Você já empinou uma pipa com seu filho, hoje?

pipapipa

Paulo de Abreu Lima

Refletindo sobre a construção deste artigo, pensava em 3 temas:

  • o maniqueísmo e a neurose urbana na qual vivemos submerso no dia-a-dia numa cidade como SP
  • a perda da arte no nosso comportamento, por estarmos “deglutidos” na tecnologia da informação “internetizada”
  • e a consequência destas duas coisas na difícil tarefa de educar nossos filhos.

No fundo está tudo muito interligado; se não, vejamos.

As nossas relações no cotidiano têm se caracterizado como relações de receio, como relações de medo, até. É muito interessante observarmos que quando vivemos numa cidade como São Paulo, somos livres, pois somos anônimos, ao contrário daqueles que moram em cidade pequenas, onde todos sabem de tudo. Será que somos livres mesmo? Será que somos anônimos? Anônimos provavelmente sim, pois somos mais um rosto na multidão; agora, livres, tenho minhas dúvidas. A questão, na verdade, é o que é ser livre?; é ser anônimo? Lembro-me de comentar que podemos passar meses sem ter contato com nosso vizinho de apartamento (a 3 metros de distância). A liberdade do anonimato, da massificação do nosso rosto, parece custar muito caro para o crescimento da nossa personalidade social, pois uma sociedade cujo acesso ao bem estar é muito mal distribuído e muito restrito, desenvolve uma conduta de relacionamento, nas pessoas, de receios, de medos, de fechamento, ou seja, as pessoas se trancam em suas casas, em suas fortalezas, em seus carros, em suas próprias personalidades, supondo que estão protegidas. Acho que é neste momento que a sociedade cria as pessoas do bem e as pessoas do mal; um maniqueísmo social covarde. Que não é novidade; não foi criado por nós, neste século; mas sem dúvida o nosso século (especialmente a sociedade ocidental) o aperfeiçoou fantasticamente, talvez como nenhuma outra sociedade o tenha feito.

O anonimato, a nossa face muitas vezes sem rosto, ou o contrário, não sei, me parece ter uma relação muito estreita com o boom da comunicação. Outro dia ouvi a expressão “quem não tem um e-mail, não é cidadão“. Não há dúvida que este boom é fantástico; ainda outro dia eu dava vivas! à tecnologia, pois ela enriquece tremendamente a nossa comunicação; a comunicação chega mais rápida, mais claramente, mais detalhada, mais um monte de coisas. O que me chama um pouco a atenção é será que não estamos nos automatizando um pouquinho? Recebemos uma chuva de e-mails com um monte de “tranqueiras”; nossos contatos passam a ser quase que apenas por e-mail; passamos seguramente 70% do nosso tempo, num escritório, na frente de um computador – 50% deste tempo, lendo e-mails!! Outro dia li que uma característica do estereótipo dos tecnólogos do Vale do Silício (nos EUA) é ficar na frente de um computador brincando com games nas horas de folga. E o nosso bom e velho livro de papel? Será que não acabaremos perdendo a nossa capacidade e habilidade de fazermos com as mãos? De fazermos uma carta? Um desenho? Uma leitura? Uma música? Uma canção? Um poema? Uma discussão? Uma conversa? Espero que este anonimato e a relação pessoa-máquina não impeçam a nossa capacidade de fazer com as mãos; não impeçam a nossa arte.

E minha filha pergunta – ladrão não tem que matar?? (cara de como responder?).

quando pensamos que somos livres, achamos que podemos fazer o que quisermos; mais até: achamos que podemos legislar (pelo menos para os nossos filhos) do jeito que quisermos; talvez até o façamos mesmo – e este é o problema – pois em um sociedade na qual muitas referências éticas são maniqueístas, a nossa sobrevivência, econômica e psicológica, deve ser garantida no braço, ou seja, nas minhas leis, nas minhas regras; não importa muito o meu vizinho; preciso garantir que o meu filho tenha mais sucesso e mais regalias que o do meu vizinho. Graças a Deus, nossa sociedade ainda não está completamente perdida. Ainda temos muitas referências éticas saudáveis e humanas. Ainda temos muitas regras e combinados (essa é a nomenclatura com nossos filhos) que se preocupam com o que é comum, com o que é de todos. A partir do momento em que boa parte da nossa sociedade não se preocupa com o que é de todos (como uma praça pública, por exemplo, ou qualquer outro equipamento social), mas só com o que é dela mesma ou pensa que é (vide perfil geral do político brasileiro), acho que a arte e a inocência do abraço, de fazer uma pipa e empiná-la com o filho – na praça naturalmente – precisam ser, com alguma urgência, resgatados.

Paulo de Abreu Lima é psicólogo

Post Author: revistapartes