carro chefe da divulgação da imagem correta do Brasil, abrigou passageiros ilustres, como intelectuais e artistas expulsos pela ditadura militar que para lá se dirigiram para matar a saudades do Brasil.

Hoje, temos que apelar para o governo Federal, para que impeça o desaparecimento desse símbolo brasileiro de hospitalidade que ainda brilha no exterior, implorar que o BNDS apóie uma proposta de financiamento para que a Varig se erga e seja o que sempre foi, a melhor companhia aérea do mundo.

O que pedimos é um Estado do lado do capital nacional e que demonstre defesa dos interesses coletivos da nação, que dê crédito a essa empresa, que lute por uma política que crie riquezas, isto é, emprego, diminua os juros, crie uma política para a agricultura nacional e leve o turismo a sério.

Mude radicalmente sua Política Nacional de turismo para o fortalecimento do turismo interno, com programas entrelaçados com os outros setores da economia brasileira e pare de inventar programas de sensibilidade e conscientização que não levam a nada como o PNMT e PNR e os milhares de outros programas que surgem a cada dia, pois a euforia dos neoliberais pode trazer longos períodos marcantes de delírio.

Basta de querer enfocar o turismo brasileiro pelo turismo receptivo, erro de quem nunca entendeu esse fenômeno, pois carece de conhecimento científico sobre a temática, bem como, devemos decretar o fim da era em que os presidentes da embratur acumulavam mais milhas smiles do que qualquer executivo brasileiro.

Basta de um turismo em que planos econômicos corroeram as finanças das companhias aéreas, que nossos deputados “coitados” usaram do direito das passagens aéreas da Varig para vir para São Paulo, saborear a melhor pizza do mundo.

E o povo brasileiro desamparado é obrigado a clamar de forma humilhante para que o capital nacional seja protegido, que ironia! Essa é a política nacional de turismo, elitista, literalmente preocupada com o turismo receptivo é local reservado a políticos de carreira que possuem o direito de voar pela Varig.

Por isso leitor, não pense que a crise da Varig se deve somente a um gerenciamento administrativo interno passado, mas sim, a insensibilidade das políticas de turismo implantadas pelo governo Federal que sempre favoreceram e continuam favorecendo ao capital estrangeiro. Por isso, fomos obrigados num vôo Maringá/Manaus a degustar quinze barras de cereais americanizadas, não vender aeronaves da Embraer a Venezuela, alugar a Barreira do Inferno para os norte-americanos e tirar os sapatos do ministro das Relações Exteriores.

Os curiosos do turismo tem coragem de vir a público defender a não necessidade do visto para os americanos, porque não defendem a Varig esse patrimônio nacional? Porque querem esquecê-la e largá-la na lógica do mercado globalizado? Porque querem matar a Varig? 


 

* JOÃO DOS SANTOS FILHO é bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc/SP). Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela Puc/SP. Foi coordenador dos cursos de Turismo da Faculdade Nobel e também do Centro Universitário Filadélfia de Londrina (Unifil); e professor na Universidade Norte do Paraná de Londrina (Unopar). É membro fundador do Instituto de Análises sobre o Desenvolvimento Econômico Social (Iades) e da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo de São Paulo (ABBTUR/SP). Foi professor-convidado pela Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), na cidade de San José da Costa Rica, para ministrar disciplina no curso de pós-graduação, no semestre de 1995.  Ministrou curso na Universidad de Rio Cuarto, na cidade de Rio Cuarto – Argentina, na pós-graduação em Integração Latino-Americana e na Universidad de San Carlos, na Guatemala. É professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá, no Paraná – Brasil e professor na Faculdade Maringá - PR.

Tem vários artigos publicados em livros e revistas acadêmicas nacionais e internacionais, e colaborador nos sites: www.estudosturisticos.com.br e www.espacoacademico.com.br e colaborador do Conselho Editorial da Revista Eletrônica do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais – CENEGRI www.intellector.com.br.  Membro do Conselho Científico do Boletim de Estudos em Hotelaria – BETH, do curso Turismo das Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão – FAINTVISA. Membro do Conselho Editorial da revista semestral Global Tourism – www.periodicodeturismo.com.br .

 

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João dos Santos Filho é Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano (UNIBERO) e Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Mestre em Educação: História e Filosofia da educação pela PUC/SP, foi coordenador dos cursos de turismo da Faculdade Nobel e também do Centro Universitário Filadélfia – UNIFIL; e professor da Universidade Norte do Paraná - UNOPAR. É membro fundador do Instituto de Análises sobre o Desenvolvimento Econômico Social (IADES) e da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo -- São Paulo (ABBTUR/SP) e professor convidado pela Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia – UNA, na cidade de San José da Costa Rica, para ministrar disciplina no curso de pós-graduação, no semestre de 1995.  Ministrou curso na Universidad de Rio Cuarto, na cidade de Rio Cuarto – Argentina, na pós-graduação em Integração Latino-americana e na Universidad de San Carlos, na Guatemala. É professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá, no Paraná – Brasil e professor da Faculdade Maringá.
joaofilho@onda.com.br

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