Mulheres de amigos

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Mulheres de amigos
Kurt Tucholsky (1890-1935)

 

Mulheres de amigos destroem a amizade.
No princípio ocupam timidamente uma parte do amigo,
aninham-se nele,
aguardam,
observam,
e aparentemente participam do círculo.

Esse pedaço do amigo não nos pertencia-
nada notamos.
Mas logo a coisa muda:
Elas tomam um aposento após o outro,
penetram mais fundo,
logo têm o amigo inteiro.

Ele está mudado; é como se tivesse vergonha de sua amizade.
Assim como antes envergonhava-se do amor diante de nós,
agora envergonha-se da amizade diante do amor.
Não nos pertence mais.
Ela não está entre nós – já o levou.

Ele não é mais nosso amigo:
é seu marido.
Um leve melindre permanece.
Tristemente o seguimos com os olhos.

A da cama tem sempre razão.

(traduzido por Paulo César Souza e publicado no Folhetim – Folha de São Paulo – sexta-feira, 19 de fevereiro de 1988).

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