Crônicas

Ela, a mosca

Gilda E. Kluppel “Era uma mosca azul, asas de ouro e granada…” O verso acima, do poema “A Mosca Azul”, de Machado de Assis, trata de um homem que, fascinado pelo brilho provocado pelo inseto, tenta mantê-lo em suas mãos, imaginando os benefícios por encontrar uma suposta raridade. Mas, agitado diante de tantos sonhos e esperanças, depois de manusear insistentemente a mosca azul, disseca o seu objeto valioso. Enlouquece ao pensar que perdeu a chance de conquistar dinheiro e sucesso. Entretanto, a mesma mosca dos tempos machadianos sobrevoa, em vários espaços, empobrecidos ou abastados, zunindo em ambiciosos ouvidos para despertar a vaidade. A picada do veneno azulado conduz a um estado de delírio, quase embriaguez, pela total ausência de...
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Crônicas

As redundâncias da vida

Gilda E. Kluppel  A maioria de nós já encarou de frente ou disse, com sorriso nos lábios, um pleonasmo, seja subindo para cima, entrando para dentro ou sonhando um sonho, esta sobra de palavras para expressar um pensamento. Considerado um vício de linguagem, capaz de macular atentos ouvidos, muitas vezes passa desapercebido e inserido involuntariamente em nosso vocabulário. Expressões carregadas de sentimentos atraem as redundâncias, afinal um choro chorado, lágrimas molhadas de uma dor doída, chamam a atenção para algo que parece óbvio, contudo realça uma situação dramática. Quando ao falar, ocorre a dúvida em algum comunicado, quantas vezes, por impulso, reforçamos o significado ao pronunciar: “com certeza absoluta” ou um “agora, já”. E, ainda, nossos ouvidos são bombardeados...
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Crônicas

João sem sonho

Gilda E. Kluppel João, em sua juventude não foi um contestador, ao contrário da maioria dos jovens. Numa rotina metódica aceitou o destino aparentemente traçado. João soma um dia após o outro. Numa conta cruel, almeja que a jornada de trabalho acabe logo, para descansar no final de semana. Assim, sucessivamente, acumula o tempo, ansioso pela aposentadoria. Afinal, considera o seu trabalho monótono, somente um modo para ganhar dinheiro. Tal como a areia levada pelo vento, acredita que todos agem desta maneira. Apenas conseguem movimentar-se em busca de dinheiro, consumo e prazer. Na aparente naturalidade do seu estilo de vida, João aceita que o conformismo pertence à natureza humana e encara o mundo com mais tranquilidade, ao crer que...
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Crônicas

O complexo de Schwarzenegger

Gilda E. Kluppel Bastava ocorrer algo desagradável, como uma grosseria ou insulto, para a mulher desabafar: “se eu fosse o Schwarzenegger isso não aconteceria”. Ela se referia ao ator Arnold Schwarzenegger, conhecido pelo seu porte atlético. Acreditava que, por ser mulher, estaria em desvantagem, ao contrário de um homem grande e forte, capaz de impor respeito apenas pela presença. Com essa convicção, ela assegurava que teria impedido uma série de constrangimentos. Não se reportava ao respeito conquistado durante anos de convivência, entre pessoas conhecidas, esse permanecia inalterado. Mas, em momentos corriqueiros, no convívio com estranhos, numa fila, na rua ou no trânsito, nos quais o aspecto físico pode acarretar uma prioridade às avessas. Entretanto, a mulher evitaria os maus...
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Crônicas

O professor e a longa noite

Gilda E. Kluppel “O medonho silêncio do meio de uma tenebrosa noite.” William Shakespeare   Eu deveria ter uns 14 anos. Era a década de setenta, mas não sabia sobre a ditadura e que pessoas eram torturadas e mortas. Caminhava tranquilamente pela Praça Rui Barbosa, no centro da cidade, sem imaginar que ali existia um lugar onde eram levados os presos políticos. Acreditava viver num país em que tudo era realizado para o “bem de todos”. O regime de governo era autodenominado de “democracia representativa”. Divulgava-se que o Brasil, o país do futuro, logo se transformaria numa potência; diante da ocorrência de um “milagre”, o chamado “milagre econômico”. Entretanto, a minha inocência ou ignorância política minimizou quando um jovem...
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Águas de São Paulo

  Gilda E. Kluppel São as águas de março águas de todos os meses em gotas e em pancadas águas que brotam do chão são águas demais. Águas que lavam o asfalto levantam a ira dos rios tratados como meros fiapos traçados por mãos humanas. São águas sufocadas exigindo presença entubadas como doentes ainda choram de dor. De onde os jesuítas rezavam abençoado Tamanduateí águas de muitas voltas agora, mera vala à beira do mercado. Anhangabaú jurado de morte em seu leito aquele que foi rio vivente maltratado e excomungado. São águas que vivem à margem abafadas pelo concreto e asfalto Tietê no sol poente águas que vazam. São as águas de Piratininga antes santas, hoje malditas tentando retornar...
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Crônicas

As mãos ainda balançam o berço

Gilda E. Kluppel     Torna-se frequente, por parte de alguns meios de comunicação, encontrar marcas ou vestígios do avanço da idade entre as mulheres. Não se contentam mais em mostrar que o rosto permanece jovem, após cirurgias e tratamentos. E com o olhar de uma lupa, capaz de aumentar significativamente os possíveis efeitos da velhice, vasculham o corpo para anunciar ou denunciar, algo considerado criminoso, o passar do tempo refletido nas mulheres. Envelhecer parece um pecado sem perdão. Conforme o protótipo exibido, com insistência pela mídia brasileira, a beleza é excessivamente magra e não acumula a ação natural do tempo. Esta exposição constante do ideal de beleza conduz a um processo interminável de comparações, entre as pessoas, afetando...
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Cida Mello

Presente de Natal

Aparecida Luzia de Mello*  Tudo estava pronto. A norma era embrulhar cada presente separadamente, ou seja, cada criança abriria no mínimo 12 pacotinhos. Cada pacote embrulhado cuidadosamente em papel de presente multicolorido era posteriormente colocado num saco grande vermelho, amarrado com grande laço verde e um cartão de natal com o nome da criança e palavras carinhosas para arrematar. Dentro de cada saco vermelho tinha – conjunto de roupa, calcinha/cueca, par de meias, par de chinelos, par de tênis, kit de higiene, mochila escolar, estojo escolar com caneta, lápis preto e colorido, borracha, cadernos, jogo de lençol, jogo de toalha, brinquedo, guloseimas… Isto representava mais de 500 pequenos e médios pacotes de presente. Só de olhar o coração já...
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Crônicas

O susto

Gilda E. Kluppel   Em um anoitecer tipicamente curitibano, nebuloso e úmido, no qual as sombras e os vultos predominam, ao voltar para casa, resolvi abastecer o automóvel. Aproveitei também para levar alguns salgadinhos, recomendados e classificados, por uma colega de trabalho, como “divinos”, encontrados na loja de conveniência do posto de gasolina. Ao descer do carro, avistei uma vizinha entrando rapidamente em seu automóvel, com o semblante enfezado. Não sabia o seu nome, mas ainda não aderi ao incômodo costume das pessoas que, diante de tanta pressa, mal têm tempo para se olharem. Quando a porta automática da loja de conveniência do posto se abriu, havia apenas um rapaz, com um boné de aba grande que escondia o...
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Crônicas

O carro e a frase

Gilda E. Kluppel “Não ria do meu carro, termine de pagar o seu!”   A frase gravada, com letras garrafais, no vidro traseiro do automóvel, chamava a atenção pelas ruas por onde circulava. Tratava-se de um veículo antigo, bem conservado, modelo Corcel II, com um bagageiro no teto e, pelo visto, usado para o trabalho. Não sei se o dono era alvo de chacotas, pela condução do velho carro, ou apenas desejava ser engraçado. Mas, a frase citada não deixa de conter uma verdade. É notória a fascinação que o carro novo exerce sobre as pessoas. Assim, em inúmeros casos, adquirem, em prestações a perder de vista, um bem que, na verdade, não teriam condição de comprar. Visto que...
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Crônicas

De pai para filho

  Gilda E. Kluppel O homem, massagista experiente, adquiriu a habilidade com o pai, do tempo em que as pessoas recorriam aos supostos leigos, em casos de machucaduras. Consertava ombros, mãos, pés e o que mais estivesse deslocado. Dizem que ele curava até a tal da espinhela caída. Na sala do atendimento, a cadeira e o banco de madeira. Não utilizava um produto ou creme para a massagem, o cliente sequer precisava retirar a roupa. O tratamento consistia em puxar a parte afetada, após o estalo, a dor se esvaía. O corpo das pessoas parecia “fora do esquadro” e, depois do atendimento, retornava a uma posição de equilíbrio. Homem simples e humilde, com semblante sereno, nutria uma certa vergonha...
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Crônicas

Interjeição curitibana

Gilda E. Kluppel Existem palavras curingas, servem para qualquer ocasião. Na linguagem escrita considera-se pobreza no uso do vocabulário, ao não deixar claro o sentido e oportunizar várias interpretações. Mas, na linguagem coloquial, quando estamos frente a frente com o interlocutor, o significado não acarreta dúvida. Nossos ouvidos são sensíveis às variadas maneiras de falar e às expressões próprias de cada lugar do país. Ainda mais em nosso país, com território continental, onde se encontram acentuadas diferenças linguísticas. Piá (menino), guria (menina), penal (estojo escolar), vina (salchicha), chineque (pão doce) e mimosa (mexerica) são palavras que compõem um vocabulário peculiar, o vocabulário curitibano. Entretanto, existe uma expressão que salta aos olhos, ou melhor aos ouvidos, das pessoas recém-chegadas à...
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Crônicas

Mudança de tratamento

Gilda E. Kluppel  Dentro do elevador entre algumas pessoas, uma mulher de trinta e quatro anos, um rapaz de vinte e poucos anos pergunta para ela: “a senhora tem horas?” Ela olha timidamente para a direita e também para a esquerda, mas o rapaz fitava seu rosto. Não teria como escapar, a senhora trata-se da própria mulher. E com a face corada e atordoada, mal conseguia responder a pergunta, apenas balbuciou algumas sílabas, sem ao menos verificar os ponteiros do relógio. Ao sair do elevador procurou rapidamente uma loja, para conferir a aparência diante do espelho. Algo diferente estaria acontecendo hoje? Achou que a camiseta preta não lhe caiu bem, mas não ficou convencida. Aquela palavra, acompanhada de rima,...
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Crônicas

Numa fila de supermercado

  Gilda E. Kluppel  Final da tarde de uma sexta-feira, início do mês e o supermercado lotado, quase intransitável, congestionamento de carrinhos pelos corredores. Uma voz feminina, ao microfone, disparava uma sequência interminável de informações, poderia também acrescentar: haja paciência! Após apanhar algumas coisas básicas, desanimei ao olhar para a mal traçada fila que invadia os corredores e bloqueava as prateleiras dos produtos. Estava pronta para aguardar um tempo enorme na fila do caixa rápido, nem tão rápido neste dia. Quando apareceu uma senhora na faixa dos sessenta anos, um largo sorriso combinando com o lenço florido que adornava o seu pescoço, dizendo em claro e bom som: “boa tarde”. Permanecia alheia a toda aquela movimentação de pessoas apressadas...
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Crônicas

Mexericas à beira da estrada

  Gilda E. Kluppel Isto aconteceu há muito tempo, mas quando viajo para o litoral e alguém pede para encostar o automóvel, em uma barraca à beira da estrada, lembro-me das mexericas expostas e do garoto ao lado. Numa viagem, em certa ocasião, uma amiga sentiu vontade de saborear as mimosas, como são por aqui chamadas as mexericas, ao avistá-las numa barraca. Quando descemos do automóvel, seguindo o aroma delicioso, fomos direto à estante escolher as mais apetitosas, mal chegamos a olhar e o menino interrompeu com uma resposta inesperada: - Eu escolho porque senão pegam apenas as boas e eu fico com as ruins. Isto não está certo! Ele pegou o saco e misturou as boas e também...
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Colunistas

Excesso de medo

Gilda E. Kluppel  Que medo é esse? Não o medo existencial, mas um medo qualquer e vulgar que mal se sabe a razão. Medo que vem de fora, invade e abafa outros sentimentos pela incessante necessidade da vigilância. É tanto medo que se sobrepõe às vontades e aos desejos corriqueiros, seja de caminhar pela rua e se perder em pensamentos; momentos de distração nos tornam vulneráveis. É um medo intrometido e invencível que atrapalha o dia a dia. Vivemos assombrados pelas inúmeras possibilidades de assalto, sequestro, golpe financeiro e outras situações sinistras. O medo se tornou um companheiro frequente e cruel, mas considerado imprescindível para a nossa sobrevivência. Ouvimos sempre as mesmas recomendações. Cuidado com estranhos. Não converse dentro...
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Crônicas

Alguma sustentabilidade

Gilda E. Kluppel O termo sustentabilidade é elegante, soa bem aos ouvidos e tem cada vez mais destaque nos diversos espaços por onde transita. Mas, muitas vezes, o discurso da sustentabilidade, com o perdão do trocadilho, não se sustenta. Parece hipócrita, propagamos palavras bonitas e politicamente corretas, mas não diminuímos o consumo exagerado. Há tempo somos condicionados por essa cultura, necessitamos comprar cada vez mais, consequentemente o aumento do consumo acarreta a devastação dos recursos naturais e o acúmulo de resíduos. Um exemplo gritante é a locomoção centrada no transporte individual. As cidades estão abarrotadas de veículos, mal sobra espaço para a circulação, com isto o automóvel se tornou uma fonte inesgotável de estresse. Mas, o apelo para o...
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Cultura

Cidade de São Paulo

Por Gilda Kluppel Quando os deuses do concreto transformaram o sonho em realidade forjando imensas vigas e colunas para suportar gigantes estruturas conduzindo carruagens por caminhos subterrâneos entrelaçando avenidas e travessas em milhares de esquinas deste labirinto urbano sequer poderiam supor o toque dos mortais ousados capaz de alargar mais este espaço multiplicando misticamente o metro em quilômetro convertendo vidro em pele para abrigar as nuvens em prédios espelhar grandeza sobre as águas e ainda cobrir o céu com diversos tons da cor cinzenta segue a sua paulistana sina encharcada pelos excessos repleta de guarda-chuvas alertas das vidraças regadas com gotas lágrimas causadas pelo sofrimento incessante necessidade extinguir tantas construções belas e permanecer sempre moderna....
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Cultura

Poema Urbano

Gilda E. Kluppel Tudo num lugar ao mesmo tempo sem tempo perdido no relógio acelerado pelo ritmo frenético da parafernália urbana sons, automóveis, buzinas escada que rola, tração que chega diversos tons de uma sinfonia. Terra da garoa, leito da tempestade abundância de água e de verbo marginais em agonia constante entre poemas alucinados diante do caos deslumbrados anjos distraídos e tanto perigo. Mega metrópole, pessoas antenadas ondas parabólicas e muita retórica no vigor da arte dos Andrades entre os tantos Mários, Oswalds e a poesia encontrada no elevador. Quantos mundos cabem neste espaço quantos sotaques existem na Pauliceia enredo sugerido em concreto mega versos para descobrir seus segredos de Adoniran e a sua eterna plateia o Trem das...
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Crônicas

Senhor Noel

Gilda E. Kluppel O senhor chegou devagarinho em passos suaves, trajando rubro, parecendo inofensivo, presumidamente bondoso para atender os desejos de todas as crianças do mundo. Trouxe consigo os pinheirinhos revestidos com neve, luzes coloridas, renas voadoras e outros encantamentos. Estávamos acostumados em receber apenas um presente e partilhar o almoço especial em família mas, com o passar o tempo, acharam que isto era pouco. Precisávamos mais, logo depois veio o banquete, a pompa e as circunstâncias. Ainda era pouco, acrescentaram novas necessidades, conduzindo pessoas às peregrinações em torno de presentes, enfrentando multidões em correria, trânsito caótico e nervos à flor da pele. Segundo as normas estabelecidas, todos os conhecidos, estimados ou desestimados, devem receber presentes durante o Natal....
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