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Porque querem matar a Varig?
João dos Santos Filho
Prezados funcionários da Varig e cidadãos
brasileiros, relutamos em escrever sobre a crise que
afeta essa companhia aérea, mas em virtude de
entendermos que a mídia em geral passa longe das
causas reais do problema, pois o assunto vem sendo
tratado de forma grosseira, insensível, fetichista e
não patriótica. Não conseguimos conter nosso ímpeto
nacionalista de militante político dirigido pela
formação de cientista social e turismólogo, por
isso, resolvemos aprofundar a polêmica para
redirecionar o debate na recuperação das verdadeiras
causas que ameaçam esse patrimônio nacional.
De imediato, recordamos a leitura dos postulantes do
neoliberalismo ou como chamaria o antropólogo e
romancista Darcy Ribeiro os Chicagos boys,
aqueles que monitoram o Estado segundo os interesses
das multinacionais e transnacionais; aqueles que
entendem o Estado como não interventor na economia;
aqueles que acreditam na mão mágica da iniciativa
privada como capaz de defender os interesses
coletivos e de brasilidade.
Isso nos reporta ao ano 1978 em que a American
Airlines em um coquetel para o trade em São Paulo,
fez um discurso para os convidados afirmando de
forma enfática que o inventor do avião foram os
irmãos Wright. Obviamente nossa pressão arterial
alterou o estômago enjoou e saímos do local e fomos
até ao bairro do Bexiga comer uma pizza.
A crise da Varig nos fez relembrar também, o quanto
essa empresa é conhecida e querida no Brasil e no
exterior. No território nacional tem sua força
consolidada como colaboradora do campo da cultura;
peças de teatro, produção de filmes, musicais e
shows possuem a chancela Varig como patrocinadora. O
atendimento ao passageiro é reconhecido pelos
expertes em transporte aéreo como o melhor do mundo,
pois possuía um atendimento de bordo similar ao um
restaurante de primeira classe.
Esse glamour trouxe aos usuários da Varig a sensação
de carinho, proteção, segurança, familiaridade e
conforto ao passageiro, o qual eram objetos de uma
hospitalidade assaz idílicos, muitos guardavam seu
bilhete aéreo confeccionado em papel cartão e de
seda como relíquias de colecionadores.
A Varig chegou no ápice de sua fama, com uma forte
mídia na imprensa nacional e internacional capaz de
desempenhar um papel de coadjuvante em janeiro de
1959 quando exilados cubanos que viviam no Rio de
Janeiro, planejaram o seqüestro de uma das suas
aeronaves no aeroporto do Galeão. Mas o plano teve
de ser abortado devido à revolução cubana ter sido
mais rápida que as articulações dos revolucionários
que a aqui viviam, que acabaram conseguindo junto ao
presidente Juscelino Kubitschek um DC3 da FAB para
chegarem a Havana passando por Brasília.
No exterior, promoveu o Brasil, a brasilidade,
mostrou a idiossincrasia do nosso povo, recuperou a
memória de Santos Dumont aos quatro cantos do mundo,
protegeu e quase teve de resgatar brasileiros de
golpes militares em países latino-americanos, deu
fuga para brasileiros marcados para morrer no
período da ditadura militar, e transportou
esperanças a flagelados da seca e enchente e ajudou
a entrelaçar trocas de mensagens entre estrangeiros
e brasileiros.
A Varig no logo de sua história criou 110
escritórios no exterior, dezenas de países foram
contemplados com uma extensão de nossa casa, pois
era assim que sentíamos quando lá estávamos,
cafezinho, jornal, chimarrão, guaraná e informações
que ajudam ao turista brasileiro e estrangeiro.
O papel da Varig como divulgadora do Brasil no
estrangeiro é incontestável e foi tremendamente
responsável mesmo tendo que enfrentar na década dos
anos setenta e oitenta, como também grande parte da
década de noventa. As propagandas equivocadas,
machistas, eróticas e irresponsáveis sobre as
belezas e sedução das mulheres brasileiras na qual a
Embratur fazia no exterior acabou incentivando o
turismo sexual.
Os escritórios da Varig no exterior eram o carro
chefe da divulgação da imagem correta do Brasil,
abrigou passageiros ilustres, como intelectuais e
artistas expulsos pela ditadura militar que para lá
se dirigiram para matar a saudades do Brasil.
Hoje, temos que apelar para o governo Federal, para
que impeça o desaparecimento desse símbolo
brasileiro de hospitalidade que ainda brilha no
exterior, implorar que o BNDS apóie uma proposta de
financiamento para que a Varig se erga e seja o que
sempre foi, a melhor companhia aérea do mundo.
O que pedimos é um Estado do lado do capital
nacional e que demonstre defesa dos interesses
coletivos da nação, que dê crédito a essa empresa,
que lute por uma política que crie riquezas, isto é,
emprego, diminua os juros, crie uma política para a
agricultura nacional e leve o turismo a sério.
Mude radicalmente sua Política Nacional de turismo
para o fortalecimento do turismo interno, com
programas entrelaçados com os outros setores da
economia brasileira e pare de inventar programas de
sensibilidade e conscientização que não levam a nada
como o PNMT e PNR e os milhares de outros programas
que surgem a cada dia, pois a euforia dos
neoliberais pode trazer longos períodos marcantes de
delírio.
Basta de querer enfocar o turismo brasileiro pelo
turismo receptivo, erro de quem nunca entendeu esse
fenômeno, pois carece de conhecimento científico
sobre a temática, bem como, devemos decretar o fim
da era em que os presidentes da embratur acumulavam
mais milhas smiles do que qualquer executivo
brasileiro.
Basta de um turismo em que planos econômicos
corroeram as finanças das companhias aéreas, que
nossos deputados “coitados” usaram do direito das
passagens aéreas da Varig para vir para São Paulo,
saborear a melhor pizza do mundo.
E o povo brasileiro desamparado é obrigado a clamar
de forma humilhante para que o capital nacional
seja protegido, que ironia! Essa é a política
nacional de turismo, elitista, literalmente
preocupada com o turismo receptivo é local reservado
a políticos de carreira que possuem o direito de
voar pela Varig.
Por isso leitor, não pense que a crise da Varig se
deve somente a um gerenciamento administrativo
interno passado, mas sim, a insensibilidade das
políticas de turismo implantadas pelo governo
Federal que sempre favoreceram e continuam
favorecendo ao capital estrangeiro. Por isso,
fomos obrigados num vôo Maringá/Manaus a degustar
quinze barras de cereais americanizadas, não vender
aeronaves da Embraer a Venezuela, alugar a Barreira
do Inferno para os norte-americanos e tirar os
sapatos do ministro das Relações Exteriores.
Os curiosos do turismo tem coragem de vir a público
defender a não necessidade do visto para os
americanos, porque não defendem a Varig esse
patrimônio nacional? Porque querem esquecê-la e
largá-la na lógica do mercado globalizado? Porque
querem matar a Varig?
JOÃO DOS SANTOS FILHO é bacharel em Turismo
pelo Centro Universitário Ibero-Americano de
São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências
Sociais pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (Puc/SP). Mestre em
Educação: História e Filosofia da Educação
pela Puc/SP. Foi coordenador dos cursos de
Turismo da Faculdade Nobel e também do
Centro Universitário Filadélfia de Londrina
(Unifil); e professor na Universidade Norte
do Paraná de Londrina (Unopar). É membro
fundador do Instituto de Análises sobre o
Desenvolvimento Econômico Social (Iades) e
da Associação Brasileira de Bacharéis em
Turismo de São Paulo (ABBTUR/SP). Foi
professor-convidado pela Faculdad de
Filosofia e Letras da Universidad Nacional
de Heredia (UNA), na cidade de San José da
Costa Rica, para ministrar disciplina no
curso de pós-graduação, no semestre de
1995. Ministrou curso na Universidad de Rio
Cuarto, na cidade de Rio Cuarto – Argentina,
na pós-graduação em Integração
Latino-Americana e na Universidad de San
Carlos, na Guatemala. É professor concursado
pela Universidade Estadual de Maringá, no
Paraná – Brasil e professor na Faculdade
Maringá - PR.
Tem vários artigos publicados
em livros e revistas acadêmicas nacionais e
internacionais, e colaborador nos sites:
www.estudosturisticos.com.br e
www.espacoacademico.com.br e colaborador
do Conselho Editorial da Revista Eletrônica
do Centro de Estudos em Geopolítica e
Relações Internacionais – CENEGRI
www.intellector.com.br. Membro do
Conselho Científico do Boletim de Estudos em
Hotelaria – BETH, do curso Turismo das
Faculdades Integradas da Vitória de Santo
Antão – FAINTVISA. Membro do Conselho
Editorial da revista semestral Global
Tourism –
www.periodicodeturismo.com.br
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