Os santos e suas devoções na São Paulo d’antanho

Lincoln Secco, membro do grupo de estudos D’O Capital, é autor desta série sobre as mais antigas igrejas da cidade de São Paulo, segundo Lincoln, os santos são muitos e há para todos os dias e os estudos da variação regional e histórica de suas devoções contribuiriam muito para se conhecer a história popular do Brasil.

A tradição das devoções aos santos enraizou-se muito cedo no Brasil. Desde o século XVI. Santos eram protetores de ofícios daqueles tempos primeiros, alguns que não mais existem. Em Portugal formavam-se corporações de mestres de ofício e seus aprendizes, com regimentos que restringiam o acesso de pessoas de fora, também confrarias, com suas capelas em homenagem aos santos. Muito dessa tradição perpetuou-se no Brasil. Desse modo, trabalhadores tinham seus patronos, como nos informa o Monsenhor Camargo (A igreja na história de São Paulo, Vol. I, p. 253): São Jorge (barbeiros), São Miguel (ferreiros), São Crispim (sapateiros), Nossa Senhora da Conceição (correeiros), Senhora das Mercês (pasteleiros), Santa Justa e Rufina (oleiros), São José (pedreiros e carpinteiros), São Gonçalo, provavelmente o Amarante (tosadores), Senhora de Oliveira (confeiteiros), Senhora das Candeias (alfaiates), Senhora da Encarnação (carpinteiros de móveis), Santo Elói (ourives), São Lucas (pintores), Santa Cecília (músicos), Santa Catarina (livreiros).

Os santos associaram-se também às demandas populares por curas milagrosas e aos medos e esperanças mais simples. Daniel Kidder, um viajante dos Estados Unidos, e protestante, que esteve no Brasil no século XIX, deixou-nos uma lista dos santos de acordo com a crendice popular (Reminiscências de viagens e permanências no Brasil, pp.286-7): São Gonçalo Amarante protetor das moças que desejavam casar-se; Santo Amaro (vítimas de fraturas e mutilações); cinco franciscanos martirizados no Marrocos (contra febres e calafrios); São Sebastião (doenças contagiosas); São Braz (afecções da garganta); Santa Apolônia (dor de dentes); São Lázaro (elefantíase); Santa Margarida de Cortona (protetora das parturientes); Santo Agostinho e São Tomás de Aquino (da boa memória e dos estudos); Nossa Senhora da Conceição (dos estudos acadêmicos, mas também de moças casadoiras); Santa Luzia (protetora dos olhos); Santo Antônio (causas perdidas); São Jerônimo, São Simão, São Hermenegildo, São Lourenço e Santa Bárbara (contra raios, trovões e tempestades); São José (padroeiro dos maridos fiéis); São Benedito (contra picadas de cobras); São Cornélio e São Macário (advogados dos maridos que querem que suas mulheres sejam virtuosas); São Tude (contra tosses); São Bartolomeu (contra a loucura); São Francisco de Paulo (da boa vontade com os vizinhos); São Pedro Gonçalves (marinheiros); São João Nepomuceno (dos confessores); São João (patrono dos clérigos bem educados); Santo Onofre (advogado das mulheres que as auxilia a conhecer o caráter de seus amados); São Miguel dos Santos ( contra o câncer) São Libório (contra os cálculos); São Sérvulo (contra a paralisia) etc. Certamente, as variações regionais e temporais são muitas. Essas foram as que se registraram em momentos precisos. Acrescentem-se outras crenças, como São Tomé (protetor dos arquitetos), ou Santo Onofre, aqui já citado, que também agiu contra a fome em Portugal; São Gonçalo do Amarante, fecundador (as mulheres oravam, mas também se friccionavam para ter filhos), São João, festejado como rapaz bonito e namorador (Cf. Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, p.251).

Algumas das crendices estão vinculadas às vidas dos próprios santos (como o São Brás, que salvou uma criança que engasgara com uma espinha de peixe e assim tornou-se o protetor da garganta). Ou São Cristóvão, gigante que ajudava os viajantes a atravessar um rio e se fez protetor dos mesmos. Hoje, em São Paulo, é o protetor dos motoristas. Um dos santos mais populares das igrejas paulistanas de hoje é, sem dúvida, o Santo Expedito, de natureza lendária, dizem alguns doutos. Mas diz-se por aí, nos milhares de santinhos que se distribuem em todas as igrejas de São Paulo, que era um soldado romano (assim como São Sebastião) martirizado na Armênia. Quando converteu-se um corvo segredou-lhe: “Cras, cras, cras” (amanhã, amanhã, amanhã). Isto é: adie sua conversão para depois. Santo Expedito pisoteou o corvo dizendo: “Hodie” (hoje). Por isso ele é o santo do aqui e agora. Seus milagres não esperam. Ele atende aos desesperados na mesma hora em que o solicitam. Mas também aguarda que o solicitante converta-se já e não depois. Há as devoções que se perderam nos tempos passados. Principalmente uma que foi tão forte na São Paulo dos primórdios e, atualmente, ninguém mais se lembra: Santa Úrsula e as onze mil virgens. Muito comum foi sua invocação nos testamentos antigos. Diz a lenda que, tendo fugido com onze mil virgens dos invasores saxões, Úrsula e as companheiras foram martirizadas pelos Hunos. O mais verossímil, segundo Omer Englebert (Vidas dos santos, Vol II, p.554), é que fossem onze mulheres, assassinadas em fins do século III na região de Colônia (atual Alemanha). Os santos também são muitos e há para todos os dias. Estudos da variação regional e histórica de suas devoções contribuiriam muito para se conhecer a história popular do Brasil.

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