O Divino Mestre Verde

Por Raul Prates

A timidez o impediu de ser um astro, mas não um craque. Assim, na minha também modéstia, defino o meia Ademir da Guia, que comemorou 60 anos no início do mês.

Sua paixão é o Palmeiras, clube que defendeu entre 1961 a 1977, Divino, que herdou este nome por conta do pai: o Divino Domingos da Guia. O jornalista Armando Nogueira o definiu em poucas e precisas palavras: “nome, sobrenome e futebol de craque”.

Ademir era dono de um estilo refinado, elegante, de passadas largas, parecia que bailava no gramado. Um maestro de uma Academia de craques. Sobrava técnica e capacidade. Até mesmo eu um botafoguense não esqueço de uma bela formação palmeirense: Leão, Eurico, Luis Pereira, Alfredo e Zeca, Dudu e Ademir da Guia; Edu Leivinha, César (o Maluco) e Nei. Tempos inesquecíveis de belo futebol. Não dava carrinhos, não cometia muitas faltas, depois de Pelé, o mais tecnicamente completo.

Era o 10, um jogador respeitado por todos este titular absoluto do Palmeiras por quase 17 anos (866 jogos e 153 gols). Veio do Bangu-RJ, em 1961, ainda menino, até encerrar sua carreira, em 1977. Ademir da Guia, este meia extraordinário, se tornou mais do que o maior jogador do Palmeiras em todos os tempos; ele é o próprio Palmeiras, encarnado e personificado em seu talento e seu caráter. Um jogador como ele, que disputou a Copa do Mundo de 1974, só poderia mesmo ser chamado de Divino. Zagalo, meu querido, trocá-lo por Mirandinha! Ademir da Guia é e sempre será divino pela própria natureza.
Ademir foi campeão brasileiro (72 e 73), do Robertão (67 e 69), da Taça Brasil (67), dos Paulistas (63, 66, 72, 74 e 76), e do Rio-São Paulo (65).

Pela timidez fez péssimos contratos e não ficou rico. Não tinha para os contratos a mesma precisão e facilidade que tinha para dominar a bola.

Fiquemos com uma preciosa fala de outro virtuoso, mas nas letras:

“Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário”
(João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano e palmeirense, autor do clássico Morte e Vida Severina, em poema sobre Ademir da Guia).

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