Televisão & Ideologia

por Paulo de Abreu Lima

Paulo de Abreu LIma. é psicólogo

Outro dia pensava sobre os tipos de classes sociais ou classes de comportamento existente em nossa sociedade baseado na escolha da mídia televisiva (TV aberta e não por assinatura), o que, de alguma forma, pode parecer uma visão talvez enviesada de minha parte, mas de qualquer modo acho que esta visão reflete um pouco do conjunto de valores éticos que fundamentam nossa sociedade atual. Visualizei 3 grupos televisivos e seus conjuntos de valores (ética, moral, comportamento, etc.), distribuídos pelas seguintes redes de TV: TV Cultura, TV Globo, Outras Tvs. Pode parecer um pouco restritiva esta percepção mas identifico alguns traços peculiares nestes grupos a partir da análise da programação exibida e considero que a mesma reflita a ideologia e imaginário destas classes sociais.

TV CULTURA 

A programação da TV cultura reflete uma aspiração e sensibilidade para uma sociedade mais justa e equilibrada, onde os valores e preocupações ideológicas desenvolvem uma crítica e análise da sociedade atual, no sentido de questioná-la quanto à conduta que as pessoas têm construído na atividade econômica, política e todas as atividades que envolvem regras coletivas. O programa Repórter-Eco, por exemplo, explora com uma seriedade e profundidade respeitável a preocupação de como as questões ambientais têm se desenvolvido, apresentando reportagens nas quais informa com amplitude e proporciona crítica no telespectador.

Outro exemplo bastante interessante da programação desta Rede é o Jornal da Cultura que explora igualmente o conteúdo jornalístico de uma forma crítica e questionadora, ao invés de simplesmente apresentar o fato; mas inserindo o mesmo dentro de contextos nos quais a opinião pública mantém atenção e atualidade, enfocando análises geralmente abrangentes e imparciais.

Vale a pena citar mais um exemplo, que é o caso da programação infantil. É indiscutível a qualidade e a visão de desenvolvimento que fundamenta a proposta e formato destes programas. Programas como Castelo Rá-Tim-Bum, Co-có-ri-có e outros, expressam claramente sua preocupação de que a criança, seu principal cliente (não há como não categorizar numa visão de consumo o telespectador), mais do que mero entretenimento, está em pleno desenvolvimento e que todo o momento de lazer deve se refletir como crescimento e oportunidade de aprendizagem (de relações sociais, intelectuais e emocionais), ou seja, uma visão de que a educação infantil, por exemplo, não se restringe à guarda e alimentação das crianças numa creche ou escolas (lembro-me do comentário do pai de um coleguinha do meu filho, referindo-se à uma determinada escola de educação infantil particular, cuja mensalidade este pai considerava muito elevada apenas para brincar. Na visão deste pai, a educação é acumulo de conhecimento e ela só se inicia na a partir da 1ª série do ensino fundamental, ou seja, a brincadeira e o brinquedo não agrega e não proporciona desenvolvimento. Exatamente ao contrário da programação infantil da Cultura (como também do canal Futura, na TV paga).

TV GLOBO

É curiosa a vinheta da Rede – globo e você, tudo a ver. Afinal o que tem tudo a ver? Qual a ideologia que fundamenta a programação da Rede Globo? Reflete qual população? Uma população ora crítica, ora alheia. Sensível a um formato de programa (estética e plasticamente) e ávida por emoção mundana. Ocorrem-me dois exemplos. O especial O quinto dos infernos expressa um formato mais cuidado, mas não endereçada, provavelmente, a uma população de percepção mais rude ou alheia aos fatos e à história da nação, do ponto de vista estético e plástico e sociológico Não chega a ser um ensaio histórico de maior profundidade, mas ressalta e destaca, com um tom criticamente irônico, e real, suponho, pois mostra algo que os livros de história tradicionais não mostravam até algum tempo atrás (nos faz lembrar inclusive o filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, que mostra uma família real muito curiosa, engraçada e atrapalhada). Quem assiste este conteúdo pode não ser exatamente um seguimento da população totalmente engajado com questões éticas, mas também não representa uma população totalmente alheia desinformada.

Por outro lado o programa Linha Direta expressa uma visão de informação e crítica engajada, sim, numa ideologia de olho-por-olho-dente-por-dente, ou seja, onde a reflexão e ponderação não fazem muito sentido na busca de soluções para problemas sociais de maior gravidade. O programa aborda dois aspectos interessantes: o universo da violência e da emoção mundana explorando com requinte de detalhes através das simulações apresentadas, atendendo bem o gosto do freguês pela emoção crua da realidade, o que vai de encontro com um perfil e aspiração de um segmento social que não exerce uma habilidade ou possibilidade de refletir sobre isso. Outro aspecto interessante abordado no programa é a perspectiva da crítica, quando propõe ao telespectador a denúncia de fatos e situações violentas conhecidas. Aí, sim, há uma tentativa de proporcionar na população uma atitude e um exercício de cidadania, no sentido de chamar a atenção e intervir, de alguma forma, no que acontece na sociedade.

Outras tvs 

Por que todas as redes menos Globo e Cultura? Pois todas as outras (novamente da TV aberta) parecem não ter nenhuma preocupação em produzir algum tipo de programação que de alguma forma proporcione reflexão sobre nossa realidade social. Ou seja, a ideologia produzida nas outras redes (alguma exceção à TV Bandeirantes, especialmente por seu jornalismo) produzem um conjunto de programas que expressa um alheamento e alienamento social muito forte dotado, quando não de viés religioso, de viés antiético. Uma característica forte no universo deste segmento da população é o emocionalismo e o lazer desprovido de um conteúdo que expresse aspiração e evolução – por exemplo os musicais de auditório – ou seja, onde, como e para onde vamos, e como melhorar as relações desta nossa sociedade tão carente de regras e referências éticas mais fortalecidas.

Alguns exemplos: Ratinho. As situações apresentadas neste programa expressam e sugerem uma conduta de catarse na plateia e, em menor proporção, por não estarem presentes fisicamente no programa, no telespectador. Tais situações, as vezes, parecem anedóticas e, portanto, simuladas, mas certamente desenvolvem no telespectador emoções e um imaginário de crueza, senão crueldade na visão e elaboração das relações interpessoais e portanto éticas. Num dos programas o apresentador mediou um debate (se podemos chamá-lo assim) entre o deputado federal José Genoíno, que participava a distância através de telão, e o deputado estadual Afanásio Jazadi presente no programa, na época do seqüestro do prefeito de Santo André, Celso Daniel. A discussão era naturalmente sobre a questão da segurança pública. O interessante no evento era a forma dramática e ostensiva que se dava a discussão a respeito de temas como pena de morte e ostensividade da ação policial.

Outro exemplo bastante interessante desta categoria é o programa do apresentador Sergio Malandro. O programa explora abusivamente da imagem da sexualidade feminina e de situações, senão vexatórias, baratas no sentido da pobreza e crueza do relacionamento humano. O programa mostra situações em of de pessoas (homens normalmente) que estariam sendo testadas quanto a sua fidelidade conjugal. O tema até é interessante não fosse o formato e o abuso de recursos visuais apelativos nas situações apresentadas.

“A mais triste das ignorâncias é aquela que, nascida do orgulho e da arrogância, é alimentada pela falta de memória e incapacidade de perceber a própria responsabilidade por suas dores…” (anônimo)

Paulo de Abreu Lima

Partes-abril/2001

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