Criança diz cada uma … Uma homenagem a Pedro Bloch

Por Sandra Kezen

Revista Partes – Ano IV – setembro de 2004 – nº49

Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br

Quando fiquei grávida de minha primeira filha, fiz o que, acho, a maiorias das mães fazem: leem livros e revistas sobre bebês para aprender a lidar com eles. Meu marido comprou o livro do Dr. De Lamare, muito conceituado. Comprava, também, a Revista Pais e Filhos, na qual havia dicas e conselhos sobre gravidez, moda para grávidas, enxoval do bebê, nomes para o bebê, festas de bebês, assim como matérias sobre amamentação, sobre o melhor tipo de alimentação para mulheres grávidas ou para os bebês; problemas comuns durante e após a gravidez; artigos sobre educação de crianças e adolescentes, e tantos outros tópicos; enfim, uma revista tão abrangente e tão completa que na verdade todos deveriam ler, pela riqueza de conteúdo, pela credibilidade das matérias e pela seriedade com que tratam os assuntos. Amo a revista até hoje e não estou ganhando nada para falar bem dela.
Uma das seções me chamava a atenção especialmente: “Criança diz cada uma”, na qual o Pedro Bloch, com aquele jeito especial que ele tem de contar as histórias das crianças com as quais ele lida. Sempre pensei em escrever para ele contando as gracinhas das minhas filhas.
O tempo passou, as meninas cresceram, mas mãe coruja de verdade não esquece as tiradas de seus filhotes. Ainda mais se forem engraçadinhas como as que relato a seguir:

(1) Sempre gostei de cabelos compridos, talvez porque minha mãe nos mantinha, minhas duas irmãs e eu, com cabelo cortado à “Joãozinho”. Acho que era para não dar muito trabalho na hora de penteá-los, pois minha irmã mais velha e eu tínhamos cabelos cacheados e acredito que naquele tempo não havia tanta variedade de xampus e cremes para disciplinar os cabelos como há hoje. Assim, quando pude, deixei os cabelos crescerem. Com dois anos de idade, minha filha mais velha era acostumada a me ver sempre de cabelos compridos. Uma tarde fui ao cabeleireiro para cortar os cabelos e a deixei do lado de fora com a babá. Após algum tempo, com os cabelos bem mais curtos, saí e me dirigi a elas. Ela, surpresa, me olhou e disse:
– Mamãe, você mudou de Sandra!

(2) Minha segunda filha, assim como a primeira, desenvolveu a fala muito precocemente. Realmente, as pessoas estranhavam que ela, com apenas um ano de idade, já formulasse frases completas, usando verbos, pronomes e advérbios corretamente. Contudo, ela alegava que não sabia falar tão bem, já que não sabia falar a palavra “cômoda”: dizia ”pocônio” para se referir à cômoda, sei lá por que razão. Um dia, conversando com minha sobrinha, que mencionou como ela já estava falando tudo, ela saiu com essa:
– Eu não falo tudo. Eu nem sei dizer “cômoda”, só sei falar “pocônio”!

(3) Numa outra ocasião, minha filha mais velha ouvia o grupo de estudos do qual eu fazia parte na minha pós-graduação falar sobre leitura em língua estrangeira. Era o que um autor achava, o que outro pensava, enfim, eram muitos autores com diferentes opiniões. Ela virou-se para nós e disse:
– Gente, chama o Bakhtin para jantar e conversa com ele, ué!

(4) Minha filha mais nova aprendeu a ler com as revistas da Mônica. Todas as tardes ela apanhava uma revista e ficava olhando. Um belo dia ela deu aquela risada gostosa que só as crianças conseguem dar e disse:
– Olha, o Cebolinha falou (…) para a Mônica!
Ninguém acreditou no que ela disse, mas o avô foi para perto dela verificar se ela tinha realmente entendido, ou lido a revista. E ela:
– Vocês acham que só gente grande sabe ler?

P.S.: Os nomes das meninas foram omitidos porque elas são muito envergonhadas.

 

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