.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - 05/03/2008 23:04:06 

 
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Cultura organizacional nas empresas de turismo – uma análise sob o prisma da globalização
Por Paula Nora e Bianca Pugen

Resumo

O processo de globalização mundial é algo inevitável. Sua existência no cenário atual gera a necessidade de mudança de comportamento, tanto individual, quanto coletivo. Como símbolo da era global, a atividade turística necessita de empresas que adaptem sua cultura organizacional no sentido de torná-la adequada a este ambiente mais dinâmico e mais complexo.

Palavras-chave
Globalização
. Turismo. Cultura organizacional. Gestão. Velocidade.
 

Introdução 

Na dinâmica do mundo contemporâneo, na chamada era globalizada, torna-se necessário para a sobrevivência e o desenvolvimento das organizações enquadrar em seu modelo de pensamento idéias de flexibilidade, adaptabilidade e reversibilidade. Sem a busca de uma reorientação através destes conceitos, adequando a cultura organizacional ao veloz progresso da humanidade e a nova realidade mundial, almejando a inovação e prevendo o futuro, as empresas estão correndo em sentido contrário ao sucesso.

Em se tratando da multiplicidade de ofertas de lazer e turismo como símbolo da globalização, os elementos culturais nas empresas que trabalham na atividade turística são extremamente relevantes, pois sua observação e análise permite sua compreensão, auxiliando na constante adequação às modificações mundiais. Estar consciente de sua importância facilita a construção de um mecanismo de controle e manipulação capaz modificar seu funcionamento, ajustando-se conforme as necessidades impostas pelo ambiente e pelo novo cliente, mais informado e consciente.

Neste sentindo, o desempenho excelente de uma organização de turismo depende diretamente do nível de conhecimento da cultura existente, da percepção das transformações globais e da capacidade de rápida adequação a este meio altamente mutável. 

2. Globalização

Falar em globalização é falar num processo não somente de âmbito econômico, mas também social, político e cultural gerador de uma aproximação entre as nações e os indivíduos de todo o planeta. Esta aproximação tem a ver com rapidez de transformação e velocidade de informação do mundo contemporâneo, e a conseqüente diminuição do espaço global. Seu avanço traz consigo mudanças drásticas na forma de organização mundial, porém trata-se de um processo irreversível e inevitável que acaba por encurtar distâncias, tornando as relações mais velozes e eficientes.

De acordo com Friedman (1999) este sistema chamado globalização não é apenas uma tendência efêmera e possui sua própria lógica, “trata-se do sistema internacional abrangente que modela as políticas nacionais e as relações internacionais de praticamente todos os países” (p. 29). O autor acrescenta ainda quenão é estático, mas um processo dinâmico e contínuo: globalização envolve a integração inevitável dos mercados, dos países e das tecnologias, com uma intensidade sem precedentes” (p. 31).

A difusão do capitalismo de livre mercado, a abertura das fronteiras, a privatização, a desregulamentação da economia e as tecnologias integradoras são algumas das características marcantes deste processo.

Falar em mudança é falar num trabalho árduo, diante do quase inevitável medo que o ser humano possui do desconhecido. Neste sentido, a aceitação da globalização também passou por este caminho e mesmo diante da análise de seus aspectos positivos e negativos não faz mais sentido a discussão sobre a sua existência no cenário atual. Ela é uma realidade, produto de uma evolução social, e sem possibilidade de reversão. Friedman (1999) afirma que,

a globalização não é uma escolha. É a realidade. Hoje existe apenas um mercado global, e a única maneira de crescer à velocidade desejada pelo seu povo é por meio do aproveitamento dos mercados globais de ações e títulos, da busca de empresas multinacionais que invistam no país, e da venda da produção das suas fábricas no sistema comercial global. E a verdade mais elementar sobre a globalização é a seguinte: Ninguém está no comando (p.132).

Para que haja entendimento sobre este novo sistema é preciso uma análise multifocal e multidimensional. É necessário uma mescla de perspectivas, olhar o mundo sob diversos ângulos e cruzá-los para que se amplie a probabilidade de compreensão dos acontecimentos ao redor do planeta. A velocidade com que a globalização abrange o mundo é, provavelmente, maior do que a capacidade que o ser humano possui de compreendê-la. O grande desafio desta era é atingir uma estabilidade prudente entre a manutenção da identidade e o desenvolvimento necessário para o progresso. É preciso que as identidades não se sintam ameaçadas, caso contrário chances de se rebelarem contra o sistema. Neste sentido, o equilíbrio destes dois aspectos é fundamental para a sobrevivência da globalização.  

3. Cultura Organizacional

A cultura organizacional pode ser definida como um sistema informal de regras não escritas. Um sistema de valores compartilhados como crenças e suposições que guiam comportamentos e atitudes e que distinguem uma organização das demais. Ela determina a maneira como as pessoas se comportam e agem, de que forma tomam decisões e gerenciam o ambiente. Ela reflete a situação da entidade em um determinado momento e o sentimento daqueles que a compõem. Sua conceituação é fundamental para a compreensão estrutural das organizações. Schein (1992) define a cultura organizacional como

um padrão de pressuposições básicas partilhadas aprendidas por um grupo à medida que foram capazes de solucionar seus problemas de adaptação externa e de integração interna, que têm funcionado bem o bastante para serem consideradas como válidas e, por essa razão, ensinadas aos novos membros como sendo o modo correto de perceber, pensar e sentir em relação àqueles problemas (p. 12).

Pode-se ainda acrescentar que a cultura organizacional é entendida como a identidade de uma instituição, pois diz respeito ao modo de interação existente nela própria. Trata-se de valores aceitos e compartilhados coletivamente, advindos de suas experiências e percepções. Quando essas crenças são validadas por um grupo tornam-se pressuposições básicas, justificando o modo delas funcionarem.

Cada instituição é possuidora de uma cultura própria que se transforma a medida que as pessoas  pertencentes a ela vão se modificando. Os valores, crenças e pressupostos pertencentes a ela são efeito de um relacionamento intergrupal constituído pelos indivíduos e através deles enquanto sistema social. Ao se analisar a cultura organizacional pretende-se entender os fenômenos que acontecem na organização, explicando comportamentos individuais e coletivos. Seu entendimento é fundamental para o desenvolvimento das organizações.

Tanto os objetivos da empresa, como a própria realização pessoal de cada indivíduo depende diretamente dos significados que as ações tomam dentro da instituição. A compreensão deste cenário pelos funcionários será determinante para o sucesso ou fracasso dos projetos coletivos. Segundo Laraia (1986) “o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma herança cultural” (p. 68).

A constante inovação e evolução tornam-se requisitos fundamentais para a garantia da permanência e sobrevivência das instituições em um mundo cada vez mais competitivo. A cultura organizacional, neste sentido, dá significado ao que parece fora de ordem, proporciona a identificação dos valores ocultos da instituição. Da mesma forma que cada cultura organizacional é singular, o processo de mudança e adaptação também necessita ser.

Apesar da multiplicidade de fatores envolvidos, estudar a cultura configura-se como uma forma de interpretação da realidade, pois ela é capaz de revelar o cotidiano das relações organizacionais internas e, ainda, indicar as influências sofridas por forças externas. Gomes (2000, p. 111) acrescenta algumas funções da cultura organizacional, “o controle, a integração, a motivação, o envolvimento, empenhamento ou implicação, a identificação, a performance, o sucesso ou a excelência organizacionais”.

Desta forma, a análise da cultura organizacional auxilia a situar a organização no que diz respeito as grandes modificações que acontecem no mundo, dando propósito as coisas que parecem sem sentido; por meio da identificação do que está enraizado no cerne delas próprias.

 

3. A Globalização e a atividade turística

Em meio à problemática apresentada, acontecem novos fenômenos como a multiplicação das atividades de lazer e o incremento do turismo. A pós-modernidade, sob o ponto de vista da globalização, nos leva a reflexões sobre este crescimento da atividade turística, onde os traços do novo milênio se fazem notar claramente e onde a qualidade é altamente dependente de fatores externos, como infra-estrutura urbana, qualidade profissional e do meio ambiente.

O turismo é global se analisado por ser uma atividade que rompe fronteiras por lidar com o deslocamento de pessoas. Este deslocamento é amplamente facilitado pela globalização, através do maior número de informações adquiridas pelo cliente / turista, que através da internet situa-se geograficamente, optando por atrações diversas, decidindo quais tipos de cultura pretende visitar, além de pesquisar preços e estilos de serviços a serem utilizados, bem como a efetivação da compra de passagem aérea, reservas em hotéis e demais atividades, serviços e produtos necessários à plena realização das viagens. Oliveira (1999) afirma:

O turismo, global em sua essência e que, em seu estágio atual, assume o caráter globalizante, iniciado com a gênese do turismo de massa após o final da Segunda Guerra Mundial é impulsionado pelos avanços tecnológicos nos transportes aéreos e nas comunicações (p.286).

Como produto da era global, sofre interferências nocivas se analisado apenas pelo paradigma econômico, não respeitando determinados critérios de preservação, de ética ou de sustentabilidade. A implantação economicista da atividade turística é prejudicial quando visa apenas lucro de quaisquer envolvidos, tanto exploradores – e aqui se incluem empresários e turistas, quanto explorados – a comunidade, prejudicando os aspectos sócio-culturais e ambientais, pilares básicos para a atratividade local.

Envolvendo mais do que divisas e mercados, o turismo nasce do desejo das pessoas e nele se baseia. Atualmente os indivíduos não consomem apenas para a satisfação de necessidades, e sim para atender seus desejos. O turismo é um setor que mostra nitidamente o perfil deste novo consumidor, exigente e informado que busca sempre a qualidade dos serviços. A massificação da atividade juntamente com a informação obtida pelo novo turista – o neoturista, faz com que cada vez mais o turismo precise ser pensado, estudado e realizado de maneira séria, profissional e responsável.

Surge, então, o papel das organizações de turismo no tocante a desenvolver uma cultura organizacional baseada em valores que respeitem as peculiaridades de cada destinação e que desenvolvam ou explorem a atividade de maneira responsável e segura. Neste sentido, faz-se necessário adequar a cultura organizacional a processos de bases teóricas sólidas. Trigo (1998, p.38) afirma que “o sentido e o significado da realidade do lazer e do turismo não podem ficar a mercê dos interesses limitados, particulares e relativos do mercado”, defendendo que a concepção da atividade deve envolver a construção de valores profissionais de diversas áreas como a filosofia, sociologia, antropologia, economia