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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 02 de agosto de 2010 22:22:37                                               

 
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TURISMO

Turismo na Modernidade: Discussões, Contradições e Concepção

   

Sávio Miná de Lucena; Denys da Silva Nogueirai

publicado em 02/08/2010

 


Resumo

De várias formas o turismo foi e ainda é, por muitos, considerado como natural, como uma atividade inerente ao homem. No entanto, devemos atentar para essas concepções. Foram delineados alguns pontos concernentes ao turismo para discussão e análise, dentre os quais temos o mesmo como agente produtor do espaço. Fez-se presente também a concepção de turismo como uma categoria ontológica, a análise do turismo e sua influência no desenvolvimento das localidades também é revisto.

Palavras-chave: Turismo. Espaço. Capitalismo. Modo de vida.



 

Résumé

De plusieurs formes le tourisme a été et encore c'est, par beaucoup, considéré comme naturel, comme une activité inhérente à l'homme. Néanmoins, nous devons attenter pour ces conceptions. Ont été délinéés quelques points concernentes au tourisme pour discussion et analyse, parmi laquelle nous avons le même comme agent producteur de l'espace. S'est fait cadeau aussi la conception de tourisme comme une catégorie ontologique, l'analyse du tourisme et son influence dans le développement des localités aussi est révisée.

Mots-clé : Tourisme. Espace. Capitalisme. Manière de vie.



 

O trabalho, como nós conhecemos atualmente, é um dos maiores responsáveis no surgimento (e consolidação) do turismo. Tendo em vista que no modo de produção capitalista o trabalho passa a vigorar de forma alienada, onde o “todo” é trocado pela “parte” no processo de consciência da produção, o turismo emerge como “válvula de escape” para o “sufocamento” que o trabalho causa. O trabalho que, segundo Marx, “é, em sua essência, a atividade não-livre, não-humana, não-social, determinada pela propriedade privada e criando a propriedade privada." (MARX, 1972, p.436).

Por isso apresentaremos uma visão diferenciada da atividade turística, através de um posicionamento mais crítico, uma análise baseada nos prejuízos gerados pelo fluxo de pessoas, pelas infra-estruturas e equipamentos de que necessita, tais como: expansão dos espaços construídos; aumento do tráfego rodoviário; poluição e degradação da natureza; consumo de recursos naturais (como água potável); impactos no modo de vida das comunidades locais; entre outros. E, certamente, surgirão novas questões, o que é muito importante na compreensão real de tal atividade.

A proposta de análise a qual perfizeram encontra seu início nas discussões realizadas na disciplina “Geografia do Turismo”, ocorridas no departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará, a qual tiveram suas aulas ministradas pela professora Ms. Adriana Marques Rocha e obtém continuidade no estudo em campo em Jericoacoara, onde foram efetuadas entrevistas (através de questionários, com duração média de dez minutos cada) com a comunidade local e os turistas que utilizam todo o aparato da localidade. Embasados em um viés crítico foi proposto a discussão de diversificados aspectos inerentes à atividade turística na atualidade. A pesquisa, de cunho teórico, se perfaz através da leitura/revisão de todo um arcabouço teórico acerca do turismo, bem como de seus malefícios à sociedade, para a posteriori formulamos um texto baseado nas discussões e leituras supracitadas.

- O Turismo e a Produção do Espaço Geográfico

Modo de vida. Capitalismo. Turismo. Aspectos inerentes à sociedade contemporânea, que interligados/relacionados são concomitantemente reflexo e (principalmente) condicionantes da dinâmica relação espaço e sociedade atualmente. Porém a dúvida que porventura pode-se fomentar é a de qual a relevância do turismo, considerando-o como “mera” ramificação do capitalismo, concernente à produção do espaço geográfico.

Para a elucidação da questão supracitada podemos citar que o turismo, inicialmente, viria como uma alternativa ao desenvolvimento do capitalismo e sua gênese, pós-guerra, só adquire propriedade por causa do trabalho. Após a década de 1960 o estudo do turismo pela geografia acentua-se devido ao desenvolvimento do mesmo nos principais países capitalistas.

Tal desenvolvimento dinamiza a produção do espaço social mundial, tendo em vista a atividade turística ter a capacidade de concentrar e movimentar um grande contingente de pessoas, fluxos, que por si só alteram o cotidiano dos espaços. Além disso, a dinamização em nível global se manifestou nas áreas que se estagnaram enquanto espaços voltados ao turismo, na criação de novos espaços que tinham como funcionalidade “assessorar” os espaços turísticos e, por fim, na transformação de tradicionais localidades voltadas à atividade turística que acabam perdendo sua principal função. Desta feita notamos que a influência do turismo não se manifesta de forma homogênea, ao contrário, permanece sujeita a um embate que perpassa fatores econômicos, políticos, sociais e ambientais.

A especificidade de quem se utiliza dos aparatos voltados ao turismo favorece a intensa criação e recriação do espaço, efetivando assim um significado por parte da geografia em tornar tal atividade objeto de análise. A geografia do turismo efetiva-se avançando no estudo desse fenômeno, essencialmente com relação aos espaços receptores, haja vista neles ocorrer a realização efetiva da produção e do consumo desta atividade.

Compreendendo os espaços sociais como espaços que podem ser turísticos e que encontram-se representados na ciência geográfica por um conjunto de fixos e fluxos (SANTOS, 1999) e que tal sistema corresponde a categorias inerentes ao espaço do turismo, onde encontramos como principais a paisagem e a configuração territorial, que por serem/estarem mais voltados à forma incluem-se em uma dialética concreta dos movimentos da sociedade.

A importância destas categorias seria o fato de elas poderem transmitir (até através do palpável, concreto) a influência da atividade turística na construção do espaço social, por vezes calcado em processos abstratos. A paisagem, enquanto categoria geográfica respalda bem a idéia anterior ao indicar a concretude, o espaço visível que é manifesto resultado dos processos ocorridos ao longo do tempo.

- Turismo como categoria moderna

Uma das atividades cada vez mais presente, o turismo vem se destacando no cenário mundial, sendo uma das atividades que mais se apropriam dos lugares, assim como o capital.

Muitos autores vêem a atividade como ontológica, naturalizando e justificando sua atuação. Porém devemos analisar essas perspectivas com bastante cuidado. Quando tratamos de turismo precisamos estar ciente de que “Nos Velhos Dias o turismo não existia. Ciganos, Tinkers e outros nômades de verdade até hoje vagam por seus mundos à vontade, mas ninguém iria por isso pensar em chamá-los de ‘turistas’” (BEY, 1991).

Como uma atividade que tem seu esplendor na atualidade, que chega, explora, degrada e destrói pode ser ontológica? Como uma atividade que representa muito bem os interesses capitalistas pode ser ou vir de modos de vidas anteriores? É, claramente, uma contradição no discurso dos turismólogos, pois desta forma a humanidade jamais teria chegado onde estamos. Assim como o próprio Capital, o turismo é auto-destrutivo, o que nos leva a pensar que se ele realmente tivesse surgido em sociedades anteriores, o que existiria hoje?

Devido o Capital sempre enfrentar várias crises, pois é de sua natureza, ele tenta se manter no controle a todo custo, fazendo e criando várias formas diferentes para isso. Tornando-se assim algo muito mutável, se apropriando de tudo e todos. O turismo, não é diferente. Nele, podemos notar as mesmas características, como por exemplo: apropriação de novos espaços; degradação no local receptor; dentre outras.

Tudo isso evidência o caráter moderno da atividade turística. Já que a mesma só passa a surgir com o capitalismo. A forma como a atividade surgiu, se deu a partir da lógica do trabalho alienado, que “constitui, em verdade, um processo de expropriação.” (MARX, 1996, p. 9), onde o tempo de vida passa a ser regrado até o ponto de que esse tempo já não pertence mais ao indivíduo, ocorrendo assim uma negação da vida. E é ai que de forma ilusória emerge o turismo. Como uma forma “coisificada” de lazer, de férias ou até mesmo de ócio. No entanto, não passa de uma ilusão realmente, pois nem mesmo o ócio existe mais. O que é mais uma prova da categoria moderna do turismo, pois o ócio já existiu em tempos remotos, a partir da existência do trabalho alienado o ócio deixa de existir, pois o tempo já não pertence mais ao individuo, e sim ao próprio trabalho.

Como uma forma moderna o turismo está arraigado ao trabalho. É, ou tenta ser, um par dialético trabalho-lazer. É também o lazer transformado em mercadoria, é o chamado lazer-mercadoria.

Como já vimos o modo de produção capitalista é mutável e adaptável a várias condições de existência, criando sempre (pelo menos até agora) formas de sobreviver a crises e contradições que ele mesmo gera. Como mais uma forma de sobrevivência o turismo surge, gerado pelo capital, que é uma cria moderna, e não de outra sociedade que existiu anteriormente, se apropriando e transformando tudo em mercadoria.

Por fim, podemos concluir então que o turismo é uma atividade moderna em todas as suas formas de expressão, e não uma categoria ontológica.

- Desenvolvimento local

Temos um modo de vida sustentável socialmente ou ecologicamente? O que alicerça o modo de vida moderno? Muitos dizem que a economia é que faz o “mundo girar”. Outros vão bem mais fundo em suas pesquisas, afirmando que o que move o sistema vigente é a lógica do trabalho alienado ou mesmo, indo mais fundo, a mercadoria e todos os seus fetiches.

O que vemos é um modo de vida insustentável, onde a cada dia surgem novas formas de mascará-lo. O turismo não foge a essa lógica. É apenas mais uma “mascara” desse sistema, que tenta, desesperadamente, se manter de todas as formas. No entanto deixa rastros de suas contradições.

Uma análise crítica do turismo não é coisa simples de se fazer, pois várias “camadas de ilusão” são postas sobre a atividade, onde é comum vermos discursos de legalização ou de aceitação, como por exemplo: de trazer novos investimentos; de geração de emprego e renda para a localidade; na melhoria da qualidade dos padrões de vida; de ser uma forma de alavancar a economia; entre outros. Escondendo o caráter prejudicial da atividade. Outra forma de legalização é a elaboração de projetos, de origem privada e principalmente estatal, que justifiquem a atuação do turismo e exerce uma participação ativa na consolidação da atividade turística. De acordo com Kurz:


 

O Estado, o outro volante da máquina de alienação ao lado do dinheiro, recebe assim, por sua vez, uma natureza dupla. Do ponto de vista histórico ele assume, já em sua primitiva forma moderna, absolutista, burguês-revolucionária e ditatorial, por um lado, o papel de parteira do sistema produtor de mercadorias e, por outro, torna-se componente imanente deste último; do ponto de vista institucional ele serve, por um lado, para assegurar as condições que apóiam o capitalismo, e por outro lado é promovido a instância reguladora que interfere ativamente no processo de reprodução do trabalho morto, tão logo os setores "improdutivos" da infra-estrutura (ciências, tratamento dos detritos, assistência social e de saúde, educação, reparo dos processos de destruição social-ecológicos etc.) começam a sufocar a estrutura de automovimento do dinheiro; do ponto de vista ideológico, por fim o Estado apresenta-se, por um lado, como Moloch, "canibal" (Glucksman, 1978) e monstro leviatânico que constantemente ameaça agredir a "verdadeira" subjetividade burguesa, por outro lado, porém, como deus ex machina, como instância à qual se recorre sempre que há fricções e sofrimentos resultantes da socialização negativa. (KURZ, 1993, p.52)


 

O que podemos concluir com isso? Muito provavelmente outros setores de importância superior, socialmente, como educação e saúde estão sendo tratados de forma secundária. Situação parecida, a cidade de Fortaleza passa recentemente, com a aprovação de 250 milhões de reais (já captados) que serão voltados para a criação de um aquário nas proximidades do Centro Cultural Dragão do Mar, no entanto, esse dinheiro poderia estar sendo utilizado na educação. Isso nos remete a mais duas questões, que irá nos rodear durante todo o trabalho: As construções e modificações dos espaços turísticos são feitos para quem? Ou para quê? Tendo em vista que os espaços são mercadorias, “para quem são projetados?” é a última questão a ser pensada na construção dos espaços turísticos.

Essas propostas de sustentabilidade, demonstram a insustentabilidade de tal atividade. O turismo é mais um dos “braços” do capital, que tenta se manter de todas as formas, fazendo uma manutenção desse sistema.

Tem-se um foco na preservação e qualidade ambiental e cultural, no entanto, esse foco é completado com a especificação dos destinos turísticos. Retomando a questão de que, com a apropriação dos lugares pelo turismo, as construções são feitas de modo alheio a qualquer pessoa. E em se tratando de culturas, antes mesmo da apropriação pelo turismo, o capital já adentrou nas relações mais íntimas, através do valor. Mudando ou influenciando culturas diversificadas, fazendo de muitas apenas um “espetáculo” para os visitantes.

Por fim, tem-se ainda a questão da padronização dos lugares. Isso quer dizer que, por mais que os espaços turísticos sejam afastados, longínquos, ou remotos, o turista só irá se tiver o gral de conforto para seus padrões, isso implica na modificação e reestruturação de uma localidade, por exemplo: um hotel no campo tem a mesma infra-estrutura que um no meio urbano, com todo o aparato tecnológico.

- Nova Diretriz: O Turismo e o Combate à Pobreza

É reconhecido internacionalmente que as disparidades sociais no mundo do desenvolvimento só fizeram aumentar, o que acaba expondo o ser humano a condições de vida cada vez mais precárias. Tal fator gera um dos grandes desafios da atualidade, que é diminuir tais disparidades, promovendo a luta contra a pobreza e manter os recursos para as próximas gerações.

Inserido nesta realidade, A OMT (Organização Mundial do Turismo) caracteriza o turismo como “o melhor negócio do mundo”, vendo-o com potencial de combater as desigualdades sociais existentes no mundo, através da formulação e aplicação de uma “altruísta” diretriz, que objetiva utilizar o turismo como mitigador da pobreza no globo.

Entretanto, onde podemos pensar o turismo; com seu caráter elitista, segregador e apropriador de espaços; possa vir a ter em algum momento preocupações de cunho social. Combate à pobreza? Em uma atividade que necessita da primazia da acumulação e das disparidades para sobreviver (e se reproduzir)? É nefasto qualquer pensamento que venha a objetivar a igual oportunidade de desenvolvimento a qualquer pessoa sem distinção.

Alguns pontos são por si só imbuídos de contradição, principalmente quando relacionamos o modelo econômico (e o modo de vida contemporâneo) ao pensamento tão “altruísta” dos que fomentam a atividade turística no mundo. No modelo vigente ocorre uma fuga das divisas no turismo, associadas, principalmente, à concentração de ganhos, e não é mostrada de modo prático, soluções para combater tais práticas. Porém, conforme a visão da OMT nos parece que a qualquer momento tais problemáticas serão sanadas, sem uma extensa discussão da forma que tais soluções virão.

Neste momento exprimimos uma dúvida: sim, é factual a relevância do turismo perante o espaço geográfico no atual contexto da globalização; seja atuando na criação de infra-estruturas específicas a seu público ou modificando a paisagem e rotina de uma determinada localidade, ignorando-se a cultura e o modo que se permeiam as relações sociais locais, seja incentivando às pessoas o “prazeroso” ato de se transvestir como turistas ou até mesmo territorializando localidades objetivando apenas o lucro oriundo de uma atividade, ao ver dele, nociva em seu caráter, degradadora do meio ambiente e destruidora das especificidades culturais através da promoção da homogeneização da cultura, do fim das diferenças; qual modo de vida se manifesta(rá) na sociedade que se aliena supondo a busca do “incomum, exótico e novo” vir a ser um sinônimo de uma (famigerada/superestimada/utópica) felicidade plena? Que tipo de ser humano resultará desse momento de busca de realização individual que não mede as conseqüências e mazelas sociais decorrentes da expansão/desenvolvimento do turismo?

Por fim, notamos que Inseridos no prisma de tais questionamentos formalizamos diversas discussões sobre diferenciados aspectos que perpassam desde formas de desenvolvimento (por si só falhas) e a dialética inclusão/exclusão e como os mesmo se inserem no viés do turismo. Em comum entre tais discussões vemos a atividade turística, sendo posta como “o melhor negócio do mundo” (CORIOLANO, 2006, p.177). Contudo, concluímos que na realidade o turismo nada mais é do que um mero reflexo do modo de vida atual, onde não há vencedores ou perdedores, e sim uma lógica que prioriza a valorização das coisas, territorializando os locais, tornando-os passíveis de uma funcionalidade específica, excluindo a sociedade da verdadeira vida, onde estão inseridos os sentimentos, a amizade, o prazer, a vivência propriamente dita.

 

Referência Bibliográfica

SANTOS. M. A natureza do espaço: técnico e tempo; razão e emoção. 3ed. São Paulo: Hucitec, 1999

COSTA. C. L. O turismo enquanto espaço de análise geográfica: três perspectivas de abordagem. in: Mercator – Revista de Geografia da UFC. ano 03, número 06, 2004

BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1995

CORIOLANO, Luzia Neide M. T. O Turismo nos Discursos, nas Políticas e no Combate à Pobreza. São Paulo: Annablume, 2006 .



 

Licenciado e Mestrando em Geografia – Universidade Federal do Ceará.
i Acadêmico do Curso de Licenciatura em Geografia – Universidade Federal do Ceará


Como citar:

LUCENA, S. M. de.; NOGUEIRA, D. da S. Turismo na Modernidade: Discussões, Contradições e Concepção. Partes. 2010. P@rtes (São Paulo). Agosto. 2010. Disponível em:<http://www.partes.com.br/turismo/turismonamodernidade.asp>

 

 

 
  

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 Sávio Miná de Lucena é Licenciado e Mestrando em Geografia – Universidade Federal do Ceará.

 Denys da Silva Nogueira é Acadêmico do Curso de Licenciatura em Geografia – Universidade Federal do Ceará.

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