Rompendo as barreiras do preconceito

Rompendo as barreiras do preconceito
por Madalena Carvalho

Ano III n.37 setembro de 2003

Os preconceitos
Intolerância. Não seria melhor refletirmos sobre nossas atitudes e nossos comportamentos?

 

Madalena Carvalho é Consultora Organizacional, atuando em projetos de desenvolvimento e gestão de pessoas. Carreira executiva em empresas nacionais e multinacionais, destacando-se a Ford Brasil, onde exerceu suas atividades por 10 anos. Palestrante e conferencista em temas como Formação de Lideres, Motivação, Gestão Estratégica, Mudança Organizacional, Trabalho em Equipe, entre outros. Articulista em jornais e revistas eletrônicos. Consultora do portal Businesscom. Formada em Administração de Empresas (87) e Pós Graduada em Recursos Humanos, (89) pela ESAN Escola Superior de Administração de Negócios – São Paulo. Diretora da Carvalho & Lima Consultores Associados.

Prejulgamentos, opiniões precipitadas, intolerância, ignorância, ausência de conhecimento sobre determinado assunto, enfim, são várias as definições que podemos dar de preconceito. Nascido pela educação que recebemos, pelas injunções de nossos pais, por um “modus vivendi” da sociedade, e assim, tantas outras justificativas.

Mas afinal, o que pode o preconceito gerar em nós?

A proposta deste artigo não é levantar uma bandeira contra o preconceito, pura e simplesmente e carregar o texto de afirmações preconceituosas, o que seria uma grande incoerência, mas refletirmos sobre nossos comportamentos e consequências deste modo de agir que, indubitavelmente, é uma chaga da humanidade e que tem, ao longo do tempo, causado inúmeros conflitos e mortes.

Por que aceitamos como verdade estes estereótipos que passam de geração em geração, sem questionamentos? Não será a hora de colocarmos um parêntesis em nossas vidas, para abrirmos espaço a novas discussões e confrontar antigos princípios e valores arraigados em nosso coração? Acredito que o ponto inicial é olharmos para nós mesmos e enxergarmos as mais íntimas dobraduras da nossa alma e, quem sabe, perceber o quanto de pureza se faz necessário.

Será que não estamos confortavelmente acostumados a obedecer sem arguir? Acredito que sim, até pelo fato, que muitos cresceram sem fazer as perguntas necessárias, de tanto que ouviram dos adultos a frase: “Para menino (a) de fazer pergunta!”. E então crescemos acreditando e adotando como verdade tudo o que ouvíamos e víamos.

Mas o que leva um adulto a não questionar, duvidar, colocar à prova, contestar estas fórmulas prontas e rótulos que impregnam como tatuagem? Será que são os nossos medos? O medo de mudar de opinião e ser censurado por outros intransigentes, incapazes de compreender a mudança de ideias?

Feliz aquele que tem a coragem de mudar de ponto de vista quando reconhece que seu pensamento era injusto e sem justificativa plausível que o amparasse como legítimo e verdadeiro.

Será que rejeitar o novo e o desconhecido não é se privar da companhia agradável e edificante de quem não conhecemos e que certamente nos tem muito a oferecer? Ou será que estamos sendo hipócritas e escondendo nossos preconceitos em nome de atitudes politicamente corretas? Infelizmente não há quem nunca tenha sido preconceituoso; no entanto, o cuidado está em não fazer deste comportamento um caminho de ofensa, humilhação, exclusão e destruição.

Segundo pesquisas da ONU (Organizações das Nações Unidas), o maior obstáculo no combate à AIDS é o preconceito, e com isso, milhões de pessoas morrem no mundo porque são isoladas do convívio humano, do carinho e do amor; tal como acontece com as portadoras da Síndrome de Down, que também vivem marginalizadas.

Até quando vamos permitir que nossas convicções teimosas, injustas e desumanas provoquem fome, ódio, miséria, inveja e egoísmo? Exagero? Não! Basta ouvir o que tem a dizer os negros, judeus, homossexuais, nordestinos, índios e tantas outras minorias subjugadas.

Os negros são amparados pela Constituição, e mesmo sendo crime qualquer ato racial, ainda vemos o quanto se comete de injustiças numa sociedade mal informada e cínica que os afasta das mais significativas oportunidades do mercado de trabalho. E quando ocupam um cargo diferenciado a mídia explora o fato como sendo algo anormal. Até quando?

E o que dizer dos homossexuais, que mesmo com tantos debates, novelas e movimentos que acontecem no mundo inteiro, ainda são obrigados a viver à margem da sociedade, “disfarçados” para garantir um lugar no emprego, na família e nas amizades? E enquanto leis mais rígidas não são promulgadas, estes morrem assassinados.

Talvez fosse preciso mais campanhas educativas para que a autoconsciência humana pudesse ser despertada, visando todo tipo de preconceito (étnico, sexual, socioeconômico, etc.), levando as pessoas a refletirem sobre suas atitudes moralmente agressivas, danosas, dissimuladas e com insinuações que passam “despercebidas” no ambiente de trabalho, na escola, na família, na fila do banco, na propaganda… com uma permissividade assustadora.

Uma educação que mostrasse que somos todos iguais!

Parece utópico que o combate às desigualdades, a formação de uma sociedade capaz de livrar-se do preconceito, mais justa e humana, sem os “apartheids” velados, as declarações sutis e perversas, onde todos possuam igualdade de condições e direitos, venha um dia acontecer. É fundamental o respeito às escolhas individuais e a todo tipo de diferenças que convivemos, e cabe a cada um fazer a sua parte e contribuir para um mundo sem divisões.

Esperamos que a Era da Informação e do Conhecimento incite em nós profundas e expressivas transformações, que nos faça ver além do visível e que nos esclareça aquilo que julgamos conhecer. E que possamos lançar para bem longe as rotulações implícitas e explícitas e que nos impedem de perceber o melhor de cada pessoa: seus desejos, receios e sua vontade de amar e ser amada.

E finalmente, destituirmos por completo a célebre frase de Einstein: “Época triste a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”.

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